LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.
A TEMPORALIZAÇÃO DA CADEIA DO SER
1. Quando o princípio da plenitude era interpretado religiosamente, como expressão da fé na bondade divina, ou filosoficamente, como implicado pelo princípio de razão suficiente, era, em seu sentido usual, inconsistente com qualquer crença em progresso ou em mudança significativa do universo como um todo, sendo a racionalidade alheia a datas.
2. A mesma implicação do otimismo foi notada pelo poeta Henry Brooke: ou há adequação absoluta presente nas coisas, ou adequação in futuro; mas se houvesse adequação absoluta no estado presente das coisas, não poderia haver mudança alguma, pois o que é ótimo jamais poderia tornar-se melhor.
3. Para muitas mentes do século XVIII, essa concepção de mundo em que nenhuma novidade jamais surgira nem surgiria parecia inteiramente satisfatória, como ilustra o Abade Pluche, para quem nada mais seria produzido em todas as eras vindouras, tendo os filósofos concordado nesse ponto: nada de novo sob o sol.
4. Essa suposição foi por vezes usada, no início do século, contra a incipiente ciência da paleontologia, combatendo-se a visão de que fósseis são restos de organismos hoje extintos com o argumento de que, num universo bem conduzido, toda espécie deve estar constantemente representada, como escreveu o botânico John Ray em 1703.
5. Essa conclusão era sustentada e ampliada pela teoria embriológica reinante da pré-formação ou emboîtement, segundo a qual não só todas as espécies mas todos os organismos individuais existiram desde o início, sendo o aparente crescimento e mudança individuais mera expansão de estruturas já predelineadas em germes primevos encaixados uns dentro dos outros como caixas.
6. Assim, importante grupo de ideias dominantes no início do século XVIII — a concepção da Cadeia do Ser, os princípios de plenitude e continuidade, o otimismo que ela justificava, a biologia geralmente aceita — estava em acordo com o suposto dito salomônico de que nada há de novo sob o sol; mas foi precisamente no período em que essa implicação das velhas concepções se tornou mais aparente que começou reação contra ela.
7. Um dos principais acontecimentos do pensamento setecentista foi a temporalização da Cadeia do Ser: o plenum formarum passou a ser concebido, por alguns, não como inventário mas como programa da natureza, sendo executado gradual e lentissimamente na história cósmica, sem que todos os possíveis sejam atualizados de uma só vez.
8. As causas dessa mudança foram várias, mas a mais pertinente a nosso tema residiu nas dificuldades a que o próprio princípio da plenitude dava origem, quando suas implicações eram plenamente desenvolvidas e seriamente consideradas — implicações intoleráveis para os sentimentos religiosos de muitas mentes, e cada vez mais difíceis de reconciliar com os fatos conhecidos da natureza.
As dificuldades religiosas e morais
9. O defeito fatal do otimismo — e do princípio da plenitude de que sua dialética principalmente dependia — era, como já vimos Voltaire apontar, não deixar espaço para esperança, ao menos para o mundo em geral ou para a humanidade como um todo, pois se todos os males parciais são exigidos pelo bem universal, não podemos esperar que qualquer deles desapareça.
10. Para o indivíduo, é verdade, o princípio da plenitude não excluía necessariamente a perspectiva de alcançar estado superior de ser noutra vida; mas a essa possibilidade estava ligada, segundo a interpretação dada por alguns de seus expositores mais aprovados, condição estranha.
11. Revolta contra essas duas implicações do esquema era inevitável assim que se tornaram plenamente aparentes; a Cadeia do Ser precisou ser reinterpretada de modo a admitir progresso geral e progresso individual não contrabalançado por deterioração alhures, sugerindo a concepção reinterpretada nova escatologia, ou antes o revigoramento de uma antiga.
12. Essa revisão da escatologia tradicional fora prenunciada no século anterior por Henry More, para quem, não fazendo a natureza saltos, os mortos não saltam imediatamente de sua imperfeição terrestre à beatitude celestial, nem a plenitude do ser precisa realizar-se simultaneamente, tal qual um músico não toca todas as cordas ao mesmo tempo.
13. Addison, já visto discorrendo com espécie de arrebatamento poético sobre a Cadeia do Ser, foi por ela levado a rejeitar ainda mais nitidamente que More a concepção protestante ortodoxa da vida após a morte como fixação eterna em beatitude ou miséria imutáveis, encontrando na progressão perpétua da alma rumo à sua perfeição, sem jamais alcançá-la, argumento excelente para a imortalidade da alma.
14. A Escala do Ser torna-se assim literalmente uma escada de infinitos degraus, pela qual as almas individuais eternamente sobem; na medida em que todas o fazem em ritmo igual, a ordem hierárquica permanece e as posições relativas não se alteram, pois a natureza superior sempre preserva sua distância enquanto sabe que a inferior um dia a alcançará no mesmo grau de glória.
15. Leibniz, poucos anos depois, conclui seus Princípios da Natureza e da Graça (1718) com a garantia de que nenhum homem está destinado a alcançar plenamente a visão beatífica, pois nossa felicidade jamais consistirá, nem deveria consistir, em gozo pleno sem nada mais a desejar, mas em progresso perpétuo rumo a novos prazeres e novas perfeições.
16. Essa reconstrução da doutrina da imortalidade manifesta-se também no mesmo escrito em que as consequências melancólicas do argumento otimista haviam sido tão francamente deduzidas: Edmund Law, teólogo suficientemente ortodoxo para alcançar bispado, não consegue aceitar a conclusão que a lógica de King e a sua própria exigiam.
17. Essa mudança na forma da crença numa vida futura estava intimamente associada a observação psicológica, generalização sobre a natureza humana favorita justamente dos filósofos que mais gostavam de discorrer sobre o princípio da plenitude: o homem só é capaz de felicidade através de mudança perpétua.
18. O significado histórico principal de tudo isso está em exibir a emergência e difusão de um novo modo de pensar a natureza do bem, unindo-se ao que já vimos resultar da lógica do otimismo: a identificação platônica do bem consumado com a autarquia e a cessação do desejo cedia lugar ao seu oposto — nenhuma finalidade, nenhuma perfeição última, nenhum repouso do querer.
19. No ensaio de Lenz sobre os Primeiros Princípios da Moral (1772) ouve-se de novo, ainda moderadamente, esse prelúdio à corrente romântica, definindo a “aspiração à completude” como impulso fundamental humano, com duas qualificações ligadas aos princípios de plenitude e continuidade.
As dificuldades científicas e a crítica de Voltaire e Johnson
20. Embora, numa época em que muitos homens de ciência eram também teólogos, essa mudança na aplicação religiosa e ética da concepção tendesse por si só a promover mudança científica correlata, esta foi reforçada também por razões menos especulativas, entre elas a dificuldade de ver, nos tipos orgânicos existentes, o grau de continuidade exigido pela teoria.
21. Voltaire conta que, ao ler Platão pela primeira vez e deparar com a gradação de seres que se eleva do átomo mais leve ao Ser Supremo, ficou tomado de admiração, mas que, examinando-a de perto, o grande fantasma se desvaneceu, como as aparições costumavam desvanecer-se ao canto do galo.
22. Voltaire argumenta em três frentes que a série contínua não existe no mundo orgânico: primeiro, algumas espécies desapareceram e outras estão em vias de extinção, podendo mesmo ser destruídas pelo homem, tendo provavelmente também havido raças humanas extintas.
23. Voltaire conclui, então, com apóstrofe a Platão, fonte de toda a ilusão: temo que nos tenhas contado apenas fábulas, e jamais falado senão em sofismas, tendo feito mais mal do que sabes.
24. Voltaire também argumentou, embora com consistência não muito meticulosa, contra as suposições a priori em que se apoiava o princípio do pleno cósmico, negando a infinidade do mundo no espaço mas afirmando sua infinidade no tempo, atacando assim a doutrina tradicional da criação com bases igualmente tradicionais: nada vem do nada, logo o universo deve ser eterno.
25. O ataque do Dr. Johnson à teoria baseou-se em fundamentos semelhantes, mas foi, surpreendentemente, o mais profundo e dialético dos dois: para ele, o princípio da plenitude não só contradizia fatos observáveis, mas contradizia a si mesmo, pois num continuum verdadeiro deve haver infinidade de membros intermediários entre quaisquer dois membros, por mais “próximos” que sejam.
26. Johnson observa ainda que o princípio da plenitude tem implicações que deveriam ser verificáveis empiricamente mas são de fato falsas: toda razão que prove haver seres de toda espécie possível prova também que há o maior número possível de cada espécie, o que, quanto ao Homem, sabemos não ser verdade.
27. A crítica de Johnson chegou muito perto da raiz da questão; se devidamente considerada por seus contemporâneos, o fim do século XVIII poderia ter sido marcado pelo colapso do princípio da continuidade, mas não parece que suas críticas ou as de Voltaire tenham produzido muito efeito, continuando as suposições de plenitude, continuidade e gradação a operar poderosamente, especialmente nas ciências biológicas.
A conciliação entre plenitude e temporalidade
28. Tornava-se, porém, cada vez mais evidente — como já fora para alguns escritores medievais — que algo precisava ser feito para conciliar o postulado da necessária realização completa de todos os possíveis com o fato de que o mundo concreto é temporal, sendo a necessidade suposta eterna, mas sua execução manifestamente não sendo.
29. A quem mantinha fé tenaz na plenitude e continuidade do universo, sugeria-se naturalmente hipótese menos insatisfatória: a de que a Cadeia do Ser, embora não observavelmente completa agora, seria vista como tal, ou tendendo a sê-lo cada vez mais, se pudéssemos conhecer toda a sequência de formas no tempo, passado, presente e futuro.
30. Vários estudiosos recentes sustentam que Leibniz não adotou essa solução, mantendo-se fiel à concepção de universo estático; mas a evidência é, no conjunto, contrária a essa interpretação, havendo carta famosa, provavelmente de 1707, em que discorre com entusiasmo ainda maior que o usual sobre a importância científica do princípio de continuidade, confessando ter ideias que “esta época não está preparada para receber”.
31. Na Protogaea (1693), Leibniz aponta que muitas espécies de organismos existentes em períodos geológicos anteriores hoje se extinguiram, e que muitas conhecidas hoje então provavelmente não existiam, sugerindo ser hipótese digna de crédito que, no curso das vastas mudanças da crosta terrestre, até as espécies animais tenham sido muitas vezes transformadas.
32. Em escrito posterior, Leibniz pronuncia-se com toda a definição possível a favor da hipótese de avanço contínuo: o pleno de possibilidade é agora, e será para sempre, como campo parcialmente cultivado, do qual devem brotar sem fim novos e mais finos crescimentos, já que um continuum jamais pode se esgotar.
33. Essa tese geral do avanço criativo da natureza, e as afirmações ocasionais mais concretas da transformação das espécies, Leibniz precisou reconciliar com outros aspectos de seu sistema que a princípio pareceriam incongruentes, sendo tanto sua teoria das mônadas quanto sua embriologia pré-formacionista afirmações de que todo ser sempre existiu, em certo sentido, na natureza.
34. Na concepção, uma mudança radical pode ocorrer: não só o corpo orgânico, mas também uma alma nesse corpo, e o próprio animal, já estavam ali antes da concepção, sendo o animal apenas preparado, por meio dela, para grande transformação, a fim de tornar-se animal de outra espécie — elevação do germe individual a espécie superior que Leibniz considera exceção, não regra.
35. Uma vez geradas, as almas racionais não só ficam isentas de recaída a grau inferior, mas avançam e amadurecem continuamente, como o próprio mundo do qual são imagens, embora as almas de outros animais individuais, também indestrutíveis enquanto o mundo durar, possam, através de vicissitudes naturais, afundar na escala.
36. Essa introdução da doutrina do progresso universal — evolução individual, biológica e cósmica de uma só vez — na filosofia de Leibniz cindiu seu sistema completamente em dois, conflitando primeiramente com o princípio de razão suficiente, que exigia a atualização, em todos os tempos, de todos os possíveis compossíveis; uma “verdade necessária e eterna” não pode estar em processo de gradualmente se tornar aproximadamente verdadeira.
37. A versão evolucionista do sistema também prejudicava a lógica do próprio princípio da plenitude e a teoria das mônadas, sendo parte essencial dessa teoria que a totalidade da realidade sempre consiste dos mesmos indivíduos em número fixo, determinado pelo número de graus de diferença que a Razão Eterna reconhece como possíveis entre as mônadas.
38. Finalmente, a doutrina leibniziana do progresso universal e perpétuo era manifestamente abandono do otimismo, no sentido filosófico próprio do termo, em favor do melhorismo — este mundo não é agora, nem jamais será, “o melhor dos mundos possíveis”, mas apenas um mundo em processo de se tornar melhor, ainda que, para Leibniz, isso o tornasse superior ao “melhor” do otimista, pois um bem finito incapaz de ser transcendido carece do primeiro requisito do valor.
39. Há, portanto, dois sistemas leibnizianos de filosofia, inteiramente irreconciliáveis entre si, embora seu autor pareça ter permanecido alheio a esse fato: uma visão de mundo através e através racional, imutável em sua estrutura essencial, próxima da de Spinoza, em que o tempo não é “levado a sério”; outra em que o processo temporal, concebido como aumento contínuo de valores realizados, é o aspecto mais significativo da realidade, sendo a mudança a marca mais indispensável de excelência.
Expressões poéticas e científicas do evolucionismo
40. Young, nos Night Thoughts (1742-44), dá aplicação astronômica a essa concepção, supondo que cada planeta, ou antes cada sistema solar, passou por longa série gradual de estágios do que hoje chamaríamos evolução estelar, ascendendo do obscuro ao brilhante segundo a lei sagrada da natureza.
41. Young volta característicamente essa concepção aos usos da edificação moral, mas não é na regularidade ou imutabilidade do comportamento das estrelas que o homem deve encontrar modelo, e sim em sua progressividade, sua passagem contínua “do baixo ao elevado, do obscuro ao brilhante” — imitação moral consistindo em esforço consciente e deliberado de perpétuo autoaperfeiçoamento, moral precisamente oposta à que Pope extraíra da Cadeia do Ser estática.
42. Quase na mesma época, outro e melhor poeta inglês, Akenside, elaborava o tema muito mais completamente em The Pleasures of the Imagination, versão vagamente evolucionista, em estilo poético setecentista, da cosmogonia do Timeu, sendo sua inspiração principal claramente platônica.
43. Akenside parece, contudo, ainda influenciado pela suposição de que a série de formas possíveis deve permanecer “plena”, assegurando que ordens inferiores surgem sucessivamente para preencher o vazio abaixo; numa revisão posterior do poema, contudo, declara que nem em tempo infinito todas as Ideias serão realizadas no mundo criado, constituindo as Formas do ser “vasto exército ideal” que as obras de Deus jamais revelarão por completo.
44. Kant, na década seguinte, propôs teoria de evolução cósmica que era simplesmente versão temporalizada do princípio da plenitude, sendo a potência criativa do fundamento do mundo infinita, e o número e excelência dos sistemas de mundos comensuráveis com a imensidão de seu Criador, não se dando essa conversão do infinito ideal em atualidade concreta de uma só vez.
45. A partir do núcleo da condensação primeira, a criação, ou antes o desenvolvimento da Natureza, se espalha por graus com avanço contínuo a uma amplitude sempre maior, a fim de que, no processo da eternidade, a infinidade do espaço se encha de mundos e sistemas de mundos; embora esse processo tenha tido começo, jamais terá fim.
46. Assim, para Kant nesse momento, o desenvolvimento contínuo e a diversificação progressiva são a lei suprema da natureza, não só para o universo como um todo mas para cada componente dele; mas em cada parte as potencialidades latentes de desenvolvimento têm limite fixo, e quando toda a “multiplicidade” de que é capaz se realiza, ela deixa de se ajustar ao esquema cósmico e é eliminada.
47. Aproximadamente no terceiro quartel do século, teorias que se podem chamar, em sentido amplo, evolucionistas se multiplicaram, tendo a hipótese geral da derivação de todas as espécies atuais de pequeno número, ou talvez um único par, de ancestrais originais sido proposta por Maupertuis em 1745 e 1751, e por Diderot em 1749 e 1754.
O caso curioso de Robinet
48. O exemplo mais interessante e curioso da transformação que a Cadeia do Ser sofria nesse período encontra-se nos escritos, no final do terceiro quartel do século, do filósofo francês J. B. Robinet, cujas incursões pela história natural o levaram a algumas extravagâncias por que ficou mais conhecido que por suas realizações mais meritórias.
49. Nos primeiros volumes de seu De la Nature (1761-68), Robinet detém-se antes na forma estática que temporalizada da concepção da Cadeia do Ser, sendo o terceiro volume reafirmação especialmente completa e metódica do princípio da plenitude e de todas as deduções familiares dele extraídas por escritores anteriores.
50. Já que a mesma lógica que exige supor que a Causa Infinita nunca esteve inativa exige também supor que sua atividade sempre se exerceu ao máximo, segue-se que sempre houve no universo tantas espécies de criaturas quantas há agora; pergunta Robinet se Deus não pode fazer mais nada de novo, respondendo que não, pois já fez tudo — toda extensão possível, toda matéria possível, todas as inteligências possíveis, todos os seres possíveis.
51. Infelizmente para sua reputação, Robinet levou sua fé na plenitude da natureza a extremos surpreendentes, sendo talvez mais conhecido não por seu lugar na história do evolucionismo biológico mas por sua crença na realidade do homem marinho, citando numerosos testemunhos de sereias e homens-peixe avistados em diversas partes do mundo.
52. Já em seu primeiro volume, Robinet adotou a noção de perfectibilidade de Turgot e Rousseau, aplicando-a a todos os seres vivos, embora com limites fixados pelas potencialidades preordenadas de cada espécie, sendo desde o início opositor do ainda influente primitivismo, pois a mente humana deve estar sujeita à lei geral do progresso.
53. Robinet, característicamente, percebe aqui uma dificuldade: se a perfectibilidade é atributo do homem, por que tantas raças permanecem em estado de selvageria? A explicação, encontra-a divertidamente no solvente universal, o princípio da plenitude — a causa produtiva deve necessariamente preencher, com magnífica profusão, todas as classes de animalidade.
54. A perfectibilidade logo se estende, em Robinet, de tendência ao progresso dentro dos limites de caracteres específicos a lei cósmica universal; os “germes” de todas as coisas sempre existiram, mas todos contêm em si princípio interno de desenvolvimento que os impele através de vasta série de metamorfoses pelas quais ascendem na “escala universal”, conectando-se curiosamente a garantia do progresso infinito do universo inteiro ao princípio matemático da divisibilidade infinita do continuum.
55. Robinet faz sua uma proposição sugerida por Diderot duas décadas antes: a existência da Natureza é necessariamente sucessiva, não lhe convindo estado de permanência, pois os germes criados todos juntos não se desenvolvem todos juntos, havendo a lei de suas gerações trazido esses desenvolvimentos um após outro.
56. Tanto antes quanto depois dessa aparente transformação evolucionista do princípio da plenitude, Robinet é igualmente zeloso em desenvolver as implicações da lei de continuidade, considerando-a “primeiro axioma da filosofia natural”: a Escala dos Seres constitui um todo infinitamente graduado, sem linhas reais de separação, havendo apenas indivíduos, e não reinos, classes, gêneros ou espécies.
57. Robinet queixa-se de que alguns naturalistas que prestaram homenagem geral a essa lei falharam em levá-la a cabo rigorosamente; assim, Bonnet, “grande amador da lei de continuidade”, ainda achara possível dividir a escala do ser em quatro classes gerais, o que Robinet considera negação clara da continuidade, pois credita a algumas classes atributos positivos que outras absolutamente não têm.
58. Considerando essa observação, o princípio da continuidade revela consequências filosóficas abrangentes geralmente negligenciadas: toda diferença puramente qualitativa entre duas coisas é necessariamente descontinuidade, sendo a única forma de salvar o princípio supor que todas as coisas têm algum grau ou medida de qualquer qualidade possuída por qualquer outra.
59. Essa foi observação aguda e importante sobre o conceito do continuum qualitativo, tornando explícita e generalizando a lógica que seria seguida mais vagamente e menos consistentemente por muitos filósofos posteriores, entre eles motivo principal do panpsiquismo contemporâneo: evitar a descontinuidade implicada pela suposição de que a consciência é propriedade “emergente”.
60. Onde escritores posteriores aplicaram esse método apenas esporadicamente, Robinet viu que ele deveria ser aplicado universalmente ou reconhecido sem força alguma, resultando o que ao leitor sensato pareceria simples reductio ad absurdum do princípio da continuidade, mas que a Robinet parecia estabelecer, com um único golpe de lógica, todo um grupo de conclusões filosóficas importantes — hilozoísmo, panpsiquismo e espécie peculiar de panlogismo.
61. Consequência adicional, e importante para Robinet, da mesma observação sobre o significado lógico da lex continui é a restrição, por esse princípio, do alcance do próprio princípio da plenitude, do qual era concebido como corolário: já que não há série contínua a menos que todos os membros tenham algo em comum, deve haver forma-tipo anatômica única comum a todos os seres vivos.
62. Mas um padrão exemplificado igualmente em tão grande variedade de formas deve ser, ele mesmo, simples e escasso no último grau, sendo o protótipo nada mais que “tubo alongado ou cilindro oco, naturalmente ativo”, equivalente, em termos concretos, ao que Robinet chama de “órgão”, por sua vez equivalente à célula protoplasmática.
63. Aqui também Robinet apenas elaborava e ampliava sugestão de Diderot, igualmente ligada aos postulados de plenitude e continuidade, tendo Diderot escrito em 1754 que parece a Natureza ter tomado prazer em variar o mesmo mecanismo de infinitas maneiras diferentes, só abandonando um tipo de produtos depois de multiplicar indivíduos em todos os modos possíveis.
64. Por “protótipo” Robinet entendia geralmente não simples germe primordial de todos os organismos, mas modelo ideal encarnado em incontáveis particulares diferentes, sendo modelo que representa o ser vivo “reduzido a seus termos mais baixos”, terreno inexaurível de variações; se Robinet tivesse limitado a aplicação dessa noção aos vertebrados, teria expressado fato científico definido, mas o princípio da continuidade, tal como interpretado por ele, obrigava-o a postular modelo único para todos os indivíduos naturais, animados e mesmo inanimados.
65. Robinet foi assim, embora não o originador, o primeiro elaborador e campeão entusiástico daquela noção de Urbild sobre a qual todas as formas orgânicas e talvez todas as formas naturais são variações, noção que seria retomada por Herder e se tornaria quase obsessão de Goethe em certo período.
66. Robinet oscila, contudo, entre duas maneiras de conceber o que a Natureza faz em seu incessante labor: ora vê nele mera ilustração daquilo que chamamos forma temporalizada do princípio da plenitude, esforço para multiplicar a variedade ao maior grau possível, não deixando nenhuma nuance ou variação sem realizar.
67. Noutras passagens, contudo, sob a influência da ideia do protótipo universal, Robinet vê na história passada da formação de novas espécies algo mais que impulso à variação promíscua: movimento discernível da Natureza numa direção geral, esforço rumo a objetivo particular — embora hesitante e cheio de desvios, progresso, diríamos hoje, por tentativa e erro.
68. Quando o homem é assim visto como objetivo dos lentos processos da criação, a unidade e especificidade característica da sequência sucessiva de formas pode, sugere Robinet, ser melhor reconhecida considerando-se a meta antes que o início, o que o levou infelizmente a encontrar similitudes de rostos, além de braços e pernas, no rabanete e outras plantas, publicando desenhos desses antropoides vegetais.
A filosofia romântica de Robinet e a Palingénésie de Bonnet
69. O papel curiosamente misto de Robinet na história pode ainda ser visto no fato de que o tipo de evolucionismo biológico por ele adotado se desenvolveu em filosofia geral da natureza de tipo essencialmente “romântico”, antecipando algumas das concepções mais características tanto da Naturphilosophie de Schelling quanto da de Bergson em nosso tempo.
70. No início, e nos graus inferiores da Escala do Ser, a matéria bruta domina, sendo a tendência à ação espontânea inteiramente entravada por ela; mas pouco a pouco a força que faz pela vida ganha força, estabelecendo no homem seu domínio tão completo que a matéria se torna menos obstáculo que instrumento pelo qual essa força alcança seus fins.
71. A progressão não terminou, acrescenta Robinet: pode haver formas mais sutis, potências mais ativas, que as que compõem o homem, podendo a força livrar-se insensivelmente de toda materialidade e assim começar um novo mundo — mas não devemos deixar-nos perder nas regiões sem limite do possível.
72. Bonnet, em sua Palingénésie philosophique (1770), apresentou um dos compostos especulativos mais extraordinários da história tanto da ciência quanto da filosofia, entrelaçando geologia, embriologia, psicologia, escatologia e metafísica numa visão geral da história, passada e futura, de nosso planeta e dos seres vivos nele.
73. Bonnet, seguindo Leibniz, não está disposto a abandonar formalmente a implicação tradicional do princípio da plenitude segundo a qual tudo foi criado desde o início; todas as partes componentes do universo são contemporâneas, tendo a Vontade Eficaz criado num só ato tudo quanto poderia ser criado.
74. Como reconciliar isso com a doutrina da completude da criação original? A resposta encontra-se na teoria embriológico-metafísica que Bonnet toma emprestada de Leibniz: todos os indivíduos que compõem o universo são tão antigos quanto ele e indestrutíveis, sendo primariamente “almas”, tendo cada organismo também “germe” ou pequeno corpo orgânico igualmente indestrutível.
75. Segundo Bonnet, nosso globo passou por longa série de épocas, cada uma terminada por “revolução” ou cataclismo em que todas as estruturas orgânicas então existentes eram destruídas — mas não os germes nem suas almas associadas —, sendo o tipo de corpo bruto que dado germe assume ao renascer numa nova época diferente de suas encarnações anteriores, tudo isso já previsto na constituição do germe desde a criação.
76. Bonnet está certo, por fundamentos científicos e religiosos, de que a sequência de épocas, e portanto de tipos orgânicos, constitui progresso do inferior ao superior, mostrando os estágios embriológicos da ontogênese as formas pelas quais o animal sucessivamente passou nas épocas anteriores do globo — um dos primeiros prenúncios da teoria da recapitulação.
77. As “revoluções do globo” não podem ter fim, de modo que, no futuro como no passado, todo germe reaparecerá numa sucessão de encarnações cada vez mais elevadas, transformando-se nossas espécies presentes em formas “tão diferentes das atuais quanto o estado de nosso globo será diferente de seu estado atual”.
78. Todo indivíduo cujo germe efetivamente se desenvolveu em animal pleno nesta ou em época anterior terá também conservação de espécie de identidade pessoal pela memória; entre os germes que não vieram a nascer “na presente economia de nosso mundo”, também haverá ressurreição, mas sem memória.
79. Parece, portanto, que só em sentido bastante duvidoso Bonnet pode ser chamado “precursor do evolucionismo”, pois a sequência progressiva de formas orgânicas que afirmava não era concebida como resultante dos processos ordinários de geração dentro de nossa época atual, mas consistia em mutações extremas e descontínuas ocorrendo apenas a vastos intervalos de tempo, após grandes cataclismos — especulações comparativamente cruas e retrógradas frente às hipóteses evolutivas já propostas por Maupertuis, Diderot e Robinet.
80. Chegamos assim, na ordem aproximadamente cronológica de nossa revisão histórica, ao início daquela mudança profunda e momentosa, mas complexa e confusa, em pressupostos e valorações comumente chamada, embora de modo algo infeliz, de Romantismo, cuja relação com nosso tema geral as conferências seguintes examinarão.