Noção primária: o “múltiplo” (many) transmite a noção de “diversidade disjuntiva”.
O “múltiplo” é composto apenas por seres em ato (actual entities). Nada existe como pura possibilidade.
Este múltiplo atual só se torna potencialidade quando envolvido numa individuação: o ato torna-se poder, o real torna-se o possível.
Potencial e real não são diferenças ontológicas, mas relativas à situação: potencial é ação engajada em outra entidade.
O “múltiplo” é a primeira dimensão do ser: a multiplicidade disjuntiva das entidades atuais enquanto constitui uma potencialidade para novas individuações.
Individuação como Captura: A Preensão
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Termo do latim prehendere: capturar, apropriar-se.
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Não é uma relação entre indivíduos já constituídos (sujeito-objeto), mas a atividade constitutiva das próprias entidades atuais.
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Tradução mais precisa: “apropriação”, pois envolve integração numa nova existência, uma transformação que move elementos para uma interioridade.
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As entidades atuais são centros de preensão; seu ser identifica-se com sua captura de outras entidades atuais.
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Leitura de Deleuze (em
O Dobre):
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Conexão entre preensão e diversidade disjuntiva (caos).
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A preensão opera como uma “peneira” (screen, crible) que permite a passagem do múltiplo (caos) para a unidade de uma “certa singularidade”.
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Exemplos intuitivos: o olho preende a luz; os seres vivos preendem água, solo; a pirâmide preende os soldados de Napoleão.
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Crítica à leitura de Deleuze e Wahl:
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Eles identificam erroneamente “entidades atuais” com “eventos” concretos da experiência.
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Em
Whitehead, as entidades atuais são “abstratas”, “microscópicas”, não objetos da experiência. Os “eventos” concretos são as “sociedades”.
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Os exemplos (pirâmide, olho) são incentivos para um “salto imaginativo” rumo à abstração, não descrições literais da preensão.
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Definição especulativa: preensão é um “vetor”; efetua a passagem de uma realidade “lá” para uma realidade “aqui”, integrando a diversidade disjuntiva na “constituição interna real” de uma nova entidade atual.
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É essencialmente unificadora: produz uma unidade de existência, uma perspectiva sobre a totalidade do que existe.
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Uma Economia Diferente do Sujeito e do Objeto: Objetificação
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Distinção funcional (não ontológica) no processo de individuação:
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“Objetos”: entidades que já existem, que compõem a diversidade disjuntiva.
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“Sujeito”: a nova entidade em processo de concrescência.
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Ambos são entidades atuais; a distinção é relacional e funcional.
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Problema central: o que significa um objeto estar presente num sujeito? Resposta: “objetificação”.
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O conceito de “objetificação” é inspirado numa releitura de
Descartes (
Respostas às Objeções).
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Descartes distingue existência “formal” (a coisa em si, fora do intelecto) e existência “objetiva” (a coisa tal como existe no intelecto).
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Whitehead transpõe essa distinção para o plano das entidades atuais: uma entidade tem existência formal (em si) e existência objetiva (em outras entidades que a preendem).
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Esta noção questiona radicalmente o “princípio de localização simples” da ciência moderna: uma entidade pode estar objetivamente localizada em múltiplos lugares ao mesmo tempo (nas preensões de outras entidades).
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Individuação pode ser explicada como a passagem contínua do ser formal ao ser objetivo.
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A Certeza do Sentir (Feeling) e a Gênese do Sujeito
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Outro empréstimo a
Descartes (
Meditações): a certeza indubitável do “sentir” (
sentire). Podemos duvidar dos objetos, mas não do fato de que sentimos.
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Whitehead adapta: “Um sentir é a apropriação de alguns elementos no universo para serem componentes na constituição interna real de seu sujeito.”
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“Sentir” (feeling) e “preensão” são conceitos muito próximos, mas com ênfases contextuais diferentes:
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“Preensão” enfatiza a operação de apropriação e captura a partir da perspectiva da diversidade disjuntiva.
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“Sentir” enfatiza a experiência dessa diversidade tal como integrada pelo sujeito, a gênese do sujeito a partir de seus “ingredientes”.
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O problema do “sentir” refere-se, em última análise, à questão do sujeito, sua gênese e seu modo de existência.