Pinkas

Daniel Pinkas

PINKAS, Daniel. La matérialité de l’esprit: la conscience, le langage et la machine dans les théories contemporaines de l’esprit. Paris: Éd. la Découverte, 1995.

1. Em 1842, quatro jovens fisiologistas em Berlim, incluindo Hermann von Helmholtz, redigiram um manifesto materialista, jurando com sangue que apenas forças físicas e químicas agem sobre o organismo, um ato de natureza quase religiosa que contrasta com o conteúdo explícito do juramento, servindo como emblema da ambivalência humana em relação à compreensão objetivante da natureza.

2. Essa ambivalência, nutrida por uma aspiração nostálgica a uma verdade última, pode manifestar-se de forma localizada ou, mais centralmente, como “scientismo”, onde a convicção na validade universal de uma explicação se impõe por motivos irracionais, utilizando diversos expedientes persuasivos e partindo, na maioria das vezes, de uma verdade condicional.

3. Descartes é considerado uma figura central não por uma manobra filosófica, mas por ter enfrentado radicalmente o conflito entre a “imagem manifesta” do mundo, que inclui a categoria de pessoa, e a “imagem científica”, que concebe o homem em termos de entidades teóricas; sua posição dualista, que distingue a coisa pensante (mente) da coisa extensa (corpo), é amplamente considerada indefensável devido ao problema da interação entre as duas substâncias.

4. A situação atual do problema mente-corpo é incomum, pois o favor ao fisicalismo coexiste com uma incerteza sobre seu conteúdo, sendo necessário compreender que o dualismo é um erro filosoficamente profundo para resistir à sua tentação, o que exige entender sua gênese na doutrina da subjetividade das qualidades secundárias.

5. Mesmo em um futuro com avanços neurocientíficos, a correlação entre dados cerebrais e estados mentais não dissiparia o “fosso” entre os dois domínios, porque as propriedades do conteúdo da experiência, como as qualidades imaginadas de um objeto, não são encontradas no cérebro e parecem exigir um “espaço fenomenal” ou uma alma para subsistir.

6. A atribuição de estados mentais conscientes a uma máquina inteligente não resolveria a insatisfação, pois persistiria a dúvida sobre se ela possui uma “perspectiva em primeira pessoa” ou se é apenas uma contrafação habilidosa, de modo que dois tipos de considerações levam o dualista a fazer da distinção entre o eu consciente e o cérebro uma distinção superlativa.

7. Há mais de uma concepção de mente compatível com a rejeição do dualismo cartesiano, e a história recente da filosofia da mente analítica é a busca por uma forma aceitável de materialismo, dividindo-se em duas atitudes principais: uma abordagem conceitual, a priori, ligada a Wittgenstein e Ryle, e uma abordagem naturalista, dependente das ciências empíricas, inspirada por Quine.

8. Rorty argumenta que a contribuição central da Segunda Revolta é contestar a ideia de que sabemos o que é a mente por introspecção, negando a existência de “fatos iniciais” pré-linguísticos, o que teria transformado a filosofia da mente e permitido uma colaboração com outras ciências.

9. O livro está dividido em oito capítulos, começando com a análise do behaviorismo lógico no primeiro capítulo, que trata da ideia de que termos mentais designam propriedades disposicionais do comportamento, e busca reabilitar a ênfase nos laços lógicos entre atribuições mentais e descrições do comportamento.

10. O segundo capítulo examina as versões contemporâneas da tese da identidade entre estados mentais e cerebrais e a teoria causal da mente, enfrentando o dilema de que a identidade só é compreensível se um mesmo evento for identificado por dois conjuntos de propriedades, o que leva ou ao dualismo de propriedades ou à ausência de um fenômeno mental a ser identificado.

11. O terceiro capítulo é dedicado ao funcionalismo, que individualiza estados mentais por sua função em um sistema de processamento de informações, abordando as formas clássicas (“maquínico” e “psicofuncionalista”) e focando no desenvolvimento e nas mutações do funcionalismo na obra de Hilary Putnam.

12. O quarto capítulo enfrenta os argumentos antirreducionistas e cartesianos derivados da subjetividade das experiências conscientes, examinando os argumentos de Nagel, Jackson e Kripke, bem como as respostas padrão, e propõe considerações para enfraquecer o apelo das intuições cartesianas.

13. O quinto capítulo retoma a questão dos aspectos qualitativos da experiência consciente, dando ênfase à forma como ela se coloca para os defensores do funcionalismo, como Lewis, Shoemaker e Dennett.

14. O sexto e o sétimo capítulos abordam a intencionalidade dos estados mentais, com o sétimo examinando o funcionalismo “homoncular” e debatendo se essa estratégia resolve o “problema de Hume” (a circularidade ou regressão infinita ao postular representações mentais) e se deve-se distinguir a explicação da inteligência da explicação da intencionalidade.

15. O sétimo capítulo também aborda a legitimidade das atribuições de conhecimento “tácito” a um organismo na estratégia homuncular, criticando as justificativas de Fodor e Chomsky e propondo restrições para a construção de modelos nas ciências cognitivas, questionando a “livre circulação” de atributos pessoais.

16. O último capítulo examina os fundamentos da concepção teleológica da mente, baseada na evolução darwiniana, partindo de análises clássicas da função biológica para delinear o darwinismo de Dennett, considerado o funcionalista teleológico mais significativo.

17. Ao examinar as concepções dominantes das últimas cinco décadas na filosofia da mente, a obra espera contribuir para as pesquisas que buscam uma compreensão de nós mesmos que seja coerente e esteja de acordo com nosso lugar na natureza.