Proximidade e diferença com a crítica bergsoniana da “espacialização”.
Função da filosofia para
Whitehead: crítica das abstrações que governam modos de pensamento particulares.
Abstrações são ferramentas para controlar nossa noção dos fatos concretos, com modos próprios de fabricação e ação.
O erro não está na bifurcação ou na localização em si (são operações abstrativas legítimas e eficazes), mas na sua reificação.
“Concreto mal colocado” (fallacy of misplaced concreteness): confundir a abstração com a realidade concreta, tomar o produto de um processo por sua origem.
Exemplo: transformar a entidade abstrata (ponto localizável), que é uma necessidade metodológica, no substrato metafísico da natureza.
Toda a filosofia moderna (dualistas, monistas materialistas, monistas idealistas) debate-se dentro do espaço criado pela bifurcação, confirmando-a ao tentar superá-la.
Para Além da Bifurcação: A Natureza como Evento
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Solução inicial de
Whitehead (em
Le Concept de nature): uma abordagem fenomenológica da natureza.
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Decisão metodológica: “A natureza é o que observamos na percepção pelos sentidos.”
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Método empírico radical: não excluir nada da experiência imediata, não acrescentar elementos externos.
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Tudo o que conhecemos da natureza está “no mesmo barco”.
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O fato imediato para a consciência sensível é a “ocorrência total da natureza” ou “natureza como evento”.
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Tudo é evento: a noção de evento torna-se central.
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Evento como ocorrência singular e única (ex: acidente em Chelsea).
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Evento como persistência (ex: o Obelisco de Cleópatra). A persistência é uma “trajetória histórica” de microeventos.
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Evento como correlação objetiva (ex: linhas escuras no espectro solar). As teorias científicas são eventos de correlação.
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Os eventos são reconhecidos por meio de “objetos” (objetos eternos): qualidades, formas, sensa (cores, sons) que não passam, mas são experimentados localmente em cada evento.
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Os objetos são reconhecidos em ocasiões específicas; os eventos são ocasiões para a experiência dos objetos.
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Esta teoria dos eventos da natureza, baseada na percepção, oferecia um caminho inicial para superar a bifurcação, reunindo o abstrato e o fenomênico no plano da experiência.
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Limites da Abordagem Fenomenológica e Virada Metafísica
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A solução fenomenológica de Le Concept de nature dependia de uma exclusão deliberada de questões metafísicas.
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A decisão de limitar a investigação à experiência perceptiva era heurística, visando reorganizar a física especulativa.
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No entanto, a própria análise apontava para além de si mesma, para a questão dos entes que compõem a natureza.
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Whitehead reconhece que essa limitação é frustrante e artificial para a filosofia.
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A necessidade de uma fundamentação mais profunda levará
Whitehead, em obras posteriores como
Procès et réalité, a desenvolver uma metafísica geral (filosofia do organismo).
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A superação completa da bifurcação exigirá não apenas uma fenomenologia da natureza, mas uma metafísica que dê conta da experiência em toda a sua amplitude, incluindo a subjetividade, a valorização e a criatividade no coração da natureza.