ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006
A ocultação da poiesis
1. Para Heidegger, a técnica moderna como tal oculta a poiesis, ou, dito mais propriamente, a técnica moderna só pôde surgir numa época desapropriada da poiesis, uma época em que esta foi retida — sendo a técnica moderna, assim, uma resposta ao autoocultamento da poiesis.
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Se a poiesis está inteiramente oculta, essa resposta tomará a forma da atitude inteiramente oposta: a imposição; a essência da técnica moderna é a perspectiva que vê a imposição como a única relação possível entre entes.
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O único modo de ser livre é confrontar, dominar, senhorear, e o único modo de ser subserviente é ser dominado e senhoreado; quando a com-posição impera, toma todo o campo de visão, e nenhuma alternativa se torna visível — aí reside o perigo.
2. O que está em perigo é a liberdade humana, já que a atitude impositiva exagera essa liberdade seja por excesso, seja por falta, tornando a liberdade tudo ou nada; ambas essas visões estão fadadas a trazer desilusão, não exprimindo o modo próprio e humano de estar no mundo.
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O antídoto, para Heidegger, o caminho para a verdadeira plenitude e maturidade humana, é ver uma alternativa genuína à imposição: precisamos ver a liberdade autêntica como não sendo questão nem de dominação nem de ser dominado, precisamos ver nossa liberdade genuína como poiesis, livre e ainda assim subserviente, a serviço de algo maior e ainda assim não sob dominação.
3. Como, porém, na era da técnica moderna, quando a imposição impera exclusivamente, podemos sequer ver a poiesis? Como podemos ver o ser à frente, o fenômeno do olhar revelador? Como podemos ver a atitude propriamente humana do seguimento autêntico? O que poderia nos salvar da imposição?
4. Concluamos primeiro a discussão do perigo enquanto tal repetindo, como faz Heidegger, que não são as coisas tecnológicas que são perigosas (não sendo, portanto, o perigo à mera existência), mas, ao contrário, o que é perigoso é a essência da técnica, o modo exclusivamente impositivo de olhar revelador: o que é perigoso não é a técnica; a técnica não é demoníaca, mas sua essência é de fato oculta (occult).
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A essência da técnica, como destino a um olhar revelador, é o perigo; assim, onde a com-posição (
Ge-stell) reina, há perigo no sentido mais elevado.
5. A essência é oculta no sentido de ter sido escondida, eclipsada de nossa vista; falando em termos astronômicos, houve uma ocultação da essência da técnica, uma ocultação do ser em seu modo de liderar, uma ocultação da poiesis, e é isso que é perigoso.
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Em certo sentido, o antídoto que Heidegger sugerirá é esperar, esperar ativamente, que a ocultação passe; a espera ativa é poiesis; isso pode nos salvar.
Aquilo que poderia salvar
6. Imediatamente ao concluir sua discussão do perigo — afirmando que onde a com-posição impera há perigo no sentido mais elevado —, Heidegger invoca dois versos de uma obra poética: “Mas onde está o perigo, cresce também o que salva.”
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Heidegger apela a essa poesia apenas em busca de uma pista; se o poema é verdadeiro, a própria com-posição abrigaria, talvez profundamente oculto, o meio para nossa salvação da com-posição.
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A própria com-posição nos permitiria vislumbrar a alternativa genuína à imposição, a saber, a poiesis; a técnica moderna poderia nos revelar a essência da técnica como tal, um olhar revelador em resposta à autorrevelação do sentido do ser em geral.
7. Ele pergunta o que o poema quer dizer com “salvar”: pensamos usualmente que significa meramente apoderar-se de algo ameaçado de ruína para preservá-lo em seu estado anterior; mas “salvar” diz mais.
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“Salvar” algo é trazê-lo para casa, isto é, para casa em sua essência, e fazê-lo trazendo essa essência pela primeira vez à sua aparência própria.
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Isso significa, aplicado a nós humanos, que ser salvo não equivale a ser preservado em nosso estado anterior, na nossa existência contínua; não estamos salvos se meramente evitamos acidentes nucleares e continuamos vivendo.
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Ao contrário, ser salvo é ser trazido a nosso estado genuíno, para casa, à nossa essência; estaremos salvos quando pudermos viver de acordo com nossa essência, de acordo com nossa dignidade humana; mas, para isso acontecer, precisaríamos ver nossa essência, sendo esta trazida a uma aparência própria.
8. Para Heidegger, nossa essência reside no papel que desempenhamos no desvelamento do sentido do ser; nossa essência é ser o lugar onde o ser se desvela; poderíamos, assim, ser salvos apenas através de uma iluminação do desvelamento, de um aparecer da parceria reveladora entre o ser e os humanos, ou, em suma, através de um brilhar da verdade.
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Se a essência da técnica, a com-posição, é o perigo extremo, e se, ao mesmo tempo,
Hölderlin diz algo verdadeiro aqui, então o imperar da com-posição não pode se esgotar unicamente em depor toda iluminação do desvelamento, todo brilhar da verdade.
9. Pelo contrário, a com-posição deve também, de algum modo, iluminar o desvelamento, iluminar a parceria reveladora entre o ser e os humanos e os respectivos papéis de humanos e ser nessa parceria; a com-posição deve, de algum modo, mostrar-se adequadamente, pelo que é, a saber, um suscitar de certo olhar revelador.
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Precisamente a essência da técnica deve abrigar em si mesma o crescer daquilo que poderia salvar; nesse caso, não faria um olhar adequado ao que a com-posição é, a saber, um destino ao olhar revelador, aparecer aquilo que poderia salvar no lugar em que vem à vista?
10. Aquilo que poderia salvar vem à vista exatamente no desvelamento da essência da técnica como um olhar revelador, como receptividade ativa da autodoação do ser; se a com-posição pode iluminar o olhar revelador, então a técnica moderna não simples e unicamente deporia a verdade, deporia a poiesis.
11. Tendo determinado o sentido de “salvar”, Heidegger pergunta agora o que o poema quer dizer com “crescer”: de que modo cresce também, precisamente onde está o perigo, aquilo que poderia salvar? Onde algo cresce, ali ele lança raízes, e a partir daí se desenvolve.
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Ambos ocorrem ocultamente, silenciosamente, e a seu tempo; as palavras do poeta não significam que, onde está o perigo, podemos esperar apreender imediatamente, e sem preparação, aquilo que poderia salvar.
12. Heidegger emite aqui uma advertência contra tomar “crescer” num sentido fácil — isto é, num sentido que tornaria fácil para nós apreender aquilo que poderia salvar; crescer não significa aqui florescer, romper em plena luz.
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Heidegger não se refere ao crescimento visível acima do solo; refere-se ao lançar raízes que ocorre profundamente; aquilo que poderia salvar ainda está crescendo abaixo da superfície; seu crescimento é seu enraizar-se.
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Está se desenvolvendo, mas ainda não brotou até a superfície; consequentemente, teremos de olhar fundo para encontrar aquilo que poderia salvar, teremos de olhar até o mais oculto, o mais abaixo da superfície, a saber, a essência.
13. De fato, teremos de olhar até o que há de mais profundo dentro da essência, a essência da essência; para Heidegger, descobriremos na essência da técnica moderna aquilo que poderia salvar, mas somente se atingirmos até a essência dessa essência, isto é, somente se desenraizarmos o sentido em que a essência da técnica é, de todo, uma essência.
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Precisamos agora primeiro considerar de que modo aquilo que poderia salvar de fato lança raízes mais profundamente e começa a se desenvolver onde reside o perigo extremo — no imperar da com-posição; para considerar isso, é necessário, como último passo em nosso caminho, olhar com olhos ainda mais claros para o perigo.
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É na essência da técnica que aquilo que poderia salvar lança raízes e se desenvolve; mas como havemos de contemplar, na essência da técnica, aquilo que poderia salvar, enquanto não considerarmos em que sentido de “essência” a com-posição é propriamente a essência da técnica?
14. A estratégia de Heidegger será agora argumentar que a essência da técnica não é uma essência no sentido usual, requerendo pensar sobre a técnica que redeterminemos o sentido de essência.
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Assim, onde está o perigo, ali cresce de fato aquilo que poderia salvar, pois esse sentido redeterminado de essência é um que ilumina a verdade; esse novo sentido de essência revela o desvelamento, a parceria reveladora entre o ser e os humanos, e nos permite entender o papel próprio de cada um dos parceiros.
15. Com isso, poderemos contemplar a liberdade humana genuína e não a exagerarmos nem por excesso nem por falta; com nossa visão devidamente fixada, poderemos possivelmente “morar na mais alta dignidade de nossa essência”, como Heidegger afirmará.
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O novo sentido de essência conduz, assim, a uma alternativa genuína à atitude impositiva, fazendo-o ao reaproximar-nos da poiesis; é assim que a com-posição, essência da técnica moderna, pode, se pensada com profundidade suficiente, salvar-nos da com-posição.
O sentido de essência
16. Sua essência é aquilo que faz algo ser o que é; ordinariamente, pensamos a essência como um uno que muitas coisas têm em comum; os muitos seres humanos têm em comum a essência una, “humanidade”, e as muitas árvores têm em comum a essência una, “arboreidade”.
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A essência de uma árvore é o que faz qualquer coisa ser árvore, aquilo que qualquer coisa deve ter para ser árvore, aquilo que é conferido a todas as árvores em comum; a essência de uma árvore é, então, o conceito universal ou o gênero, e os muitos particulares são as várias espécies ou casos singulares. Diz-se que esses particulares “caem sob” o gênero.
17. Até aqui entendemos “essência” em seu significado ordinário; na linguagem da filosofia acadêmica, “essência” significa o que algo é; em latim, quid; a quididade responde quando perguntamos pela essência.
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O que é conferido a todas as espécies de árvores — carvalhos, faias, bétulas, abetos — é a mesma arboreidade; sob esse gênero comum — o “universal” — caem todas as árvores atuais e possíveis.
18. Tal essência, como gênero comum a muitos, é chamada, na linguagem erudita, “discursiva” — nós mesmos fabricamos essa essência “correndo em volta” (dis-cursivamente).
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Para apreender o que muitas coisas têm em comum, devemos primeiro sair e ver as coisas individuais, colher experiência delas, e então podemos abstrair dos indivíduos aquele aspecto em que se assemelham; com uma essência discursiva (essência no sentido ordinário, gênero), os muitos indivíduos vêm primeiro.
19. Ademais, os indivíduos que caem sob um gênero comum estão todos relacionados do mesmo modo à essência; são todos precisamente instâncias da essência; o gordo e o magro são tipos diferentes de humanos, e Sócrates e Platão são casos individuais diferentes de humanidade, mas todos são humanos exatamente do mesmo modo, precisamente no sentido de serem instâncias particulares da essência.
20. Quanto ao sentido usual de essência, então, duas condições valem: os indivíduos precedem a essência em nossa experiência, e os indivíduos são instâncias da essência.
21. Para Heidegger, a essência da técnica, como olhar revelador, precede as coisas tecnológicas; não corremos por aí olhando coisas tecnológicas para conceber a essência da técnica; ao contrário, a essência da técnica é a perspectiva que subsequentemente nos envia a correr por aí fabricando compostos e coisas descartáveis.
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Do mesmo modo, as coisas tecnológicas não são instâncias da essência, não são com-posições individuais, modos individuais de olhar revelador; as coisas da técnica relacionam-se à essência da técnica de vários modos, e nenhum desses modos é o da instanciação.
22. É então a essência da técnica moderna, a com-posição, o gênero comum a todas as coisas tecnológicas modernas? Se assim fosse, a turbina a vapor, o transmissor de rádio e o cíclotron seriam cada um uma com-posição.
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Mas a palavra “com-posição” não significa aqui um “composto”, uma engenhoca ou dispositivo; muito menos significa o conceito geral de tais descartáveis; as máquinas e dispositivos não são espécies ou instâncias da com-posição, tampouco o são o homem no painel de comando e o engenheiro na sala de desenho.
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Todos eles, à sua própria maneira, estão de fato presos na com-posição — como algo imposto, como o descartável resultante, ou como o que faz a imposição; mas a com-posição jamais é a essência da técnica no sentido de um gênero; a com-posição é um modo de olhar revelador.
23. Em vez de “cair sob” a com-posição, as coisas tecnológicas estão “presas na” com-posição, isto é, engolfadas por ela, comandadas por ela, postas a seu serviço em várias capacidades.
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Assim, os entes individuais não caem sob a essência da técnica como instâncias, nem estão todos relacionados à essência do mesmo modo; os entes individuais “presos” na técnica (e estes são, para Heidegger, todos os entes hoje existentes) relacionam-se a ela de diversos modos.
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O engenheiro humano é quem realiza a imposição, a matéria-prima natural é o que é imposto, e o plexiglás composto é o produto final da imposição, o descartável resultante; humanos, natureza e coisas de alta tecnologia são todos entes tecnológicos, todos abarcados pela imposição totalmente abarcante, mas relacionam-se à com-posição em capacidades diferentes, e a com-posição não é seu gênero.
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A com-posição não é, portanto, uma essência discursiva, não é um gênero comum, não é uma essência no sentido usual.
24. Já que a com-posição é aquilo a que todos os entes tecnológicos se relacionam, de vários modos, seria a com-posição uma essência no sentido de um equívoco πρὸς ἕν (pros hen)?
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Para
Aristóteles, o ser não é um gênero, mas se relaciona aos entes individuais de modo pros hen; a essência dos entes é o ser, no sentido específico de que o que faz um ente ser um ente é sua relação “a um”, ao ser, à instância mais elevada do ser, ao que mais propriamente é.
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Do mesmo modo, todas as coisas saudáveis são o que são, precisamente como saudáveis, em razão de sua relação, diferente em cada caso, com a única instância mais própria de saúde, a saber, a saúde do organismo.
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Para Heidegger, a com-posição é de fato aquilo a que todos os entes tecnológicos se relacionam, mas a com-posição não é a instância mais elevada de uma coisa tecnológica; a com-posição não é coisa tecnológica alguma, a com-posição é nada técnico; portanto, a com-posição não é a essência dos entes tecnológicos no sentido de uma essência pros hen.
25. Para Heidegger, a com-posição é um olhar revelador, impositivo; a com-posição é o olhar para as coisas como potencialmente descartáveis, um olhar que motiva a subsequente imposição efetiva sobre as coisas e sua transformação em descartáveis efetivos.
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A com-posição relaciona-se aos entes tecnológicos de modo motivacional — ou antes, fortemente motivacional, comandante; todos os entes estão “presos” na com-posição, engolfados por ela; como primeira formulação, poder-se-ia dizer que a com-posição é uma essência em sentido novo, comandante.
26. Lembremo-nos, porém, de que a poiesis, essência da técnica antiga, é também um modo de olhar revelador; conhecemos dois tipos de olhar revelador, duas perspectivas gerais sobre as coisas, dois tipos de técnica.
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Se então considerarmos a técnica como tal, abstraindo de suas espécies moderna e antiga, não poderíamos entender o próprio olhar revelador como a essência da técnica, o gênero comum tanto da técnica antiga quanto da moderna? O conceito de olhar revelador não se mostraria como a essência de toda técnica, a essência da técnica como tal?
27. Além disso, seria uma essência precisamente no sentido usual de um conceito discursivo, um universal, um gênero comum; poiesis e com-posição cairiam sob ele como suas instâncias.
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Para Heidegger, é verdade que o olhar revelador é a essência da técnica em geral, sendo poiesis e com-posição, trazer-à-frente e desafiar, suas espécies; mas a contenção de Heidegger — absolutamente crucial de entender se quisermos apreender sua redeterminação do sentido de essência — é que o olhar revelador não é um conceito discursivo; as duas espécies não caem sob ele.
28. A com-posição é um modo de olhar revelador que é destinado; é, especificamente, o modo de olhar revelador que desafia; o olhar revelador que traz-à-frente (poiesis) é outro modo destinado de olhar revelador.
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Esses modos, porém, não são espécies que caem sob um conceito de olhar revelador — isto é, não caem sob ele lado a lado, concorrentemente.
29. Por que a com-posição moderna e a poiesis antiga não caem sob um conceito de olhar revelador? Segundo Heidegger, ao contrário, o desvelamento [do ser] é aquele destino que, abruptamente, e inexplicavelmente para todo pensamento, se dispensa ora no olhar revelador que traz-à-frente, ora no olhar revelador que desafia.
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É nesses respectivos modos que o desvelamento se atribui ao homem; o olhar revelador que desafia tem sua origem destinada [isto é, histórica] no tipo de olhar revelador que traz-à-frente; mas, ao mesmo tempo, a com-posição é destinada a depor a poiesis.
30. Isso diz que os dois modos de olhar revelador, os dois modos de técnica, não são concorrentes; ao contrário, um é subsequente ao outro; o ser se revela ora numa figura, ora noutra, motivando dois modos diferentes de olhar revelador e duas técnicas diferentes.
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O modo original era o tipo de olhar que traz-à-frente; esse modo é a origem do tipo desafiador, impositivo; mas o tipo desafiador então depõe o anterior, desapropria-o — isto é, não apenas o destrona, mas também o exila, envia-o para a reclusão.
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É assim que os dois tipos não existem concorrentemente, lado a lado; e é também por isso que, para Heidegger, o olhar revelador não é uma essência no sentido de um gênero comum; as instâncias de um gênero não se excluem mutuamente — carvalhos e bétulas podem existir lado a lado, mas a com-posição e a poiesis não existem simultaneamente, sendo mutuamente exclusivas, pois o ser não se mostra à humanidade de dois modos diferentes, plena e reticentemente, ao mesmo tempo.
31. Em que sentido de essência é então a com-posição a essência da técnica moderna? Não é uma essência no sentido usual de gênero comum, nem uma essência como equívoco pros hen; nem tampouco o próprio olhar revelador, de que a com-posição é um dos tipos, é uma essência em qualquer sentido usual.
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Isso precisamente porque a com-posição não é um tipo ou espécie no sentido usual; as espécies de um gênero não excluem nem desapropriam as outras espécies, mas a com-posição depõe a poiesis; a com-posição é, assim, uma anomalia no reino das essências, não se encaixando em nosso pensamento usual sobre essências.
32. A com-posição nos convoca, assim, a repensar o sentido de essência: assim, a com-posição, como destino a um olhar revelador, é de fato atualmente a essência da técnica, mas definitivamente não é uma essência no sentido de gênero, essentia.
33. Vê-se aqui como as palavras de Hölderlin estão se cumprindo: a técnica moderna é o perigo extremo, mas nela também cresce aquilo que poderia salvar, desde que “crescer” signifique estar enraizado profundamente.
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Se perscrutarmos com profundidade suficiente a essência da técnica moderna, na com-posição, seremos motivados a repensar a noção de essência; chegaremos então, presumivelmente, a uma compreensão mais genuína da essência e da relação entre a essência da técnica e os entes tecnológicos, nós mesmos incluídos.
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Poderemos então ver como a técnica nos faz exigências, mas também requer nossa cumplicidade livre; poderemos assim nos entender como seguidores, mas não como escravos — o que equivaleria a apreender (com a possibilidade de salvaguardar) nossa dignidade humana genuína, exatamente aquilo que estamos em perigo de perder.
Perdurar
34. Heidegger começa sua redeterminação do sentido de essência do modo como costuma iniciar uma investigação, deixando a linguagem guiar o caminho, apelando a duas palavras em que ocorre o termo para “essência” (das Wesen): das Hauswesen e das Staatswesen.
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Literalmente, essas palavras dizem “essência-casa” e “essência-estado”, mas das Hauswesen não significa “essência de uma casa”, significando antes “assuntos domésticos” ou “administração doméstica”; do mesmo modo, das Staatswesen não significa a essência geral de um estado, mas antes “assuntos públicos”, “administração de um estado”, “sistema político”.
35. Já nessas palavras, embora usemos o termo para “essência”, Wesen, “não nos referimos a um universal ou gênero; queremos antes dizer os modos como uma casa ou um estado imperam, como são administrados, como se desdobram, como percorrem seu curso até o fim; em suma, os modos como perduram [wie sie wesen]”.
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Heidegger apela, assim, ao verbo wesen para esclarecer o substantivo das Wesen; e para entender o verbo, que traduzi antecipadamente como “perdurar”, Heidegger invoca, como lhe é ainda mais habitual, a poesia.
36. Ele apela ao poeta alemão do início do século dezenove, J. P. Hebel, que usa a “palavra antiga” die Weserei para nomear a prefeitura, palavra bastante obscura, entendida talvez por analogia com outros termos alemães terminados em -erei.
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Esse sufixo significa o realizar constante de alguma atividade, ou pode se referir ao lugar especialmente dedicado a essa atividade; die Druckerei é uma tipografia, lugar onde se realiza a impressão; por analogia, então, die Weserei é o lugar onde wesen se passa.
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Mas por que, então, die Weserei seria o nome da prefeitura? Segundo Heidegger, die Weserei significa a prefeitura na medida em que ali a vida da comunidade se concentra e a existência aldeã constantemente se joga, isto é, perdura [west].
37. O que é mais importante aqui, para Heidegger, é a ideia de constância; comparada a qualquer outro lugar, a prefeitura é aquele onde a vida da aldeia é mais continuamente exercida; a vida da cidade ali está mais em jogo, quase sempre em curso.
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A prefeitura é o lugar onde a cidade mais perdura como cidade viva, como estabelecimento para a vida comunal; o que ali se passa é um perdurar da cidade; die Weserei significa, então, “o lugar do perdurar”, o lugar para a atividade de perdurar, wesen.
38. Segundo Heidegger, esse verbo, wesen, é a fonte do substantivo, Wesen, sendo o verbo, agora explicitamente afirmado, equivalente a outra palavra comum que significa “perdurar” (währen): é do verbo wesen que deriva o substantivo [das Wesen = essência]; em seu sentido verbal, wesen equivale a währen [perdurar, persistir], não apenas quanto ao significado, mas também quanto à estrutura fonética da palavra.
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O substantivo significa, portanto, aquilo que perdura, aquilo que persiste; e assim, tomando uma pista da linguagem, encontramos que a essência é “o perdurante”.
39. Heidegger busca confirmar essa pista e não encontra dificuldade em fazê-lo na história da filosofia: Sócrates e Platão já pensam a essência de algo como o perdurar, no sentido do que persiste; de fato, pensam o que persiste como o que persiste perpetuamente (aei on, “ser eterno”).
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Encontram o que persiste perpetuamente no que se mantém, no que persevera através de tudo o que pode acontecer a uma coisa; discernem então o que persiste no aspecto exterior (eidos, ideia): por exemplo, na Ideia “casa”.
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A Ideia “casa” exibe o que tudo daquele tipo é; em contraste, as casas particulares, atuais ou possíveis, são meras instanciações variáveis e transitórias da “Ideia” e assim pertencem ao não perdurante.
40. Para Platão, o que é comum a todas as coisas de certo tipo é sua fisionomia ou aspecto básico, chamado em grego eidos ou ideia, palavras derivadas do verbo “ver”.
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A Ideia é o que é mais propriamente visto, mais propriamente visível — o que não quer dizer que a Ideia seja visível no sentido ordinário, visível aos olhos físicos; ao contrário, a Ideia é como a luz que nos permite usar os olhos.
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A Ideia dá visibilidade às coisas particulares que a exemplificam; apreendemos coisas individuais à luz da Ideia; as Ideias devem ser vistas primeiro; é assim que são “mais propriamente” visíveis.
41. Consequentemente, as Ideias não são conceitos discursivos; para Platão, não corremos por aí olhando casas individuais e depois abstraímos a essência “casa”; precisamos ter uma Ideia de como uma casa se parece primeiro; é condição de nosso correr por aí e reconhecer coisas particulares como casas.
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Se não fôssemos guiados por uma Ideia, nosso correr por aí seria sem propósito; em outras palavras, não podemos reunir ou fazer uma coleção de casas individuais e então determinar o que têm em comum; a menos que já soubéssemos o que têm em comum, a menos que já conhecêssemos seu aspecto básico, como poderíamos coletá-las?
42. Se não são conceitos discursivos, em que sentido as Ideias são essências? Para captar isso, precisamos de compreensão mais profunda da diferença entre Ideias e coisas individuais; precisamos entender a base dessa diferença.
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Para
Platão, a diferença fundamental é que as Ideias são imutáveis, ao passo que as coisas mudam; as Ideias sempre permanecem as mesmas, são radicalmente autoidênticas; casas individuais mudam e são transitórias, mas a Ideia “casa” sempre permanece a mesma consigo.
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Mesmo que todas as casas existentes perecessem, mesmo que jamais tivesse existido uma única casa, a Ideia “casa” permaneceria o que é; como Heidegger coloca, “a Ideia persevera através de tudo o que possa acontecer a uma coisa”; as mudanças ocorridas nas coisas não têm efeito sobre as Ideias.
43. Assim, Ideias e coisas existem em domínios radicalmente diferentes, o domínio da não-mudança e o da mudança; consequentemente, Ideias e coisas mantêm relações radicalmente diferentes com o tempo; coisas mutáveis estão no tempo; Ideias imutáveis estão fora do tempo.
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Tudo no domínio da mudança — tudo sujeito à mudança, seja efetivamente mudando ou momentaneamente em repouso — é temporal; mas o tempo não passa no domínio das Ideias, já que estas são radicalmente autoidênticas, imutáveis em princípio.
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As Ideias são atemporais, intocadas pelo tempo, o que exprimimos chamando-as de imortais ou eternas; em outras palavras, perduram perpetuamente.
44. Heidegger de fato concorda que é distintivo de uma essência perdurar, de um modo não permitido às coisas individuais; contudo, questiona se a Ideia platônica capta o sentido genuíno de perdurar e o sentido genuíno de essência: toda essência é algo que perdura; mas será que perdurar significa apenas perdurar perpetuamente?
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Perdura a essência da técnica no sentido do perdurar perpetuamente de uma Ideia, que flutuaria acima de todas as coisas tecnológicas, fazendo com que parecesse que “técnica” é o nome de um abstractum mítico?
45. A resposta heideggeriana a essas questões obviamente retóricas é “não”; a essência da técnica não é uma essência no sentido de uma Ideia; Heidegger não formula expressamente uma crítica das Ideias, e de fato invocará em breve a Ideia platônica de beleza.
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Aqui, porém, fala pejorativamente da Ideia como “flutuando acima” das coisas e como “abstractum mítico”; presumivelmente, refere-se à compreensão usual de uma Ideia como universal reificado, isto é, como conceito abstrato, um “nada aéreo” ao qual se dá “habitação local e nome”.
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Em outras palavras, a Ideia seria um ente, existindo de modo vago e em algum lugar vago, assombrando as coisas como espectro; para Heidegger, a essência da técnica não é um ente e não flutua acima dos entes tecnológicos de modo vago; a essência da técnica relaciona-se com as coisas tecnológicas de modo bem definido, e esse modo em nada se parece à relação de um espectro com coisas assombradas.
46. Por ora, Heidegger retém de Platão a noção de essência como algo especialmente perdurante, mas ele mesmo determinará o sentido do perdurar — considerando o modo como a essência da técnica de fato impera sobre os entes tecnológicos: o modo como a técnica perdura só pode ser apreendido a partir daquele perdurar pelo qual a com-posição de fato impera como modo destinado de olhar revelador.
Doação
47. Para determinar o modo pelo qual a essência da técnica perdura, ou, mais geralmente, o sentido em que qualquer essência é algo que perdura, Heidegger apela mais uma vez a um poeta em busca de uma pista: Goethe usa, em certo lugar, a palavra misteriosa fortgewähren [doar perpetuamente] em vez de fortwähren [perdurar perpetuamente]; ele ouve währen [perdurar] e gewähren [doar] aqui num acorde não articulado.
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Essa é a pista, uma possível afiliação entre perdurar e doação; a confirmação da pista deriva da reflexão sobre as próprias questões em causa: se agora ponderarmos, mais pensativamente do que antes, o que propriamente perdura, e talvez apenas isso perdure, podemos nos aventurar a dizer: apenas o que é doado perdura, e o que perdura primordialmente, desde o mais primevo, é aquilo que doa.
48. Aqui temos a redeterminação heideggeriana do sentido de essência: a essência deve ser entendida em termos do fenômeno da doação, isto é, em termos da interação entre o doar e o doado.
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Além disso, para Heidegger, uma apreciação do fenômeno da doação é precisamente aquilo que poderia salvar; o fenômeno da doação é o que nos foi retido por tanto tempo; é a alternativa genuína à imposição; é um fenômeno poiético.
49. Se lembrarmos que fomos conduzidos à noção de doação por refletir sobre a essência da técnica moderna, podemos ver como o perigo extremo abriga, profundamente dentro de si, aquilo que poderia salvar — provando-se assim verdadeiro o verso de Hölderlin: aquilo que poderia salvar, a doação, de fato cresce onde está o perigo, a imposição.
50. A palavra alemã é Gewähren, significando um tipo de dar, no sentido de permitir, conceder, indulgir; é um tipo de deixar, deixar alguém ter algo desejável; uma tradução que capta bem de perto o matiz pretendido por Heidegger seria “outorgar” (vouchsafe).
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Outorgar é conceder algo a alguém como favor, dar por graça, dar graciosamente; o matiz crucial é o de brandura ou suavidade; Heidegger refere-se a um tipo de dar brando, um fornecer de algo já desejado, e não um impor.
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Gewähren é o oposto de imposição — por isso Heidegger diz “desafiar é tudo, menos um Gewähren”; desafiar é impor, colocar uma exigência; isso é tudo, menos uma oferta branda.
51. Heidegger tem em mente aqui um dar de algo que chega ao receptor como dádiva, que, ademais, o receptor permanece livre para aceitar ou rejeitar; dar como dádiva é doar ou dotar; proponho “doar” como tradução de gewähren.
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O que tem a doação a ver com a técnica moderna? À primeira vista, nada: como essência da técnica, a com-posição é algo que perdura; será que a com-posição de todo impera no sentido de algo que doa? A própria pergunta parece flagrantemente equivocada.
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Segundo tudo o que dissemos, a com-posição é um destino que nos abarca no olhar revelador que desafia; desafiar é tudo, menos doar.
52. Também abarcar é tudo, menos doar; a com-posição, a imposição totalmente abarcante, impõe-nos uma perspectiva impositiva sobre as coisas em geral; a essência da técnica parece permeada pela imposição, o oposto da doação.
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Contudo, se lembrarmos que a técnica nos chega como destino, algo que é enviado, então, mesmo que sejamos enviados a uma atitude impositiva, o próprio enviar permanece uma doação, uma oferta de certa autorrevelação do ser.
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Essa oferta nos chega com forte força motivadora, mas ainda requer nossa ratificação; portanto, é apenas à primeira vista que a essência da técnica moderna parece não ser doação.
53. Assim parece, enquanto não atentarmos para o fato de que mesmo o desafiar à imposição sobre os entes como descartáveis permanece sempre um enviar e, por conseguinte, conduz o homem a um caminho de olhar revelador.
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Como esse destino, a essência da técnica deixa o homem entrar em Algo que, por si só, o homem não pode inventar nem de modo algum fazer; pois não existe tal coisa como um homem que seria homem se deixado a si mesmo.
54. “Homem” deve ser entendido aqui no sentido de Dasein; nenhum humano poderia, por si só, tornar-se Dasein, pois o Dasein é o lugar do conhecimento ontológico, o lugar de um desvelamento do sentido do ser.
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Portanto, o Dasein requer o ser; nenhum ser humano seria Dasein se deixado sozinho, se não interpelado pelo ser; para ser Dasein, um humano deve “ser deixado entrar em Algo”, isto é, receber acesso ao ser.
55. Que papel a técnica desempenha na formação do Dasein? A técnica é precisamente aquilo que realiza o deixar, o deixar entrar no “Algo”, o ser; a técnica, como compreensão geral das coisas e de suas possibilidades, é o acesso ao ser, o acesso que um humano precisa para ser Dasein.
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Não haveria Dasein sem técnica; não existe tal coisa como um Dasein não tecnológico; pode-se, portanto, dizer que a técnica faz de um ser humano Dasein; essa é a dádiva que a técnica confere.
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A técnica dota os humanos daquilo que jamais poderiam, por si sós, “inventar ou de modo algum fazer”, a saber, o sentido do ser; isso é precisamente o que um humano precisa para ser propriamente humano, no sentido de Dasein.
56. A técnica é intermediária entre o ser e os humanos; possui, por assim dizer, duas faces, uma voltada ao ser e outra à humanidade; em relação ao ser, a técnica é algo doado; em relação aos humanos, algo que doa.
57. A técnica é o destino ao olhar revelador; a técnica ocorre “a partir de uma doação”, no sentido de que é uma dádiva do ser, doada pelo ser; o ser é o que primariamente doa, isto é, o ser é o que doa “desde o mais primevo” e assim é “o que perdura primordialmente”.
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A técnica ocorre “como uma doação”, no sentido de que, por sua vez, nos dota de certa perspectiva geral sobre as coisas, e essa perspectiva é dádiva genuína, dádiva genuína; é o favor que faz de um ser humano Dasein.
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A técnica é enviada e, por sua vez, envia; é um enviar enviado ou uma doação doada; a técnica, mesmo a moderna, existe na interação entre doar e doado; a técnica existe no elemento da doação; a técnica perdura dentro da doação; mesmo a técnica moderna é permeada pela doação.
58. Assim, uma reflexão sobre a técnica, e precisamente sobre a técnica impositiva, nos trouxe à noção de doação; precisamos agora retornar à afirmação heideggeriana de que uma essência deve ser entendida em termos de doação, e depois precisamos ver como a noção de doação poderia nos salvar do perigo.
A essência como algo doado
59. Imediatamente após extrair uma pista de Goethe, Heidegger afirmou, bastante peremptoriamente, que “apenas o que é doado perdura”; ademais, aquilo que é anterior ao doado, a saber, aquilo que doa, o ser, perdura em sentido ainda mais primordial.
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Assim, o que perdura é o ser, bem como aquilo doado pelo ser; Heidegger não elabora, não oferece evidência, e certamente não fornece prova; apenas apresenta sua afirmação como resultado de “ponderar mais pensativamente do que antes o que propriamente perdura”, a saber, uma essência.
60. Faz sentido filosófico dizer que apenas o que é doado perdura e que o ser, o doador, perdura ainda mais primordialmente? O que torna uma essência mais perdurante que uma coisa individual? O que tem o perdurar de uma essência a ver com doação? O que exatamente é doado a uma essência que não é doado a um ente individual?
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Heidegger deixa implícitas as respostas a essas perguntas, mas, se pensarmos as questões através, talvez possamos dar sentido à sua posição; comecemos com a essência da técnica; a essência da técnica é o olhar revelador; por essência, a técnica é teoria, a compreensão mais geral do que significa para algo ser.
61. Em outras palavras, a essência da técnica é o lugar da autodoação do ser sobre nós; ao apreender uma essência, apreendemos o que significa ser, seja muito genericamente (na essência da técnica), seja com respeito a algum domínio particular, como casas (na essência de uma casa, apreendemos o que significa ser uma casa) ou belezas (na essência da beleza, apreendemos o que significa ser bela), etc.
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Uma essência é uma teoria, um modo de olhar ou apreender não os entes individuais, mas o que significa ser um ente individual como tal ou como certo tipo; o ponto é que o ser impera numa essência; o ser, por assim dizer, se coloca numa essência, habita uma essência, se doa numa essência.
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É por isso que nada pode mudar uma essência, exceto o ser; uma essência não está sujeita às mudanças que afetam os indivíduos, já que uma essência está, por assim dizer, do lado do ser; uma essência participa do perdurar mais próprio do ser; uma essência é mais perdurante que uma coisa individual porque o ser se doa numa essência.
62. Por outro lado, precisamente porque a essência é o lugar de uma doação, não é uma Ideia; uma essência pode mudar, se o ser se doa diferentemente, se o ser tem uma história.
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Uma Ideia perdura perpetuamente; é sempre autoidêntica; para Heidegger, uma essência pode mudar; como exemplo, a essência da técnica mudou ao longo do tempo; a natureza costumava oferecer-se como algo a ser respeitado e agora aparece como algo a ser imposto.
63. Para Heidegger, nós humanos jamais poderíamos, por nós mesmos, intencionalmente ou por indolência, provocar tal mudança; não somos primariamente responsáveis por essa mudança no aspecto geral das coisas; ao contrário, o que mudou foi a autodoação por parte do ser.
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A essência perdura porque é algo doado, mas também muda pela mesma razão, isto é, porque é algo doado e, como tal, dependente do doador (o doador tem mais autonomia, e é por isso que o ser perdura mais propriamente).
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Se o doador retira seu semblante, se se doa reticentemente, se não se dá plenamente de si mesmo, então nossa compreensão do que significa ser mudará; podemos até deixar de ver o ser como se doando a nós e nos entender como arrancando das coisas seu sentido, o que nos motivaria a nos vermos como ascendentes sobre o ser, sobre as coisas em geral.
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Consequentemente, assumiremos atitude impositiva perante as coisas, o que significa que a perspectiva antiga mudará para a moderna.
64. Assim, a essência da técnica, nossa compreensão das coisas em geral, tanto perdura quanto muda em razão da história do ser; a noção de doação não apenas explica o perdurar da essência, mas também sua peculiar espécie de perdurar não perpétuo.
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Faz, assim, sentido dizer que apenas o que é doado perdura, desde que a noção de uma história do ser faça sentido; essa é, admitidamente, uma grande ressalva, cuja questionabilidade deve permanecer em vigor aqui até o fim.
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Segundo Heidegger, não é uma noção excepcionalmente profunda; ao contrário, é uma noção simples que parece obscura porque somos excessivamente sofisticados e perdemos nossos ouvidos para o que é simples.
A doação como aquilo que poderia salvar
65. Retorno agora à segunda questão levantada quanto à noção heideggeriana de doar: exatamente como o fenômeno da doação é aquilo que poderia salvar?
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Heidegger raciocina assim: se reconhecemos o fenômeno da doação, isto é, se entendemos que a técnica nos chega como algo doado (em vez de nos ser imposta ou por nós imposta), então podemos ver e, portanto, possivelmente salvaguardar nossa liberdade e dignidade humanas próprias.
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A doação pode nos mostrar nossa liberdade genuína e nos salvar de uma visão exagerada dela como tudo ou nada; no fenômeno da doação podemos ver que o ser tem ascendência sobre nós, que não somos os líderes; mas vemos também que essa ascendência não é dominação.
66. É solicitação, oferta, oferecimento; a técnica nos é dada à maneira da poiesis, não por meio de imposição; portanto, profundamente dentro da técnica moderna está enraizada a alternativa genuína à imposição, a poiesis.
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A autodoação do ser requer nossa resposta livre, e assim somos livres — de fato não livres para dominar, mas livres para desempenhar o papel necessário de coadjuvante; como poiética, a doação nos ensina nosso papel, que é o de coadjuvar, e nos mostra a dignidade de nosso papel, dignidade que consiste em certa ascendência que gozamos sobre o ser, precisamente na medida em que este requer a nós e é, portanto, nessa medida, dependente de nós.
67. Assim, a doação nos ensina que somos parceiros secundários — mas, ainda assim, genuínos, livres — do ser no evento do desvelamento; em outros termos, a doação nos familiariza com o olhar revelador como tal, isto é, como receptividade ativa da iniciativa por parte do ser.
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Com isso podemos ver o que o olhar revelador deveria ser, a saber, receptividade mais ativa, receptividade exercida com toda nossa diligência; assim, a doação nos mostra que nossa essência, liberdade e dignidade residem no seguimento autêntico ou no coadjuvar.
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Para Heidegger, somente se “contemplarmos” nossa essência poderemos ver como está em perigo e então protegê-la e “morar” nela; é assim que o fenômeno da doação, ao qual fomos conduzidos ao pensar através da imposição totalmente abarcante, pode nos salvar de sermos dominados pela atitude impositiva.
68. Mas, se esse destino, a com-posição, é o perigo extremo, não apenas para a essência do homem, mas para todo olhar revelador como tal, deveria esse enviar ainda ser chamado de doação? Sem dúvida, e especialmente se, nesse destino, aquilo que salva deve crescer.
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Todo destino a um olhar revelador ocorre a partir de uma doação e como uma doação; a doação primeiro familiariza o homem com sua participação no desvelamento, participação requerida para o próprio evento do desvelamento.
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Como tal requerido, o homem pertence indispensavelmente ao evento da verdade; a doação, o enviar a um ou outro tipo de olhar revelador, é em si mesma aquilo que poderia salvar; pois isso [o fenômeno da doação] deixa o homem contemplar e morar na mais alta dignidade de sua essência.
69. Essa dignidade reside em tender ao desvelamento — e, junto com isso, ao velamento prévio — de toda essência nesta terra; é precisamente a com-posição, que ameaça inundar o homem na imposição como suposta única via de olhar revelador, e assim lança o homem no perigo do abandono de sua essência livre, é precisamente esse perigo extremo que pode nos tornar conscientes de nosso pertencimento mais íntimo e indispensável àquilo que doa, desde que, de nossa parte, aprendamos a ver a essência da técnica.
70. Heidegger junta aqui a essência da humanidade (como Dasein) e o olhar revelador como tal; ambos são ameaçados pela imposição totalmente abarcante; de fato, há apenas uma ameaça aqui, pois o olhar revelador constitui precisamente a essência da humanidade como Dasein.
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O perigo ao olhar revelador é o perigo a essa essência: a essência da técnica moderna ameaça o olhar revelador, ameaça-o com a possibilidade de que todo olhar revelador colapse na imposição e de que todas as coisas se apresentem apenas em um único modo de desvelamento, a saber, unicamente como descartáveis.
71. O perigo é, portanto, que todo olhar revelador se torne impositivo e todas as coisas se desvelem como ali para serem impostas; desvelamento e olhar revelador colapsarão na imposição.
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Como esse colapso é perigo à essência da humanidade? Segundo Heidegger, se os humanos são inundados pela imposição como única via de olhar revelador, serão lançados “ao perigo do abandono de sua essência livre”.
72. Falar da “essência livre” de um ser humano é pleonasmo; a liberdade é essencial aos humanos; perder a liberdade é perder a essência; como uma ameaça ao olhar revelador é um perigo à liberdade?
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Para Heidegger, a liberdade depende diretamente do olhar revelador; a menos que vejamos onde reside nossa liberdade, a menos que apreendamos a possibilidade de um exercício genuinamente livre de nossos poderes, não poderemos agir livremente.
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Se todas as coisas são descartáveis e todo olhar revelador é impositivo, então nos veremos em termos de imposição: como impositores ou impostos, como inteiramente determinados ou totalmente livres; ambas essas visões são ilusórias e conduzem, em última instância, à desilusão.
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Tentar viver de acordo com essas visões de liberdade é entregar a possibilidade de uma maturidade humana genuína; o antídoto é uma compreensão mais adequada de nossa liberdade — isso é o que o fenômeno da doação pode nos proporcionar.
73. Para Heidegger, todo olhar revelador ocorre “a partir de uma doação e como uma doação”; o problema, o perigo, é que esse fato foi ocultado pela atitude impositiva totalmente abarcante; o que poderia nos salvar é aquilo que poderia desvelar a doação e trazê-la para casa em nós: a doação, o enviar a um ou outro tipo de olhar revelador, é em si mesma aquilo que poderia salvar.
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Ironicamente, é precisamente a com-posição, a essência da técnica moderna, que nos motiva a repensar o sentido de essência e assim nos familiariza com o fenômeno da doação; é a técnica moderna que nos permite ver toda técnica, todo olhar revelador, como fenômeno poiético, solicitando e requerendo nossa aceitação da autoproferta do ser.
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A imposição totalmente abarcante desvela o fato de que a própria imposição não nos é imposta; ao contrário, ao pensar suficientemente profundo sobre a essência da técnica moderna, vimos a perceber que a técnica é permeada pela doação.
74. Como o fenômeno da doação nos mostra nossa liberdade genuína? A doação primeiro familiariza o homem com sua participação no desvelamento, participação requerida para o próprio evento do desvelamento — requerida para o evento da verdade.
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Qual é nossa participação no desvelamento, tomado este como processo de doação? Que papel desempenhamos como aqueles a quem se doa? Já que a doação é um dar brando, não há doação sem aceitação da parte de quem recebe a doação.
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Em outras palavras, nossa participação é requerida; requerida, mas não compelida; a doação nos deixa livres para aceitar a doação, livres para receber o que é oferecido; o que a doação requer de nós é seguimento autêntico, receptividade ativa; somos livres para seguir a direção do ser com todo — ou menos que todo — nosso poder.
75. Em outras palavras, nossa liberdade no desvelamento é a liberdade do seguidor; essa é, para Heidegger, nossa liberdade genuína; como seguidores, nosso papel é secundário, é basicamente receptividade.
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Como seguidores livres, nossa receptividade é ativa, criativa, e fazemos contribuição genuína ao evento da verdade; a liberdade humana autêntica consiste, então, no exercício mais ativo de nossos poderes receptivos; nisso reside “a mais alta dignidade de nossa essência”.
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A doação é aquilo que poderia salvar, porque nos deixa “contemplar e morar” nessa dignidade de nossa essência; contemplar nossa essência é ver onde reside nossa liberdade genuína, a saber, na receptividade ativa; morar em nossa essência é levar adiante a receptividade ativa com todo nosso poder; isso seria vida humana genuinamente madura, uma vida sem ilusões.
76. Nas palavras de Heidegger, nossa dignidade “reside em tender ao desvelamento — e, junto com isso, ao velamento prévio — de toda essência nesta terra”.
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Tender ao desvelamento de toda essência significa ser receptores ativos, coadjuvantes, receber a autodoação do ser com toda diligência possível; nossa dignidade reside em nosso papel de tender, nutrir, deixar ativamente o sentido do ser (= o desvelamento de toda essência) vir à sua mais plena autorrevelação possível.
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Esse papel é digno, porque é requerido para o desvelamento, porque é indispensável à autodoação do ser; a verdade, portanto, está em dívida conosco; nosso tender à verdade é requerido indispensavelmente para o acontecer da verdade, e esse fato nos eleva acima de todos os demais entes.
77. O precedente é relativamente direto; porém, Heidegger também diz que nossa dignidade reside em tender ao velamento de toda essência; isso é muito mais problemático.
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Heidegger não pode querer dizer que devemos tender ao velamento no mesmo sentido em que tendemos ao desvelamento, isto é, fomentando-o, ajudando-o a aumentar, tornando-o mais difundido; ao contrário, tenderíamos ao velamento meramente ao atender a ele, respeitá-lo, dar-lhe seu devido.
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Mesmo assim, não fica claro como podemos ou por que deveríamos atender ao velamento; aqui, no ensaio sobre a técnica, Heidegger não diz mais nada a respeito; para entender o que Heidegger quer dizer, precisamos recorrer a seus escritos sobre filosofia grega, já que, para ele, isso é exatamente o que os pré-socráticos atenderam: o velamento como prévio ao desvelamento.
78. Considere-se a compreensão grega original da verdade; a palavra grega para “verdade”, aletheia, é, segundo Heidegger, palavra negativa, formada por um alfa privativo e λήθη (lethe), de λανθάνω (lanthano), que não significa “esquecer”, como usualmente se pensa e traduz, nem significa “ocultar” no sentido da atividade humana de ocultar algo, mas antes significa precisamente “estar oculto”.
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Para os gregos, a verdade, a-letheia, significa, então, “não-velamento” ou “des-velamento”, no sentido específico de “estar des-velado”, “aquilo que foi des-velado” (não “aquilo que nós desvelamos”); assim, os gregos exprimem com um termo negativo (e passivo) (a-letheia) o que exprimimos com um positivo (“verdade”). Seria isso, quando muito, uma curiosidade linguística interessante?
79. O que vemos aqui é mais que apenas “interessante”; é decisivo — para uma compreensão da essência primordial da verdade, cujo nome grego, aletheia, deriva da palavra lanthano; pois precisamente o modo como lanthano é a palavra dominante nos diz que aquilo que nomeia, “o velado”, tem prioridade na experiência dos entes, e, de fato, como caráter dos próprios entes, é possível “objeto” de experiência.
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Isso diz que o velamento das coisas pode ser experimentado, de algum modo incomum ou outro, e mesmo tem prioridade na experiência; mas como pode ser isso? Algo precisa estar desvelado para que o experimentemos.
80. Para Heidegger, experimentar o velamento dos entes significa, sim, experimentar seu desvelamento, mas significa experimentar esse desvelamento num sentido especial, a saber, como primariamente não sendo nossa obra.
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Atendemos ao velamento das coisas quando reconhecemos seu desvelamento como sendo primariamente obra do ser; experimentamos o velamento do ser quando reconhecemos os véus como estando nas mãos do próprio ser — isso é precisamente o que os gregos pré-socráticos reconheciam.
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Estavam conscientes de um velar e um desvelar sobre os quais não tinham controle e que, ao contrário, tinham prioridade sobre seus próprios esforços humanos de descobrir e apreender as coisas; viam o ser como à frente quanto ao desvelamento dos entes, ao passo que nós modernos não reconhecemos nada como ascendente sobre nossos próprios poderes subjetivos de observação e pesquisa.
81. Um modo de Heidegger ilustrar a distinção entre a atitude antiga e a moderna é o seguinte: na Odisseia, Homero diz que, em certo banquete, Odisseu chorava elanthane; costumamos dizer que seu choro era “despercebido” pelos que o cercavam.
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Mas, no sentido grego genuíno, segundo Heidegger, significa que seu choro estava envolto em velamento: no caso do Odisseu que chora, os gregos não consideram que os demais presentes, como “sujeitos” humanos em seu comportamento subjetivo, deixem de notar o choro de Odisseu, mas pensam que ao redor desse homem, em seu estado atual, pendia um velamento, fazendo com que os presentes fossem, por assim dizer, cortados dele.
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O que é essencial não é a apreensão da parte dos outros, mas que existe um velamento de Odisseu, mantendo agora afastados dele os presentes; que um ente, neste caso o Odisseu que chora, possa ser experimentado e apreendido depende de se o velamento ou o desvelamento nele se passa.
82. O ponto crucial é que nossa experiência de uma coisa não depende, ou ao menos não depende primariamente, de sermos ou não observadores; não depende de nossos poderes, de nosso comportamento subjetivo; depende de se paira sobre a coisa um véu, ou se o véu é levantado.
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Os gregos estavam conscientes desse véu, isto é, reconheciam algo ascendente sobre seus próprios poderes de observação; reconheciam o ser, ou os deuses, como à frente; tender ao velamento prévio de toda essência não é, portanto, ajudar a espalhar a ignorância, mas reconhecer a visibilidade das coisas como dádiva, e não feito nosso.
83. Podemos agora entender a afirmação heideggeriana de que a dignidade humana reside em tender tanto ao desvelamento quanto ao velamento; tender ao desvelamento significa fazer tudo o que está em nosso poder para desvelar a verdade — significa ser ativo, autêntico, observador.
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Tender, ou atender, ao velamento significa lembrar que somos seguidores no evento do desvelamento, que somos receptores de uma dádiva da autorrevelação do ser, e que devemos agir apropriadamente.
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Assim, para Heidegger, a dignidade humana reside precisamente no papel do seguimento autêntico, receptividade ativa, olhar revelador como resposta à autodoação do ser; ambas as características desse papel, a atividade e a passividade, a autenticidade e o seguimento, o olhar e o ser olhado, são essenciais e não devem, nem em teoria nem em prática, ser negadas.
84. Heidegger conclui o parágrafo sublinhando a importância de apreendermos a essência da técnica (distinta das coisas tecnológicas); a essência da técnica é o olhar revelador, correlato da autodoação do ser; olhar revelador é a resposta humana à direção do ser, portanto receptividade ativa.
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Se começarmos a ver a técnica sob essa luz, tornar-nos-emos conscientes de que o ser é doador, não impositor, e trazido para casa em nós fica que somos doados a, não impostos a; começaremos a nos ver, então, como parceiros indispensáveis numa doação.
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Como tais parceiros, é nossa a liberdade do seguidor; nossa liberdade não é tudo ou nada; ao contrário, nossa liberdade é poiética; somos livres para desempenhar papel poiético dentro da doação: tender à doação, fomentá-la, deixá-la florescer.
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Este é nosso “pertencimento intrínseco e indispensável àquilo que doa”: somos, por essência, parteiros da autorrevelação do ser; o fenômeno da doação nos traz para casa, assim, uma alternativa genuína e poiética à imposição.
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Já que o perigo é precisamente que possamos ser engolfados pela imposição, essa alternativa genuína é aquilo que poderia nos salvar; surpreendentemente, então, na técnica moderna, na imposição totalmente abarcante, cresce também aquilo que poderia salvar, provando-se verdadeiras as palavras de
Hölderlin: “assim a essência da técnica abriga em si mesma aquilo que menos suspeitaríamos, o possível surgimento daquilo que poderia salvar.”
85. Que dizer, então, de nosso papel poiético de tender ou fomentar? Em primeiro lugar, pressupõe certo ver; antes de podermos fazer algo para cumprir nosso papel de parteiro, precisamos ver nosso papel.
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Precisamos primeiro ver a técnica como fenômeno de doação, o que significa, mais uma vez, que precisamos ver a essência da técnica distinta das coisas tecnológicas: tudo depende, então, disto: que reflitamos sobre seu surgimento [isto é, sobre o surgimento daquilo que poderia salvar] e, em recordação, dele cuidemos.
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[Versão original da conferência: tudo depende de deixarmos crescer aquilo que poderia salvar.] Como isso acontece? Antes de tudo, vendo a essência da técnica em vez de meramente boquiabertos com as coisas tecnológicas.
86. Adiaremos até o fim uma discussão de como podemos, em concreto, realizar essa atividade poiética de “cuidar” e “deixar crescer” ou, como Heidegger também a chamará, “vigiar” e “fomentar”; de fato, neste ensaio, Heidegger não oferece mais que indícios quanto a uma técnica genuinamente poiética, isto é, uma recepção autêntica da autodoação do ser.
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Heidegger deixa muito claro, porém, que o que vem “antes de tudo”, isto é, antes de qualquer atividade poiética, é um ver a poiesis, o que equivale a um ver a essência da técnica.
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Apreender essa essência como questão de doação é entender-nos como livres em relação ao que é doado, isto é, livres para recebê-lo ativamente, livres para segui-lo com todo nosso poder — ou não.
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Se vemos a essência da técnica e não meramente ficamos boquiabertos, enfeitiçados, com as coisas tecnológicas, então encontramos na técnica moderna uma alternativa genuína à perspectiva impositiva; é assim que a técnica moderna, a imposição totalmente abarcante, abriga aquilo que menos esperaríamos, o crescimento daquilo que poderia nos salvar da imposição.
O mistério
87. Heidegger passa a refletir sobre essa circunstância peculiar de que a técnica moderna é, por essência, impositiva, mas abriga profundamente dentro de si a poiesis, a alternativa genuína à imposição.
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A essência da técnica moderna é, portanto, segundo Heidegger, misteriosa: se, finalmente, refletirmos que o desdobramento da essência ocorre numa doação e assim requer a participação do homem por meio do olhar revelador, então o seguinte se torna claro: a essência da técnica é eminentemente ambígua.
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Tal ambiguidade indica a presença do mistério, o mistério de todo desvelamento, isto é, o mistério da verdade.
88. Por um lado, a com-posição nos desafia ao frenesi da imposição, que depõe toda visão do evento do desvelamento e assim ameaça o próprio fundamento de nossa relação com a essência da verdade.
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Por outro lado, a com-posição ocorre, de sua parte, numa doação que deixa o homem perdurar nela precisamente como aquele que é necessário para vigiar a essência da verdade (embora o homem ainda não se experimente como assim necessário, talvez o venha a experimentar no futuro). Desse modo aparece o surgimento daquilo que poderia salvar.
89. O primeiro parágrafo fala do “desdobramento da essência”, frase que se refere à autoproferta do ser, ao autorrevelar-se da essência das coisas em geral; esse desdobramento ocorre por via de uma doação, não por via de imposição.
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Consequentemente, nós humanos somos requeridos, devemos participar, devemos responder olhando reveladoramente, se o desdobramento ou autorrevelação da essência há de vir a fruir; uma compreensão da essência das coisas não pode nos ser imposta.
90. Assim, a com-posição, essência da técnica moderna, mostra-se tanto impositiva quanto exatamente o oposto, questão de doação; o terceiro parágrafo exprime o caráter impositivo: a técnica moderna é, por essência, uma imposição totalmente abarcante que fortemente nos motiva a ver os entes exclusivamente como descartáveis, como ali para serem impostos.
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A perspectiva impositiva depõe toda visão do “evento do desvelamento”; isto é, se vemos imposição em toda parte, seremos cegos ao acontecer do desvelamento como processo de doação e, consequentemente, cegos a nosso papel poiético no desvelamento.
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A técnica moderna ameaça, assim, “nossa relação com a essência da verdade”, já que a verdade é desvelamento, entendida como feito, primariamente, do próprio ser; a verdade é a relação entre a iniciativa tomada por parte do ser de olhar para nós e a resposta livre de nossa parte de olhar de volta.
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A verdade é que o ser está à frente e que somos seguidores livres, poiéticos; “nossa relação” com a essência da verdade é nosso serviço poiético à autorrevelação do ser; esse serviço é o que a técnica moderna ameaça, pois esta comanda todo o campo do olhar revelador, torna todo olhar revelador impositivo, e assim nos cega à possibilidade da poiesis.
91. Se vemos apenas imposição, faremos e produziremos coisas apenas impositivamente; para Heidegger, a menos que possamos vislumbrar a poiesis, não podemos cumprir autenticamente nosso papel poiético, onde reside nossa essência, nossa liberdade e nossa dignidade.
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Por outro lado, é a técnica moderna que nos motivou a repensar o sentido de essência e a reconhecer que uma essência é algo doado, não imposto; assim, em meio ao perigo, cresce também aquilo que poderia nos salvar da perspectiva impositiva, a saber, um vislumbre de nossa relação genuína com a essência da verdade, nossa relação poiética com ela.
92. No quarto parágrafo, Heidegger chama esse serviço poiético de “vigiar” a essência da verdade, outro modo de dizer “coadjuvar” ou “nutrir”, ou “deixar ativo”.
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Heidegger observa também que (em geral) as pessoas hoje ainda não se experimentam como necessárias para vigiar a verdade, embora talvez o venham a fazer no futuro; isto é, talvez, se uma terceira época na história do ser amanhecer, se vier a acontecer um outro início, se o ser nos mostrar novamente seu semblante, se os deuses voltarem a ser o que se supõe que sejam, a saber, olhadores, reconheceremos nosso papel indispensável, o de seguidor livre, e então seremos capazes de cumprir esse papel autenticamente, convocando todos os nossos poderes.
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Na medida bastante restrita em que a técnica moderna já se mostra hoje como doação, vislumbramos nela o “surgimento daquilo que poderia salvar”.
93. Assim, a técnica moderna tanto (enfaticamente) depõe a poiesis quanto (profundamente, reticentemente) a manifesta; Heidegger conclui que a essência da técnica é ambígua e que “tal ambiguidade indica a presença do mistério, o mistério de todo desvelamento, o mistério da verdade”. Que mistério é esse?
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Para Heidegger, o ser é o mistério, e o que há de mais misterioso nele é seu modo ambíguo de se desvelar; oferece-se, mas na própria oferta de si mesmo se retém; no próprio ato de sair à frente, recua.
94. Heidegger já havia afirmado, algumas páginas antes, que “aquilo que abre o espaço aberto — o mistério — está velado e sempre se velando”; o ser torna disponível um espaço aberto (uma compreensão do que significa ser), mas assim como a abertura do espaço aberto é mais facilmente negligenciada em favor das coisas que ali se mantêm, também o ser se retira em favor dos entes.
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Um conhecimento do ser é primeiro, mais próximo de nós, pressuposto por todo outro conhecimento; ainda assim, o ser se oferece de tal modo que recua em favor do que vem em segundo lugar mais próximo, os entes; o ser conspicuamente lança luz sobre os entes e muito reticentemente lança luz sobre si mesmo.
95. O que é misterioso quanto ao ser, quanto ao autodesvelamento do ser, isto é, quanto à verdade, é esse jogo de autooferta e autorretirada; o ser mostra-se reticentemente e recua enfaticamente; é o primeiro a ser experimentado e o último a ser notado, o mais próximo e o mais distante, o mais conhecido e o menos conhecido, o mais óbvio e o mais negligenciado — é por isso que o ser é o mistério.
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Para Heidegger, a técnica moderna manifesta a mesma ambiguidade, o mesmo jogo de autovelamento e autodesvelamento; isso, diz ele, indica a presença do mistério; indica que a técnica é questão de autorrevelação do ser e não meramente algum assunto prático secundário.
96. A técnica moderna é, em verdade, uma doação; o ponto de Heidegger não é simplesmente que a técnica moderna se mostra, como doação, imperfeitamente; não haveria mistério algum nisso — muitas coisas, de fato todas as coisas, se mostram imperfeitamente.
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O que é misterioso, antes, é que a técnica moderna torna algo visível, assim como o ser torna os entes visíveis; contudo, ao tornar algo visível, a técnica moderna se torna invisível; a técnica moderna abre todo o âmbito dos descartáveis e, precisamente ao fazê-lo, se oculta.
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Assim como os entes ofuscam o ser (aquilo que lhes confere visibilidade), também os descartáveis ofuscam a essência da técnica moderna (que não é um dos descartáveis, mas a doação de todo o âmbito da disponibilidade).
97. A técnica moderna nos motiva a ver todas as coisas como descartáveis; aplicaremos então à própria técnica moderna a perspectiva que ela mesma nos doou; em outras palavras, nosso apreender a técnica moderna é a razão pela qual não apreendemos a técnica moderna. Esse é o mistério.
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Nosso olhar revelador, no modo motivado pela autodoação do ser, é a razão pela qual falhamos em olhar reveladoramente para o próprio olhar revelador, falhamos em ver o olhar revelador como tal, como algo poiético, como resposta livre a uma doação.
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Em vez disso, o entendemos como algo imposto; é porque respondemos apropriadamente ao modo como o ser se nos doou, e assim vemos todos os entes como descartáveis, que não conseguimos ver nem o ser como se doando, nem a nós mesmos como tendo respondido apropriadamente, poieticamente.
98. A técnica moderna insiste na imposição; a perspectiva impositiva é insistente, autoafirmativa, agressiva; a técnica moderna depõe a poiesis; ainda assim, é a essência da técnica moderna que nos motivou a refletir mais profundamente sobre o que significa ser uma essência.
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Profundamente dentro dela, a essência da técnica moderna revela sua verdade; o que havíamos apreendido implicitamente — respondendo apropriadamente ao modo como o ser se oferece — pode ser explicitado.
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Nossa resposta poiética, nosso seguimento livre da direção do ser, pode ser trazida à luz — precisamente refletindo sobre a técnica moderna, pensando naquilo que insiste na atitude oposta da imposição.
99. Essa é a ambiguidade, o mistério, o jogo de autovelamento e autodesvelamento na técnica moderna: na técnica moderna encontramos tanto a imposição quanto seu oposto, a doação, a poiesis; a técnica moderna abriga ambas.
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Onde está o perigo, ali cresce também aquilo que poderia salvar; a técnica moderna é, portanto, ambígua, mas a ambiguidade não é de modo algum equilibrada; está fortemente inclinada para o lado do perigo; a imposição é insistente, empurra-se para a frente.
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Aquilo que poderia salvar é reticente e bem velado; requer a atenção mais próxima para ser encontrado; requer atenção à essência da técnica, em vez do fascínio diante das coisas tecnológicas.
100. Para Heidegger, essa curiosa ambiguidade que se apega à técnica moderna indica a presença da autorrevelação do ser, a presença do evento da verdade; indica que o que se passa na técnica moderna não é meramente algo comparável ao mistério do ser, mas é esse mistério em sua figura atual.
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A técnica moderna é o sítio atual da interação misteriosa entre entes e ser, entre velamento e desvelamento; hoje os entes como tais são nada mais que entes tecnológicos, entes que se apresentam como ali para serem impostos.
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Estas são as coisas que o ser atualmente torna visíveis; são as coisas insistentes, que nos cegam a tudo o mais, que ofuscam a fonte de sua própria visibilidade; o próprio ser é aquilo que se retira em favor desses entes descartáveis.
101. O ser, contudo, mostra-se, ainda que reticentemente, e apreender o ser, em contraste com os entes, equivale a apreender a essência da técnica em contraste com os descartáveis; a essência da técnica é doação, e nosso papel nela é o poiético da receptividade ativa.
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Para Heidegger, entender a técnica como algo doado, entender-nos como recipientes de uma doação, é vislumbrar aquilo que doa, o ser; é na técnica moderna, como fenômeno de doação, que o ser se desvela como doador, o líder quanto a nosso apreender do que significa ser.
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Portanto, a interação entre imposição e doação é a interação ontológica, a interação entre entes e ser; a técnica moderna é o lugar do mistério ontológico, o lugar onde o ser se oferece numa estranha interação de autorrevelar-se e autovelar-se — razão, novamente, pela qual, para Heidegger, a técnica é assunto ontológico, questão de verdade, questão do autodesvelamento do ser, e a filosofia da técnica é filosofia primeira.
A constelação
102. Heidegger passa a exprimir o caráter ontológico da técnica moderna numa imagem tirada da astronomia ou, antes, da observação das estrelas: a insistência da imposição e a reticência daquilo que poderia salvar cruzam-se como as trajetórias de duas estrelas no curso dos céus.
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No entanto, seu cruzar-se é apenas o outro lado de sua proximidade; ao contemplarmos a essência ambígua da técnica, contemplamos a constelação, as estrelas no mistério de sua trajetória.
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A questão pela técnica é a questão pela constelação em que velamento e desvelamento ocorrem, em que a essência da verdade se passa.
103. Como devemos entender essa imagem de estrelas se cruzando? Não estariam as estrelas fixas em sua relação umas com as outras? De fato, a imagem heideggeriana faz sentido se tomada em termos astronômicos estritos: a maioria das estrelas que vemos de fato se cruzam; não são estrelas únicas, mas binárias, pares de estrelas que constantemente giram uma ao redor da outra e se eclipsam mutuamente.
104. Heidegger deve estar se referindo a estrelas em sentido mais amplo, incluindo os planetas e outros corpos celestes; entende “estrela” no sentido em que poderíamos chamar Vênus de estrela vespertina.
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Para os antigos, os planetas eram meramente “estrelas errantes”, πλανῆτες ἀστέρες (planetes asteres), stellae errantes, noção que sobrevive no alemão contemporâneo, onde um planeta é um Wandelstern.
105. Os planetas de fato se cruzam; uma conjunção de dois planetas brilhantes é visão impressionante que não requer telescópio; a aproximação, conjunção e afastamento de dois planetas podem ser observados no curso de três noites de observação do céu — presumivelmente, é a esse fenômeno que Heidegger se refere.
106. Ainda assim, esse modo de entender a imagem é acometido por outra dificuldade; Heidegger chama o cruzar-se das estrelas de “constelação” (die Konstellation); mas apenas as estrelas fixas formam constelações; não existe tal coisa como uma constelação de planetas; as constelações do zodíaco são precisamente aquilo por que os planetas erram.
107. Teremos, então, de tomar “constelação” em sentido ligeiramente idiossincrático, embora de fato no sentido etimológico; referir-se-ia não a um grupo fixo de estrelas, mas a um “ir junto das estrelas”, tomando novamente “estrela” para incluir as estrelas errantes.
108. A aproximação aparente de dois planetas é, naturalmente, apenas uma aproximação aparente; parecem se aproximar apenas de nosso ponto de vista; objetivamente, a distância entre os planetas pode estar aumentando enquanto se alinham com a terra.
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Assim, sua aproximação apenas oculta o quão distantes estão; sua conjunção tem um lado oculto, mais genuíno, a grande distância que os separa; assim, esse tipo de constelação é, para os astrônomos, de proximidade meramente aparente e distância efetiva, embora oculta.
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Para Heidegger, porém, o fenômeno tem exatamente o significado oposto.
109. Ele encontra nas duas estrelas que “seu cruzar-se é apenas o outro lado de sua proximidade”; isto é, vemos que os dois corpos celestes não colidem, não se juntam, cruzam-se.
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Sua separação é aparente; mas isso não significa que estejam efetivamente apartados, isolados um do outro; seu cruzar-se oculta o fato de que pertencem juntos, pois não poderiam se cruzar a menos que estivessem próximos em sua essência, isto é, a menos que compartilhassem um único e mesmo domínio essencial.
110. Duas coisas não relacionadas não se cruzam; navios podem passar sem se ver na noite, mas só podem fazê-lo porque ambos pertencem ao mar e assim estão conectados um ao outro.
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Para Heidegger, é apenas aparentemente que as estrelas não estão próximas uma da outra; se as considerarmos mais profundamente, percebemos que pertencem juntas por estarem atribuídas ao mesmo domínio, e assim estão próximas; portanto, uma “constelação” é, para ele, fenômeno de distância aparente e proximidade mais profunda, mais genuína.
111. Em outro lugar, Heidegger chama a noite de “costureira das estrelas”; falando objetivamente, isto é, para o cientista exato, o que mais poderia impressionar é a distância que separa as estrelas.
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Mas “para a criança no homem”, para alguém que contorna a teoria científica e vai direto à essência, as estrelas estão próximas; a referência à noite como costureira ocorre num diálogo composto por Heidegger, sendo a fala pronunciada pelo personagem chamado professor.
112. Não se diz explicitamente que Heidegger é esse professor, mas fica óbvio que não poderia ser outro; a passagem se desenrola: Professor: a noite fecha as distâncias das estrelas nos céus… / Cientista: talvez para o observador ingênuo, embora não para o cientista exato. / Professor: para a criança no homem, a noite permanece a costureira das estrelas. / Erudito: ela costura sem ponto, trama ou linha. / Cientista: é a costureira porque só faz trabalho de aproximar (close-work).
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Heidegger joga aqui com as palavras die Näherin (costureira), die Näharbeit (costura; literalmente, “trabalho de aproximação”) e die
Nähe (proximidade); a costureira é aquela que faz trabalho de aproximação, não no sentido de trabalho minucioso feito perto dos olhos, mas no sentido de trabalho que fecha distâncias.
113. Uma constelação é, então, formada por duas estrelas costuradas juntas; o cientista poderia negar que isso acontece; é meramente aparente; mas para alguém com olhos infantis, olhos inocentes de ciência, é exatamente o oposto.
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A distância é mera aparência, e a proximidade, o pertencer juntas, é genuína; é assim que a imagem de uma constelação se aplica à técnica moderna: a técnica moderna é uma constelação — no sentido de Heidegger — de imposição e poiesis.
114. Essas parecem cruzar-se sem se tocar, pertencer a mundos radicalmente diferentes; a atitude impositiva insistente parece exilar a poiesis; mas, se nos é permitido olhar suficientemente fundo na essência da técnica moderna, suficientemente fundo para ver a ambiguidade nessa essência, encontramos a imposição e a poiesis próximas uma da outra.
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Assim como o aparente cruzar-se das duas estrelas tem um lado oculto, a saber, a verdade de seu pertencer juntas, também a perspectiva insistente da imposição tem outro lado, seu lado verdadeiro, o fato de ser algo doado.
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Se a essência da técnica moderna desvela suas profundezas, encontraremos a verdade, a doação oculta; é assim que a essência da técnica moderna se apresenta como constelação: suas duas estrelas, por assim dizer, aparentemente se cruzam, mas na ocultação estão costuradas próximas uma da outra.
115. A proximidade entre imposição e doação é misteriosa — no sentido heideggeriano de mistério; em outras palavras, sua proximidade tem a ver com o ser, com o autodesvelamento do ser, com o acontecer da essência da verdade.
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A constelação da técnica moderna é a interação ontológica entre entes e ser, e é por isso que Heidegger diz que a questão da técnica é a questão da constelação “em que velamento e desvelamento ocorrem”.
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Para Heidegger, velamento e desvelamento ocorrem primordialmente na interação entre entes insistentes e ser reticente; essa é a interação da técnica moderna; a insistência da atitude impositiva é a insistência dos entes em sua figura atual como descartáveis.
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A reticência da técnica moderna em mostrar-se em sua essência como doação é a reticência do ser em se desvelar como doador; o mistério, a interação ontológica, o acontecer da verdade, o processo do autodesvelamento do ser, a constelação, a ambiguidade — todos esses nomeiam aquilo que está em questão na pergunta pela técnica, a saber, a teoria, a filosofia primeira.
116. Consequentemente, imposição e doação estão próximas do mesmo modo que entes e ser estão próximos entre si; assim, não estão próximos acidentalmente, no sentido de que imposição e doação, o perigo e aquilo que poderia salvar, simplesmente acontecem de se encontrarem juntos em um lugar, na técnica moderna.
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Ao contrário, são intrinsecamente próximos; não há contemplação de entes sem uma compreensão (ao menos implícita) do ser; do mesmo modo, não há olhar revelador voltado a descartáveis sem uma apreensão latente da doação como tal, isto é, sem notar e responder apropriadamente ao olhar do ser.
117. Quanto mais profundamente ponderamos sobre a técnica moderna, mais tornamos explícito o fenômeno da doação; quanto mais claramente vemos a ambiguidade da técnica moderna, isto é, quanto mais contemplamos a constelação, a constelação da autorrevelação do ser, a constelação da verdade, mais entendemos a atitude impositiva como algo doado.
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Essa compreensão poderia nos salvar, já que nos traz para casa nosso papel poiético como seguidores livres; esse é o proveito de estarmos abertos e contemplar a constelação: que nos aproveita contemplar a constelação da verdade? Olhamos para o perigo e vislumbramos o crescer daquilo que poderia salvar.
118. O proveito é que vislumbramos o fenômeno da doação, a alternativa à atitude impositiva; vislumbramos aquilo que poderia salvar; mas que tipo de proveito é esse? Isso não nos salva efetivamente, ou salva?
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Desse modo não estamos ainda de fato salvos; mas somos, com isso, convocados a esperar na luz crescente daquilo que poderia salvar; como pode esse crescimento acontecer? Fomentando-o, fomentando, aqui e agora e nas pequenas coisas, o crescimento daquilo que poderia salvar. Isso inclui manter sempre diante de nossos olhos o perigo extremo.
119. Que pequenas coisas são essas? O que, concretamente, aqui e agora, podemos fazer para apressar o advento daquilo que poderia salvar? Qual é o modo próprio e humano de receber a autodoação do ser?
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Sabemos que, para Heidegger, a abordagem genuinamente livre às coisas é a poiesis, não a imposição; e assim diz que devemos “fomentar” o crescimento daquilo que poderia salvar; isso é apenas outro modo de exprimir o que já propusera: devemos “vigiar”, “cuidar”, “deixar crescer” aquilo que poderia salvar.
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Esses termos nomeiam todos a mesma atitude poiética; mas em que, especificamente, consiste essa atitude? O que efetivamente deveríamos fazer para fomentar o crescimento daquilo que poderia salvar?
120. Aqui, no ensaio sobre a técnica, Heidegger não diz; o ensaio permanece aberto; convida-nos a levar suas lições a sério e ponderar como colocá-las em prática; isto é, Heidegger deixa a aplicação prática a nós.
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Está muito mais preocupado com a teoria, com aquilo que precede a prática, a saber, o ver o domínio de nossa liberdade genuína; esse domínio é a poiesis; Heidegger quer nos abrir esse domínio à visão; preocupa-se com o que “mantemos diante dos olhos”.
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Presumivelmente, se o domínio da poiesis puder ser trazido para casa em nós com clareza suficiente, será questão relativamente fácil encontrar nosso caminho nele na prática.
Transição para a questão da arte
121. Antes de tomarmos a questão da prática apropriada, sigamos Heidegger até o fim de seu ensaio, ao formular sua última questão teórica: há algum lugar privilegiado onde a poiesis se mostre claramente, ao menos mais claramente do que na essência da técnica?
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Em outras palavras, há um “olhar revelador mais primordialmente doado”, isto é, um olhar revelador, na era da técnica moderna, que rivalize com o olhar revelador primordial, aquele da primeira época na história do ser? O olhar revelador original sobrevive em algum lugar?
122. De fato, para Heidegger, hoje todo olhar revelador é impositivo, e assim, se essa perspectiva original sobrevive, sobrevive apenas em farrapos; poderia talvez ser revivida? Permitir-nos-ia então uma visão clara da poiesis, isto é, uma compreensão do ser como doador e de nós mesmos como recipientes ativos da doação?
123. Os feitos humanos, sozinhos, jamais podem dissipar [o perigo]; mas a reflexão humana pode ponderar o fato de que aquilo que poderia salvar deve ser de essência mais elevada que aquilo que é ameaçado, e ainda assim de essência aparentada.
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Não poderia talvez haver um olhar revelador mais primordialmente doado, capaz de trazer aquilo que poderia salvar à sua primeira aparência própria em meio ao perigo (perigo que, na era tecnológica, está ainda mais oculto que visível)?
124. Heidegger pergunta se há um olhar revelador de essência mais elevada que a perspectiva impositiva, e ainda assim de essência aparentada; proporá a arte como esse olhar revelador mais elevado.
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De fato, na era moderna, o âmbito da arte também é um descartável; está ali para o que dele podemos extrair; dispomos da arte para nosso enriquecimento cultural; assim, a arte foi incorporada à nossa perspectiva impositiva.
125. Para Heidegger, porém, a arte originalmente tinha função mais elevada, e essência mais elevada, e a questão é se, na era tecnológica, essa função e essa essência poderiam ser novamente doadas à arte.
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Permitirá a arte vislumbrar o caminho que conduz àquilo que pode nos salvar do perigo? Pode a arte trazer para casa em nós aquilo por causa do qual perguntamos pela técnica, a saber, nossa relação própria com as coisas, nossa liberdade genuína? Pode a arte nos mostrar o fenômeno da doação e assim impedir que o olhar revelador colapse na imposição?