Dispor - Dispositivo - Dis-ponível

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

A técnica moderna como dispor

34. O quarto e último termo que Heidegger oferece como caracterização essencial da atitude da técnica moderna é Bestellen, já familiar de sua raiz Stellen, “imposição”, regendo Stellen e seus derivados as páginas centrais do ensaio dedicadas à caracterização essencial da técnica moderna.

35. O composto mais importante de stellen, no ensaio sobre a técnica, é bestellen, que em alemão comum tem dois sentidos principais: primeiro, fazer uma encomenda, no sentido de encomendar mercadorias, reservar uma mesa, comissionar uma obra de arte, e, aplicado a pessoas, convocar ou nomear alguém; segundo, colocar em ordem, arranjar, cultivar ou lavrar.

36. Heidegger invoca, em seu uso do termo Bestellen, os dois sentidos de encomendar e de colocar em ordem, jogando propositalmente com essa ambiguidade.

37. Concentro-me numa única caracterização da técnica moderna, repetida por Heidegger três vezes, segundo a qual a técnica moderna é, na tradução publicada, um “desvelamento que ordena” (an ordering revealing); a frase alemã é das bestellende Entbergen, que eu verteria como “um olhar revelador que dispõe”.

38. Em primeiro lugar, “dispor” significa aqui usar à vontade ou mandar, sendo sinônimo de “desafiar”, colocando Heidegger explicitamente esses dois termos juntos em várias ocasiões, chegando a falar de um “dispor desafiador”, isto é, um dispor que exemplifica o desafio realizado pela técnica moderna, ligando também explicitamente “dispor”, nesse sentido, a “imposição” e “arrebatamento”.

39. A caracterização da técnica moderna como um olhar revelador que dispõe indica, em primeiro lugar, que a técnica moderna considera a natureza como algo a ser imposto, algo a ser mandado à vontade, aparecendo os recursos e energias da natureza como inteiramente à nossa disposição, ali apenas para satisfazer desejos e vontades humanas, apenas para serem arrebatados e desperdiçados.

40. Há, porém, outro sentido de dispor em jogo na frase “olhar revelador que dispõe”: a técnica moderna arranja as coisas de certo modo, vê as coisas de certo modo, atribui às coisas uma certa ordem, desvelando as coisas como pertencentes a uma certa ordem.

41. Essa ordem, esse modo de desvelar as coisas, é a ordem científica, isto é, a ordem matemática, a ordem calculável: a técnica moderna é o desvelamento das coisas em geral como sujeitas ao cálculo, revelando as coisas como possíveis objetos da ciência.

42. A relação entre ciência e técnica moderna será explorada plenamente adiante; por ora, basta observar que a técnica moderna dispõe das coisas em dois sentidos: vale-se delas, isto é, impõe-se a elas à vontade, e atribui às coisas certa ordem, vendo-as de certo modo.

43. Como as coisas agora parecem, que tipo de desvelamento agora impera? Além disso, como as coisas vêm a ser desveladas desse modo? Em outras palavras, são os seres humanos, em última análise, os responsáveis pelo modo de desvelamento? É o desvelamento das coisas um feito humano?

“Dis-poníveis”

1. A primeira questão concerne ao desvelamento: como as coisas são desveladas na era da técnica moderna? Como são olhadas reveladoramente pela humanidade tecnológica moderna de hoje? Que aspecto essencial apresentam a nós, qual é sua essência?

2. Heidegger descreve o desvelamento das coisas do mundo de hoje numa das passagens mais importantes e difíceis de todo o ensaio, curta em extensão mas contendo um jogo de palavras tão intrincado que nenhuma tradução inglesa poderia lhe fazer inteira justiça — havendo um termo especialmente crucial na passagem, aquele que Heidegger oferece como nome próprio para o desvelamento hoje imperante: der Bestand.

3. Em alemão comum, Bestand significa “estoque disponível” ou “inventário”, tendo por raiz stehen, “estar de pé”, “estar”, jogando Heidegger certamente com esse sentido radical: a breve passagem inclui dez ocorrências da palavra stehen ou de alguma de suas formas derivadas, entremeadas dos já conhecidos jogos com a palavra stellen.

4. A tradução inglesa publicada de Bestand é “standing-reserve” (reserva disponível), termo que exibe uma conexão etimológica com stehen e transmite a ideia geral correta de coisas como recursos estocados, mas não capta os matizes que Heidegger explicitamente deseja imprimir à palavra Bestand.

5. Heidegger pretende que o termo Bestand conote, em primeiro lugar, algo já visto, a saber, que todas as coisas são hoje tomadas como estando à nossa disposição, existindo tudo para servir às nossas necessidades e ao nosso prazer, sem que nada mereça respeito como possivelmente exterior aos usos que dele fazemos.

6. Se todas as coisas são dis-poníveis, então nada tem posição permanente; as coisas naturais não são apenas recursos, suprimentos de que podemos nos valer, mas nem mesmo merecem respeito como suprimentos, sendo negligenciáveis, já que podem ser descartadas à vontade, tomando as coisas da natureza uma qualidade efêmera, parecendo carecer de estabilidade e permanência.

7. Se entendemos Bestand como significando não simplesmente o que está de reserva para nosso uso, mas o que é dis-ponível e, por conseguinte, efêmero, podemos então também compreender a distinção heideggeriana entre Bestand e objetos.

8. Nossa palavra “objeto” é correlata a “sujeito”; um objeto é precisamente aquilo que um sujeito projetou, sendo dependente de algum sujeito, podendo também ser dito aquilo que se opõe a um sujeito, devendo, porém, “op-osto” ser tomado em seu sentido literal: um objeto é aquilo que foi posto por um sujeito para estar diante e contra si mesmo.

9. Deve estar agora bastante claro por que uma coisa de Bestand não é um Gegenstand: ambos os termos se relacionam ao “estar”, mas Bestand tem relação negativa e Gegenstand positiva, estando aqui em jogo a distinção entre objetos postos, objetos dis-poníveis, objetos efêmeros, objetos vistos inteiramente em termos da subjetividade humana, e objetos permanentes, objetos que devem ser respeitados como se mantendo por si mesmos.

10. A interpretação precedente da distinção entre Bestand e Gegenstand — como distinção entre objetos postos e coisas autoestantes — é corroborada pela observação entre parênteses de Heidegger a respeito da “definição hegeliana de máquina como ferramenta autônoma [= 'autoestante', selbständig]”.

11. Em que sentido a ferramenta do artesanato é autoestante? Obviamente um cinzel e uma lima não funcionam por si mesmos, dependendo de uma mão humana para operá-los, sendo, nesse sentido, inteiramente não autônomos.

12. Assim, as ferramentas manuais têm certa autonomia, não estando simplesmente à disposição do artesão; ao contrário, o artesão deve, por assim dizer, colocar-se à disposição de suas ferramentas, não sendo estas simplesmente manejadas por ele, não entrando em jogo meramente como agentes de sua vontade.

13. E quanto a uma máquina moderna? Se autonomia significa não estar inteiramente à própria disposição de outrem, a máquina é não autônoma, pois é inteiramente disponível, não tendo posição própria, mas sendo, ao contrário, algo posto por nós.

14. Certamente os alfinetes de hoje são feitos como dis-poníveis, quase sem valor; os alfinetes feitos à mão não eram nem dis-poníveis nem sem valor, guardando as pessoas “dinheiro para alfinetes” com o propósito expresso de comprá-los; hoje nenhuma casa compra alfinetes expressamente, já tendo todos adquirido incidentalmente excesso deles.

15. Podemos talvez entender o que Heidegger quer dizer aqui perguntando por que uma máquina automática foi alguma vez construída: está ali, certamente, para nos suprir de bens dis-poníveis, mas, mais que isso, está ali para que possamos de fato dispor desses bens.

16. De ponto de vista heideggeriano, não é porque as máquinas são tão eficientes que podemos tratar seu produto como dis-ponível; ao contrário, é porque vemos tudo como dis-ponível, porque tudo se nos desvela como dis-ponível, que somos forçados a incorporar eficiência às nossas máquinas.

17. Comparando brevemente outro exemplo, uma faca a laser às ferramentas manuais de um escultor: de perspectiva heideggeriana, estas têm autonomia, e a faca a laser é não autônoma, não porque o laser deixe de nos oferecer possibilidades de escultura, mas porque oferece possibilidades irrestritas — isto é, nenhuma peculiarmente sua própria.

18. Que desvelamento das coisas subjaz, então, às máquinas modernas? Isto é, qual é o sentido do Bestand heideggeriano? Como as coisas em geral se nos desvelam hoje? Sugiro que o sentido é melhor vertido por “dis-poníveis”.

19. O sentido da palavra “dis-poníveis” deveria, agora, estar claro: designa as coisas na medida em que se desvelam como à nossa disposição e inteiramente à nossa disposição, sendo esse o desvelamento hoje imperante — todas as coisas parecem estar ali unicamente pelo que podemos delas extrair, devendo, depois de exauridas, ser descartadas.

20. É verdade que, ao verter Bestand como “dis-poníveis” em vez de “reserva disponível”, perde-se a conexão etimológica com stehen, “estar”; mas a perda é pequena, já que Bestand na verdade tem uma conexão negativa com o estar: as coisas de Bestand têm posição peculiar e não são autoestantes.

21. Podemos dizer, então, adaptando ligeiramente a lista de termos de Heidegger, que o fato de agora, sempre que tentamos exibir a técnica moderna como um olhar revelador que desafia, as palavras “pôr”, “opor”, “propor”, “expor”, “impor” e “dispor” se imporem e se acumularem — de modo seco, monótono e, por isso, opressivo — se funda naquilo que está prestes a vir à palavra.