(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:53)
“A revelação que rege a técnica moderna é uma provocação (Herausfordern) pela qual a natureza é intimada a fornecer uma energia que, como tal, possa ser extraída e acumulada. Mas não se poderia dizer o mesmo do antigo moinho de vento? Não: suas asas giram com o vento e são entregues diretamente ao seu sopro. Mas se o moinho de vento coloca à nossa disposição a energia do ar em movimento, não é para acumulá-la.» (GA7)
A característica própria da técnica moderna é «provocar» a energia para condicionar um funcionamento, como mostra, a contrario, o caso da agricultura motorizada: “O ar é necessário para o fornecimento de nitrogênio, o solo para o de minério, o minério, por exemplo, para o de urânio, este para a energia atômica, a qual pode ser liberada para fins de destruição ou para uso pacífico.” (GA7) Qual é a diferença entre o ar utilizado pelo moinho de vento e a “requisição” da agricultura motorizada? Qual é o desafio da acumulação e do armazenamento? No caso do moinho, a energia não é tecnicamente produzida. O moinho é “entregue” a uma energia que se manifesta por si mesma. Haja ou não ar, isso é, para os usos arcaicos, imprevisível. É incalculável: e, portanto, acidental. É certo que existem esses conhecimentos ancestrais, que prevêem o tempo que fará a partir da observação dos sinais do céu: cálculo, antecipação, mas expostos à irredutível acidentalidade da manifestação dos elementos. O elementar é incalculável: é elementar aquilo cujo surgimento não é condicionado por outra coisa — nem mesmo por si mesmo. O ar é um “elemento” — como a água, a terra, o fogo — na medida em que é uma condição, é claro — pelo menos para a técnica —, mas acidental. O elemento não é substância, mas acidente. E é na exposição do complexo técnico — da ferramenta, do utensílio, do objeto de uso —, a esse acidente primordial —, origem que nada tem de fundamento, de substância, origem “negativa”, em suma —, que se reconhece o domínio da physis.