Causas

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

As quatro causas como obrigações, como preparação do terreno

1. Heidegger começa repetindo os nomes e o modo comum de considerar as quatro causas da mudança ou do movimento, a saber, a matéria, a forma, o agente (ou causa eficiente) e o fim ou propósito (a causa final), exemplificadas pelo caso prototípico de uma estátua.

2. Heidegger sustenta que os antigos não entendiam por “causa” (Ursache) aquilo que hoje entendemos pelo termo, oferecendo uma interpretação radical da doutrina das quatro causas que atinge a raiz, a compreensão básica de causalidade subjacente à promulgação das quatro causas.

3. A compreensão contemporânea de causalidade equivale basicamente a isto: uma causa é aquilo que, por sua própria ação, produz um efeito.

4. De fato, apenas uma das quatro causas, a chamada causa eficiente, seria hoje reconhecida como causa, sendo a interpretação comum de Aristóteles a de que este incluiu em sua teoria o que entendemos por causa apenas no conceito de causa eficiente, tendo incluído os demais fatores da mudança sob um conceito ampliado e não unívoco de causa.

5. A posição de Heidegger é a de que, para Aristóteles, as quatro causas são todas causas no mesmo sentido, sentido que não corresponde a nada que hoje chamamos de causa, não sendo sequer a chamada causa eficiente, em Aristóteles, aquilo que hoje entendemos por esse termo, já que os gregos não conhecem o conceito de eficácia ou agência como imposição de uma forma sobre uma matéria.

6. Para que as quatro causas possam ser causas no mesmo sentido, Heidegger sustenta que a distinção aristotélica entre matéria e agente não é a distinção entre passividade e atividade, não sendo a matéria aquilo que é imposto nem o fabricante aquele que impõe.

7. Heidegger exprime essa interpretação da causalidade dizendo que as causas são, para Aristóteles, as condições às quais a coisa produzida está obrigada (verschuldet), sendo a obrigação (Verschulden) o conceito comum pelo qual todas as quatro causas o são no mesmo sentido, ainda que cada uma obrigue a coisa a uma condição diferente.

8. O termo alemão de Heidegger é Verschulden, derivado da palavra corrente para “culpa” (die Schuld), possuindo largo espectro de sentidos, dos quais apenas um matiz particular é aqui invocado.

9. O matiz buscado por Heidegger talvez se exprima em nossa expressão coloquial de gratidão, “muito obrigado” (Much obliged), pela qual significamos que outra pessoa nos fomentou de algum modo, sem que devamos a ela tudo o que somos ou fizemos, nem que ela tenha sido totalmente passiva.

10. Esse é o matiz que Heidegger tenta exprimir: as quatro causas são modos de coadjuvar (Vorschub leisten).

11. A diferença fundamental entre a compreensão aristotélica de causa e a nossa compreensão atual é, portanto, aquela entre nutrição e força, entre deixar (Lassen) e constrangimento, entre coadjuvar e compelir, razão pela qual para Aristóteles pode haver quatro causas e para nós apenas uma.

12. As quatro causas são, portanto, todas causas em virtude de serem obrigações da coisa produzida, a qual lhes está “muito obrigada” (Verschuldet), não possuindo, contudo, causa eficiente no sentido de um agente externo ao qual deva tudo, pelo qual tenha sido compelida a existir.

13. Dessa leitura surgem imediatamente duas questões gerais: em primeiro lugar, onde em Aristóteles Heidegger encontra essa compreensão da causalidade, isto é, qual é a base textual, no corpus aristotélico, para sua interpretação; em segundo lugar, onde em Heidegger se encontra que essa é de fato sua compreensão, isto é, qual é a base textual, em Heidegger, para essa interpretação de Aristóteles — questões que não são de modo algum óbvias, sobretudo a quem não empreenda a leitura mais atenta possível.