Cibernética

CHABOT, Pascal. La philosophie de Simondon. Paris: J. Vrin, 2003.

** A informação: relações entre alter techno **

1. Por volta de 1940, a teoria da informação emerge como disciplina transdisciplinar associada à cibernética, reunindo matemáticos, lógicos, engenheiros, linguistas e biólogos em torno dos problemas da transmissão da informação e do controle da ação, sob a influência decisiva de Norbert Wiener, que define a cibernética como ciência do controle e da comunicação nos seres humanos e nas máquinas.

2. A cibernética pretende constituir a informação como fundamento teórico comum a diferentes disciplinas e substituir conceitos considerados vagos por funções informacionais unívocas e operações formalizáveis, estabelecendo uma linguagem científica centrada em controlar, comandar, comunicar, mover, agir e reagir.

3. A cibernética combina teoria e prática de maneira propriamente tecnocientífica, pois conhecimento e intervenção tornam-se inseparáveis, como exemplificam as pesquisas militares de Wiener sobre sistemas capazes de antecipar a trajetória de aeronaves mediante retroação.

4. O imaginário cibernético desloca o centro da técnica da máquina isolada para redes de objetos conectados, nas quais sinais circulam entre dispositivos e cada máquina regula suas operações segundo informações provenientes de outras máquinas, transformando o controle da informação em valor técnico predominante.

5. Gilbert Simondon figura entre os primeiros divulgadores franceses da cibernética, acolhendo sua linguagem transdisciplinar e suas categorias operatórias, mas recusando suas extrapolações sociais e políticas, especialmente o mito do homem-máquina e a pretensão de racionalizar integralmente o comportamento humano.

** Encontros do signo, da matéria e da memória **

6. O extraordinário entusiasmo pela cibernética nos anos 1950 pode ser compreendido como resultado de uma concretização singular na qual a integração técnica deixa de reunir apenas componentes materiais e passa a incorporar linguagem, signos e significações, produzindo objetos híbridos de matéria e linguagem, técnica e lógica.

7. As máquinas de informação concretizam a convergência entre uma linhagem lógica dedicada à formalização dos raciocínios e uma linhagem material dedicada à inscrição e conservação física da informação, convergência que na informática recebe a forma característica da implementação.

8. As linhagens lógica e material já se cruzavam antes da informática, pois ábacos e dispositivos semelhantes materializam informações numéricas por meio da posição espacial de objetos, fazendo com que operações matemáticas dependam da própria arquitetura física do instrumento e não apenas de uma escrita simbólica.

** Raimundo Lúlio **

9. No século XIII, Raimundo Lúlio concebe uma técnica material de expressão dos raciocínios que articula sua formação em lógica e teologia com um projeto de conversão religiosa por meio do conhecimento, atribuindo à sua ars magna uma capacidade persuasiva que deveria decorrer da própria organização racional do dispositivo.

10. A ars magna pretende formalizar exaustivamente todas as formas e combinações possíveis do pensamento mediante círculos concêntricos móveis que associam sujeitos, atributos e modos do ser, eliminando idealmente a interpretação ao fazer o raciocínio resultar das combinações espacialmente produzidas pelo dispositivo.

11. Embora incapaz de excluir raciocínios contraditórios ou obscuros, a máquina de Lúlio possui importância histórica por espacializar dinamicamente o pensamento e fazer com que uma transformação material do arranjo produza uma transformação correspondente do raciocínio.

** Leibniz **

12. Leibniz ocupa uma posição decisiva na organização e formalização dos raciocínios ao procurar uma análise rigorosa da linguagem a partir de elementos simples e ao conceber o signo como relação que vincula uma percepção presente a outra realidade evocada por uma experiência anterior, real ou imaginária.

13. A reflexão de Leibniz sobre os signos articula memória e invenção a problemas concretos de organização encontrados na jurisprudência, nas bibliotecas e na genealogia, conduzindo à busca de sistemas de classificação que permitam ordenar, localizar e recuperar informações.

14. A pesquisa documental, a classificação de dados e a construção de genealogias exigem uma linguagem formalizada capaz de administrar a multiplicidade, levando Leibniz a pensar em índices, catálogos, inventários e repertórios como instrumentos simultaneamente cognitivos e mnemônicos.

15. A característica universal de Leibniz procura superar a arbitrariedade das línguas naturais mediante um alfabeto das ideias humanas no qual pensamentos simples sejam designados por signos de valor fixo e componham uma verdadeira álgebra do pensamento.

16. A eficácia mnemônica dos signos depende de sua organização espacial e de uma correspondência motivada com a estrutura das coisas representadas, razão pela qual esquemas técnicos, mapas, partituras, plantas urbanas, representações zodiacais e recursos tipográficos podem facilitar simultaneamente conhecimento e memória.

17. A notação binária constitui um exemplo privilegiado de característica universal porque, para Leibniz, sua configuração gráfica mantém relação mais motivada com determinadas propriedades numéricas do que a notação decimal convencional, permitindo que a própria escrita manifeste aspectos estruturais dos números representados.

** Pascal **

18. A Pascalina, construída por Blaise Pascal em 1642 independentemente da máquina de calcular anteriormente produzida por Wilhelm Schickard, materializa o sistema decimal por meio de rodas dentadas associadas às diferentes ordens numéricas e transforma operações aritméticas em movimentos mecânicos regulados.

19. O mecanismo de transporte ou reporte da Pascalina constitui uma memória técnica das operações porque cada rotação completa de uma roda conserva materialmente a passagem efetuada e transmite essa informação à roda seguinte, mecanizando uma operação anteriormente executada pelo calculista.

** Turing **

20. Alan Turing intervém decisivamente na história da informática primeiro como lógico, em 1936, e depois como participante do trabalho britânico de decifração durante a guerra, concebendo uma máquina universal inicialmente imaterial destinada a enfrentar o problema lógico da decidabilidade formulado no contexto do programa de fundamentação matemática de Hilbert.

21. O programa de Hilbert procura reduzir a lógica à teoria dos números e pressupõe que todas as proposições verdadeiras sejam decidíveis, mas a demonstração de Gödel revela a existência de uma proposição indecidível no sistema formal da aritmética de Peano.

22. A demonstração de Gödel conserva a exigência hilbertiana de materialização formal ao atribuir números aos símbolos e operadores, permitindo traduzir proposições e demonstrações inteiras em estruturas numéricas submetidas a operações rigorosamente definidas.

23. Turing reformula o problema da decidabilidade em termos de calculabilidade e algoritmos, fazendo da produção de uma prova a execução de uma sequência finita de operações elementares por uma máquina lógica universal e avançando decisivamente na mecanização dos raciocínios formais.

24. A máquina de Turing estabelece uma possibilidade de isomorfismo operacional entre lógica e matéria e converte a técnica em uma segunda memória, distinta do livro porque não apenas conserva dados, mas também opera sobre aquilo que armazena.

** Para concluir: discussão sobre duas maneiras de apresentar o progresso **

25. A cibernética realiza tecnicamente o antigo sonho de inscrever signos na matéria e fazê-los produzir efeitos autônomos, substituindo as significações sagradas associadas ao Golem por diferenças elementares como sim/não e 0/1, materializadas nos estados físicos dos circuitos e capazes de sustentar uma vasta tradução entre linguagem, memória, matéria e ação.

26. A convergência histórica entre lógica e matéria pode ser narrada de maneira épica, como desenvolvimento orientado no qual ábacos, Aristóteles, Lúlio, Pascal, Leibniz, Turing e os engenheiros da teoria da informação constituiriam etapas sucessivas de um movimento destinado a culminar na informática contemporânea.

27. A sátira de Voltaire em Cândido expõe o caráter absurdo da explicação teleológica que converte retrospectivamente toda realidade em meio necessário para um fim, como ocorre no raciocínio de Pangloss segundo o qual narizes existiriam para sustentar óculos e pedras existiriam para permitir a construção de castelos.

28. A interpretação contingente da história substitui a necessidade teleológica pela atenção ao acaso, às circunstâncias singulares, às bifurcações e à multiplicidade de possibilidades, recusando subordinar séculos de filosofia e técnica ao êxito retrospectivo de uma única trajetória.

29. Embora Simondon não declare explicitamente se privilegia uma história necessária ou contingente e manifeste ocasionalmente posições relativistas, sua filosofia das técnicas aproxima-se estruturalmente da narrativa épica ao sustentar proposições que conferem unidade e orientação progressiva ao desenvolvimento técnico.

** 1. A mentalidade técnica **

30. A mentalidade técnica constitui um princípio histórico de transformação que atravessa diferentes épocas da racionalidade ocidental, desde os fisiólogos jônicos, alquimistas e Descartes até o Iluminismo e a cibernética, caracterizando-se pela análise dos seres e pela intervenção localizada destinada a aumentar a racionalidade e corrigir imperfeições naturais.

31. A permanência histórica da mentalidade técnica permite reconhecer na história da informática a recorrência de problemas e finalidades semelhantes, como delegar cálculos extensos, obter resultados seguros e construir memórias materiais capazes de conservar grandes quantidades de informação.

32. A cibernética realiza também o antigo projeto de retirar dos números suas significações sagradas e convertê-los em elementos estritamente funcionais, fazendo com que 0 e 1 deixem de representar essências metafísicas para valer apenas pela posição e pela operação que desempenham em determinado sistema.

33. A história da informática assume feição épica quando considerada a partir da mentalidade técnica, pois essa disposição parece permanecer ativa ao longo da história da humanidade e prolongar, do Iluminismo à cibernética, uma mesma manifestação histórica da técnica.

** Cada objeto possui um núcleo **

34. O objeto técnico possui uma camada interna ou núcleo propriamente técnico e uma camada externa submetida a valores, usos e variações psicossociais, sendo a primeira governada por exigências funcionais que não podem ser modificadas arbitrariamente sem comprometer o funcionamento do conjunto.

35. A separação simondoniana entre núcleo técnico e camada psicossocial reproduz em outro registro a distinção cartesiana entre qualidades constitutivas e qualidades secundárias, permitindo isolar invariantes técnicas e formular leis específicas, como a tendência à miniaturização característica das tecnologias da informação.

36. A distinção entre essência técnica e camada exterior reforça a leitura épica da história ao separar duas evoluções paralelas e atribuir o progresso verdadeiro às transformações do núcleo técnico, enquanto ergonomia, acabamento, design, hábitos e modas permanecem como variações secundárias.

37. A história contingente contesta a separação rígida entre técnico e psicossocial ao mostrar que a concretização dos objetos resulta de negociações entre interesses heterogêneos, como exemplifica a análise de Bruno Latour sobre o projeto Aramis, em que engenheiros, políticos, financiadores e usuários participam conjuntamente da definição do objeto.

** O bom acoplamento **

38. A cibernética inaugura uma relação renovada entre seres humanos e máquinas que Simondon interpreta como possibilidade de um acoplamento técnico mais adequado, superando tanto a imaturidade das sociedades tradicionais quanto as formas corporativas racionalizadas pelo Iluminismo e o mal-estar provocado pela proliferação industrial das máquinas no século XIX.

39. A memória humana e a memória técnica possuem propriedades opostas e complementares, pois a primeira seleciona informações segundo significações, interesses e afetos, enquanto a segunda conserva indiferentemente grandes quantidades de detalhes sem ser capaz de hierarquizá-los por seu valor.

40. A complementaridade entre memória humana e memória maquínica permite conceber uma memória bifurcada capaz de reunir ordenação significativa e conservação indiferenciada, fazendo da cibernética uma superação das etapas tecnológicas em que a máquina aparecia primordialmente como substituta do ser humano.

41. A vida técnica não consiste em dominar ou simplesmente dirigir as máquinas, mas em existir no mesmo nível operacional que elas, formando redes de acoplamento nas quais o ser humano atua como agente e tradutor de informação de máquina para máquina e alterna funções de guardião e servidor.

42. A realização efetiva desse acoplamento entre humanidade e técnica permanece, entretanto, problemática, deixando aberta a questão da qualidade concreta da relação estabelecida entre os dois termos e dos desenvolvimentos que dela poderão resultar.