Prólogo

MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011./ A Galáxia de Gutenberg. A formação do homem tipográfico. Leônidas Gontijo de Carvalho e Anísio Teixeira. São Paulo: EDUSP, 1972.

** Prólogo **

1. A presente obra complementa O cantor de histórias, de Albert B. Lord, ao ampliar as pesquisas de Milman Parry sobre as diferenças estruturais e funcionais entre a poesia oral e a poesia escrita.

2. As pesquisas de Lord e Parry correspondem às condições da era elétrica, na qual se experimentam conflitos semelhantes aos vividos pelos elisabetanos durante a passagem da sociedade medieval corporativa para a ordem tipográfica, mecânica e individualista.

3. A galáxia de Gutenberg estende às formas do pensamento e à organização social e política a investigação de Milman Parry sobre o contraste entre oralidade e escrita, examinando as transformações produzidas inicialmente pelo alfabeto fonético e posteriormente pela impressão.

4. A expressão “literatura oral” contém uma contradição, pois a própria noção de literatura pressupõe letras, escrita e leitura, embora a era elétrica esteja restituindo à palavra falada ou cantada, associada à imagem do falante, uma centralidade cultural anteriormente enfraquecida.

5. A negligência dos historiadores diante da revolução mental e social produzida pelo alfabeto fonético encontra paralelo na história socioeconômica, conforme demonstra a teoria da vida econômica na Antiguidade clássica elaborada por Karl Rodbertus entre 1864 e 1867.

6. A passagem da economia natural para a economia monetária não constitui mera substituição técnica da troca direta pela compra, mas envolve a formação de uma estrutura social inteiramente diferente.

7. A compreensão de que diferentes formas de moeda e de troca estruturam sociedades de maneiras distintas somente se desenvolveu plenamente quando Karl Bücher examinou o mundo clássico a partir das sociedades primitivas, e não por meio da retrospectiva histórica moderna.

8. O cantor de histórias oferece uma perspectiva inversa sobre o Ocidente letrado, enquanto a era elétrica ou pós-letrada facilita a identificação empática com os procedimentos da oralidade, preservados inclusive nas técnicas de improvisação do músico de jazz.

9. A era eletrônica produz novas formas de interdependência e expressão essencialmente orais, mesmo quando seus componentes não são verbais, mas sua compreensão exige uma reorganização da imaginação retardada pela persistência dos antigos padrões perceptivos.

10. A investigação das transformações tecnológicas não implica determinismo, mas procura esclarecer um fator central da mudança social cuja compreensão pode ampliar efetivamente a autonomia humana.

11. O método adotado aproxima-se da distinção de Claude Bernard entre observação e experimentação, pois a função de um componente pode ser reconhecida pela alteração produzida no conjunto quando ele é suprimido ou intensamente perturbado.

12. Parry e Lord observaram o processo poético integral nas condições da oralidade e o compararam ao processo escrito tomado habitualmente como normal, investigando os efeitos da supressão da função auditiva pela alfabetização.

13. O ser humano, como animal produtor de instrumentos, estende por meio da fala, da escrita, do rádio e de outras tecnologias determinados órgãos sensoriais, perturbando os demais sentidos e faculdades sem posteriormente observar de maneira sistemática os resultados desses experimentos.

14. As considerações de J. Z. Young sobre dúvida e certeza científicas oferecem um modelo neurológico para compreender como as perturbações sensoriais desencadeiam processos de reorganização e busca de equilíbrio.

15. Os estímulos internos ou externos rompem a unidade de ação do cérebro, que procura restaurar seu padrão mediante a seleção de elementos, a comparação com modelos anteriores e a experimentação de sucessivas sequências de resposta.

16. A tendência inevitável ao fechamento, à conclusão ou ao equilíbrio manifesta-se tanto quando um sentido é suprimido quanto quando uma função é tecnologicamente ampliada, e A galáxia de Gutenberg examina historicamente as novas totalidades culturais formadas após as perturbações produzidas pela alfabetização e pela impressão.

17. As criações materiais humanas constituem extensões de funções anteriormente realizadas pelo corpo, abrangendo desde armas, roupas e habitações até instrumentos, meios de comunicação, dinheiro e redes de transporte.

18. A linguagem e a fala exteriorizam os sentidos e funcionam como instrumentos que permitem acumular experiências e conhecimentos em formas transmissíveis e amplamente utilizáveis.

19. A linguagem, o dinheiro e as demais tecnologias são metáforas porque armazenam e traduzem experiências ou capacidades, mas suas extensões especializadas formam sistemas fechados cuja coexistência instantânea na era elétrica exige uma consciência coletiva e uma nova proporção entre as faculdades humanas.

20. A historiografia cultural isolou tradicionalmente os acontecimentos tecnológicos de maneira semelhante à física clássica, cuja perspectiva cartesiana e newtoniana separava os eventos e os localizava num espaço e num tempo supostamente fixos.

21. A física clássica representava o universo como mecanismo integralmente descritível pela localização precisa das partes no espaço e pela determinação de suas mudanças temporais, apoiando-se na pressuposição inconsciente de um quadro espacial e temporal rígido.

22. As percepções cartesianas e euclidianas derivam da estrutura introduzida pelo alfabeto fonético, enquanto a revolução física descrita por Louis de Broglie corresponde às condições relacionais produzidas pelo telégrafo e pelo rádio.

23. A física contemporânea abandonou a concepção da matéria como conjunto de partículas semelhantes a peças fabricadas e passou a empregar termos como átomo e elétron para descrever relações observadas em experimentos específicos.

24. Grandes transformações na fala e na ação humanas estão necessariamente relacionadas à adoção de novos instrumentos.

25. A reflexão antecipada sobre a relação entre instrumentos, linguagem e comportamento teria permitido dominar a natureza e os efeitos das tecnologias, em vez de permanecer passivamente submetido a elas, e A galáxia de Gutenberg constitui uma meditação prolongada sobre esse problema.

26. A historiografia linear opera como sistema fechado incapaz de compreender a mudança cultural, enquanto a concepção multilinear de Abbott Payson Usher interpreta a civilização ocidental como integração progressiva de numerosos elementos relativamente independentes.

27. O ponto de vista histórico fixo constitui um sistema fechado associado à tipografia, enquanto Alexis de Tocqueville, formado pela interação entre alfabetização e cultura oral, alcançou uma percepção excepcional dos padrões de transformação da França e dos Estados Unidos.

28. A principal característica das operações intelectuais norte-americanas consiste na confiança de cada indivíduo no esforço autônomo de seu próprio entendimento.

29. Os princípios cartesianos são pouco estudados e intensamente praticados nos Estados Unidos, onde cada indivíduo se fecha em si mesmo e julga o mundo a partir dessa posição privada.

30. A interação entre modos orais e escritos permitiu a Tocqueville compreender cientificamente a psicologia e a política, reagir ao mundo como totalidade aberta e reconhecer os efeitos da alfabetização tipográfica sobre o cartesianismo e o individualismo norte-americano.

31. A sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper, oferece um paralelo para o estudo da destribalização antiga e da retribalização moderna, embora a investigação deva limitar-se inicialmente ao diagnóstico e à descrição das transformações, antes de formular avaliações ou terapias.

32. A análise de Popper sobre a destribalização da Grécia antiga e sua reação permanece limitada aos pontos de vista econômico e político, pois desconsidera as extensões tecnológicas dos sentidos como fatores capazes de abrir ou fechar sociedades.

33. As sociedades tribais apresentam uma unidade biológica, enquanto as sociedades abertas funcionam por relações abstratas de troca e cooperação, mas a abertura das estruturas fechadas decorre especificamente do alfabeto fonético, assim como a eletricidade tende a reunir novamente a humanidade numa tribo global.

34. No século VI a.C., a dissolução parcial dos antigos modos de vida provocou revoluções políticas, reações conservadoras, tentativas de preservar coercitivamente o tribalismo e o surgimento da discussão crítica e do pensamento liberado das obsessões mágicas.

35. A inquietação produzida pelo colapso da sociedade fechada constitui o preço permanente da vida racional, responsável e parcialmente abstrata, bem como dos avanços em conhecimento, cooperação, auxílio mútuo e possibilidades de sobrevivência.

36. A dissolução da sociedade fechada torna visíveis os conflitos de classe e de condição social anteriormente naturalizados, destruindo a segurança proporcionada pela comunidade tribal e produzindo efeitos comparáveis aos de uma ruptura familiar sobre as crianças.

37. A análise da tensão produzida pelo colapso da sociedade fechada conduz diretamente a Rei Lear e à grande ruptura familiar mediante a qual Shakespeare dramatiza os conflitos do século XVI no início da era de Gutenberg.