Terrence Gordon

MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011.

A bússola de McLuhan para a viagem a um mundo de palavras elétricas

1. A elaboração de A galáxia de Gutenberg ocorreu em menos de um mês, num fluxo contínuo que alcançou 399 páginas manuscritas, número deliberadamente escolhido por ser divisível por três e simbolizar a ordem intelectual e espiritual valorizada por Marshall McLuhan.

2. A origem intelectual da obra remonta ao período de docência de McLuhan na Universidade de Saint Louis, nas décadas de 1930 e 1940, quando eram discutidos os efeitos do meio impresso com colegas, estudantes e amigos, até que essas reflexões se converteram num projeto de renovação iconoclasta da educação universitária.

3. A expansão posterior dos meios eletrônicos ultrapassou amplamente o horizonte tecnológico conhecido quando A galáxia de Gutenberg foi escrita, mas não diminuiu sua força crítica nem sua atualidade como desafio à compreensão dos propósitos subversivos da cultura pós-letrada.

4. Longe de desejar a destruição da cultura do livro, McLuhan defendia a preservação de seus valores mediante a compreensão dos erros históricos e a avaliação crítica dos possíveis empobrecimentos produzidos pelas novas dádivas tecnológicas.

5. A capa de A galáxia de Gutenberg condensava visualmente a crítica à tecnologia impressa e anunciava a recuperação do espaço acústico e da integração sensorial na era pós-Gutenberg.

6. A escolha da palavra “galáxia” no título destacou a configuração de acontecimentos e transformações ambientais produzida pela imprensa, bem como a posterior reconfiguração de seu legado pelos meios eletrônicos.

7. Embora recorresse a historiadores, economistas, cientistas sociais e estudiosos da tecnologia, McLuhan concedia primazia às percepções dos artistas, consideradas mais penetrantes do que os discursos analíticos especializados.

8. A concepção de arte de Wyndham Lewis como vida despojada dos enganos do viver corresponde à exigência de que os meios sejam confiados a artistas capazes de dominar as forças indomadas da cultura tecnológica.

9. Wyndham Lewis ofereceu um modelo de integração artística, recusa dos julgamentos categóricos e domínio consciente das forças tecnológicas que seria incorporado à análise dos meios realizada por McLuhan.

10. A passagem dos interesses estéticos para o estudo da relação entre arte e tecnologia levou McLuhan a compartilhar com Lewis a concepção do artista como observador distanciado e inevitavelmente implicado nos avanços técnicos.

11. A ideia de que o artista escreve a história do futuro por compreender a natureza do presente foi demonstrada por McLuhan mediante interpretações de Lewis, Joyce, Pound, Eliot e outros, cujas percepções tecnológicas forneciam princípios implícitos para a reforma educacional.

12. A aproximação tardia entre McLuhan e Harold Innis permitiu transpor para o estudo dos meios a teoria econômica segundo a qual um novo recurso básico reorganiza uma sociedade de modo semelhante a um novo meio de comunicação.

13. A afinidade entre Innis e McLuhan manifestou-se no humor, na condensação aforística e no estudo da causalidade formal, centrada nos efeitos produzidos pelas tecnologias em vez da afirmação direta de valores.

14. A insuficiência artística da formação de Innis foi compensada por McLuhan mediante a aproximação entre suas análises históricas e as antigas teorias do Logos, atualizadas pela antropologia, pela psicologia social e pelas práticas publicitárias de manipulação da consciência coletiva.

15. As descobertas estéticas dos simbolistas franceses e sua continuidade em Joyce, Eliot, Pound, Lewis e Yeats permitiram reconhecer que Innis, mesmo sem esse conhecimento, organizava suas percepções em padrões semelhantes às formas artísticas modernas, procedimento igualmente presente na estrutura de A galáxia de Gutenberg.

16. Apesar de criticar a incapacidade de Innis para distinguir tecnologias mecânicas e eletrônicas e sua interpretação de Wyndham Lewis, McLuhan reconhecia nele o criador de uma epistemologia da experiência distinta da epistemologia abstrata do conhecimento.

17. Conceitos decisivos de A galáxia de Gutenberg e das obras posteriores derivaram da investigação de Innis sobre as consequências psíquicas e sociais da inovação tecnológica, como a destruição inconsciente da sociedade grega pela escrita fonética.

18. A incorporação da análise de figura e fundo permitiu investigar estruturalmente os meios, identificando a tensão fundamental que sustenta cada situação e deixando em segundo plano os acidentes do conteúdo.

19. A teoria da economia do sensório humano compreendeu as mudanças tecnológicas como transformações ambientais que exigem a redistribuição compensatória da ênfase entre os cinco sentidos.

20. A elevada estima por Innis levou McLuhan a situá-lo ao lado de Abraham Lincoln, Henry Thoreau e Albert Einstein, além de relacioná-lo a uma tradição intelectual que se estendia de Samuel Taylor Coleridge a I. A. Richards.

21. A noção innisiana de “nêmesis da criatividade”, entendida como cegueira diante dos efeitos da própria invenção decisiva, foi incorporada à obra de McLuhan juntamente com diversas características metodológicas.

22. A galáxia de Gutenberg pode ser compreendida simultaneamente como explicitação da obra de Innis e como desenvolvimento do Relatório sobre o projeto de compreensão dos novos meios, concluído poucos meses antes da redação do livro.

23. O projeto 69 da Associação Nacional de Radiodifusores Educacionais tornou-se um reservatório experimental de ideias sobre os meios, posteriormente condensadas em forma de mosaico em A galáxia de Gutenberg.

24. A comissão concedeu liberdade para a criação de um método pedagógico e de um programa escolar destinado a introduzir o estudo da natureza e dos efeitos dos meios no ensino secundário.

25. O trabalho intensivo resultou, ainda em 1959, num programa de trinta e cinco páginas fundamentado na diferença radical entre o ambiente vivido pelos professores e aquele enfrentado pelos estudantes contemporâneos.

26. A interação entre os meios, a natureza da impressão e as novas tecnologias eletrônicas foram estabelecidas como prioridades educacionais, pois a consciência das formas midiáticas permitiria compreender, prever e controlar seus efeitos sobre a percepção e o julgamento.

27. A reforma educacional deveria integrar história, matemática, linguagem e estudo dos meios, tomando o artista como anunciador das transformações e criador de modelos capazes de tornar compreensíveis as forças tecnológicas.

28. O programa reuniu, de forma condensada, temas como a origem sedentária da escrita, a modelagem escultórica do espaço auditivo, a tradução visual desse espaço, a divisão do trabalho, a dissociação sensorial, a cultura manuscrita, a repetibilidade da impressão, a perspectiva e a indústria.

29. As advertências de Arthur Wells Foshay sobre a resistência dos professores não levaram McLuhan a suavizar suas afirmações acerca dos bloqueios cognitivos produzidos pela aprendizagem precoce da impressão.

30. A correspondência do período revelou a intensa elaboração dos conceitos que passariam do projeto da associação para A galáxia de Gutenberg e Os meios de comunicação como extensões do homem.

31. O diálogo com Bernie Muller-Thym, Harry Skornia e outros interlocutores permitiu desenvolver as distinções entre alta e baixa definição, bem como o princípio de reversão dos meios.

32. A correspondência com Wilfred Watson destacou o envolvimento dos artistas com a tecnologia e relacionou o esvaziamento da vida consciente no século XVII ao surgimento do inconsciente e dos arquétipos coletivos.

33. Todas as recomendações do relatório podiam ser reduzidas ao estudo das formas dos meios, a fim de retirar as pressuposições do domínio subliminar e submetê-las ao exame, à previsão e ao controle das finalidades humanas.

34. A fala humana foi identificada como tecnologia fundamental, enquanto a linguagem passou a ser compreendida no contexto mais amplo dos meios, assim como Ferdinand de Saussure situara a linguística no interior da semiologia.

35. A descoberta de que o conteúdo de qualquer meio é outro meio justificava por si só o projeto, pois a ilusão do conteúdo desviava a atenção das formas, das combinações e dos efeitos midiáticos.

36. O apoio de Arthur Wells Foshay e Harry Skornia confirmou a necessidade de desenvolver as descobertas do projeto em obras de maior alcance, voltadas não apenas aos educadores, mas à compreensão da criatividade humana numa situação de envolvimento sensorial global.

37. Apesar da multiplicidade de perspectivas e caminhos criada por sua forma em mosaico, A galáxia de Gutenberg concentra-se nas transformações provocadas pela imprensa e pelos tipos móveis.

38. A cultura impressa intensificou a transformação do espaço acústico ilimitado, multidirecional e emocional num espaço visual delimitado, linear, ordenado e racional.

39. Os novos meios não substituem simplesmente os anteriores, mas interagem com eles e tornam seus efeitos mais complexos e menos perceptíveis.

40. A simultaneidade da página de jornal contrasta com o desenvolvimento sucessivo das ideias no livro e favorece formas de percepção reconhecidas por artistas e cientistas modernos.

41. A reorganização da percepção desconcerta aqueles que permanecem presos à ordem linear e ao ponto de vista prático único, tornando indispensável perceber os meios como ambientes e não apenas como recipientes de conteúdos.

42. O alfabeto fonético funciona como meio por excelência ao intermediar som e significado mediante sequências de elementos que, isoladamente, não possuem sentido.

43. A comunicação pré-alfabética integrava simultaneamente fala, gestos, visão e audição, mas o alfabeto reduziu essa complexidade imediata a um código visual abstrato.

44. A galáxia de Gutenberg não se organiza como um livro convencional, pois utiliza o próprio meio impresso para comunicar percepções não impressas por aproximações, exageros, simplificações e aparentes contradições.

45. A velocidade e a densidade do pensamento de McLuhan exigiam interrupção, tradução e discussão, razão pela qual sua obra deveria ser julgada segundo seus próprios procedimentos, sem reduzir suas analogias a formulações literais e exclusivas.

46. Arthur Efron reconheceu a validade da concepção dos meios como formadores da humanidade, mas sustentou que a estrutura em mosaico não eliminava o ponto de vista e permanecia apoiada em pressupostos explícitos e implícitos.

47. As críticas não alteraram a convicção de McLuhan de que a consciência consiste numa proporção analógica continuamente variável entre os sentidos e de que a tecnologia impressa destrói essa consciência no indivíduo e na sociedade.

48. O reconhecimento público chegou com o Prêmio do Governador-Geral de 1963 para prosa crítica, concedido graças à intervenção decisiva de Northrop Frye, presidente do comitê de seleção.

49. Apesar de seu apoio, Northrop Frye formulou críticas abrangentes à retórica e ao suposto determinismo de McLuhan, reproduzindo incompreensões comuns entre os primeiros comentadores da obra.

50. A interpretação de Frye considerou excessivamente determinista a atribuição de mudanças civilizacionais à mera existência dos novos meios.

51. Embora a evidência posterior tenha tornado as ideias de McLuhan mais compreensíveis, persistiram equívocos como a recusa de considerar o livro uma tecnologia por causa de seu pequeno tamanho, confundindo dimensão física com função tecnológica.

52. Toda tecnologia ou meio constitui uma extensão de um ou mais sentidos humanos, e o livro integra uma cadeia de transformações que passa pela impressão, pela escrita e pela visualização da voz.

53. A recepção de As elegias de Gutenberg, de Sven Birkerts, aproximou sua reflexão da obra de McLuhan, mas sugeriu equivocadamente que apenas Birkerts se ocuparia das implicações filosóficas das transformações tecnológicas.

54. A interpretação de Ron Burnett reduz indevidamente a fórmula “o meio é a mensagem” à dependência da transmissão de informações em relação ao canal utilizado.

55. A preocupação com a entrada da humanidade no século XXI munida de percepções do século XIX motivou A galáxia de Gutenberg e orientou toda a produção posterior de McLuhan.

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