Artifício

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000.

** De artifício **

** 1. O nome do impensável **

16. Através do ente, Heidegger discerne o todo do nexo técnico, e através deste, a manifestação de uma potência inicial que sustenta o desdobramento da técnica e a conduz ao “cálculo absoluto de todas as coisas”, sendo o absoluto técnico algo por vir mas, como tal, já presente, nele discernindo Heidegger o perigo (Gefahr), a possibilidade de uma tecnicidade desligada de toda referência à natureza em seu sentido inicial de physis.

17. O fragmento 27 de “Superação da metafísica”, de onde se extrai essa passagem, é atravessado por uma oposição nítida entre a terra (isto é, a physis) e a vontade, entre os viventes — os physica, os entes naturais por excelência, em razão da essencial solidariedade ontológica entre zoe e physis sublinhada por Heidegger em textos mais tardios — e os artifícios.

18. No extremo oposto, o artifício emerge como invenção de uma vontade cujos traços são facilmente identificáveis: é a vontade que se quer incondicionalmente, a vontade de potência (Wille zur Macht), último título ontológico da história da metafísica, sendo essa vontade que força a terra a sair do círculo de seu possível e a empurra para o impossível.

19. O impossível parece, contudo, suscetível de outra acentuação, presente na passagem em que Heidegger descreve o desgaste (Wernutzung) de todas as matérias, incluída a matéria-prima “homem”, a serviço da produção técnica da possibilidade absoluta (unbedingte Möglichkeit) de fabricar tudo, secretamente determinada pelo vazio total (die völlige Leere) no qual o ente, os tecidos do real, permanecem suspensos.

20. É a partir dessa impossibilidade — dessa impossível impossibilidade — que a questão da essência da técnica solicita o pensamento, não havendo perigo — de uma tecnicidade libertada da sobrepotência da physis, da Sobrepotência que é a physis — senão se a reassignação da técnica ao círculo do possível não tiver o caráter de uma garantia.

21. O destino inteiro se vê assim afetado por um “talvez” que se divide em duas possibilidades: a primeira é a de que a civilização mundial, tal como apenas começa, venha um dia a superar a configuração de que porta a marca técnica, e a segunda é a de uma fuga para adiante em direção à novidade, através da qual é lícito reconhecer as “variações do artificial”, isto é, a segunda possibilidade é a do artifício.

22. Com a primeira possibilidade, é a “virada” (Kehre) que entra em questão, havendo virada quando a “civilização mundial”, estruturada pelo cálculo absoluto — mas é em verdade o cálculo absoluto que se estrutura como civilização mundial — “supera sua configuração” para reconhecer, ao mesmo tempo, seu limite e sua proveniência no jogo de uma presença que a precede, a sustenta e a desdobra, sendo na virada que subitamente se ilumina a clareira do ser, o que equivale a dizer que a virada assina o absoluto técnico ao círculo do possível.

23. Essa assinação supõe a prova do perigo, prova que concerne ao homem em sua relação com a presença, que concerne ao “aí” (Da) ou ao acontecimento, ao ter-lugar da presença, portanto à própria presença, sendo o cálculo absoluto o que ameaça a possibilidade de um livre surgimento, e a possibilidade da virada supondo a exposição da presença — do ser em seu aí, do Da-sein — ao mais extremo do perigo, portanto um ponto extremo do perigo, ponto de inflexão que deixa advir o perigo como tal, e ponto de retorno.

24. Com a virada, a configuração da “civilização mundial” é superada em direção à libertação de um mundo, havendo mundo quando a relação da técnica com as coisas é experimentada à luz de uma assinação ao “círculo do possível”, sendo compreender o absoluto técnico segundo a lógica da virada o que constituirá o objeto da primeira parte, devendo a lógica da assinação ser explicitada através das estruturas efetivas do cálculo, isto é, através das estruturas da produção — métodos de organização da produção industrial, planejamento, processos de decisão — tais como caracterizadas por Heidegger em análises cuja concisão as torna tanto mais marcantes, a ponto de por vezes as expor à acusação de “simplificação”.

** 2. A possibilidade do impensável **

25. A leitura de um pensador só tem sentido, contudo, ao abrir a possibilidade de uma interrogação, a qual, autorizada pela incerteza de Heidegger quanto ao devir da “civilização mundial”, incide sobre a possibilidade do artifício, não devendo deixar-se enganar pelas falsas luzes da etimologia ao restringir o artifício ao artefato, ao domínio da produção que fabrica.

26. Desprovido, portanto, de necessidade, de próprio, de essência, de sentido ou de ideia, o artifício é aquilo do qual não se tem nenhuma garantia: não se pode dizer nem que ele é, nem que não é — pode-se ainda nomeá-lo, e se é enquanto nome, o que ele nomeia?

27. Impõe-se então uma condição: na medida em que o artifício não se confunde com os physei onta, é preciso levar em conta a distinção entre o que é fabricado e o que não o é, pois, uma vez admitido que o artifício é aquilo cuja posição não se deduz de nenhuma essência, é preciso convir que a artificialidade da árvore não é a da serra, havendo a artificialidade do dado e a do construído.

28. A artificialidade se diz da “physis”, da artificialidade que ela “é”, da “possibilização” do possível, sendo o que se desdobra nessa possibilização a in-assinabilidade do possível, e uma vez que Zumessung traduz nomos, o que se possibiliza é a a-nomia do possível — não uma falta de assinação, mas a positividade de uma não-assinação —, positividade essa que supõe um conceito do possível.