Técnica moderna

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

1. Heidegger inicia sua caracterização da técnica moderna em “Die Frage nach der Technik” falando do “âmbito essencial” (Wesensbereich) da técnica, termo que, embora não explicitado, é prontamente inteligível: tendo a técnica sido determinada em sua essência como um olhar revelador, o âmbito da essência é presumivelmente o âmbito visado nesse olhar, que se revelou ser o âmbito do ser, da essência, da verdade, do desvelamento, da aletheia.

2. Heidegger levanta a objeção hipotética de que essa determinação do âmbito essencial se aplicaria apenas à técnica antiga, e não à moderna: contra essa determinação, poder-se-ia objetar que ela valeria talvez para o pensamento grego e, quando muito, se aplicaria à técnica artesanal, mas de modo algum diria respeito à técnica moderna, movida por máquinas de força.

Técnica antiga versus técnica moderna

3. A objeção nega que a técnica moderna seja assunto de olhar reveladoramente para o ser ou para a essência das coisas, podendo a técnica antiga ser assim entendida, mas não a moderna, sendo a diferença expressa entre a técnica artesanal e a técnica movida por máquinas de força — entre a mão, ou a máquina manual, e a máquina de força.

4. Embora essa distinção esteja sem dúvida no pano de fundo da objeção hipotética, Heidegger coloca em primeiro plano outro fenômeno, apreensível ao se comparar os produtos das duas técnicas.

5. Poucas linhas adiante, Heidegger usa novamente o epíteto “exata” para caracterizar a ciência natural, dizendo-se que a técnica moderna é científica, que “reduziu tudo a uma ciência”, significando que dispersou toda conjectura e acaso.

6. Heidegger prossegue, nesse primeiro parágrafo introdutório sobre a técnica moderna, formulando uma questão penetrante que contém, em germe, uma radical desconstrução da objeção hipotética: a questão decisiva permanece sendo de que essência é a técnica moderna, tal que possa lhe ocorrer empregar a ciência natural exata.

7. Heidegger conclui suas observações preparatórias enunciando diretamente esse fio condutor: o que é a técnica moderna? Também ela é um olhar revelador; apenas se deixarmos nosso olhar repousar nessa característica fundamental é que se nos mostrará aquilo que há de novo na técnica moderna.

A técnica moderna como desafiar: a engrenagem e o capacitor

8. A descrição heideggeriana da técnica moderna se envolve numa longa lista de termos inconfundivelmente pejorativos, violentos, imperiosos: a técnica moderna é um desafiar, forçar, arrebatar, atacar, sufocar, dominar, explorar, impor, dispor, expor e depor — sem que Heidegger use exatamente uma palavra traduzível literalmente por “estupro”, mas seus termos descrevem inequivocamente uma violação da natureza equivalente ao estupro.

9. Heidegger começa caracterizando a atitude da técnica moderna como um “desafiar” (Herausfordern), no sentido de desafiar para um duelo, provindo o duelo de uma bravata imperiosa e adolescente, significando desafiar alguém a um duelo: “exijo que venhas aqui e me dês satisfação.”

10. A exigência que a técnica moderna coloca à natureza, a satisfação reivindicada no desafio, é a de que a natureza ceda suas energias e recursos, de modo a estarem à disposição, isto é, prontamente disponíveis para o uso humano, reivindicando-se que os tesouros da natureza estão ali apenas para satisfazer, tão eficientemente quanto possível, as necessidades e caprichos humanos.

11. A poiesis é o modo de produção que encarna a atitude de respeito, “seguindo o fluxo”, deferindo-se aos fins naturais, aos fins com que a natureza já está prenhe, sendo a técnica antiga primariamente um olhar revelador voltado a esses fins, a essas possibilidades naturais, e a poiesis a obstetrícia que assiste esses fins a virem à plena visibilidade.

12. Heidegger não responde diretamente à questão de por que essa exigência seria excessiva, dado que a natureza de fato a cumpre — a técnica moderna funciona —, mas oferece exemplos destinados a tornar óbvia a presunção das exigências que a técnica moderna coloca à natureza, perguntando se o antigo moinho de vento não fazia a mesma exigência às energias da natureza.

13. A ideia de explorar aqui é a de tornar acessível ou abrir, como um empreendedor explora ou abre novos mercados, podendo também ser traduzida como “trabalhar”, no sentido de trabalhar uma mina, abri-la ao máximo de seu valor.

14. O moinho antigo é precisamente um moinho, isto é, mói grãos, prevalecendo-se, sim, dos ventos para seus próprios fins, fins humanos, já que, deixado a si mesmo, o vento jamais moeria grãos.

15. A conexão entre o vento e esses usos remotos é indireta, não se realizando por meio de engrenagens rudes, mas de capacitores exatos, resumindo-se a diferença entre o antigo moinho e o moderno, entre uma conexão imediata com o vento e uma mediata, à diferença entre a engrenagem e o capacitor.

16. O que há de desrespeitoso ou excessivo no moinho de vento moderno? Por que Heidegger considera necessário descrevê-lo com termos tão pejorativos como “arrebatar” e “acumular”? Pode-se começar a responder perguntando o que deve ser visto de antemão para se construir um moinho de vento.

17. Os antigos não veem o vento como fonte de energia como tal, energia que poderia ser posta a qualquer uso, mas como uma força numa certa direção, vendo uma direcionalidade no vento, isto é, veem o vento já prenhe de algo, sendo o antigo moinho projetado para trazer essa prenhez a fruição.

18. Um moinho de vento moderno, composto de pás, gerador e capacitor, não apenas aproveita e transfere, mas explora, transforma e armazena.

19. O que é preciso ser visto no vento, para se conceber a possibilidade de um moinho de vento moderno que explora, transforma e armazena, não é meramente aquilo com que o vento está naturalmente prenhe, o movimento, mas a energia como tal.

20. O que é preciso para ver o vento desse modo artificial, como anemo-energia? De perspectiva heideggeriana, é preciso hybris, é preciso desrespeito pela natureza, requerendo a imposição de uma perspectiva estranha, que vê na natureza apenas o que pode ser extraído dela para necessidades e caprichos humanos.

21. Do mesmo modo, é a ciência que nos ensina a construir um moinho de vento moderno, mas é a técnica moderna que fornece à ciência sua ideia motivadora, a saber, a ideia de que o vento é fonte de energia como tal.

22. Nesse primeiro exemplo, vê-se também, preliminarmente, que, para Heidegger, o antídoto ao perigo da técnica moderna não é a conservação, ou ao menos não é mera conservação.

A técnica moderna como imposição

23. O segundo dos termos principais pelos quais Heidegger caracteriza a atitude da técnica moderna é “imposição” (Stellen), impondo-se a técnica moderna à natureza precisamente no sentido em que uma pessoa pode ser uma imposição a outra, ao tirar vantagem indevida do outro, inflingindo-se os humanos, através da técnica moderna, sobre os recursos da natureza, raptando-os, carregando-os à força.

24. É esse sentido de posicionar forçosamente que está em jogo aqui, tendo Heidegger já usado a palavra em sentido forçoso ao afirmar que a técnica moderna, precisamente como um desafiar, “impõe à natureza uma exigência presunçosa”, vindo a dizer explicitamente que Stellen deve ser tomado no sentido de desafiar.

25. A introdução da noção de imposição ocorre na passagem imediatamente após a menção do antigo moinho de vento, contrastando-se a terra hoje desafiada — arrebatada por seu carvão e minério — e vista precisamente como jazida de carvão, o solo como depósito de minério, com o campo que o agricultor de antigamente costumava cultivar, o qual aparecia diferente, quando cultivar ainda significava tratar e nutrir.

26. O ponto principal é inconfundível, ilustrado no exemplo da agricultura tradicional versus a agricultura moderna: o agricultor de antigamente submetia, tratava, nutria — atividades quintessenciais da poiesis, sendo o antigo modo de cultivar obstetrícia, trazendo à frente aquilo com que a natureza já estava prenhe.

27. O que Heidegger entende por “impor” é “fazer o papel de Deus”: colocar-se acima da natureza, olhar para a natureza como subserviente ao próprio comando — atitude imperiosa, adolescente, violenta, que a viola, forçando-a a entregar seus tesouros, sufocando-os para fora dela, devendo então a natureza precisamente “desovar”.

A técnica moderna como arrebatamento

28. O novo termo é Fördern, que pode ter vários significados conforme o contexto, jogando Heidegger com esses diferentes sentidos, não sendo possível traduzir o termo com a mesma palavra em todas as ocorrências.

29. Há duas conotações principais da palavra fördern: a primeira, neutra, significa simplesmente transportar, mover adiante ou promover — um Förderband é o que chamamos de esteira transportadora.

30. Além disso, o termo fördern (Heidegger também usa herausfördern) está intimamente ligado à palavra para “desafiar”, herausfordern, não havendo dúvida de que Heidegger pretende que essas duas palavras sejam ouvidas juntas, chegando a usá-las como sinônimos por duas vezes.

31. Expor e explorar é estuprar: é forçar algo (ou alguém) a ceder seus tesouros (ou seus), é tomar o outro como ali meramente para a própria satisfação.

32. Proponho, então, “arrebatar” como tradução de fördern: arrebatar é estuprar com violência especial, deixando devastado, e é precisamente isso que está em questão aqui, já introduzida a palavra no parágrafo anterior (“hoje a terra é desafiada; é arrebatada por seu carvão e minério”).

33. A dupla violação é esta: a natureza é arrebatada para extrair carvão, e o carvão é então arrebatado por sua energia, havendo primeiro um carregamento à força para fins ilícitos, e depois a execução efetiva desses fins ilícitos — precisamente o que entendemos por rapto, estupro ou arrebatamento.