(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:47)
** II. Do matemático **
1. A investigação do matemático retoma a análise do projeto matemático desenvolvida em Ser e tempo e enfrenta a pretensão kantiana de que somente existe ciência propriamente dita da natureza na medida em que nela se encontra matemática, situando essa questão na articulação entre a experiência do trabalho e a metafísica.
2. O projeto moderno deve ser compreendido na articulação essencial entre técnica e ontologia.
3. A determinação da mathesis exige esclarecer seu significado próprio, sua manifestação na ciência moderna e sua presença no funcionamento da técnica moderna.
** 1. A mathesis considerada em si mesma **
4. Mathesis significa originariamente lição e ato de aprender, enquanto mathemata designa aquilo que pode ser aprendido, tornando decisiva a investigação acerca da essência da aprendizagem.
5. A aprendizagem somente adquire sentido ontológico quando os mathemata são compreendidos entre os diferentes modos de ser das coisas.
6. A aprendizagem constitui o reconhecimento antecipador do ser da coisa que já se encontra implicitamente conhecido, de modo que aprender significa reapropriar-se de uma familiaridade latente com aquilo que se pretende conhecer.
7. O matemático constitui a posição fundamental na qual as coisas são antecipadamente propostas segundo aquilo como que já se encontram dadas, funcionando como pressuposição originária de todo saber acerca delas.
8. A aprendizagem possui uma dimensão pragmática e outra ontológica, cuja articulação permite considerar em sua especificidade a pretensão matemática da ciência moderna.
** 2. Mathesis e ciência da natureza: interpretação heideggeriana das teorias do movimento em Aristóteles e Newton **
9. A pretensão matemática transforma a ciência da natureza ao modificar o modo pelo qual os fenômenos são admitidos, determinados e conhecidos.
10. A teoria aristotélica e a teoria newtoniana do movimento parecem inicialmente compartilhar a fidelidade ao que se manifesta, mas correspondem a modalidades radicalmente distintas de saber.
11. A ciência newtoniana prescreve antecipadamente aos corpos seu modo de aparecer, uniformizando os movimentos e submetendo-os a um espaço e a um tempo homogêneos.
12. A natureza deixa de ser princípio interno de repouso e movimento e torna-se domínio de objetivação.
13. A pretensão matemática fixa uma determinação da coisa que não é extraída da experiência da própria coisa, mas que antecede e possibilita todas as suas determinações, abrindo previamente o espaço no qual ela poderá aparecer.
14. O matemático confirma-se como pressuposição fundamental do saber das coisas.
15. A pressuposição matemática manifesta-se nos Discorsi de Galileu por meio da representação de um corpo lançado sobre um plano horizontal sem obstáculos.
16. O corpo representado por Galileu mover-se-ia de maneira uniforme e perpétua caso o plano se estendesse infinitamente.
17. A pretensão matemática assume a forma de um projeto que abre antecipadamente o horizonte da natureza e determina de antemão as modalidades segundo as quais as coisas poderão manifestar-se.
18. Os axiomas são proposições fundamentais que, no interior do projeto matemático, posicionam antecipadamente as coisas segundo seu fundamento.
19. A caracterização da física newtoniana como axiomática revela uma antecipação ontológica da coisa, embora seus axiomas não coincidam plenamente nem com as evidências euclidianas nem com os sistemas axiomáticos formais posteriores.
** 3. Uma dupla proveniência **
** A proveniência platônica **
20. O ato de representar em espírito consiste em produzir a partir de si mesmo o conhecimento das determinações das coisas, conforme a caracterização platônica da mathesis como extração e elevação do conhecimento a partir de seu próprio fundo.
21. A pressuposição fundamental do saber passa a ser acentuada como realização de um sujeito constituinte que não recebe passivamente o que se apresenta, mas posiciona o ente diante de si como objeto.
** A proveniência cartesiana **
22. A metafísica de Descartes fixa a experiência da presença como representação que retira de seu próprio fundo aquilo que propõe, fazendo do eu penso a base absoluta de todo saber e a medida segundo a qual as coisas podem ser determinadas como objetos reais.
23. A representação constitui a abertura ontológica do projeto matemático e corresponde a uma época historial da existência, mas sua capacidade de sustentar um projeto axiomático depende de sua própria constituição matemática.
24. O projeto cartesiano de uma mathesis universalis funda o matemático ontologicamente como modo de apreensão dos entes e o estabelece como norma de todo pensamento.
25. As Regras para a direção do espírito apresentam a fundamentação metafísica do matemático como conjunto de proposições fundamentais nas quais ele se submete à própria essência.
26. A mathesis universalis, por seu caráter axiomático, deve fundar-se em axiomas evidentes e dotados de alcance ontológico.
27. Os axiomas supremos do projeto matemático devem determinar antecipadamente o que significa ser, quais entes compõem a totalidade e como se estabelece a coisidade da coisa, seguindo tradicionalmente o fio condutor da proposição.
28. A interpretação ontológica atribuída a Descartes pode parecer incompatível com a acusação de que sua filosofia deixou indeterminado o sentido do ser, mas a proposição permanece decisiva para compreender a matematicidade da representação.
29. De Aristóteles a Descartes, o estatuto da proposição sofre uma transformação que possibilita a constituição do sujeito como fundamento ontológico da ciência.
30. Na tradição anterior, a proposição acolhia aquilo que se oferecia por si mesmo, conservando o que as coisas eram e funcionando como recipiente subsistente de seu ser.
31. A proposição tradicional recolhe um sujeito que se manifesta por si mesmo e possui uma subjectidade própria, anterior à representação e apresentada ao pensamento na forma do enunciado apofântico.
32. A pretensão matemática rejeita qualquer fundamento previamente dado e exige que a proposição produza seu próprio sujeito, assegurando-o como base absoluta mediante um ato de autoposição.
33. A dúvida cartesiana procura reenraizar a totalidade do saber em um fundamento absoluto caracterizado pela autopressuposição, de modo que o sujeito somente se constitui quando a proposição o antepõe sob a forma do eu penso.
34. A proposição eu sou, eu existo torna-se necessariamente verdadeira sempre que é pronunciada ou concebida pelo pensamento.
35. O eu sou encontra-se simultaneamente pressuposto e explicitado no eu penso, que constitui a base, o projeto e o fio condutor da investigação da totalidade dos entes.
36. A matematicidade da representação cartesiana determina a própria formação da consciência, pois o sujeito somente se constitui no horizonte do projeto matemático como operador ontológico do cálculo.
** 4. O absoluto matemático **
37. A definição do matemático como pressuposição fundamental do saber das coisas admite uma dupla interpretação, como acolhimento fenomenológico do ser da coisa e como decisão axiomática que determina antecipadamente esse ser.
38. A techne apresenta-se necessariamente como saber matemático na medida em que pertence à sua essência a possibilidade de ser aprendida, exigindo-se esclarecer como se pode ter acesso a essa possibilidade.
39. O matemático possui uma dupla determinação como reconhecimento daquilo que se manifesta por si mesmo e como antecipação axiomática daquilo que poderá aparecer.
40. As duas determinações do matemático podem ser desenvolvidas mediante a análise dos diferentes modos de funcionamento técnico.