Quente e frio

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação com extensões do homem. Tr. Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix

** 2. Meios quentes e frios **

1. O surgimento da valsa no século XVIII expressou uma aspiração coletiva à verdade, à simplicidade, à natureza e ao primitivismo, rompendo explosivamente as barreiras formais da sociedade feudal representadas pelas danças corais e palacianas.

2. A distinção entre meios quentes e frios depende do grau de definição informacional e da quantidade de participação exigida do receptor, pois os meios quentes prolongam intensamente um único sentido, enquanto os frios oferecem poucos dados e solicitam complementação ativa.

3. Os caracteres hieroglíficos e ideogramáticos atuam como meios frios e participativos, enquanto o alfabeto fonético e sua intensificação tipográfica constituem meios quentes que fragmentam as estruturas sociais, ampliam o individualismo e reorganizam as relações entre tempo e espaço.

4. Os meios quentes excluem e especializam, enquanto os meios frios incluem e solicitam participação, razão pela qual a intensificação de uma experiência tende a fragmentar funções e precisa ser posteriormente esfriada para tornar-se assimilável.

5. A introdução de uma tecnologia quente numa cultura fria pode destruir rapidamente hierarquias, papéis e valores tradicionais, como ocorreu quando machados de aço substituíram os machados de pedra entre povos australianos.

6. O epigrama de William Butler Yeats representa Locke adormecido no associacionismo mecânico, enquanto a consciência orgânica desaparece e o tear tecnológico assume poder criador sobre o mundo humano.

7. Locke aparece hipnotizado pela imagem mecânica que projetou, enquanto o desaparecimento do jardim indica a perda da consciência unificada e a transformação da mulher numa extensão tecnológica do homem.

8. A oposição de Blake ao mecanismo mediante o mito orgânico foi adequada à era mecânica, mas na era elétrica o próprio mito se tornou uma forma automática de condensação instantânea de processos complexos.

9. A discrepância entre objetos relacionais e métodos lineares aparece inclusive nos estudos bíblicos, pois as relações simultâneas entre Deus, humanidade e mundo continuam a ser examinadas por procedimentos analíticos incompatíveis com sua estrutura.

10. A configuração elétrica da vida torna insuficientes os métodos lineares e fragmentários da era mecânica, deslocando a investigação do conteúdo isolado para o efeito total produzido sobre a situação.

11. A tecnologia elétrica produziu inicialmente angústia e posteriormente tédio, conduzindo as sociedades industrializadas pelos estágios de alarme, resistência e exaustão característicos das condições de estresse.

12. A temperatura de uma cultura e a temperatura de seus meios variam segundo a relação histórica entre especialização, participação e reversão, fazendo com que formas consideradas quentes num período possam esfriar depois da assimilação de seu impacto.

13. A aceitação do charleston e a proibição do twist na Rússia indicam que uma sociedade em industrialização prefere formas mecânicas compatíveis com seu projeto de desenvolvimento e rejeita manifestações frias de envolvimento espontâneo.

14. A era televisiva tornou cômicas as formas agressivas da venda e da comunicação quente, esfriando a cultura norte-americana e exigindo transformações sociais integrais que ainda não foram plenamente reconhecidas.

15. A concepção de mudança como aquecimento ou esfriamento uniforme permite imaginar a programação tecnológica do clima emocional de culturas inteiras, mediante a dosagem de meios com diferentes efeitos perceptivos.

16. A manutenção do equilíbrio social e pessoal exige a modulação das temperaturas comunicacionais, como demonstram a exclusão de temas intensos nos clubes ingleses e a adoção de atitudes informais em ambientes excessivamente aquecidos.

17. As cidades frias, abertas e informalmente estruturadas oferecem maior participação que os centros urbanos quentes, densos e especializados, nos quais o alto desenvolvimento reduz as possibilidades de descoberta e colaboração.

18. A escassez de dados na imagem pública de Calvin Coolidge transformou-o numa figura fria que a imprensa precisava completar, enquanto personalidades mais definidas e meios mais quentes produziam diferentes formas de rivalidade comunicacional.

19. Em agosto de 1962, aproximadamente cem infratores de trânsito foram submetidos, em Santa Mônica, à exibição de um filme policial sobre acidentes como alternativa parcial ao pagamento de multas.

20. A apresentação de ferragens retorcidas, corpos mutilados e gritos de vítimas produziu choque emocional e náusea em alguns espectadores, demonstrando a intensidade de um meio e de um conteúdo simultaneamente quentes.

21. O emprego de um meio quente e de um conteúdo igualmente quente para esfriar comportamentos intensos pode provocar brutalização, entorpecimento ou reversão, em vez de empatia e transformação consciente.

22. Os efeitos de um meio dependem da temperatura da cultura em que ele é introduzido, pois o rádio provoca transformações violentas em sociedades frias e orais, mas pode funcionar como simples entretenimento em culturas quentes e letradas.

23. O humor e o jogo constituem estratégias necessárias para esfriar o terror da guerra e da ameaça nuclear, embora formas competitivas e piadas transplantadas para culturas frias possam produzir agitação em vez de distensão.

24. A transmissão televisiva de um ensaio sinfônico utiliza adequadamente um meio frio ao envolver o público no processo de criação, enquanto a apresentação acabada de um concerto corresponde melhor a meios quentes.

25. A diferença entre óculos comuns e óculos escuros exemplifica a oposição entre saturação e abertura, pois a imagem visualmente intensificada tende a excluir aproximações, enquanto a aparência inescrutável convida à complementação imaginativa.

26. Numa cultura visual e letrada, a aparência pode ofuscar o som do nome, enquanto nas culturas auditivas a dimensão sonora da identidade exerce uma força quase hipnótica sobre a pessoa.

27. As brincadeiras práticas e os trocadilhos revelam a resistência da cultura letrada a formas participativas que interrompem a sequência uniforme da tipografia, embora essa mesma cultura frequentemente confunda intensidade sensorial com calor e abstração literária com frieza.

28. A inclusão extrema e simultânea de todos os sentidos provoca um processo intenso de preenchimento que pode culminar em alucinação, enquanto a intensificação isolada de um único sentido tende a produzir hipnose.