ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006
A técnica moderna como dispor
34. O quarto e último termo que Heidegger oferece como caracterização essencial da atitude da técnica moderna é Bestellen, já familiar de sua raiz Stellen, “imposição”, regendo Stellen e seus derivados as páginas centrais do ensaio dedicadas à caracterização essencial da técnica moderna.
-
Seria impossível numa tradução inglesa captar os matizes de sentido e ao mesmo tempo conectar etimologicamente todas as palavras inglesas relevantes; a tradução publicada tenta, em certas passagens, agrupar frases em torno da palavra “set” (pôr): set upon, set up, set in order, set into, set going, set to.
35. O composto mais importante de stellen, no ensaio sobre a técnica, é bestellen, que em alemão comum tem dois sentidos principais: primeiro, fazer uma encomenda, no sentido de encomendar mercadorias, reservar uma mesa, comissionar uma obra de arte, e, aplicado a pessoas, convocar ou nomear alguém; segundo, colocar em ordem, arranjar, cultivar ou lavrar.
-
Na tradução publicada, Bestellen é vertido majoritariamente como “ordering” (ordenar), mas também como “comandar”, “colocar em ordem”, “cultivar”, “estabelecer” e “subordinar”; bestellbar é vertido majoritariamente como “orderable” (encomendável), mas também “disponível”, “disponível sob demanda”, “ao próprio comando”, “à disposição” e “à disposição para o serviço”.
36. Heidegger invoca, em seu uso do termo Bestellen, os dois sentidos de encomendar e de colocar em ordem, jogando propositalmente com essa ambiguidade.
-
Proponho traduzir bestellen como “dispor”, palavra que também contém ambiguidade: significa usar à vontade, como falamos de renda disponível ou de algum recurso à nossa disposição; significa também arranjar, como falamos da disposição final de casos em tribunal, ou colocar em ordem, no sentido da disposição ou disposição de tropas.
-
Dispor significa, então, tanto “mandar” no sentido de usar à vontade, quanto “pôr em ordem” no sentido de colocar em ordem; a vantagem da palavra “dis-por”, comparada a “ordenar”, reside em sua conexão com a atividade de posicionar e impor do sujeito, conexão que deverá ser trazida à tona; ademais, dispor pode também significar livrar-se, dispor, sentido que Heidegger eventualmente invocará também.
37. Concentro-me numa única caracterização da técnica moderna, repetida por Heidegger três vezes, segundo a qual a técnica moderna é, na tradução publicada, um “desvelamento que ordena” (an ordering revealing); a frase alemã é das bestellende Entbergen, que eu verteria como “um olhar revelador que dispõe”.
38. Em primeiro lugar, “dispor” significa aqui usar à vontade ou mandar, sendo sinônimo de “desafiar”, colocando Heidegger explicitamente esses dois termos juntos em várias ocasiões, chegando a falar de um “dispor desafiador”, isto é, um dispor que exemplifica o desafio realizado pela técnica moderna, ligando também explicitamente “dispor”, nesse sentido, a “imposição” e “arrebatamento”.
-
Todos os termos característicos da técnica moderna se juntam na passagem em que a usina hidrelétrica é imposta ao Reno fluente, impondo-se a ele por sua pressão hidráulica, que força as turbinas a girar, e esse girar aciona as máquinas cujas obras produzem a corrente elétrica; a estação retransmissora e a rede elétrica são então postas à disposição do arrebatamento adicional do rio; no domínio dessa sequência interconectada na disposição da energia elétrica, mesmo o Reno fluente aparece agora como algo à nossa disposição.
39. A caracterização da técnica moderna como um olhar revelador que dispõe indica, em primeiro lugar, que a técnica moderna considera a natureza como algo a ser imposto, algo a ser mandado à vontade, aparecendo os recursos e energias da natureza como inteiramente à nossa disposição, ali apenas para satisfazer desejos e vontades humanas, apenas para serem arrebatados e desperdiçados.
40. Há, porém, outro sentido de dispor em jogo na frase “olhar revelador que dispõe”: a técnica moderna arranja as coisas de certo modo, vê as coisas de certo modo, atribui às coisas uma certa ordem, desvelando as coisas como pertencentes a uma certa ordem.
-
A técnica moderna é precisamente o olhar que corresponde à autorrevelação das coisas como pertencentes a uma certa ordem; essa é a segunda acepção em que a técnica moderna dispõe: vê nas coisas uma certa disposição, vê as coisas como pertencentes a certa ordem, vê certa ordem como apropriada às coisas.
-
Para Heidegger, ver as coisas desse modo é precisamente o que constitui a técnica moderna, que não surge simplesmente em cena depois de as coisas terem sido investigadas na medida em que pertencem a essa ordem; ao contrário, é a técnica moderna que vê essa ordem como pertencente às coisas em primeiro lugar, dando às investigações seu ímpeto inicial.
41. Essa ordem, esse modo de desvelar as coisas, é a ordem científica, isto é, a ordem matemática, a ordem calculável: a técnica moderna é o desvelamento das coisas em geral como sujeitas ao cálculo, revelando as coisas como possíveis objetos da ciência.
-
A técnica moderna é a perspectiva que vê que as coisas podem, com proveito, ser submetidas à investigação científica; é a técnica moderna que dá início à ciência, não sendo a técnica moderna uma aplicação subsequente da ciência e da matemática, mas antes a perspectiva sobre as coisas de que a ciência necessita para começar.
-
A ciência é movida pela convicção de que a natureza é calculável; essa convicção, essa perspectiva, é precisamente o que Heidegger atribui à técnica moderna, sendo esta uma perspicácia quanto à essência das coisas em geral, a saber, que as coisas em geral são coerentemente calculáveis — perspicácia essa quanto à essência das coisas, quanto ao ser dos entes, sendo, como perspicácia, um olhar revelador, e, como atribuição das coisas a certa ordem, um olhar revelador que dispõe.
42. A relação entre ciência e técnica moderna será explorada plenamente adiante; por ora, basta observar que a técnica moderna dispõe das coisas em dois sentidos: vale-se delas, isto é, impõe-se a elas à vontade, e atribui às coisas certa ordem, vendo-as de certo modo.
-
Qual desses dois tipos de dispor tem a primazia? O modo de ver decorre da imposição, ou o modo de ver torna possível a imposição? Para Heidegger, é este último o caso: não é porque as coisas são mandadas que passam a ser vistas como meramente ali para nossa satisfação; é porque as coisas são desveladas de certo modo, sob certo aspecto, que podemos impor-nos a elas e arrebatá-las.
-
O desvelamento da possibilidade, isto é, o desvelamento das coisas como arrebatáveis, precede e torna possível o arrebatamento efetivo; as coisas parecem arrebatáveis, e isso motiva o arrebatamento efetivo, não sendo que nosso arrebatá-las as faça parecer mero material arrebatável — o olhar, o desvelamento, tem a prioridade.
43. Como as coisas agora parecem, que tipo de desvelamento agora impera? Além disso, como as coisas vêm a ser desveladas desse modo? Em outras palavras, são os seres humanos, em última análise, os responsáveis pelo modo de desvelamento? É o desvelamento das coisas um feito humano?
“Dis-poníveis”
1. A primeira questão concerne ao desvelamento: como as coisas são desveladas na era da técnica moderna? Como são olhadas reveladoramente pela humanidade tecnológica moderna de hoje? Que aspecto essencial apresentam a nós, qual é sua essência?
2. Heidegger descreve o desvelamento das coisas do mundo de hoje numa das passagens mais importantes e difíceis de todo o ensaio, curta em extensão mas contendo um jogo de palavras tão intrincado que nenhuma tradução inglesa poderia lhe fazer inteira justiça — havendo um termo especialmente crucial na passagem, aquele que Heidegger oferece como nome próprio para o desvelamento hoje imperante: der Bestand.
3. Em alemão comum, Bestand significa “estoque disponível” ou “inventário”, tendo por raiz stehen, “estar de pé”, “estar”, jogando Heidegger certamente com esse sentido radical: a breve passagem inclui dez ocorrências da palavra stehen ou de alguma de suas formas derivadas, entremeadas dos já conhecidos jogos com a palavra stellen.
-
Stehen e Stellen, estar de pé e posicionar (ou impor), estão aqui entrelaçados ou, antes, contrapostos um ao outro; em geral, as palavras da raiz stell- se aplicam às coisas da técnica moderna, precisamente postas por nós — em vários sentidos do termo.
-
Postas assim, as coisas de hoje carecem de posição própria; não são autoestantes nem autônomas, tendo uma posição peculiar, aquela que Heidegger tenta capturar em seu termo Bestand.
4. A tradução inglesa publicada de Bestand é “standing-reserve” (reserva disponível), termo que exibe uma conexão etimológica com stehen e transmite a ideia geral correta de coisas como recursos estocados, mas não capta os matizes que Heidegger explicitamente deseja imprimir à palavra Bestand.
-
Essa tradução não capta a posição peculiar e trêmula das coisas de hoje; ademais, Heidegger afirma explicitamente que as coisas que têm o estatuto de Bestand não são meros suprimentos, e que as coisas caracterizadas como Bestand não são objetos.
-
Se Bestand for traduzido como “reserva disponível”, torna-se muito difícil dar sentido às distinções que Heidegger aqui tenta traçar, pois “reservas disponíveis” são precisamente suprimentos, recursos à mão; além disso, um “objeto” é uma “coisa” que teve seu estatuto rebaixado — o objeto é uma coisa pensada meramente como correlato de alguma atitude humana, ao passo que a água como tal é uma “coisa”, uma coisa real que não está meramente em relação conosco, mas é coisa em seu próprio direito, mantendo-se por si mesma, independente de nós.
-
A reserva disponível deveria consistir precisamente de objetos (visto ser composta de coisas vistas apenas como à nossa disposição, apenas em termos de nossa atitude desafiadora), mas Heidegger diz exatamente o oposto: que o Bestand carece de objeto.
5. Heidegger pretende que o termo Bestand conote, em primeiro lugar, algo já visto, a saber, que todas as coisas são hoje tomadas como estando à nossa disposição, existindo tudo para servir às nossas necessidades e ao nosso prazer, sem que nada mereça respeito como possivelmente exterior aos usos que dele fazemos.
-
Em segundo lugar, e de modo mais significativo, as coisas não são apenas tomadas como à nossa disposição, mas são também vistas como disponíveis no sentido de dis-poníveis; não apenas podemos dispor das coisas, empregá-las, mandá-las, mas podemos descartá-las uma vez que tenhamos usado e esgotado sua utilidade.
-
O que Heidegger está sugerindo no termo Bestand não é apenas que a natureza como um todo é hoje abordada com mentalidade consumista, mas que essa é a mentalidade consumista mais desrespeitosa possível: as coisas da natureza não são apenas consumíveis, são dis-poníveis, não precisando sentir escrúpulo algum em arrebatá-las e deixá-las devastadas.
6. Se todas as coisas são dis-poníveis, então nada tem posição permanente; as coisas naturais não são apenas recursos, suprimentos de que podemos nos valer, mas nem mesmo merecem respeito como suprimentos, sendo negligenciáveis, já que podem ser descartadas à vontade, tomando as coisas da natureza uma qualidade efêmera, parecendo carecer de estabilidade e permanência.
-
É por isso que essas coisas, segundo Heidegger, não são simplesmente suprimentos, mas suprimentos dis-poníveis, suprimentos que podemos tratar com pouco respeito e mesmo com desprezo; é possível tomar coisas como suprimentos e ainda assim respeitá-las (pense-se em Michelangelo e um bloco de mármore), mas ninguém respeita uma caneta dis-ponível, uma jazida de carvão dis-ponível, um rio dis-ponível ou qualquer recurso natural dis-ponível.
-
O termo Bestand, segundo Heidegger, “diz algo mais” que “suprimentos”: diz suprimentos dispensáveis, inconsequentes, negligenciáveis.
7. Se entendemos Bestand como significando não simplesmente o que está de reserva para nosso uso, mas o que é dis-ponível e, por conseguinte, efêmero, podemos então também compreender a distinção heideggeriana entre Bestand e objetos.
-
A palavra alemã para “objeto” é der
Gegenstand, aquilo que “está (stand) contra (gegen)” nós; conforme usado aqui, o acento recai sobre o estar, não sobre a relação conosco, significando o termo algo dotado de posição autônoma própria.
-
Seria enganoso, portanto, traduzir Gegenstand simplesmente como “objeto”, pois nosso termo por si só não transmite a ideia de autonomia, sugerindo antes sua etimologia exatamente o oposto: um “ob-jeto” é algo que “lançamos no caminho”, algo que decorre de nosso lançar, projetar ou constituir.
8. Nossa palavra “objeto” é correlata a “sujeito”; um objeto é precisamente aquilo que um sujeito projetou, sendo dependente de algum sujeito, podendo também ser dito aquilo que se opõe a um sujeito, devendo, porém, “op-osto” ser tomado em seu sentido literal: um objeto é aquilo que foi posto por um sujeito para estar diante e contra si mesmo.
-
Um objeto não tem posição própria; é precisamente posto por um sujeito, colocado em certa posição por um sujeito; o sentido da palavra “objeto” é também captado pelo termo “proposta” — um objeto é algo pro-posto, algo que o sujeito põe diante de si mesmo.
-
Esse sentido de ser op-osto ou pro-posto não é exatamente o que Heidegger entende por Gegenstand, dando ele ênfase ao estar, ao autoestar do Gegen-stand, referindo-se a algo que se mantém por si mesmo, em relativa autonomia da subjetividade humana.
-
Seria, assim, enganoso traduzir aqui Gegenstand simplesmente como “objeto” — perder-se-ia o matiz crucial, a conotação de autonomia; o sentido do termo heideggeriano só pode ser vertido acrescentando-se uma qualificação: “objeto autônomo”, “objeto estável”, “objeto autoestante” (embora esses termos sejam de fato autocontraditórios se tomados literalmente, já que um ob-jeto é posto, não autoestante).
9. Deve estar agora bastante claro por que uma coisa de Bestand não é um Gegenstand: ambos os termos se relacionam ao “estar”, mas Bestand tem relação negativa e Gegenstand positiva, estando aqui em jogo a distinção entre objetos postos, objetos dis-poníveis, objetos efêmeros, objetos vistos inteiramente em termos da subjetividade humana, e objetos permanentes, objetos que devem ser respeitados como se mantendo por si mesmos.
-
Segundo Heidegger, as coisas de Bestand têm “posição peculiar”, isto é, posição trêmula, precária; é por isso que, para Heidegger, um avião comercial não é um Gegenstand, não é objeto estável, embora certamente pareça sê-lo, sendo maciço, robusto e potente.
-
Tal como desvelado dentro da atitude da técnica moderna, o avião é meramente algo “de que dispomos [bestellen] para impor e garantir
sicherstellen] a possibilidade de transporte”, sendo apenas mais uma coisa dis-ponível, ali meramente para mandarmos, para exaurirmos por nosso prazer e depois descartarmos.
-
Como tal, o avião é efêmero, mantendo-se apenas em relação a nosso emprego dele, sendo objeto apenas em nosso sentido inglês — não um Gegenstand, objeto autônomo com posição estável própria, mas apenas um objeto que nós mesmos pomos (opomos, propomos, impomos, dispomos).
10. A interpretação precedente da distinção entre Bestand e Gegenstand — como distinção entre objetos postos e coisas autoestantes — é corroborada pela observação entre parênteses de Heidegger a respeito da “definição hegeliana de máquina como ferramenta autônoma [= 'autoestante', selbständig]”.
-
Hegel quer dizer que a máquina opera por si mesma, não necessitando de operador humano como uma serra manual; uma máquina como a fabricante de alfinetes precisa apenas ser alimentada, mantendo-se, quanto ao resto, livre do operador humano, que apenas a observa.
-
Heidegger inverte completamente essa perspectiva: é a ferramenta manual que é autoestante, e a máquina moderna é “inteiramente não autoestante”; como caracterização da ferramenta do artesanato,
Hegel está correto (tal ferramenta é de fato autoestante), mas pensar a máquina nesse contexto é precisamente não pensá-la em termos da essência da técnica à qual efetivamente pertence; vista como peça da técnica moderna, uma máquina é inteiramente não autoestante, pois se mantém unicamente com base no dispor do disponível.
11. Em que sentido a ferramenta do artesanato é autoestante? Obviamente um cinzel e uma lima não funcionam por si mesmos, dependendo de uma mão humana para operá-los, sendo, nesse sentido, inteiramente não autônomos.
-
Mas é também lugar-comum que o artesão respeitava suas ferramentas, o que não significa simplesmente que as prezava, cuidava delas e não as tratava como dis-poníveis; havia um sentido adicional em que as ferramentas costumavam ser respeitadas, o mesmo sentido em que a matéria costumava ser respeitada.
-
O escultor tradicional respeitava o mármore por aquilo de que ele mesmo estava prenhe; o escultor moderno, manejando uma faca a laser, não tem respeito algum pelo mármore; assim como o mármore dava direção ao escultor artesão, também o dava a ferramenta com que trabalhava.
-
As possibilidades de escultura impostas por uma ferramenta manual são muito diferentes das delineadas por um laser; a escultura a laser é basicamente irrestrita, estando toda forma possível, por mais intrincada, à disposição de quem maneja o laser, o que não é o caso de quem trabalha com martelo, cinzel e lima, tendo esta de levar em conta as formas que suas ferramentas colocam à sua disposição.
12. Assim, as ferramentas manuais têm certa autonomia, não estando simplesmente à disposição do artesão; ao contrário, o artesão deve, por assim dizer, colocar-se à disposição de suas ferramentas, não sendo estas simplesmente manejadas por ele, não entrando em jogo meramente como agentes de sua vontade.
-
O artesão não dispõe de suas ferramentas à vontade, estando sua vontade, em certa medida, subserviente a elas; em outras palavras, as ferramentas não funcionam apenas por serem manejadas por um operador humano, tendo, por assim dizer, vida própria, posição própria, determinação própria das possibilidades da escultura, não sendo definidas meramente em termos da vontade do escultor.
-
As ferramentas não são, portanto, simplesmente postas; não são ob-jetos, inteiramente referidos a um sujeito, nem o escultor é inteiramente um sujeito, totalmente livre e dominante sobre suas ferramentas, resistindo estas à dominação e exercendo, até certo ponto, sua própria dominação sobre o escultor — sentido crucial em que as ferramentas costumavam ser respeitadas e não eram dis-poníveis, não eram Bestand, não eram ob-jetos, mas coisas autônomas, autoestantes.
13. E quanto a uma máquina moderna? Se autonomia significa não estar inteiramente à própria disposição de outrem, a máquina é não autônoma, pois é inteiramente disponível, não tendo posição própria, mas sendo, ao contrário, algo posto por nós.
-
Consideremos brevemente dois exemplos: primeiro, as máquinas de fazer alfinetes; Adam Smith inicia A Riqueza das Nações com uma discussão sobre a manufatura de alfinetes comuns, podendo um homem trabalhando sozinho, com ferramentas manuais, produzir 20 alfinetes por dia, ao passo que, com a divisão do trabalho, 10 homens, especializados cada um numa das 10 etapas de fabricação, ainda trabalhando com ferramentas manuais, podem fazer 48.000 alfinetes por dia de 11 horas, ou 4.800 por homem.
-
Hoje há máquinas de fazer alfinetes que funcionam quase inteiramente de modo automático, requerendo apenas um trabalhador semiqualificado para operar várias máquinas simultaneamente, sendo sua produção solitária por dia de 8 horas de muitos milhões.
14. Certamente os alfinetes de hoje são feitos como dis-poníveis, quase sem valor; os alfinetes feitos à mão não eram nem dis-poníveis nem sem valor, guardando as pessoas “dinheiro para alfinetes” com o propósito expresso de comprá-los; hoje nenhuma casa compra alfinetes expressamente, já tendo todos adquirido incidentalmente excesso deles.
-
O que dizer, então, da máquina que produz esses dis-poníveis? É tão automática quanto uma máquina pode ser, mas, para Heidegger, é inteiramente não autônoma, pois tem sua posição “unicamente com base no dispor do disponível”.
15. Podemos talvez entender o que Heidegger quer dizer aqui perguntando por que uma máquina automática foi alguma vez construída: está ali, certamente, para nos suprir de bens dis-poníveis, mas, mais que isso, está ali para que possamos de fato dispor desses bens.
-
A máquina é projetada para funcionar automaticamente para que precisemos trabalhar menos e possamos ter o lazer de desfrutar bens dis-poníveis; colocamos a máquina automática à nossa disposição para termos à disposição o tempo de dispor das coisas dis-poníveis.
-
Isso talvez exprima o sentido pleno do que Heidegger quer dizer ao afirmar que a máquina se mantém com base no “dispor do disponível”: a máquina automática foi por nós encomendada em nossa tentativa de tornar tudo dis-ponível, inclusive nosso tempo, tendo a máquina sua posição inteiramente dentro desse contexto de disponibilidade.
-
Em certo sentido, portanto, a máquina não faz bens dis-poníveis; os bens dis-poníveis fazem a máquina — o desejo de disponibilidade suscita a necessidade de máquinas automáticas.
16. De ponto de vista heideggeriano, não é porque as máquinas são tão eficientes que podemos tratar seu produto como dis-ponível; ao contrário, é porque vemos tudo como dis-ponível, porque tudo se nos desvela como dis-ponível, que somos forçados a incorporar eficiência às nossas máquinas.
-
O olhar revelador motiva a construção, não o inverso; é por isso que, para Heidegger, a máquina é “inteiramente não autônoma”: a máquina automática é algo que pomos, algo que exigimos, algo que comandamos, não tomando dela direção, mas antes lhe dando direção, senhoreando-a, de seu projeto e propósito até o uso de seu produto — estando tudo quanto à máquina automática à nossa disposição, carecendo, assim, de autonomia.
17. Comparando brevemente outro exemplo, uma faca a laser às ferramentas manuais de um escultor: de perspectiva heideggeriana, estas têm autonomia, e a faca a laser é não autônoma, não porque o laser deixe de nos oferecer possibilidades de escultura, mas porque oferece possibilidades irrestritas — isto é, nenhuma peculiarmente sua própria.
-
Não impõe limites e está, por isso, inteiramente à nossa disposição, podendo dela dispor à vontade, sem termos de respeitá-la, sem termos de considerar suas limitações ao fazer uma escultura — porque não tem limites; qualquer forma pode ser imposta por um laser a qualquer matéria, sendo todas as formas colocadas à nossa disposição por uma faca a laser.
-
Para Heidegger, novamente, é o ver todas as formas como disponíveis que suscita a necessidade de uma ferramenta como a faca a laser; não é a ferramenta que faz as formas parecerem disponíveis — o olhar revelador vem primeiro; o ver as coisas como disponíveis tem prioridade sobre a máquina que executa essa disponibilidade, sendo o laser encomendado, forçado a existir por nosso olhar revelador sobre as coisas, pelo modo como as coisas são desveladas.
-
Consequentemente, o laser é inteiramente não autônomo, tendo sua posição unicamente a partir de nosso pôr e dispor.
18. Que desvelamento das coisas subjaz, então, às máquinas modernas? Isto é, qual é o sentido do Bestand heideggeriano? Como as coisas em geral se nos desvelam hoje? Sugiro que o sentido é melhor vertido por “dis-poníveis”.
-
A afirmação plena de Heidegger é a seguinte: que tipo de desvelamento caracteriza aquilo que ali está para ser desafiado e imposto? Em toda parte as coisas são postas para estarem à mão, para estarem à nossa disposição a todo momento, e mesmo de tal modo que possam ser disponíveis para um dispor adicional; as coisas assim postas têm uma posição peculiar [trêmula].
-
Chamamo-las dis-poníveis, termo que diz algo mais e algo mais essencial que meros “suprimentos”; o termo “dis-poníveis” atinge agora a categoria de título, designando nada menos que o modo de existência de tudo aquilo que é desvelado por meio de ser desafiado; as coisas que têm o estatuto de dis-poníveis não mais se mantêm diante e contra nós como coisas autoestantes.
19. O sentido da palavra “dis-poníveis” deveria, agora, estar claro: designa as coisas na medida em que se desvelam como à nossa disposição e inteiramente à nossa disposição, sendo esse o desvelamento hoje imperante — todas as coisas parecem estar ali unicamente pelo que podemos delas extrair, devendo, depois de exauridas, ser descartadas.
-
A atitude oposta é a de respeito, pela qual as coisas são vistas como tendo autonomia própria, posição própria, e não são meramente postas por nós para serem opostas por nós, expostas por nós, impostas por nós e dispostas por nós.
20. É verdade que, ao verter Bestand como “dis-poníveis” em vez de “reserva disponível”, perde-se a conexão etimológica com stehen, “estar”; mas a perda é pequena, já que Bestand na verdade tem uma conexão negativa com o estar: as coisas de Bestand têm posição peculiar e não são autoestantes.
-
Essas coisas são postas em vez de serem autoestantes, e assim de fato ganhamos ao verter Bestand como “dis-poníveis”, ganhando outra conexão com a palavra “pôr” (stell-), palavra que, em geral, caracteriza, para Heidegger, a atitude da técnica moderna perante as coisas.
21. Podemos dizer, então, adaptando ligeiramente a lista de termos de Heidegger, que o fato de agora, sempre que tentamos exibir a técnica moderna como um olhar revelador que desafia, as palavras “pôr”, “opor”, “propor”, “expor”, “impor” e “dispor” se imporem e se acumularem — de modo seco, monótono e, por isso, opressivo — se funda naquilo que está prestes a vir à palavra.