Absoluto

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000.

** O absoluto em questão **

** 1. A questão do absoluto e a questão do Ser: Heidegger e Hegel **

6. A distinção entre a questão do ser (Sein) e a questão do absoluto é marcada por Heidegger ao afirmar que, se o ser necessita do homem para ser, deve-se presumir uma finitude do ser, o que constitui a antítese mais aguda em relação a Hegel, para quem o absoluto “não é sem nós” apenas em eco ao “Deus tem necessidade dos homens” cristão, ao passo que para Heidegger o ser não é sem sua relação ao Dasein.

7. A consideração da diferença deve ser posta em relação com a “finitude” do ser, termo provisório que remete à interrogação ainda “metafísica” da época de Ser e Tempo, esclarecendo o motivo do “pastor do ser” (Hirt des Seins) na Carta sobre o Humanismo, segundo o qual o pensamento é essa guarda que realiza a relação da essência do homem à essência do ser.

** 2. A reapropriação do pensamento especulativo do absoluto **

8. Cabe perguntar até que ponto Heidegger leu Hegel com suficiente generosidade, entendendo-se por leitura “generosa” aquela que, nos conceitos da metafísica, sabe despertar possibilidades mais originárias, generosidade que caracteriza a interpretação heideggeriana de Schelling, restituindo à pensée especulativa do absoluto seu alcance ontológico ao nela detectar um pensamento da diferença entre o ser e o ente que ela oculta, mas também abriga.

9. O conceito de absoluto, conceito metafísico e onto-teológico por excelência, não é apenas a forma que assume na tradição o fechamento à questão do ser, mas abriga também a possibilidade de uma abertura à diferença entre o ser e o ente, o que leva a interrogar o que autoriza concluir que é a partir do absoluto que a técnica deve ser pensada.

10. Antes de precipitar a conclusão, impõe-se uma dupla precaução, equivalente a realizar duas vezes o “passo que retrocede” (der Schritt zurück): mostrar que o fundamento (absoluto) se deixa reivindicar pela transcendência e pelo destino que constitui sua proveniência, e mostrar que o que se encontra reivindicado, com o absoluto, não é senão a própria técnica.

** 3. Absoluto e transcendência **

11. Cabe perguntar em que sentido o fundamento se deixa reivindicar pela transcendência, pois em “Vom Wesen des Grundes” o fundamento se pensa existencialmente, transcendentalmente, a partir do cuidado (Sorge), da facticidade do projeto enquanto sentido verdadeiro do ser-no-mundo, sendo necessário, uma vez que a questão do fundamento dá acesso à tradição sob a figura do princípio de razão e sob o nome de Leibniz, reportar ao cuidado o dar razão, o ato de fundar, ou, como diz Heidegger, motivar e legitimar, colocando-se a questão de saber em que sentido a retomada existencial — a repetição — do fundamento confere ao absoluto um estatuto ontológico e o acredita como questão.

12. A solidariedade dos três sentidos do fundamento repousa ela mesma sobre o fundamento, e a unidade dos três sentidos tem o caráter do fundamento, sendo por sua vez a “fundamentalidade” do fundamento fundada na abissalidade da finitude, onde a possibilidade do fundamento se esboça no coração da diferença ontológica.

13. A ek-stase tem o caráter da instância, prescrevendo, enquanto tem de ser sustentada, um modo de instalação que é a in-stância, sendo a assunção da instância o cuidado (Sorge), o qual inclui em sua estrutura a projeção compreensiva, isto é, a abertura compreensiva ao ser do ente.

** 4. A unidade do absoluto e da técnica **

14. Torna-se então possível situar ontologicamente o conceito de absoluto: a transcendência não é um fundamento, mas o transcender, a abertura extático-horizontal, sustenta-se de um fundamento, cabendo perguntar se não foi justamente para escapar ao caráter ainda demasiado metafísico dos conceitos ligados à questão do sentido do ser que Heidegger reorientou seu trabalho para a questão da verdade do ser, com a preocupação constante de distinguir o ser e o fundamento.

15. Mas “absoluto” diz também o desligamento — desligamento possível da técnica em relação a toda proveniência, ainda que abissal, que a reporte a condições pré-técnicas, a uma potência mais inicial na qual encontraria sua origem e seu limite, devendo-se então considerar a possibilidade de um desligamento que implicaria uma tecnicidade não submetida à lei da presença, colocando-se assim a questão da possibilidade do artifício.