PINKAS, Daniel. La matérialité de l’esprit: la conscience, le langage et la machine dans les théories contemporaines de l’esprit. Paris: Éd. la Découverte, 1995.
1. O interesse dos filósofos da mente pela teoria darwiniana da evolução por seleção natural tem experimentado variações periódicas, e as dificuldades enfrentadas pelas teses dominantes da filosofia analítica da mente em explicar as propriedades intencionais e fenomenais levaram a uma revisão do funcionalismo, que agora busca compreender esses estados em termos de sua função biológica e história evolutiva.
2. Hempel, em sua análise da estrutura lógica da explicação funcional, caracteriza-a como a tentativa de explicar uma regularidade comportamental determinando o papel que ela desempenha na manutenção de um sistema, e propõe um esquema de argumento onde a função de um item é explicar sua presença pelo efeito que contribui para a satisfação de um requisito funcional do sistema.
3. Hempel conclui que o esquema funcional não é logicamente válido, pois a presença do item não pode ser deduzida da necessidade de sua função, a menos que se postule sua indispensabilidade funcional, um postulado empiricamente problemático devido à possibilidade de “equivalentes funcionais”, o que limita o poder preditivo e explicativo da análise funcional.
4. Hempel defende que a análise funcional deve ser reformulada em termos nomológicos para ser científica, e que seu caráter especial deriva apenas da associação metafórica com a noção de propósito, que se torna ilegítima fora do domínio da ação consciente, e que a circularidade da análise só é evitada por hipóteses testáveis de autorregulação.
5. Nagel, similarmente, acredita que enunciados teleológicos podem ser reformulados sem perda de conteúdo factual em uma linguagem não teleológica, mas Cummins argumenta que essa “tradução” sacrifica generalizações importantes, pois a caracterização intrínseca dos estados não é coextensiva com a caracterização teleológica, e as evidências que confirmam uma não coincidem com as da outra.
6. Cummins rejeita os postulados de que o objetivo da análise funcional é explicar a presença do item e que sua função é definida por seus efeitos no sistema, propondo em vez disso que a análise funcional tem um papel analítico: explicar as capacidades de um sistema decompondo-as em capacidades mais simples de suas partes, uma estratégia que é legítima independentemente de considerações evolutivas.
7. Na estratégia analítica, a função de uma parte é a capacidade que ela contribui para explicar a capacidade mais complexa do sistema, e o valor explicativo da análise é proporcional à distância entre a complexidade das capacidades analisantes e analisadas, mas a abordagem de Cummins, ao evitar a teleologia, é criticada por não conseguir distinguir funções reais de efeitos acidentais, permanecendo minimalista.
8. Wright argumenta que a abordagem de Cummins é insatisfatória porque uma análise funcional, para ser bem-sucedida, deve ser “unificante” (aplicar-se tanto a artefatos quanto a organismos) e deve distinguir funções de efeitos acidentais, e essa distinção é feita por uma cláusula etiológica: a função de X é Z se e somente se X está presente porque faz Z, e Z é uma consequência da presença de X.
9. Millikan introduz a noção de “função própria” (proper function), que é o efeito para o qual um traço ou órgão foi selecionado ou projetado, e que depende da história ou genealogia do item, não de suas propriedades disposicionais. A função própria é normativa, pois permite a distinção entre funcionamento e disfunção, e é a razão pela qual o item foi selecionado e reproduzido.
10. A função própria de um artefato é determinada pelas intenções de seus projetistas, enquanto a de um item biológico é determinada pela seleção natural, e essa noção é considerada fundamental para explicar a natureza de fenômenos que têm funções, incluindo estados mentais, comportamentos e signos linguísticos, cuja compreensão exige o conhecimento de sua função.
11. A explicação teleológica em biologia é legitimada por sua conexão com processos seletivos, onde a seleção natural opera como uma “seleção por consequências”, similar à seleção consciente, e entidades que devem sua origem e forma à seleção diferencial são candidatas a explicações teleológicas, uma ideia que enfrenta o desafio de definir um limiar de complexidade para sistemas teleológicos.
12. O princípio de variação e retenção seletiva é ubíquo, aparecendo na lei do efeito do behaviorismo, na resolução de problemas do cognitivismo, na epistemologia evolucionista de Popper, e é visto por Dennett como uma única restrição teórica operando em diferentes níveis, onde a seleção natural não explica apenas a adaptação de traços, mas também a própria capacidade de aprender.
13. Dennett descreve a evolução de criaturas “skinnerianas”, que aprendem por tentativa e erro no ambiente externo, para criaturas “popperianas”, que podem testar hipóteses em um ambiente interno, um processo que culmina na ideia do cérebro como uma “máquina darwiniana”, onde novas estruturas evoluem, são revisadas e selecionadas em uma escala de tempo rápida.
14. O darwinismo de Dennett é uma tentativa de escapar do “dilema da intencionalidade” (não podemos prescindir da intencionalidade, mas uma psicologia puramente intencional é insatisfatória), e a seleção natural fornece um modelo não regressivo para explicar a finalidade e o design na natureza, que é materialista e, portanto, atraente para uma psicologia científica.
15. A estratégia intencional de Dennett é solidária ao programa adaptacionista em biologia, que busca a significação funcional de traços, e ambos são “posturas” interpretativas que organizam dados e geram perguntas, e a crítica de que o adaptacionismo pode gerar explicações ad hoc é atenuada pela constatação de que a estratégia funciona com frequência gratificante.
16. Dennett argumenta que as atribuições de funções em biologia e de conteúdos mentais em psicologia são ambas “interpretativas” e sujeitas à indeterminação, pois não há um “manual de referência último” que determine funções ou significados verdadeiros de uma vez por todas, e essa indeterminação é uma característica inescapável da abordagem adaptacionista e intencional.
17. A “teleossemântica”, que tenta determinar o conteúdo de representações mentais por sua função biológica normal, é criticada por Dennett por pressupor uma forma de realismo sobre conteúdos que é incompatível com o holismo interpretativo, e por sua circularidade, pois as condições “normais” ou “ótimas” de funcionamento de um dispositivo só podem ser especificadas se já conhecermos seu conteúdo.
18. A função biológica da consciência tem sido objeto de especulação desde Darwin, com James argumentando que ela serve para estabelecer metas e selecionar interesses, sendo um “combatente por fins”, mas a própria noção de consciência como um explanandum unitário e coerente para uma disciplina científica é questionada, e sua explicação evolutiva pode ser inviável.
19. Dennett postula uma “intencionalidade da Mãe Natureza” como uma fonte não representacional e cega de nossos poderes de representação, e a justificativa para uma caracterização psicológica minimalista de organismos é que, se eles têm necessidades e exploram pistas ambientais, a imputação de crenças e desejos se torna irresistível, e a racionalidade decorre necessariamente da evolução por seleção natural para organismos complexos.