Conhecimento

PINKAS, Daniel. La matérialité de l’esprit: la conscience, le langage et la machine dans les théories contemporaines de l’esprit. Paris: Éd. la Découverte, 1995.

** Funcionalismo, simulação e conhecimento tácito **

1. A controvérsia entre realismo e antirrealismo prolonga-se na questão das condições sob as quais se pode atribuir ao sujeito um conhecimento tácito das regras ou princípios formulados pelo psicólogo ao modelar capacidades cognitivas, sendo especialmente problemáticas as justificações de Fodor e Chomsky para inferir propriedades da vida mental a partir de modelos explicativos.

2. A explicação homuncular do ato de amarrar os sapatos imagina um pequeno agente interno que consulta instruções explícitas, executando-as sucessivamente por meio de mecanismos capazes de produzir os movimentos corporais correspondentes.

3. A sequência termina quando o homúnculo encontra uma instrução de encerramento, de modo que a ação completa resulta da execução ordenada de um programa interno que especifica passo a passo aquilo que deve ser feito.

4. Uma explicação homuncular torna-se metodologicamente ilegítima quando a decomposição nunca alcança operações suficientemente elementares para que deixe de fazer sentido perguntar como elas próprias são executadas, razão pela qual é necessário um princípio de composicionalidade capaz de interromper a regressão.

5. As operações complexas do sistema nervoso seriam realizadas por sequências de operações elementares, enquanto as próprias operações elementares não seriam realizadas de alguma maneira adicional, mas simplesmente executadas, permitindo interromper a proliferação regressiva de homúnculos.

6. Embora a descida até o nível neurofisiológico assegure em princípio que exista alguma decomposição causal real do comportamento, permanece extremamente difícil saber se os subsistemas postulados em níveis intermediários correspondem às articulações efetivas da organização nervosa ou apenas deslocam a circularidade explicativa para níveis inferiores.

7. A decomposição homuncular corre o risco de produzir um homúnculo diretor praticamente onisciente sempre que as tarefas atribuídas aos componentes periféricos são simplificadas sem que a complexidade explicativa total do sistema seja realmente reduzida.

8. Funções inferidas de relações entre entradas e saídas podem corresponder apenas a “reguladores virtuais”, pois sistemas complexos não garantem que cada função isolada pelo teórico possua uma estrutura interna única e individualizável que a realize.

9. Outra aplicação ilegítima da estratégia homuncular ocorre quando ela é estendida a fenômenos pertencentes a categorias inadequadas à análise intelectualista, pois saber fazer algo não implica necessariamente saber explicar como fazê-lo, e a distinção entre saber proposicional e saber-fazer exige determinar quais capacidades podem realmente ser reconstruídas em termos de regras explicitamente representadas.

10. A distinção entre traços e competências procura impedir que toda dimensão psicológica do comportamento seja convertida em um subsistema neuronal autônomo, pois uma explicação funcional da fala teria de diferenciar propriedades físicas, como altura ou ritmo, de características como sarcasmo, humor ou grosseria, cuja localização em módulos específicos parece conceitualmente duvidosa.

11. A consideração do sarcasmo como traço e não como competência evitaria postular um subsistema específico para ele, mas a distinção entre traços e competências permanece obscura em casos como a competência semântica, tornando incerto se seria legítimo postular um mecanismo interno correspondente ao “falar com sentido”.

** A atribuição de conhecimentos tácitos. O argumento de Fodor **

12. A defesa fodoriana do homuncularismo procura apoiar-se menos em princípios abstratos do que em resultados empíricos sobre os determinantes causais do comportamento, como os gradientes de textura utilizados na percepção de profundidade.

13. O problema decisivo consiste em justificar a passagem da constatação de que propriedades físicas como gradientes de textura influenciam estimativas perceptivas para a afirmação muito mais forte de que o sistema nervoso executa operações mentais inconscientes descritíveis como cálculos sobre esses gradientes.

14. Como o sistema nervoso medeia causalmente a relação entre gradientes de textura e percepção de profundidade, a posição fodoriana sustenta que suas operações devem satisfazer alguma descrição correspondente às operações nomologicamente necessárias e suficientes para que essa percepção ocorra.

15. A dificuldade não reside na impossibilidade lógica de aplicar predicados diversos a uma mesma entidade, mas na possibilidade de que verbos como “calcular” e “saber” mudem sistematicamente de significado quando aplicados respectivamente a uma pessoa inteira, a seu cérebro e a um computador.

16. A livre circulação de predicados psicológicos entre pessoas, cérebros e máquinas prolonga a tese chomskyana de que o locutor que domina uma língua pode ser descrito como alguém que possui ou conhece sua gramática, mas permanece sem justificação suficiente a transformação da relação entre uma pessoa e as regras teóricas explicativas de sua competência em uma genuína relação de conhecimento.

17. A tese de que um agente que emprega regularmente regras sem conseguir relatá-las necessariamente as conhece tacitamente corre o risco de ser circular, pois parece pressupor que a regularidade comportamental já demonstra o emprego das regras cuja presença deveria ser estabelecida.

18. Uma tarefa fundamental da psicologia consistiria em fornecer, para cada capacidade prática de um organismo, uma resposta explicitamente formulável à pergunta sobre como essa capacidade é produzida, construindo um programa capaz de simular o comportamento mediante uma sequência determinada de operações.

19. A estratégia descendente distingue-se da estratégia ascendente porque procura inicialmente determinar maneiras concebíveis de produzir uma capacidade, e não descobrir diretamente os mecanismos físicos que efetivamente a produzem no organismo.

20. A utilidade de programas de simulação para responder à questão de como uma competência é produzida depende de numerosas condições restritivas, pois a existência de um programa capaz de gerar um comportamento não garante que ele revele como o organismo efetivamente o produz.

21. Um organismo conheceria tacitamente a resposta à questão de como executar uma capacidade quando sua simulação ótima realizasse uma sequência de operações que constitui uma solução para essa tarefa, de modo que a especificação dessa sequência seria considerada uma formulação do conhecimento tácito do organismo.

22. Essa definição cria uma situação conceitualmente problemática porque permite inferir um fato sobre a vida mental do organismo a partir de um fato sobre uma máquina que simula seu comportamento, exigindo justificar qual espécie de inferência autoriza semelhante passagem.

23. A descrição em linguagem natural das regras ou instruções empregadas por uma máquina pode também constituir uma descrição causal da produção de sua saída quando uma sequência em linguagem de programação estabelece correspondência entre essas instruções e uma sequência efetiva de estados da máquina.

24. Uma simulação ótima exigiria que máquina e organismo possuíssem repertórios comportamentais correspondentes e que, para cada comportamento da máquina, fosse possível relacionar a sequência de estados que o produz a uma sequência de instruções descritíveis em linguagem natural.

25. A inferência das operações da máquina para processos tacitamente conhecidos pelo organismo poderia apoiar-se no princípio indutivo segundo o qual eventos do mesmo tipo provavelmente possuem etiologias semelhantes, reformulando a máxima heurística de que efeitos semelhantes autorizam, em condições adequadas, a postulação de causas semelhantes.

26. A noção de simulação ótima deve ser determinada pelo grau de adequação explicativa alcançado, e não simplesmente pela capacidade de reproduzir externamente o comportamento observado.

27. O repertório comportamental, e não uma performance isolada, constitui o objeto adequado da simulação explicativa, porque um fonógrafo pode reproduzir a fala de uma pessoa sem possuir aquilo que o falante é capaz de fazer nem produzir a fala da mesma maneira que ele.

28. Uma simulação explicativa requer pelo menos equivalência fraca, na qual máquina e organismo compartilham repertórios comportamentais relevantes inclusive em situações contrafactuais, e equivalência forte, na qual também os processos responsáveis pela produção desses comportamentos pertencem ao mesmo tipo.

29. Limitar-se aos resultados externos de um computador não basta para transferir predicados mentais à máquina nem para transformar a explicação da produção computacional de um comportamento em teoria da produção desse comportamento por um organismo, pois explicar é mais exigente que simplesmente gerar.

30. Modelos apenas fracamente equivalentes podem demonstrar que certos comportamentos descritos em níveis não físicos são materialmente realizáveis, mas essa “prova de existência” é muito mais modesta do que aquilo de que se necessitaria para atribuir conhecimentos tácitos aos organismos.

31. Exigir identidade completa entre máquina e organismo também tornaria a simulação inútil, pois uma criatura artificial não precisa reproduzir todos os aspectos humanos para contribuir à compreensão de capacidades particulares; o problema passa a ser determinar até que ponto a exigência de optimalidade pode ser relaxada sem que a analogia entre modelo e organismo se torne superficial.

32. A impossibilidade de deduzir a adequação explicativa a partir do mero sucesso da simulação não é excepcional, pois corresponde à subdeterminação normal das teorias científicas pelos dados, devendo simulações concorrentes ser avaliadas por critérios heurísticos, simplicidade e comparação global de méritos, sem procedimento mecânico de decisão.

33. A identidade de repertórios comportamentais não basta para a explicação psicológica, já que esta deve alcançar os processos subjacentes ao comportamento; mesmo a inclusão de tempos de reação, dificuldades relativas das tarefas e outros detalhes não assegura que máquina e organismo realizem processos do mesmo tipo.

34. Um programa só pode representar conhecimento tácito quando participa de uma simulação explicativamente ótima e fortemente equivalente ao organismo, o que desloca toda a questão para a determinação das condições sob as quais processos computacionais e processos orgânicos podem ser considerados membros da mesma classe.

** Crítica do argumento de Fodor **

35. A identidade de processos não pode exigir homogeneidade mecânica entre seus realizadores, pois o funcionalismo sustenta precisamente que a realização das mesmas operações é compatível com mecanismos fisicamente distintos; entretanto, recorrer à equivalência funcional apenas transfere o problema para a determinação da similaridade funcional relevante.

36. Uma simulação psicologicamente relevante deve exigir mais do que equivalência comportamental superficial e menos do que identidade física completa, mas afirmar que o nível apropriado de comparação se encontra entre esses extremos não fornece critério efetivo para validar atribuições de conhecimento tácito.

37. A proposta de identificar a equivalência forte com a realização do mesmo algoritmo procura abstrair tanto da linguagem de programação quanto da implementação física, mas permanece dependente de uma individuação suficientemente precisa dos próprios algoritmos.

38. Dois programas poderiam representar o mesmo processo cognitivo quando fossem exprimíveis pelo mesmo programa numa máquina virtual especificada pela teoria, mas a própria noção de máquina virtual carece de precisão suficiente e não existe método geral para distinguir propriedades essenciais e inessenciais dos programas em diferentes domínios.

39. A equivalência funcional entre máquina e organismo exige, no mínimo, uma similaridade ampla entre suas organizações psicológicas, pois um estado só pode ser funcionalmente equivalente a uma dor se mantiver relações correspondentes com motivações, tendências e demais estados, tornando impossível isolar a identidade funcional de um elemento da estrutura global do sistema.

40. A inferência fodoriana torna-se circular porque pretende concluir da simulação para a psicologia do organismo ao mesmo tempo que só pode considerar a simulação explicativamente válida quando já pressupõe uma correspondência psicológica suficientemente estreita entre máquina e organismo.

41. As grandes diferenças entre os repertórios atuais das máquinas e dos organismos fornecem pelo menos tanta razão para invocar causas diferentes de efeitos diferentes quanto para recorrer à máxima de causas semelhantes para efeitos semelhantes, impedindo que a explicação de como uma máquina produz seu comportamento seja automaticamente convertida em explicação do comportamento humano.

42. A tese de que um processo essencial a uma simulação deve possuir um equivalente funcional no organismo torna-se quase tautológica quando “equivalência funcional” permanece imprecisa, não havendo razão para equiparar a recusa dessa atribuição à rejeição geral de entidades teóricas na ciência.

43. A questão da existência de processos funcionalmente equivalentes nos organismos não pode ser tratada como problema puramente empírico enquanto permanecer indeterminado se a aplicação dos próprios predicados psicológicos e do conceito de equivalência funcional às máquinas depende de decisões terminológicas.

44. Uma tentativa de evitar a circularidade consiste em negar que os modelos computacionais sejam meras simulações e postular um nível funcional no qual cérebro e computador realizariam literalmente mecanismos do mesmo tipo.

45. A identidade funcional entre modelo e organismo seria justificada se ambos produzissem o comportamento pelos mesmos mecanismos abstratos e possuíssem estados correspondentes às mesmas estruturas cognitivas ou pensamentos, independentemente das diferenças de realização biológica.

46. A motivação materialista dessa estratégia é conciliar a eficácia causal atribuída aos estados mentais com o princípio de que apenas propriedades físicas locais possuem eficácia causal direta, distinguindo o conteúdo semântico das representações de suas propriedades materiais causalmente atuantes.

47. A solução computacional postula códigos simbólicos cuja sintaxe física reflete as distinções semânticas necessárias à explicação do comportamento, concluindo pela realidade psicológica desses códigos quando sua postulação fornece uma explicação coerente dos fenômenos, embora essa passagem permaneça filosoficamente controversa.

48. A investigação de Fodor evidencia a necessidade de esclarecer conceitos como simulação bem-sucedida, identidade de programas e equivalência funcional antes de transformar teses centrais do cognitivismo em hipóteses científicas genuinamente testáveis, pois a circularidade de suas justificações mostra que essas questões conceituais permanecem abertas.

49. Considerar apenas os sucessos das simulações computacionais como confirmações do cognitivismo e negligenciar seus fracassos produziria uma metodologia seletiva incapaz de avaliar corretamente a força evidencial dos modelos.

50. A atribuição fodoriana de conhecimentos tácitos parece ainda pressupor a própria manobra homuncular que deveria justificar, pois, uma vez aceito o procedimento, torna-se difícil explicar por que o conhecimento tácito do programa deveria ser atribuído ao organismo e não igualmente à própria máquina.

** Da “cognição” chomskyana **

51. A investigação científica da linguagem deveria primeiro caracterizar abstratamente a estrutura cognitiva adquirida pelo organismo, depois explicar como a experiência conduz a essa estrutura e, finalmente, identificar as realizações cerebrais dos objetos abstratos postulados.

52. Falar da mente significa falar do cérebro num determinado nível de abstração em que propriedades explicativamente relevantes podem ser identificadas sem descrição neurofisiológica imediata.

53. A aquisição linguística deve ser explicada como desenvolvimento de propriedades biológicas do sistema mente/cérebro, tratando a gramática como descrição abstrata de uma estrutura cerebral interna.

54. Conhecer uma língua corresponde a encontrar-se num determinado estado da faculdade cerebral da linguagem, ficando às neurociências a tarefa de descobrir os mecanismos físicos que realizam esse estado.

55. A linguística deve deslocar seu objeto da língua externalizada, concebida como conjunto de comportamentos ou produtos linguísticos, para a língua internalizada, entendida como sistema mental que sustenta a produção e a compreensão da linguagem e depende de uma dotação inata específica.

56. A crítica à concepção puramente extensional da língua como conjunto de pares som-sentido ou comportamentos possíveis é pertinente, mas não obriga a aceitar a identificação positiva da língua com uma estrutura mental interna, sobretudo porque os fenômenos externalizados continuam sendo a principal base observável da investigação linguística.

57. A gramática atribuída ao sujeito seria uma representação mental inconsciente, mas explicitamente codificada, e não uma estrutura meramente implícita no funcionamento global do sistema.

58. A queda de corpos mostra que regularidade e atividade governada por regras não são equivalentes, tornando necessário explicar por que a descrição chomskyana do domínio linguístico em termos de domínio inconsciente de regras não deveria ser generalizada indevidamente para fenômenos puramente físicos.

59. Transformar a conformidade sistemática a uma regra em evidência de que a regra é efetivamente empregada equivale a tratar o problema como uma inferência científica ordinária da confirmação para a verdade de uma hipótese, mas isso mistura o papel causal de mecanismos com a função normativa das regras.

60. Postular que todo falante que domina uma língua possui uma representação mental da gramática pode expressar menos uma descoberta estabelecida do que uma preferência por determinado ideal de explicação científica, especialmente se certos saberes práticos forem demasiado complexos para reconstruções intelectualistas completas.

61. Como um falante domina potencialmente uma quantidade indefinida de frases apesar de ter sido exposto apenas a um número finito delas, a descrição gerativa conclui que sua competência deve assumir a forma de um sistema de regras capaz de caracterizar intensionalmente esse conjunto ilimitado.

62. A realidade psicológica do formalismo parece evidente para a tradição chomskyana porque uma língua não pode ser aprendida mediante memorização de todas as suas frases possíveis, inferindo-se daí que a capacidade de produzir e compreender frases novas depende da interiorização de princípios gerativos.

63. A legitimidade da passagem das regras formuladas pelo linguista para regras seguidas pelo falante depende de três teses: uma regra pertencente à melhor teoria da competência é considerada constituinte da língua internalizada; uma regra necessária à melhor explicação de um comportamento linguístico é considerada seguida pelo sujeito; e princípios do estado inicial empregados na melhor explicação da aquisição podem ser considerados causalmente eficazes.

64. As críticas à posição chomskyana concentram-se na ambiguidade de “gramática”, que designa tanto o objeto cognitivo quanto a teoria linguística que o descreve, e na atribuição precipitada de realidade psicológica e eficácia causal às regras pertencentes à representação teórica desse objeto.

65. A defesa realista sustenta que a postulação de estruturas linguísticas não enfrenta dificuldades conceituais especiais diferentes das encontradas nas demais ciências e que, quando a melhor teoria converge com os dados, a atribuição de realidade e eficácia causal às entidades que ela postula não constitui hipótese suplementar.

66. Exigir evidências adicionais além do conjunto total de evidências disponível ou uma teoria melhor do que a melhor teoria existente seria uma exigência impossível, de modo que as indeterminações relevantes deveriam ser tratadas como formas ordinárias de subdeterminação empírica, não como ausência de qualquer fato objetivo a descobrir.

67. Mesmo concedendo legitimidade científica à postulação de regras, representações e operações computacionais internas, continua em aberto se tais estruturas devem ser descritas como conhecimentos ou crenças do sujeito e, sobretudo, se faz sentido atribuir a um recém-nascido conhecimento tácito de princípios extremamente abstratos da teoria linguística.

68. A tolerância terminológica chomskyana considera secundária a questão de chamar “regra” aos princípios gramaticais e “conhecimento” à relação do sujeito com eles, porque os termos ordinários seriam demasiado vagos para sustentar uma disputa substantiva.

69. Se “conhecimento” for reservado a estados relacionados à consciência, torna-se possível introduzir “cognição” como termo técnico para abranger estados inconscientes, regras e princípios inatos dos quais derivam conhecimentos linguísticos explícitos; alternativamente, pode-se ampliar o próprio termo “conhecimento” para incluir esses casos, tornando desnecessária a inovação terminológica.

70. A comparação entre “cognição” e termos técnicos da física é problemática porque conceitos físicos como força e massa recebem definições técnicas precisas, enquanto a cognição chomskyana é caracterizada como semelhante ao conhecimento apesar de carecer de quase todas as propriedades normalmente associadas a conhecer.

71. Tratar princípios teóricos extremamente abstratos como “regras” apenas porque possuem alguma semelhança com regras ordinárias pode constituir não uma pequena extensão conceitual, mas uma alteração incompatível com o emprego usual do conceito, assim como ampliar “círculo” para incluir quadrados destruiria o próprio critério de aplicação da palavra.

72. A pertinência de classificar a relação entre falante e gramática como conhecimento deve ser julgada pela comparação entre esses casos e exemplos não problemáticos de conhecimento, sendo a atribuição injustificada quando predominam diferenças relevantes sem razões independentes que exijam a extensão do conceito.

73. Casos típicos de conhecimento envolvem normalmente alguma possibilidade de reflexão sobre o conteúdo conhecido, disposição para afirmá-lo quando interrogado e capacidade de compreender enunciados que o exprimem.

74. A suposta cognição inata da gramática universal viola esses critérios ordinários, e simplesmente afirmar que essa violação caracteriza o caráter “tácito” do conhecimento não responde à questão de saber o que se ganha ao chamar estruturas internas de regras interiorizadas conhecidas pelo sujeito.

75. Uma possível condição para atribuir estados inconscientes consiste em que o sujeito possa, em circunstâncias apropriadas, reconhecer posteriormente como seu o conteúdo atribuído, como se pressupõe ocorrer com certos desejos e crenças inconscientes na situação psicanalítica.

76. A analogia entre conhecimento gramatical tácito e conteúdos psicanalíticos inconscientes dependeria de uma correspondente experiência de reconhecimento interno das regras, mas a validação de uma gramática gerativa exige deduzir laboriosamente consequências teóricas e compará-las com intuições linguísticas, sem que o falante reconheça diretamente a regra abstrata como algo que sempre soube.

77. O princípio que vincula intencionalidade e consciência exige que um estado mental inconsciente seja pelo menos potencialmente consciente, e sua aceitação excluiria como conteúdos mentais autênticos regras gramaticais ou inferências perceptivas que, por princípio, não podem tornar-se objetos da consciência do sujeito.

78. A divergência sobre os julgamentos de gramaticalidade pode ser entendida como uma disputa sobre sua genealogia: para Chomsky, eles atualizam conhecimentos adquiridos anteriormente e conservados tacitamente; para Stich, constituem conhecimentos novos produzidos quando o falante percebe a frase e forma um julgamento sobre ela.

79. A compreensão linguística pode ser caracterizada como percepção imediata de significações, e não como resultado consciente de inferências, reforçando a analogia entre julgamentos linguísticos e perceptivos.

80. A fenomenologia perceptiva dos julgamentos gramaticais não decide a questão contra o cognitivismo enquanto permanecer controversa a própria explicação da percepção, pois teorias perceptivas também divergem quanto à necessidade de inferências inconscientes.

81. A criatividade ilimitada do comportamento linguístico continua sendo utilizada para justificar a presença de regras tacitamente conhecidas que representam intensionalmente um conjunto indefinido de aplicações possíveis.

82. A tentativa de fundamentar o conhecimento tácito mediante deduções igualmente tácitas apoia-se na analogia computacional, segundo a qual processos mentais podem ser reconstruídos como transformações formais de representações cujas propriedades sintáticas determinam suas consequências causais.

83. A afirmação de que o falante conhece e segue regras gramaticais é considerada próxima do uso ordinário apenas depois de eliminar o aspecto normativo e teleológico normalmente associado às regras, mas essa eliminação torna problemático determinar o que ainda justifica chamar tais estruturas de regras.

84. Um algoritmo pode ser definido como conjunto de instruções completamente determinadas e suficientemente simples para execução mecânica, mas essa definição reabre a questão de saber em que sentido uma máquina que produz resultados formalmente corretos pode ser considerada como seguindo regras.

85. O fato de procedimentos recursivos poderem ser mecanizados não decide se a máquina literalmente calcula ou segue regras, pois também é possível dizer que ela apenas produz os resultados de cálculos, assim como um piano mecânico produz música sem necessariamente “tocá-la” no sentido aplicado a um músico.

86. A análise de Turing decompõe o cálculo humano em operações elementares mecanizáveis, permitindo combinar essas operações na execução de procedimentos arbitrariamente complexos.

87. Uma crítica wittgensteiniana sustenta que a noção formal de computação não constitui simples explicitação mais precisa do conceito ordinário de cálculo, mas um novo conceito cujo compartilhamento do mesmo nome pode ocultar a diferença entre procedimentos formais mecanizáveis e a prática normativa humana de calcular.

88. Um ser humano treinado apenas para manipular símbolos não interpretados segundo uma tabela formal poderia produzir resultados isomorfos aos da aritmética sem possuir a competência matemática de alguém que compreende números, operações e inferências.

89. Mesmo produzindo corretamente resultados aritméticos, esse executor mecânico careceria das capacidades integradas à compreensão matemática ordinária, mostrando que conformidade formal com uma regra não é suficiente para possuir a competência caracterizada pela regra.

90. A analogia do portão escolar mostra que impedir mecanicamente uma transgressão não equivale a fazer cumprir uma regra: quando o mecanismo torna fisicamente impossível agir de outro modo, a dimensão normativa da obediência perde sua função.

91. Ser causalmente impedido de violar uma regra não constitui obedecer a ela, razão pela qual a conformidade produzida por um mecanismo não fornece por si só uma concepção robusta de seguir regras.

92. A objeção à distinção entre calculador humano e máquina pode sustentar que as capacidades intencionais empregadas como critérios da diferença sejam elas mesmas produtos de processos computacionais, impedindo que se presuma antecipadamente sua irredutibilidade à computação.

93. A oposição entre a concepção chomskyana e a concepção wittgensteiniana torna-se radical porque regras ordinárias são normas públicas cuja aplicação correta admite acordo e desacordo, enquanto as regras chomskyanas podem ser estruturas privadas hipoteticamente atribuídas a estados mentais inacessíveis à consciência.

94. As regras gramaticais possuem na teoria chomskyana um duplo estatuto: são formalmente regras de reescrita e, simultaneamente, fatores causalmente eficazes, pois uma competência inteiramente desconectada da produção concreta do comportamento linguístico perderia sua função explicativa.

95. Embora a teoria da competência seja explicitamente distinguida de uma teoria causal do comportamento e se negue que o comportamento seja simplesmente causado pelo conhecimento linguístico, as regras da melhor teoria continuam recebendo algum papel causal para que a performance possa ser considerada exercício da competência.

96. A teoria da competência apresenta, assim, caráter híbrido, combinando preparação para uma explicação causal futura com uma dimensão não preditiva que pode refletir justamente o caráter normativo da prática linguística.

97. A passagem da possibilidade formal de construir uma derivação para a afirmação de que o falante realmente executa uma derivação equivalente constitui outra manifestação da possível confusão entre causas e razões.

98. A capacidade de uma criança para falar corretamente não obriga a atribuir-lhe a construção inconsciente de uma teoria gramatical abstrata, assim como a capacidade de executar operações aritméticas elementares não implica que a criança tenha reconstruído fundamentos lógico-conjuntistas da aritmética.

99. O funcionalismo enfrenta inevitavelmente uma passagem delicada do possível para o atual sempre que, depois de identificar uma entidade abstrata multiplamente realizável, procura determinar qual estrutura concreta a realiza no organismo.

100. Uma reconstrução gramatical pode fornecer uma razão sistemática que justifica uma interpretação linguística sem reproduzir a causa histórica ou psicológica que efetivamente conduziu o falante àquela compreensão.

101. Duas questões permanecem decisivas para o programa chomskyano: se a impossibilidade de memorizar todas as frases de uma língua realmente implica a interiorização de princípios que geram as frases possíveis e se a utilização de regras explicitamente representadas não exige um mecanismo interpretador adicional que reintroduziria o próprio homúnculo que a teoria pretendia eliminar.

102. A ausência atual de alternativas empíricas satisfatórias às representações internas e às regras tacitamente seguidas não basta para dissolver as dificuldades conceituais levantadas contra essas noções, pois invocá-las sem explicitar adequadamente seu sentido corre o risco de apresentar como solução precisamente aquilo que necessita de explicação.

103. Uma interpretação mais favorável das abordagens descendentes pode sustentar que elas não inferem ingenuamente a realidade a partir da mera possibilidade, mas partem da existência efetiva das capacidades humanas para investigar sistematicamente quais soluções seriam capazes de realizá-las.

104. A construção efetiva de sistemas capazes de processar imagens ou executar tarefas motoras artificiais revela dificuldades inerentes às próprias tarefas que não seriam percebidas pela contemplação abstrata, permitindo obter conhecimento sobre restrições funcionais relativamente independentes dos detalhes estruturais dos mecanismos particulares.

105. A exploração sistemática do espaço das soluções possíveis aposta que compreender as maneiras pelas quais uma capacidade poderia ser realizada ajudará a descobrir como a natureza efetivamente a realiza, permanecendo simultaneamente difícil dispensar completamente os instrumentos conceituais computacionais e justificar seu uso com toda a precisão filosófica desejável.

106. O problema do homúnculo reaparece inevitavelmente nas explicações teleológicas e evolucionistas, pois também nelas certas formas de antropomorfização funcional parecem indispensáveis para ultrapassar a mera descrição molecular e tratar de seleção, efeitos fenotípicos e funções biológicas.