Des-encobrir

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

O trazer-à-frente como desvelamento

1. Heidegger responde à pergunta pelo que é, em última análise, a técnica antiga oferecendo duas caracterizações finais do trazer-à-frente ou produzir tal como os gregos o entendiam: o deixar ativo concerne à presença daquilo que, em cada caso, é trazido a se mostrar no trazer-à-frente, o qual traz algo do velamento (Verborgenheit) para o desvelamento (Unverborgenheit), ocorrendo apenas na medida em que algo velado vem ao desvelamento.

2. O sentido de produzir ou trazer-à-frente aqui invocado — o trazer algo do velamento, fazê-lo mostrar-se no desvelamento — é exatamente o que se entende ao falar de “produzir testemunhas” num tribunal, o que não significa criá-las, fabricá-las para a ocasião, trazê-las ao ser a partir do não ser, mas apenas conduzi-las à frente, sentido etimológico mesmo de “pro-duzir” (“puxar para frente”, “conduzir para frente”, Hervorbringen).

3. Essa noção de produzir como conduzir à visibilidade para que todos vejam (e não fazer ex nihilo) resume perfeitamente a visão heideggeriana da causalidade antiga e da técnica antiga tal como vinha sendo apresentada: trazer à visibilidade nada mais é que coadjuvar, encorajar, nutrir.

4. Esse sentido de coadjuvar tem estado em jogo em toda a lista de termos oferecida por Heidegger para expor o sentido da causalidade antiga e da técnica antiga: obrigar, preparar o terreno, deixar, deixar ativo, deixar até o fim, trazer-à-frente, pro-duzir (como agora se traduziria poiesis) e nutrir (para exprimir os processos da natureza e assim traduzir physis).

5. O termo alemão é Entbergen; uma tradução menos coloquial seria “desenterrar” ou “desencobrir”, vertida na tradução publicada como “revelar” (to reveal).

6. Essa palavra grega que, segundo Heidegger, exprime o que ele chama Entbergen, é ἀλήθεια (aletheia): o trazer-à-frente ocorre apenas na medida em que algo velado vem ao desvelamento, vir esse fundado e que transcorre dentro daquilo que chamamos Entbergen, palavra grega que os romanos traduzem por veritas, e que dizemos em alemão die Wahrheit, entendida ordinariamente como a correção de uma representação.

7. Para Heidegger, algo se perdeu na tradução do termo grego aletheia pelo latim veritas ou pelo alemão Wahrheit, ambos significando “verdade”, palavra que também haveria de contar como versão empobrecida do que os gregos exprimem ao falar de aletheia.

8. No plano mais superficial, a ocorrência desse evento se reflete na diferença entre o sentido negativo do termo grego e as palavras positivas modernas: os gregos exprimem com uma expressão negativa (a-letheia: “des-velamento”, “não-ocultamento”) o que as línguas ocidentais modernas exprimem sem qualquer conotação negativa (“verdade”).

9. Hoje concebemos a verdade como assunto humano: a correspondência de nosso intelecto às coisas, residindo a verdade num juízo, não havendo verdade sem juízo, existindo quando um sujeito humano forma um juízo correspondente a algum estado de coisas objetivo.

10. Para agirmos sobre qualquer coisa, estarmos em qualquer relação com qualquer ente, este deve ter-se-nos desvelado de antemão o que significa ser um ente em geral, de outro modo sendo a ação totalmente cega, pois não teríamos senso de nós mesmos nem dos entes distintos de nós.

11. Pode-se ver agora, talvez, algo do que Parmênides quer dizer ao chamar a verdade de deusa: para Heidegger, a palavra grega para “deusa”, θεά (thea), está intrinsecamente relacionada à palavra para o olhar, θέα (thea), sendo uma deusa aquela que, de modo especial, olha para nós.

12. Heidegger reconhece duas formas de olhar: a familiar a todos nós, o olhar que apreende, escrutina ou inspeciona algo; mas esse olhar repousa, para Heidegger, sobre uma forma mais primordial de olhar que não envolve fitar, consistindo antes quase no oposto — mostrar-se, sair à luz, oferecer-se ao olhar.

13. Para Heidegger, a experiência grega de uma verdade mais primordial exprime-se perfeitamente na palavra negativa a-letheia, dando os gregos voz, ao falar da verdade como “des-velamento”, à sua experiência dos entes em geral como tendo saído de um velamento mais original.

14. O desvelamento ocorrido a respeito das coisas — isto é, a verdade — é, portanto, para os gregos, primariamente assunto do ser, não assunto humano, entendendo os gregos a verdade como autorrevelação do ser, colocando o ser à frente quanto ao desvelamento.

15. Nós hoje, porém, não temos nenhum senso de sermos conduzidos pela mão, de sermos olhados ou de nos serem oferecidas dádivas, sendo alheios a qualquer sentido de verdade mais originário que a verdade judicativa, não reconhecendo mais deusas — o que equivale a dizer que as deusas retiraram seu olhar de nós, não fazendo mais sentir sua presença.

16. A transição da época antiga à nossa foi, assim, uma inversão: líder e seguidor, na parceria do desvelamento, trocaram de lugar — os gregos experimentaram uma ascendência do ser sobre a subjetividade humana, e nós não experimentamos nada semelhante.

17. Recordando que a transição entre as duas épocas foi também uma tradução, cabe voltar às duas palavras em questão, a-letheia e “verdade”: de perspectiva heideggeriana, como se compreende que um termo positivo corresponda à atitude moderna e um termo negativo à antiga?

18. Nosso termo é positivo por uma razão negativa: experimentamo-nos como autônomos porque algo nos está oculto, a saber, a autorrevelação do ser, o olhar do ser — o que nos está oculto é o desvelamento que nós mesmos não realizamos, sendo alheios a ele e não o reconhecendo como tendo prioridade sobre a verdade judicativa.

19. De perspectiva heideggeriana, a questão crucial concerne à motivação dessas duas visões ou atitudes, a grega de conceder prioridade ao ser e a moderna de dar precedência à subjetividade humana.

20. Para Heidegger, dito da forma mais concisa possível, a transição e a tradução foram um destino (Geschick): não foram causadas por erro ou fraqueza humana, recaindo a responsabilidade primária do lado do ser, do lado dos deuses.

21. Essa mudança no ser é a transição da aproximação para a retirada: o ser mudou ao oferecer-se mais reticentemente, ao lançar mais véus sobre si mesmo, ao olhar a humanidade menos diretamente, sendo esse o fator motivador primário — o ser é o motor primeiro.

22. Heidegger sugere frequentemente uma conexão entre a história do ser e a da linguagem, podendo o ser aproximar-se e retirar-se através das vicissitudes das palavras; nessa perspectiva, os gregos foram favorecidos com a palavra a-letheia, isto é, o favor dos deuses lhes chegou por meio dessa palavra.

23. O que motivou a transição para a era moderna e a tradução na palavra positiva “verdade” foi, em certo sentido, simplesmente a retirada da palavra aletheia: a linguagem reteve essa palavra, e a linguagem agora nos fala em termos de “verdade”.

O olhar revelador

1. Para Heidegger, as duas eras da cronologia humana podem ser caracterizadas essencialmente como a era da aletheia e a era da “verdade”, motivadas pelos eventos autônomos na história do ser, correspondendo respectivamente à autorrevelação mais plena e ao mostrar-se mais reticente do ser.

2. Para Heidegger, contudo, o desvelamento sempre envolve uma parceria, uma genuína parceria em que ambos os parceiros contribuem: a responsabilidade primária pelo desvelamento cabe ao ser, mas não há autorrevelação do ser sem a resposta ativa dos humanos, que devem responder ao olhar do ser com um olhar revelador próprio, sem o qual jamais surgiria uma compreensão do que significa ser, por mais plenamente que o ser se ofereça.

3. Os termos finais na caracterização heideggeriana da técnica antiga, aletheia e Entbergen, são, portanto, correlativos: aletheia significa desvelamento, e, como sempre há algum desvelamento, mesmo na segunda época, o termo pode se referir a qualquer modo pelo qual o ser se oferece, seja plena, seja reticentemente, ao passo que Entbergen nomeia a correspondente recepção humana da autorrevelação do ser.

4. Entbergen é, assim, tanto passivo quanto ativo: é um olhar e, como tal, receptivo, não criativo; contudo, não é mero fitar vazio, mas um olhar ativo e revelador que deve, por assim dizer, encontrar o olhar do ser, o mostrar-se do ser, a meio caminho.

5. Para Heidegger, esse olhar revelador por parte dos humanos varia de modo essencial conforme aquilo que se oferece, diferindo o olhar revelador da era antiga daquele da era moderna, como se a autorrevelação do ser sempre suscitasse o olhar revelador que lhe é apropriado.

6. De perspectiva heideggeriana, porém, requer-se de fato maior poder revelador para olhar as coisas de modo acolhedor e humilde, de modo que o desvelamento mais forçoso do ser, por parte deste, na verdade suscita um olhar mais forçoso, mais ativo, por parte dos humanos.

Técnica e verdade

1. Cabe perguntar aonde se chegou ao falar de deuses e deusas, do ser em geral, da verdade, do olhar do ser, da compreensão do ser que requer um olhar revelador por parte dos humanos, e o que tudo isso tem a ver com a técnica, sendo esta, aparentemente, questão de fazer coisas, de fins e meios, isto é, de instrumentalidade.

2. Para Heidegger, a técnica é em essência nada mais que uma compreensão do que significa ser, dizendo respeito ao modo como entendemos o ser em geral, sendo o modo como pensamos o ser, isto é, o modo como entendemos o que é preciso para que algo — qualquer coisa — seja.

3. Mais especificamente, a técnica é nosso modo de olhar revelador em resposta ao olhar do ser sobre nós, sendo o modo como desempenhamos nosso papel de parceiros do ser no desvelamento do que significa ser.

4. A técnica é, assim, um assunto teórico, não prático, não se dirigindo primariamente a fazer coisas, fazer coisas, encontrar meios para fins, à instrumentalidade.

5. A técnica é o desvelamento da essência das coisas, o ver o eidos de antemão, dizendo respeito à compreensão do ser requerida de antemão para qualquer relação humana com os entes, para qualquer atividade humana dirigida a eles.

6. O que Heidegger entende por técnica é o assunto primário e superior, a saber, a compreensão teórica do ser em geral que guia todo o trato prático com os entes individuais; para ele, portanto, a técnica é primariamente um modo de olhar ou compreender, um desvelamento da verdade, não um modo de fazer, não instrumentalidade.