Elena Lamberti

MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011.

Não apenas um livro sobre os meios: ampliando A galáxia de Gutenberg

Qual era AQUILO? O pequeno ponto de McLuhan

1. Na novela A figura no tapete, de Henry James, a busca pelo “pequeno ponto” de Hugh Vereker representa a tentativa de descobrir o princípio secreto e unificador que orienta toda a criação de um escritor, embora essa figura permaneça inacessível aos críticos incapazes de reconhecê-la por si mesmos.

2. A primeira leitura de A galáxia de Gutenberg produziu uma fascinação acompanhada pela dificuldade de identificar o princípio particular da escrita de McLuhan, cuja compreensão somente se tornou possível mediante o contato posterior com sua crítica literária e com sua apropriação dos experimentos modernistas de linguagem e forma.

3. Na obra de McLuhan, a forma possui a mesma importância que o conteúdo, de modo que a máxima “o meio é a mensagem” se realiza na própria organização de sua escrita e revela as raízes humanísticas de sua investigação dos meios como ambientes.

4. A literatura e as artes constituem o fio estrutural que atravessa as investigações midiáticas de McLuhan, funcionando não como ornamento, mas como fundamento de sua poética, de seu método exploratório e da própria construção narrativa de A galáxia de Gutenberg.

O mosaico de Marshall McLuhan: uma abordagem diferente do conhecimento e da realidade

5. A apresentação do mosaico nas primeiras linhas de A galáxia de Gutenberg adverte que a diferença da obra reside tanto nos problemas examinados quanto na maneira de examiná-los, pois a combinação de dados e citações constitui um instrumento prático para revelar operações causais na história.

6. O mosaico designa uma estrutura material ou conceitual composta por unidades discretas cuja combinação produz uma figura dotada de sentido mediante a relação dinâmica entre figura e fundo, exigindo do observador uma participação ativa no reconhecimento do padrão.

7. O mosaico de McLuhan reelabora a escrita alfabética numa forma não linear, tátil e multissensorial, desmontando a anatomia tradicional da página para treinar leitores conscientes capazes de preservar sua identidade na condição desencarnada da era elétrica.

O mosaico de McLuhan: potencialidades verbo-voco-visuais de suas sondas

8. O mosaico de McLuhan substitui a metáfora biológica do corpo pela metáfora tecnológica da sonda, unidade flexível que permite explorar ambientes externos e internos e converter a fixidez visual da página impressa numa experiência acústica e participativa.

9. A contracultura juvenil do final da década de 1960 compreendeu a comunicação de McLuhan como acontecimento participativo, mas essa recepção contribuiu para reduzir sua figura pública à de guru dos meios e entusiasta da tecnologia, obscurecendo a densidade intelectual de suas sondas.

10. A densidade aforística, paratática e paradoxal da sonda compensa sua brevidade ao estimular investigações mais profundas, funcionando como glosa dinâmica que abre relações de conhecimento dentro e fora do texto.

11. A sonda ou glosa constitui o componente fundamental do mosaico porque transmite um conhecimento fragmentário que, embora possa assumir aparência formular, transforma o leitor em participante ativo e desencadeia relações intertextuais entre situações heterogêneas.

12. Embora as perguntas introdutórias dos quarenta e nove capítulos de A noiva mecânica já possam ser consideradas formas preliminares de sondas, somente em A galáxia de Gutenberg a glosa se torna um elemento estrutural plenamente concebido e próximo de um poema constituído por uma única imagem.

13. A civilização substitui o ouvido do ser humano tribal pelo olho e, ao instituir uma ordem predominantemente visual, entra em conflito com o ambiente elétrico que recupera formas acústicas e simultâneas de percepção.

14. A sonda sobre o olho e o ouvido condensa uma visão cíclica da história dos meios, articulando três formações sociais, três relações entre indivíduo e ambiente e três diferentes ordens sensoriais.

15. A escrita aberta de McLuhan adquire significados diversos em cada ato de leitura e transforma os leitores em coprodutores, recuperando a força evocativa da linguagem e sua capacidade de abrir as portas da percepção por meio de um conhecimento fragmentário.

O mosaico: hipertexto ou hiperlinguagem?

16. As sondas de McLuhan empregam imaginação, intuição e linguagem de maneira artística, mas estendem essa atitude exploratória e lúdica a todos os campos cognitivos, convertendo a articulação linguística no princípio unificador de sua abordagem humanística, elétrica e interdisciplinar.

17. A redescoberta de McLuhan transformou suas formulações paradoxais em profecias tecnológicas e consolidou sua imagem como guru da comunicação digital, embora suas antecipações resultassem menos da previsão de aparelhos específicos do que da compreensão humanística dos efeitos já inscritos nas transformações presentes.

18. A concepção do hipertexto como atualização do memex pode ser examinada à luz do mito platônico de Theuth e Thamus, no qual a escrita, apresentada como auxílio à memória, é denunciada como causa de esquecimento e aparência de sabedoria.

19. As sondas podem ser compreendidas como cabos adaptadores que conectam meios diferentes sobre um sistema operacional textual, renovando o livro e transformando a página de baixa tecnologia numa interface capaz de incorporar formas descontínuas de vida e comunicação.

20. O mosaico nasce do encontro entre oralidade e alfabetização, antecipa certos aspectos do hipertexto e permite deslocamentos livres entre fragmentos, mas distingue-se dele por permanecer enraizado na antiga arte liberal da gramática.

21. O mosaico constitui sobretudo um instrumento de aprendizagem que mobiliza sabedoria antiga, jogos de palavras e analogias para ativar o arquivo interior do leitor, em vez de funcionar apenas como banco de dados acessível externamente.

22. A leitura do mosaico atualiza conhecimentos historicamente elaborados pela linguagem, desperta o leitor da narcose narcísica e funciona como meio frio e tátil por exigir o preenchimento ativo daquilo que permanece implícito nas sondas e nos jogos de palavras.

23. A recapitulação final das glosas de A galáxia de Gutenberg forma um sumário imagético que permite recombinar as sondas como imagens intelectuais e emocionais, fazendo do leitor um cocriador de novas associações, interpretações e narrativas.

Paideia pós-letrada

24. A capacidade de McLuhan para compreender antecipadamente os efeitos dos novos meios decorreu de sua formação humanística, de sua paixão pela literatura e do treinamento permanente para olhar simultaneamente as coisas e através delas.

25. McLuhan reúne as diversas acepções de humanista ao combinar erudição clássica, estudo das artes liberais, interesse pelo humanismo renascentista e preocupação com o bem-estar material, intelectual e emocional dos seres humanos.

26. A galáxia de Gutenberg compartilha um modo epistemológico de leitura do mundo fundado no conhecimento fragmentário e no aforismo de Francis Bacon, atualizado pelos experimentos modernistas para estimular a investigação autônoma dos leitores.

27. A associação deliberadamente desconcertante de ideias e campos distintos subverteu séculos de escolarização compartimentada e antecipou a interdisciplinaridade moderna, embora se fundamentasse em paradigmas antigos, especialmente no trivium e na abordagem do gramático.

28. A combinação entre erudição, literatura contemporânea, arte e cultura popular permitiu elaborar uma visão integrada do ambiente elétrico e digital, rejeitando a especialização e os métodos acadêmicos incapazes de representar uma realidade simultânea.

29. A aplicação das experiências modernistas e das tradições antigas conduziu a um projeto de educação global destinado a desenvolver uma atitude crítica diante dos meios e a recuperar a paideia como formação integral capaz de contrabalançar seus efeitos subliminares sobre o sensório humano.

30. O mosaico integra-se à filosofia educacional de McLuhan ao rejeitar a progressão linear e a acumulação quantitativa de dados como modelos do conhecimento, obrigando o leitor a passar de uma perspectiva visual e sucessiva para uma percepção acústica e simultânea.

31. A filosofia educacional de McLuhan enfrentou uma cultura escolar fundada na autoridade, na transmissão unilateral e na preservação de instituições, mas seus seminários transformaram a sala de aula numa ágora experimental em que estudantes, intelectuais e celebridades participavam de explorações coletivas.

32. A previsão de que o futuro do livro seria inclusivo reconhecia que a alfabetização e o suporte impresso permaneceriam no ambiente elétrico, mas precisariam adaptar-se ao novo fundo sensorial constituído pelo rádio e pela televisão.

33. Os meios antigos permanecem, mas são remodelados pelas potencialidades dos novos, razão pela qual o mosaico procura abrir a escrita à simultaneidade elétrica e preservar seus processos reflexivos mediante uma forma visual capaz de expressar uma percepção acústica.

34. A oralidade secundária constitui uma forma híbrida em que escrita e impressão permanecem integradas a linguagens acústicas e táteis, fazendo os meios antigos reaparecerem dentro dos novos em combinações que revelam propriedades anteriormente ocultas.

35. A convergência digital conduz da oralidade secundária à oralidade pós-secundária ao recuperar alfabeto e palavra impressa num novo ambiente participativo, realizando nos hipertextos digitais potencialidades heurísticas que o mosaico de McLuhan já havia introduzido na página.

36. A transformação da página em interface elétrica permite articular palavras e intervalos, conhecimento e ignorância, numa heurística modernista que exige participação profunda e impede que a navegação fragmentária reduza o conhecimento a informação descontextualizada.

37. A compreensão intelectual dos meios não basta para proteger de seus efeitos, como demonstra a transformação do próprio McLuhan de analista privado em imagem pública manipulada, tornando necessário recuperar o fundo literário, humanístico e epistemológico de sua obra.

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