Cálculo absoluto de todas as coisas

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000.

** A questão da técnica como questão do “cálculo absoluto de todas as coisas” **

1. A sabedoria do jardineiro de Goethe, segundo a qual se pode forçar a natureza (Natur) mas não a constranger, remete à experiência grega da técnica (techne), em que a arte trabalha “segundo a natureza” (physis) e pressupõe potencialidades já pré-existentes e pré-dadas no material a ser trabalhado.

2. Essa interpretação da relação entre techne e physis é a de Heidegger, para quem os gregos transmitiram, a seu próprio insu, que a técnica se funda no desvelamento (Entbergen), o que faz da techne não apenas um saber fabricador, mas uma “visão constante além do subsistente”, submetida à facticidade de uma dimensão de presença.

3. Cabe interrogar se a técnica possui de fato o poder de se separar inteiramente da ordem natural, pois pensar uma artificialidade técnica totalmente desligada de toda “presença” equivaleria a afirmar que a natureza “não é”, esvaziando de sentido a própria referência a ela.

4. A reviravolta não equivale a um retorno, de modo que não é possível saltar por sobre a própria época tampouco sobre a própria sombra, o que impede libertar-se das condições modernas do desdobramento da técnica, isto é, da potência do cálculo, para restaurar a experiência grega da techne, colocando-se então a questão de saber se o absoluto técnico deve ser pensado em correspondência com uma dimensão de presença que o precede, ou como uma produção cuja artificialidade o desligaria (absolvere) de toda presença.

5. Essa questão atravessa e sustenta o pensamento de Heidegger, de modo que é a partir do sítio desse pensamento que ela deve ser desdobrada, e inversamente, é a partir dela, seguida como fio condutor, que se explicita o pensamento heideggeriano da técnica, impondo-se contudo, previamente, a consideração de uma dificuldade: Heidegger uniu a questão da técnica à questão do ser (Sein), mas separou a questão do ser da questão do absoluto, uma vez que é o fundamento que é absoluto, não sendo o ser um fundamento, o que torna necessário perguntar em que sentido é legítimo nomear “absoluto técnico” aquilo que Heidegger dá a pensar.