Poiesis

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

A ocultação da poiesis

1. Para Heidegger, a técnica moderna como tal oculta a poiesis, ou, dito mais propriamente, a técnica moderna só pôde surgir numa época desapropriada da poiesis, uma época em que esta foi retida — sendo a técnica moderna, assim, uma resposta ao autoocultamento da poiesis.

2. O que está em perigo é a liberdade humana, já que a atitude impositiva exagera essa liberdade seja por excesso, seja por falta, tornando a liberdade tudo ou nada; ambas essas visões estão fadadas a trazer desilusão, não exprimindo o modo próprio e humano de estar no mundo.

3. Como, porém, na era da técnica moderna, quando a imposição impera exclusivamente, podemos sequer ver a poiesis? Como podemos ver o ser à frente, o fenômeno do olhar revelador? Como podemos ver a atitude propriamente humana do seguimento autêntico? O que poderia nos salvar da imposição?

4. Concluamos primeiro a discussão do perigo enquanto tal repetindo, como faz Heidegger, que não são as coisas tecnológicas que são perigosas (não sendo, portanto, o perigo à mera existência), mas, ao contrário, o que é perigoso é a essência da técnica, o modo exclusivamente impositivo de olhar revelador: o que é perigoso não é a técnica; a técnica não é demoníaca, mas sua essência é de fato oculta (occult).

5. A essência é oculta no sentido de ter sido escondida, eclipsada de nossa vista; falando em termos astronômicos, houve uma ocultação da essência da técnica, uma ocultação do ser em seu modo de liderar, uma ocultação da poiesis, e é isso que é perigoso.

Aquilo que poderia salvar

6. Imediatamente ao concluir sua discussão do perigo — afirmando que onde a com-posição impera há perigo no sentido mais elevado —, Heidegger invoca dois versos de uma obra poética: “Mas onde está o perigo, cresce também o que salva.”

7. Ele pergunta o que o poema quer dizer com “salvar”: pensamos usualmente que significa meramente apoderar-se de algo ameaçado de ruína para preservá-lo em seu estado anterior; mas “salvar” diz mais.

8. Para Heidegger, nossa essência reside no papel que desempenhamos no desvelamento do sentido do ser; nossa essência é ser o lugar onde o ser se desvela; poderíamos, assim, ser salvos apenas através de uma iluminação do desvelamento, de um aparecer da parceria reveladora entre o ser e os humanos, ou, em suma, através de um brilhar da verdade.

9. Pelo contrário, a com-posição deve também, de algum modo, iluminar o desvelamento, iluminar a parceria reveladora entre o ser e os humanos e os respectivos papéis de humanos e ser nessa parceria; a com-posição deve, de algum modo, mostrar-se adequadamente, pelo que é, a saber, um suscitar de certo olhar revelador.

10. Aquilo que poderia salvar vem à vista exatamente no desvelamento da essência da técnica como um olhar revelador, como receptividade ativa da autodoação do ser; se a com-posição pode iluminar o olhar revelador, então a técnica moderna não simples e unicamente deporia a verdade, deporia a poiesis.

11. Tendo determinado o sentido de “salvar”, Heidegger pergunta agora o que o poema quer dizer com “crescer”: de que modo cresce também, precisamente onde está o perigo, aquilo que poderia salvar? Onde algo cresce, ali ele lança raízes, e a partir daí se desenvolve.

12. Heidegger emite aqui uma advertência contra tomar “crescer” num sentido fácil — isto é, num sentido que tornaria fácil para nós apreender aquilo que poderia salvar; crescer não significa aqui florescer, romper em plena luz.

13. De fato, teremos de olhar até o que há de mais profundo dentro da essência, a essência da essência; para Heidegger, descobriremos na essência da técnica moderna aquilo que poderia salvar, mas somente se atingirmos até a essência dessa essência, isto é, somente se desenraizarmos o sentido em que a essência da técnica é, de todo, uma essência.

14. A estratégia de Heidegger será agora argumentar que a essência da técnica não é uma essência no sentido usual, requerendo pensar sobre a técnica que redeterminemos o sentido de essência.

15. Com isso, poderemos contemplar a liberdade humana genuína e não a exagerarmos nem por excesso nem por falta; com nossa visão devidamente fixada, poderemos possivelmente “morar na mais alta dignidade de nossa essência”, como Heidegger afirmará.

O sentido de essência

16. Sua essência é aquilo que faz algo ser o que é; ordinariamente, pensamos a essência como um uno que muitas coisas têm em comum; os muitos seres humanos têm em comum a essência una, “humanidade”, e as muitas árvores têm em comum a essência una, “arboreidade”.

17. Até aqui entendemos “essência” em seu significado ordinário; na linguagem da filosofia acadêmica, “essência” significa o que algo é; em latim, quid; a quididade responde quando perguntamos pela essência.

18. Tal essência, como gênero comum a muitos, é chamada, na linguagem erudita, “discursiva” — nós mesmos fabricamos essa essência “correndo em volta” (dis-cursivamente).

19. Ademais, os indivíduos que caem sob um gênero comum estão todos relacionados do mesmo modo à essência; são todos precisamente instâncias da essência; o gordo e o magro são tipos diferentes de humanos, e Sócrates e Platão são casos individuais diferentes de humanidade, mas todos são humanos exatamente do mesmo modo, precisamente no sentido de serem instâncias particulares da essência.

20. Quanto ao sentido usual de essência, então, duas condições valem: os indivíduos precedem a essência em nossa experiência, e os indivíduos são instâncias da essência.

21. Para Heidegger, a essência da técnica, como olhar revelador, precede as coisas tecnológicas; não corremos por aí olhando coisas tecnológicas para conceber a essência da técnica; ao contrário, a essência da técnica é a perspectiva que subsequentemente nos envia a correr por aí fabricando compostos e coisas descartáveis.

22. É então a essência da técnica moderna, a com-posição, o gênero comum a todas as coisas tecnológicas modernas? Se assim fosse, a turbina a vapor, o transmissor de rádio e o cíclotron seriam cada um uma com-posição.

23. Em vez de “cair sob” a com-posição, as coisas tecnológicas estão “presas na” com-posição, isto é, engolfadas por ela, comandadas por ela, postas a seu serviço em várias capacidades.

24. Já que a com-posição é aquilo a que todos os entes tecnológicos se relacionam, de vários modos, seria a com-posição uma essência no sentido de um equívoco πρὸς ἕν (pros hen)?

25. Para Heidegger, a com-posição é um olhar revelador, impositivo; a com-posição é o olhar para as coisas como potencialmente descartáveis, um olhar que motiva a subsequente imposição efetiva sobre as coisas e sua transformação em descartáveis efetivos.

26. Lembremo-nos, porém, de que a poiesis, essência da técnica antiga, é também um modo de olhar revelador; conhecemos dois tipos de olhar revelador, duas perspectivas gerais sobre as coisas, dois tipos de técnica.

27. Além disso, seria uma essência precisamente no sentido usual de um conceito discursivo, um universal, um gênero comum; poiesis e com-posição cairiam sob ele como suas instâncias.

28. A com-posição é um modo de olhar revelador que é destinado; é, especificamente, o modo de olhar revelador que desafia; o olhar revelador que traz-à-frente (poiesis) é outro modo destinado de olhar revelador.

29. Por que a com-posição moderna e a poiesis antiga não caem sob um conceito de olhar revelador? Segundo Heidegger, ao contrário, o desvelamento [do ser] é aquele destino que, abruptamente, e inexplicavelmente para todo pensamento, se dispensa ora no olhar revelador que traz-à-frente, ora no olhar revelador que desafia.

30. Isso diz que os dois modos de olhar revelador, os dois modos de técnica, não são concorrentes; ao contrário, um é subsequente ao outro; o ser se revela ora numa figura, ora noutra, motivando dois modos diferentes de olhar revelador e duas técnicas diferentes.

31. Em que sentido de essência é então a com-posição a essência da técnica moderna? Não é uma essência no sentido usual de gênero comum, nem uma essência como equívoco pros hen; nem tampouco o próprio olhar revelador, de que a com-posição é um dos tipos, é uma essência em qualquer sentido usual.

32. A com-posição nos convoca, assim, a repensar o sentido de essência: assim, a com-posição, como destino a um olhar revelador, é de fato atualmente a essência da técnica, mas definitivamente não é uma essência no sentido de gênero, essentia.

33. Vê-se aqui como as palavras de Hölderlin estão se cumprindo: a técnica moderna é o perigo extremo, mas nela também cresce aquilo que poderia salvar, desde que “crescer” signifique estar enraizado profundamente.

Perdurar

34. Heidegger começa sua redeterminação do sentido de essência do modo como costuma iniciar uma investigação, deixando a linguagem guiar o caminho, apelando a duas palavras em que ocorre o termo para “essência” (das Wesen): das Hauswesen e das Staatswesen.

35. Já nessas palavras, embora usemos o termo para “essência”, Wesen, “não nos referimos a um universal ou gênero; queremos antes dizer os modos como uma casa ou um estado imperam, como são administrados, como se desdobram, como percorrem seu curso até o fim; em suma, os modos como perduram [wie sie wesen]”.

36. Ele apela ao poeta alemão do início do século dezenove, J. P. Hebel, que usa a “palavra antiga” die Weserei para nomear a prefeitura, palavra bastante obscura, entendida talvez por analogia com outros termos alemães terminados em -erei.

37. O que é mais importante aqui, para Heidegger, é a ideia de constância; comparada a qualquer outro lugar, a prefeitura é aquele onde a vida da aldeia é mais continuamente exercida; a vida da cidade ali está mais em jogo, quase sempre em curso.

38. Segundo Heidegger, esse verbo, wesen, é a fonte do substantivo, Wesen, sendo o verbo, agora explicitamente afirmado, equivalente a outra palavra comum que significa “perdurar” (währen): é do verbo wesen que deriva o substantivo [das Wesen = essência]; em seu sentido verbal, wesen equivale a währen [perdurar, persistir], não apenas quanto ao significado, mas também quanto à estrutura fonética da palavra.

39. Heidegger busca confirmar essa pista e não encontra dificuldade em fazê-lo na história da filosofia: Sócrates e Platão já pensam a essência de algo como o perdurar, no sentido do que persiste; de fato, pensam o que persiste como o que persiste perpetuamente (aei on, “ser eterno”).

40. Para Platão, o que é comum a todas as coisas de certo tipo é sua fisionomia ou aspecto básico, chamado em grego eidos ou ideia, palavras derivadas do verbo “ver”.

41. Consequentemente, as Ideias não são conceitos discursivos; para Platão, não corremos por aí olhando casas individuais e depois abstraímos a essência “casa”; precisamos ter uma Ideia de como uma casa se parece primeiro; é condição de nosso correr por aí e reconhecer coisas particulares como casas.

42. Se não são conceitos discursivos, em que sentido as Ideias são essências? Para captar isso, precisamos de compreensão mais profunda da diferença entre Ideias e coisas individuais; precisamos entender a base dessa diferença.

43. Assim, Ideias e coisas existem em domínios radicalmente diferentes, o domínio da não-mudança e o da mudança; consequentemente, Ideias e coisas mantêm relações radicalmente diferentes com o tempo; coisas mutáveis estão no tempo; Ideias imutáveis estão fora do tempo.

44. Heidegger de fato concorda que é distintivo de uma essência perdurar, de um modo não permitido às coisas individuais; contudo, questiona se a Ideia platônica capta o sentido genuíno de perdurar e o sentido genuíno de essência: toda essência é algo que perdura; mas será que perdurar significa apenas perdurar perpetuamente?

45. A resposta heideggeriana a essas questões obviamente retóricas é “não”; a essência da técnica não é uma essência no sentido de uma Ideia; Heidegger não formula expressamente uma crítica das Ideias, e de fato invocará em breve a Ideia platônica de beleza.

46. Por ora, Heidegger retém de Platão a noção de essência como algo especialmente perdurante, mas ele mesmo determinará o sentido do perdurar — considerando o modo como a essência da técnica de fato impera sobre os entes tecnológicos: o modo como a técnica perdura só pode ser apreendido a partir daquele perdurar pelo qual a com-posição de fato impera como modo destinado de olhar revelador.

Doação

47. Para determinar o modo pelo qual a essência da técnica perdura, ou, mais geralmente, o sentido em que qualquer essência é algo que perdura, Heidegger apela mais uma vez a um poeta em busca de uma pista: Goethe usa, em certo lugar, a palavra misteriosa fortgewähren [doar perpetuamente] em vez de fortwähren [perdurar perpetuamente]; ele ouve währen [perdurar] e gewähren [doar] aqui num acorde não articulado.

48. Aqui temos a redeterminação heideggeriana do sentido de essência: a essência deve ser entendida em termos do fenômeno da doação, isto é, em termos da interação entre o doar e o doado.

49. Se lembrarmos que fomos conduzidos à noção de doação por refletir sobre a essência da técnica moderna, podemos ver como o perigo extremo abriga, profundamente dentro de si, aquilo que poderia salvar — provando-se assim verdadeiro o verso de Hölderlin: aquilo que poderia salvar, a doação, de fato cresce onde está o perigo, a imposição.

50. A palavra alemã é Gewähren, significando um tipo de dar, no sentido de permitir, conceder, indulgir; é um tipo de deixar, deixar alguém ter algo desejável; uma tradução que capta bem de perto o matiz pretendido por Heidegger seria “outorgar” (vouchsafe).

51. Heidegger tem em mente aqui um dar de algo que chega ao receptor como dádiva, que, ademais, o receptor permanece livre para aceitar ou rejeitar; dar como dádiva é doar ou dotar; proponho “doar” como tradução de gewähren.

52. Também abarcar é tudo, menos doar; a com-posição, a imposição totalmente abarcante, impõe-nos uma perspectiva impositiva sobre as coisas em geral; a essência da técnica parece permeada pela imposição, o oposto da doação.

53. Assim parece, enquanto não atentarmos para o fato de que mesmo o desafiar à imposição sobre os entes como descartáveis permanece sempre um enviar e, por conseguinte, conduz o homem a um caminho de olhar revelador.

54. “Homem” deve ser entendido aqui no sentido de Dasein; nenhum humano poderia, por si só, tornar-se Dasein, pois o Dasein é o lugar do conhecimento ontológico, o lugar de um desvelamento do sentido do ser.

55. Que papel a técnica desempenha na formação do Dasein? A técnica é precisamente aquilo que realiza o deixar, o deixar entrar no “Algo”, o ser; a técnica, como compreensão geral das coisas e de suas possibilidades, é o acesso ao ser, o acesso que um humano precisa para ser Dasein.

56. A técnica é intermediária entre o ser e os humanos; possui, por assim dizer, duas faces, uma voltada ao ser e outra à humanidade; em relação ao ser, a técnica é algo doado; em relação aos humanos, algo que doa.

57. A técnica é o destino ao olhar revelador; a técnica ocorre “a partir de uma doação”, no sentido de que é uma dádiva do ser, doada pelo ser; o ser é o que primariamente doa, isto é, o ser é o que doa “desde o mais primevo” e assim é “o que perdura primordialmente”.

58. Assim, uma reflexão sobre a técnica, e precisamente sobre a técnica impositiva, nos trouxe à noção de doação; precisamos agora retornar à afirmação heideggeriana de que uma essência deve ser entendida em termos de doação, e depois precisamos ver como a noção de doação poderia nos salvar do perigo.

A essência como algo doado

59. Imediatamente após extrair uma pista de Goethe, Heidegger afirmou, bastante peremptoriamente, que “apenas o que é doado perdura”; ademais, aquilo que é anterior ao doado, a saber, aquilo que doa, o ser, perdura em sentido ainda mais primordial.

60. Faz sentido filosófico dizer que apenas o que é doado perdura e que o ser, o doador, perdura ainda mais primordialmente? O que torna uma essência mais perdurante que uma coisa individual? O que tem o perdurar de uma essência a ver com doação? O que exatamente é doado a uma essência que não é doado a um ente individual?

61. Em outras palavras, a essência da técnica é o lugar da autodoação do ser sobre nós; ao apreender uma essência, apreendemos o que significa ser, seja muito genericamente (na essência da técnica), seja com respeito a algum domínio particular, como casas (na essência de uma casa, apreendemos o que significa ser uma casa) ou belezas (na essência da beleza, apreendemos o que significa ser bela), etc.

62. Por outro lado, precisamente porque a essência é o lugar de uma doação, não é uma Ideia; uma essência pode mudar, se o ser se doa diferentemente, se o ser tem uma história.

63. Para Heidegger, nós humanos jamais poderíamos, por nós mesmos, intencionalmente ou por indolência, provocar tal mudança; não somos primariamente responsáveis por essa mudança no aspecto geral das coisas; ao contrário, o que mudou foi a autodoação por parte do ser.

64. Assim, a essência da técnica, nossa compreensão das coisas em geral, tanto perdura quanto muda em razão da história do ser; a noção de doação não apenas explica o perdurar da essência, mas também sua peculiar espécie de perdurar não perpétuo.

A doação como aquilo que poderia salvar

65. Retorno agora à segunda questão levantada quanto à noção heideggeriana de doar: exatamente como o fenômeno da doação é aquilo que poderia salvar?

66. É solicitação, oferta, oferecimento; a técnica nos é dada à maneira da poiesis, não por meio de imposição; portanto, profundamente dentro da técnica moderna está enraizada a alternativa genuína à imposição, a poiesis.

67. Assim, a doação nos ensina que somos parceiros secundários — mas, ainda assim, genuínos, livres — do ser no evento do desvelamento; em outros termos, a doação nos familiariza com o olhar revelador como tal, isto é, como receptividade ativa da iniciativa por parte do ser.

68. Mas, se esse destino, a com-posição, é o perigo extremo, não apenas para a essência do homem, mas para todo olhar revelador como tal, deveria esse enviar ainda ser chamado de doação? Sem dúvida, e especialmente se, nesse destino, aquilo que salva deve crescer.

69. Essa dignidade reside em tender ao desvelamento — e, junto com isso, ao velamento prévio — de toda essência nesta terra; é precisamente a com-posição, que ameaça inundar o homem na imposição como suposta única via de olhar revelador, e assim lança o homem no perigo do abandono de sua essência livre, é precisamente esse perigo extremo que pode nos tornar conscientes de nosso pertencimento mais íntimo e indispensável àquilo que doa, desde que, de nossa parte, aprendamos a ver a essência da técnica.

70. Heidegger junta aqui a essência da humanidade (como Dasein) e o olhar revelador como tal; ambos são ameaçados pela imposição totalmente abarcante; de fato, há apenas uma ameaça aqui, pois o olhar revelador constitui precisamente a essência da humanidade como Dasein.

71. O perigo é, portanto, que todo olhar revelador se torne impositivo e todas as coisas se desvelem como ali para serem impostas; desvelamento e olhar revelador colapsarão na imposição.

72. Falar da “essência livre” de um ser humano é pleonasmo; a liberdade é essencial aos humanos; perder a liberdade é perder a essência; como uma ameaça ao olhar revelador é um perigo à liberdade?

73. Para Heidegger, todo olhar revelador ocorre “a partir de uma doação e como uma doação”; o problema, o perigo, é que esse fato foi ocultado pela atitude impositiva totalmente abarcante; o que poderia nos salvar é aquilo que poderia desvelar a doação e trazê-la para casa em nós: a doação, o enviar a um ou outro tipo de olhar revelador, é em si mesma aquilo que poderia salvar.

74. Como o fenômeno da doação nos mostra nossa liberdade genuína? A doação primeiro familiariza o homem com sua participação no desvelamento, participação requerida para o próprio evento do desvelamento — requerida para o evento da verdade.

75. Em outras palavras, nossa liberdade no desvelamento é a liberdade do seguidor; essa é, para Heidegger, nossa liberdade genuína; como seguidores, nosso papel é secundário, é basicamente receptividade.

76. Nas palavras de Heidegger, nossa dignidade “reside em tender ao desvelamento — e, junto com isso, ao velamento prévio — de toda essência nesta terra”.

77. O precedente é relativamente direto; porém, Heidegger também diz que nossa dignidade reside em tender ao velamento de toda essência; isso é muito mais problemático.

78. Considere-se a compreensão grega original da verdade; a palavra grega para “verdade”, aletheia, é, segundo Heidegger, palavra negativa, formada por um alfa privativo e λήθη (lethe), de λανθάνω (lanthano), que não significa “esquecer”, como usualmente se pensa e traduz, nem significa “ocultar” no sentido da atividade humana de ocultar algo, mas antes significa precisamente “estar oculto”.

79. O que vemos aqui é mais que apenas “interessante”; é decisivo — para uma compreensão da essência primordial da verdade, cujo nome grego, aletheia, deriva da palavra lanthano; pois precisamente o modo como lanthano é a palavra dominante nos diz que aquilo que nomeia, “o velado”, tem prioridade na experiência dos entes, e, de fato, como caráter dos próprios entes, é possível “objeto” de experiência.

80. Para Heidegger, experimentar o velamento dos entes significa, sim, experimentar seu desvelamento, mas significa experimentar esse desvelamento num sentido especial, a saber, como primariamente não sendo nossa obra.

81. Um modo de Heidegger ilustrar a distinção entre a atitude antiga e a moderna é o seguinte: na Odisseia, Homero diz que, em certo banquete, Odisseu chorava elanthane; costumamos dizer que seu choro era “despercebido” pelos que o cercavam.

82. O ponto crucial é que nossa experiência de uma coisa não depende, ou ao menos não depende primariamente, de sermos ou não observadores; não depende de nossos poderes, de nosso comportamento subjetivo; depende de se paira sobre a coisa um véu, ou se o véu é levantado.

83. Podemos agora entender a afirmação heideggeriana de que a dignidade humana reside em tender tanto ao desvelamento quanto ao velamento; tender ao desvelamento significa fazer tudo o que está em nosso poder para desvelar a verdade — significa ser ativo, autêntico, observador.

84. Heidegger conclui o parágrafo sublinhando a importância de apreendermos a essência da técnica (distinta das coisas tecnológicas); a essência da técnica é o olhar revelador, correlato da autodoação do ser; olhar revelador é a resposta humana à direção do ser, portanto receptividade ativa.

85. Que dizer, então, de nosso papel poiético de tender ou fomentar? Em primeiro lugar, pressupõe certo ver; antes de podermos fazer algo para cumprir nosso papel de parteiro, precisamos ver nosso papel.

86. Adiaremos até o fim uma discussão de como podemos, em concreto, realizar essa atividade poiética de “cuidar” e “deixar crescer” ou, como Heidegger também a chamará, “vigiar” e “fomentar”; de fato, neste ensaio, Heidegger não oferece mais que indícios quanto a uma técnica genuinamente poiética, isto é, uma recepção autêntica da autodoação do ser.

O mistério

87. Heidegger passa a refletir sobre essa circunstância peculiar de que a técnica moderna é, por essência, impositiva, mas abriga profundamente dentro de si a poiesis, a alternativa genuína à imposição.

88. Por um lado, a com-posição nos desafia ao frenesi da imposição, que depõe toda visão do evento do desvelamento e assim ameaça o próprio fundamento de nossa relação com a essência da verdade.

89. O primeiro parágrafo fala do “desdobramento da essência”, frase que se refere à autoproferta do ser, ao autorrevelar-se da essência das coisas em geral; esse desdobramento ocorre por via de uma doação, não por via de imposição.

90. Assim, a com-posição, essência da técnica moderna, mostra-se tanto impositiva quanto exatamente o oposto, questão de doação; o terceiro parágrafo exprime o caráter impositivo: a técnica moderna é, por essência, uma imposição totalmente abarcante que fortemente nos motiva a ver os entes exclusivamente como descartáveis, como ali para serem impostos.

91. Se vemos apenas imposição, faremos e produziremos coisas apenas impositivamente; para Heidegger, a menos que possamos vislumbrar a poiesis, não podemos cumprir autenticamente nosso papel poiético, onde reside nossa essência, nossa liberdade e nossa dignidade.

92. No quarto parágrafo, Heidegger chama esse serviço poiético de “vigiar” a essência da verdade, outro modo de dizer “coadjuvar” ou “nutrir”, ou “deixar ativo”.

93. Assim, a técnica moderna tanto (enfaticamente) depõe a poiesis quanto (profundamente, reticentemente) a manifesta; Heidegger conclui que a essência da técnica é ambígua e que “tal ambiguidade indica a presença do mistério, o mistério de todo desvelamento, o mistério da verdade”. Que mistério é esse?

94. Heidegger já havia afirmado, algumas páginas antes, que “aquilo que abre o espaço aberto — o mistério — está velado e sempre se velando”; o ser torna disponível um espaço aberto (uma compreensão do que significa ser), mas assim como a abertura do espaço aberto é mais facilmente negligenciada em favor das coisas que ali se mantêm, também o ser se retira em favor dos entes.

95. O que é misterioso quanto ao ser, quanto ao autodesvelamento do ser, isto é, quanto à verdade, é esse jogo de autooferta e autorretirada; o ser mostra-se reticentemente e recua enfaticamente; é o primeiro a ser experimentado e o último a ser notado, o mais próximo e o mais distante, o mais conhecido e o menos conhecido, o mais óbvio e o mais negligenciado — é por isso que o ser é o mistério.

96. A técnica moderna é, em verdade, uma doação; o ponto de Heidegger não é simplesmente que a técnica moderna se mostra, como doação, imperfeitamente; não haveria mistério algum nisso — muitas coisas, de fato todas as coisas, se mostram imperfeitamente.

97. A técnica moderna nos motiva a ver todas as coisas como descartáveis; aplicaremos então à própria técnica moderna a perspectiva que ela mesma nos doou; em outras palavras, nosso apreender a técnica moderna é a razão pela qual não apreendemos a técnica moderna. Esse é o mistério.

98. A técnica moderna insiste na imposição; a perspectiva impositiva é insistente, autoafirmativa, agressiva; a técnica moderna depõe a poiesis; ainda assim, é a essência da técnica moderna que nos motivou a refletir mais profundamente sobre o que significa ser uma essência.

99. Essa é a ambiguidade, o mistério, o jogo de autovelamento e autodesvelamento na técnica moderna: na técnica moderna encontramos tanto a imposição quanto seu oposto, a doação, a poiesis; a técnica moderna abriga ambas.

100. Para Heidegger, essa curiosa ambiguidade que se apega à técnica moderna indica a presença da autorrevelação do ser, a presença do evento da verdade; indica que o que se passa na técnica moderna não é meramente algo comparável ao mistério do ser, mas é esse mistério em sua figura atual.

101. O ser, contudo, mostra-se, ainda que reticentemente, e apreender o ser, em contraste com os entes, equivale a apreender a essência da técnica em contraste com os descartáveis; a essência da técnica é doação, e nosso papel nela é o poiético da receptividade ativa.

A constelação

102. Heidegger passa a exprimir o caráter ontológico da técnica moderna numa imagem tirada da astronomia ou, antes, da observação das estrelas: a insistência da imposição e a reticência daquilo que poderia salvar cruzam-se como as trajetórias de duas estrelas no curso dos céus.

103. Como devemos entender essa imagem de estrelas se cruzando? Não estariam as estrelas fixas em sua relação umas com as outras? De fato, a imagem heideggeriana faz sentido se tomada em termos astronômicos estritos: a maioria das estrelas que vemos de fato se cruzam; não são estrelas únicas, mas binárias, pares de estrelas que constantemente giram uma ao redor da outra e se eclipsam mutuamente.

104. Heidegger deve estar se referindo a estrelas em sentido mais amplo, incluindo os planetas e outros corpos celestes; entende “estrela” no sentido em que poderíamos chamar Vênus de estrela vespertina.

105. Os planetas de fato se cruzam; uma conjunção de dois planetas brilhantes é visão impressionante que não requer telescópio; a aproximação, conjunção e afastamento de dois planetas podem ser observados no curso de três noites de observação do céu — presumivelmente, é a esse fenômeno que Heidegger se refere.

106. Ainda assim, esse modo de entender a imagem é acometido por outra dificuldade; Heidegger chama o cruzar-se das estrelas de “constelação” (die Konstellation); mas apenas as estrelas fixas formam constelações; não existe tal coisa como uma constelação de planetas; as constelações do zodíaco são precisamente aquilo por que os planetas erram.

107. Teremos, então, de tomar “constelação” em sentido ligeiramente idiossincrático, embora de fato no sentido etimológico; referir-se-ia não a um grupo fixo de estrelas, mas a um “ir junto das estrelas”, tomando novamente “estrela” para incluir as estrelas errantes.

108. A aproximação aparente de dois planetas é, naturalmente, apenas uma aproximação aparente; parecem se aproximar apenas de nosso ponto de vista; objetivamente, a distância entre os planetas pode estar aumentando enquanto se alinham com a terra.

109. Ele encontra nas duas estrelas que “seu cruzar-se é apenas o outro lado de sua proximidade”; isto é, vemos que os dois corpos celestes não colidem, não se juntam, cruzam-se.

110. Duas coisas não relacionadas não se cruzam; navios podem passar sem se ver na noite, mas só podem fazê-lo porque ambos pertencem ao mar e assim estão conectados um ao outro.

111. Em outro lugar, Heidegger chama a noite de “costureira das estrelas”; falando objetivamente, isto é, para o cientista exato, o que mais poderia impressionar é a distância que separa as estrelas.

112. Não se diz explicitamente que Heidegger é esse professor, mas fica óbvio que não poderia ser outro; a passagem se desenrola: Professor: a noite fecha as distâncias das estrelas nos céus… / Cientista: talvez para o observador ingênuo, embora não para o cientista exato. / Professor: para a criança no homem, a noite permanece a costureira das estrelas. / Erudito: ela costura sem ponto, trama ou linha. / Cientista: é a costureira porque só faz trabalho de aproximar (close-work).

113. Uma constelação é, então, formada por duas estrelas costuradas juntas; o cientista poderia negar que isso acontece; é meramente aparente; mas para alguém com olhos infantis, olhos inocentes de ciência, é exatamente o oposto.

114. Essas parecem cruzar-se sem se tocar, pertencer a mundos radicalmente diferentes; a atitude impositiva insistente parece exilar a poiesis; mas, se nos é permitido olhar suficientemente fundo na essência da técnica moderna, suficientemente fundo para ver a ambiguidade nessa essência, encontramos a imposição e a poiesis próximas uma da outra.

115. A proximidade entre imposição e doação é misteriosa — no sentido heideggeriano de mistério; em outras palavras, sua proximidade tem a ver com o ser, com o autodesvelamento do ser, com o acontecer da essência da verdade.

116. Consequentemente, imposição e doação estão próximas do mesmo modo que entes e ser estão próximos entre si; assim, não estão próximos acidentalmente, no sentido de que imposição e doação, o perigo e aquilo que poderia salvar, simplesmente acontecem de se encontrarem juntos em um lugar, na técnica moderna.

117. Quanto mais profundamente ponderamos sobre a técnica moderna, mais tornamos explícito o fenômeno da doação; quanto mais claramente vemos a ambiguidade da técnica moderna, isto é, quanto mais contemplamos a constelação, a constelação da autorrevelação do ser, a constelação da verdade, mais entendemos a atitude impositiva como algo doado.

118. O proveito é que vislumbramos o fenômeno da doação, a alternativa à atitude impositiva; vislumbramos aquilo que poderia salvar; mas que tipo de proveito é esse? Isso não nos salva efetivamente, ou salva?

119. Que pequenas coisas são essas? O que, concretamente, aqui e agora, podemos fazer para apressar o advento daquilo que poderia salvar? Qual é o modo próprio e humano de receber a autodoação do ser?

120. Aqui, no ensaio sobre a técnica, Heidegger não diz; o ensaio permanece aberto; convida-nos a levar suas lições a sério e ponderar como colocá-las em prática; isto é, Heidegger deixa a aplicação prática a nós.

Transição para a questão da arte

121. Antes de tomarmos a questão da prática apropriada, sigamos Heidegger até o fim de seu ensaio, ao formular sua última questão teórica: há algum lugar privilegiado onde a poiesis se mostre claramente, ao menos mais claramente do que na essência da técnica?

122. De fato, para Heidegger, hoje todo olhar revelador é impositivo, e assim, se essa perspectiva original sobrevive, sobrevive apenas em farrapos; poderia talvez ser revivida? Permitir-nos-ia então uma visão clara da poiesis, isto é, uma compreensão do ser como doador e de nós mesmos como recipientes ativos da doação?

123. Os feitos humanos, sozinhos, jamais podem dissipar [o perigo]; mas a reflexão humana pode ponderar o fato de que aquilo que poderia salvar deve ser de essência mais elevada que aquilo que é ameaçado, e ainda assim de essência aparentada.

124. Heidegger pergunta se há um olhar revelador de essência mais elevada que a perspectiva impositiva, e ainda assim de essência aparentada; proporá a arte como esse olhar revelador mais elevado.

125. Para Heidegger, porém, a arte originalmente tinha função mais elevada, e essência mais elevada, e a questão é se, na era tecnológica, essa função e essa essência poderiam ser novamente doadas à arte.