Dominique Scheffel-Dunand

MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011.

O invisível e o visível: o entrelaçamento de figura e fundo em A galáxia de Gutenberg

1. A galáxia de Gutenberg tornou-se um marco editorial e intelectual ao ultrapassar as fronteiras da publicação acadêmica, introduzir expressões como “era da informação” e “aldeia global” no vocabulário corrente e propor uma forma pós-Gutenberg de conhecimento que transforma o passado sem suprimi-lo.

2. A principal lição oferecida por A galáxia de Gutenberg aos escritores reside na compreensão estratégica e tátil da impressão como meio capaz de delimitar pensamentos e tornar perceptíveis os intervalos entre ideias, por meio de uma estrutura ensaística que apresenta o processo vivo da reflexão em vez de apenas seus resultados.

3. A era de Gutenberg somente pode ser reconhecida com clareza a partir do ambiente eletrônico que a sucede, pois a passagem para uma nova configuração histórica torna visíveis os contornos anteriormente imperceptíveis da ordem mecânica.

4. A interpretação tecnológica da experiência não foi inventada por McLuhan, mas recebeu em A galáxia de Gutenberg uma configuração original que reúne estudos históricos, antropológicos e comunicacionais para descobrir significações onde abordagens anteriores identificavam apenas informações.

5. A forma do ensaio deriva das antigas coleções de citações e aforismos que difundiram o saber humanístico desde o século XVI, permitindo que a escrita se tornasse simultaneamente exame de ideias, reflexão sobre a própria composição e performance retórica.

6. Mallarmé, Pound e McLuhan empregam a visualidade e a sonoridade da página para estimular uma leitura criadora, na qual formulações fragmentárias e justaposições ideográficas desencadeiam reflexões mais amplas sobre arte, percepção, tecnologia e cultura.

7. Os recursos gráficos desenvolvidos por McLuhan e Harold Kurschenska, posteriormente ampliados na colaboração com Quentin Fiore, funcionam como mensagens lúdicas e cifradas que integram texto, imagem e diagramação num contexto editorial ainda marcado pela separação entre palavras e figuras, universidade e comunicação de massa.

8. Em A galáxia de Gutenberg, palavras, sons, espaços, linhas, sinais de pontuação e disposição tipográfica constituem um fundo material que exige decodificação contínua, enquanto a interação entre figura e fundo revela dimensões invisíveis da percepção e dissolve formas hierárquicas de organização do pensamento.

9. A relação estabelecida entre impressão, rádio, televisão, arte e ciência demonstra que a história das formas artísticas coincide com a história da percepção, pois o sujeito observador é simultaneamente produto e lugar de práticas, técnicas e processos de formação.

10. A passagem da letra manuscrita à forma tipográfica geometricamente construída transformou a escrita num ideal conceitual relativamente independente de tecnologias particulares, enquanto McLuhan orientou a atenção para a sensação, a visão e a presença física da página como meios de perceber os efeitos culturais das técnicas de reprodução.

11. O projeto gráfico de A galáxia de Gutenberg rompeu com as convenções universitárias de 1962 por meio de cabeçalhos destacados e margens inferiores irregulares, embora suas inovações moderadas tenham sido rapidamente ultrapassadas pelo desenvolvimento modernista do design editorial.

12. O modernismo renegociou as tradições visuais em resposta às novas tecnologias, exigindo dos profissionais da composição tipográfica competências especializadas para resolver disposições complexas e permitindo que McLuhan introduzisse novas formas de significação no domínio das publicações acadêmicas.

13. A avaliação editorial inicial reconheceu A galáxia de Gutenberg como obra simultaneamente excitante, indisciplinada, controversa, irregular e brilhante, cuja organização caleidoscópica, abundância de citações e criação verbal exigiam intenso acabamento sem que sua singularidade fosse domesticada.

14. O reconhecimento de A galáxia de Gutenberg como marco editorial confirmou-se internacionalmente, e sua ousadia continua a desafiar estudiosos contemporâneos a conceber modelos pós-Gutenberg de comunicação acadêmica que transformem o livro em ambiente interconectado sem eliminar sua continuidade histórica.

15. A disposição estratificada e simultânea de artefatos visuais remonta às experiências de Giovanni Battista Piranesi, cuja colagem de acontecimentos espaciais e temporais ofereceu a McLuhan um modelo para representar tecnologias e sistemas ainda insuficientemente compreendidos.

16. O Iluminismo valorizou o discernimento e a observação investigativa como capacidades necessárias para compreender montagens tridimensionais complexas, nas quais o conhecimento é produzido e transmitido pela reunião, ordenação e justaposição de fragmentos.

17. A reversão da alfabetização linear em quadros informacionais complexos e plurimodais amplia o público da comunicação, substitui progressivamente as narrativas direcionais por imagens manipuláveis e atualiza experiências de colagem entre palavra, figura e som já desenvolvidas no século XVIII.

18. A investigação da página digital exige modelos múltiplos, suspensão do julgamento e decomposição crítica das colagens midiáticas, pois a mutabilidade das imagens e o ocultamento de seus processos de produção dificultam distinguir formas, informação legítima e desinformação.

19. A compreensão iluminista dos processos complexos recorreu a representações ampliadas e dinâmicas de sistemas minúsculos, demonstrando que analogias, incongruências e metáforas podem tornar acessíveis aspectos da realidade habitualmente ignorados.

20. As páginas 72 e 73 da edição original de 1962 de A galáxia de Gutenberg exemplificam materialmente a organização tipográfica pela qual blocos textuais, intervalos e mudanças de posição participam da produção do sentido.

21. O pensamento analógico reconhece a coexistência de domínios incomensuráveis e estabelece entre eles relações proporcionais sem eliminar ambiguidades, diferenças e desajustes inevitáveis entre os seres vivos e suas representações.

22. A escrita, concebida como extensão corporal e complemento permanente da fala, exige que a dimensão tátil do design seja reinventada na publicação acadêmica por meio de parcerias entre estudiosos, artistas, projetistas e instituições capazes de traduzir visualmente ambiguidades e conhecimentos que as palavras isoladas não comunicam adequadamente.

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