Meio é a massagem

McLuhan por McLuhan : conferências e entrevistas. Tr. Antônio de Pádua Danesi. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005

** O meio é a massagem **

1. Em 7 de maio de 1966, Marshall McLuhan realizou na Galeria de Arte Kaufmann, em Nova York, a conferência pública que encerrou uma série de seis programas organizada pela Fundação para as Artes Cênicas Contemporâneas em colaboração com o Centro de Poesia da 92nd Street Y.

2. O título “O meio é a massagem” transforma deliberadamente o aforismo “o meio é a mensagem” para enfatizar que a força decisiva de um meio não reside apenas no conteúdo transmitido, mas na ação contínua pela qual ele envolve, pressiona, reorganiza e condiciona sensorialmente toda uma população.

3. O artista desempenha a função de sistema antecipado de alarme diante dos novos meios, enquanto a tese da massagem tecnológica indica que cada meio atua diretamente sobre a população, modificando-a de modo intenso antes que seus efeitos sejam conscientemente reconhecidos.

4. A piada pode funcionar como manifestação social do ressentimento, como demonstra o humor ligado às tensões do Canadá francês e à condição bilíngue, no qual a capacidade de transitar entre códigos linguísticos aparece simultaneamente como defesa, dissimulação e vantagem estratégica.

5. A gíria revela mudanças sutis da sensibilidade e dos padrões perceptivos, pois as crianças aprendem suas distinções com precisão espontânea, enquanto os adultos frequentemente se mostram constrangidos diante de significados que não correspondem às categorias linguísticas estabelecidas.

6. A condição “fria” consiste na identificação com o processo criativo mediante a simultaneidade entre envolvimento e alheamento, configurando uma forma de consciência que ultrapassa a oposição ocidental entre participação completa e observação exterior.

7. A sociedade eletrônica desloca-se do tipo humano agricultor, especializado e fragmentado para o tipo caçador, unificado e explorador de campos totais, como evidenciam a popularidade do detetive, do criminoso, de James Bond e das figuras voltadas à descoberta.

8. O trabalho futuro tende a afastar-se do emprego especializado e a identificar-se com a descoberta, o conhecimento e a participação em processos, até que trabalhar e saber se tornem dimensões inseparáveis de uma mesma atividade.

9. Crescer num ambiente eletrônico tornou-se um trabalho extremamente complexo, pois as crianças precisam processar mais informações do que os integrantes de qualquer cultura anterior, ao mesmo tempo que o envolvimento intenso e simultâneo ameaça dissolver sua identidade privada.

10. A transformação do trabalho em conhecimento e da identidade em envolvimento favorece a substituição das ocupações isoladas por papéis integrados, nos quais diversas funções são desempenhadas simultaneamente.

11. A velhice pode tornar-se um período privilegiado de descoberta, especialmente quando a experiência acumulada liberta o indivíduo da posição subordinada de empregado e o coloca em condições de reconhecer padrões invisíveis aos mais jovens.

12. O computador ameaça principalmente o especialista, pois a especialização torna o trabalho programável, mas sua velocidade de processamento também pode revelar relações, estruturas e padrões inéditos ao reunir múltiplos níveis de conhecimento e experiência.

13. A memória demonstra que o processamento de dados pode produzir descobertas, pois recordar não significa apenas recuperar informações, mas reorganizar os padrões do conhecimento, como ocorre nos trocadilhos e nas condensações linguísticas de Finnegans wake.

14. O ambiente eletrônico transforma o próprio planeta em conteúdo de um novo ambiente produzido pelo ser humano, convertendo-o gradualmente em objeto artístico, arqueológico e museológico a ser conservado, restaurado e reconstruído.

15. Qualquer forma se converte em obra de arte quando um novo ambiente a torna visível, pois a função essencial da arte consiste em produzir atenção, percepção e modelos capazes de revelar aquilo que permanecia invisível na experiência cotidiana.

16. A passagem do público criado pelo livro para a massa produzida pelos circuitos elétricos corresponde à passagem de uma coletividade extensa, mas não simultânea, para uma participação imediata organizada pela coincidência temporal dos acontecimentos.

17. A página de jornal constitui uma imagem ambiental formada por acontecimentos simultâneos, enquanto o editorial conserva a posição fixa e visual do livro ao apresentar um ponto de vista estável sobre essa multiplicidade.

18. O livro impresso criou o público e estimulou o desenvolvimento do autorretrato, pois o escritor passou a projetar conscientemente uma imagem individual diante de uma coletividade de leitores inexistente nas culturas manuscrita e antiga.

19. A xerografia aplica o circuito elétrico ao domínio anteriormente mecânico e fragmentado da impressão, permitindo que o leitor abandone a condição de observador alheado e participe diretamente como editor do material reproduzido.

20. O futuro do livro tende a substituir a embalagem fixa, uniforme e repetível pelo serviço informacional personalizado, construído de acordo com as necessidades específicas de cada leitor ou usuário.

21. A informação eletrônica envolve progressivamente o público como força de trabalho, transferindo-lhe tarefas de operação, resposta e criação, e pode mobilizar percepções distribuídas para resolver problemas científicos bloqueados pelas preconcepções dos especialistas.

22. A mobilização simultânea de milhões de pessoas aumenta enormemente a probabilidade de que alguma delas perceba imediatamente uma solução que poderia permanecer inacessível a um pequeno grupo de especialistas durante décadas.

23. A televisão exige a participação do público de maneira muito mais intensa que o cinema, razão pela qual a manipulação invisível dos programas de perguntas e respostas foi percebida como exclusão dos espectadores do processo próprio do meio.

24. No cinema, o público ocupa simbolicamente a posição da câmera e observa um ambiente exterior, enquanto na televisão se torna o próprio ambiente, a tela e o ponto de fuga, produzindo uma perspectiva inversa e uma participação de caráter oriental.

25. O carro-forte exemplifica a incorporação da retroalimentação elétrica ao objeto mecânico, pois o design deixa de considerar apenas o produto lançado ao público e passa a integrar antecipadamente as consequências de seu uso e as respostas ambientais.

26. A cápsula espacial constitui o primeiro ambiente inteiramente produzido pelo ser humano, no qual o planeta e todas as condições necessárias à vida precisam ser reconstruídos e incorporados previamente ao projeto.

27. A aplicação do modelo da cápsula espacial ao automóvel transforma-o numa célula acolchoada e retroalimentada, na qual os efeitos do veículo sobre o ambiente retornam ao próprio objeto e ao usuário.

28. O livro xerografado recupera parcialmente a condição da cultura manuscrita, na qual escriba, editor e autor se sobrepunham, permitindo que o leitor selecione, combine e publique excertos como produto de sua própria atividade criadora.

29. A orientação retrovisora leva cada nova tecnologia a ser interpretada como versão da anterior, embora a velocidade elétrica exija que se observem diretamente as transformações presentes em vez de buscar segurança em imagens familiares do passado.

30. A passagem do conhecido ao desconhecido não parece descrever adequadamente o saber humano, pois diante do desconhecido tende-se a retraduzi-lo em formas familiares e a substituí-lo por ilusões confortáveis, enquanto as potencialidades participativas do circuito permanecem reduzidas a medições passivas de audiência.

31. Em regiões que não atravessaram plenamente o século XIX industrial, uma série televisiva como Bonanza pode aparecer como imagem de ficção científica de um futuro remoto, enquanto a ausência daquela etapa histórica pode favorecer respostas mais espontâneas às condições contemporâneas.

32. O século XIX intensificou a fragmentação, a sistematização e a classificação da experiência, mutilando a imaginação daqueles que atravessaram integralmente sua ordem especializada e preservando maior flexibilidade entre os que não foram completamente formados por ela.

33. O Canadá foi constituído principalmente pelas estruturas do século XIX, enquanto numerosos países contemporâneos saltam da pré-história diretamente para a era eletrônica, produzindo consequências psíquicas desconhecidas pela compressão de milênios de desenvolvimento cultural.

34. A transformação do público em ator, editor e autor ultrapassa a xerografia e caracteriza o conjunto das tecnologias eletrônicas, impondo uma reforma educacional diante da inversão entre a escassez informacional da escola e a abundância de dados no ambiente exterior.

35. A formação perceptiva exigirá uma transformação traumática dos sistemas educacionais, mas crianças organizadas em equipes podem investigar problemas complexos por meio de inventários rigorosos dos efeitos ambientais, sem depender inicialmente de teorias ou conclusões abstratas.

36. A relação entre televisão e mudança social pode tornar-se perceptível pela reunião indutiva das transformações ocorridas após seu aparecimento, sem necessidade de uma teoria prévia sobre a essência ou os efeitos do meio.

37. Um meio deve ser compreendido principalmente pelos efeitos que produz nas pessoas, nas comunidades e no ambiente, pois ele constitui um processo ativo que reorganiza os sistemas nervosos e a vida sensorial, e não um simples objeto ou invólucro.

38. O conteúdo de toda tecnologia nova é uma tecnologia anterior, que se torna visível e adquire estatuto artístico ao ser envolvida pelo novo ambiente.

39. A arte ocidental do século XVIII passou a construir deliberadamente paisagens e ambientes para controlar os estados mentais do observador, substituindo parcialmente a participação comunitária das artes medievais por experiências psicológicas individualizadas.

40. A concepção balinesa de arte como execução cuidadosa de todas as atividades aproxima-se da pop art, que reconhece a possibilidade de programar e processar o próprio ambiente exterior como obra artística.

41. Os defensores elitistas da arte tradicional interpretam equivocadamente a pop art pela classificação de seus conteúdos, deixando de reconhecê-la como instrumento destinado a treinar e reorganizar a percepção humana.

42. A arte simbolista rompeu com a paisagem exterior romântica e passou a investigar a paisagem interior como ambiente programável, transformando a obra em sonda exploratória da consciência individual, coletiva e mítica.

43. O estilo constitui um modo absoluto de percepção e conhecimento, e não simples revestimento expressivo, razão pela qual artistas, escritores e arquitetos modernos passaram a examinar os próprios materiais e meios disponíveis antes de decidir aquilo que desejavam comunicar.

44. A arte simbolista reconheceu que a investigação profunda do presente permite discernir futuros possíveis e que o artista atua como mestre da percepção num mundo em que a própria consciência começa a ser tecnologicamente estendida ao ambiente.

45. Os meios eletrônicos, como rádio e televisão, envolvem simultaneamente diversos sentidos, assim como o desenho simplificado ou o cartum exige maior participação perceptiva do que a fotografia visualmente completa.

46. Os grandes pintores e poetas do final do século XIX, assim como James Joyce, T. S. Eliot e Ezra Pound, constituem os principais instrutores para o estudo dos meios porque investigaram como as extensões tecnológicas dos sentidos transformavam a linguagem e os próprios materiais da criação artística.

47. A diferença entre o conteúdo visível e o efeito produzido explica tanto a pintura moderna quanto a publicidade e o retorno do drama poético, pois as formas mais participativas não representam simplesmente objetos, mas recriam sensorialmente a experiência associada a eles.

48. A poesia produz maior envolvimento que a prosa apesar de possuir menos leitores, e a publicidade moderna amplia esse princípio ao substituir progressivamente o próprio produto pela experiência sensorial e motivacional de seus efeitos.

49. A publicidade funciona como serviço informacional que prolonga a satisfação associada aos objetos possuídos e produz efeitos sem a presença da coisa, repetindo procedimentos descobertos pela arte abstrata décadas antes de sua adoção técnica e comercial.

50. O envolvimento profundo produzido pelos circuitos eletrônicos favorece a orientalização do Ocidente, ao mesmo tempo que a tecnologia industrial ocidental transforma o Oriente, embora os efeitos ambientais sobre a própria cultura sejam muito menos visíveis que aqueles exercidos sobre outras sociedades.

51. A ocidentalização do Oriente e a orientalização do Ocidente constituem processos recíprocos produzidos pelas próprias tecnologias e ambientes culturais, embora o Ocidente reconheça facilmente sua influência exterior e permaneça inconsciente das alterações que impõe a si mesmo.

52. A análise de transformações que envolvem simultaneamente povos inteiros deve preceder os juízos morais de aprovação ou condenação, pois atribuir valor imediato a processos ambientais de enorme escala pode tornar-se tão pretensioso quanto declarar a aceitação pessoal do universo.