(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:47)
Será necessário estabelecer a consistência do conceito de cálculo absoluto. Já fica claro que o cálculo só é absoluto na medida em que o poder da técnica é desdobrado até seu limite mais extremo — portanto, na medida da atribuição. O cálculo absoluto repousa na atribuição, e esta se explicita nas estruturas do cálculo absoluto. Há aqui um círculo que nos impõe um duplo percurso: estabelecer a consistência do cálculo absoluto retrocedendo até a atribuição; mostrar, inversamente, que a atribuição requer o cálculo absoluto. É por meio desse duplo movimento que o pensamento heideggeriano da técnica se revelará como pensamento do absoluto técnico.
Convém, em um primeiro momento, deter-se no matemático como tal: por meio da mathèsis, retomada em seu sentido grego de “ato de aprender”, Heidegger discerne uma pretensão ontológica: veremos como, a partir de Heidegger, o matemático fornece um fio condutor para compreender os funcionamentos técnicos. Em um segundo momento, é a noção de “cálculo absoluto” que deve ser rigorosamente estabelecida. Como a atribuição se deixa reconhecer por meio das estruturas do cálculo? Procuraremos mostrar que a própria possibilidade desse reconhecimento está inscrita na essência do matemático. A partir daí, não seria possível uma outra relação com a essência da técnica? A abertura da técnica ao seu limite — crescimento do perigo, mas também daquilo que salva —, Heidegger chama de “a virada”. Na virada, pressente-se a possibilidade de uma relação livre com a essência da técnica. Essa relação, Heidegger a chama de “Serenidade”. A Serenidade proporciona um acesso à poesia e à meditação, na medida em que é uma abertura para o incalculável. Será que tal abertura implica a superação do cálculo absoluto? Tentaremos mostrar que é o contrário que é verdade, e que, na disposição da Serenidade, a tecnologização do mundo deixa pressentir um mundo da tecnologia: ou seja, uma relação com a técnica que permite que a essência da técnica seja, uma relação que liberta a verdade do cálculo — o cálculo em sua verdade, a verdade como acesso ao incalculável.