Individuação

CHABOT, Pascal. La philosophie de Simondon. Paris: J. Vrin, 2003.

1. Simondon busca um pensamento capaz de apreender a evolução, um pensamento flexível e móvel como o devir, que acompanha os gêneros, sendo adversário dos princípios, ou seja, das leis primeiras e fixas, pois a evolução não segue um programa determinado, mas é um processo, e o devir, como objeto filosófico, exige modéstia, já que qualificar um processo é um exercício de contorcionista.

2. Os processos definem as identidades da linguagem, como entenderam os lógicos medievais ao dizerem que Augusto encontrou Roma construída em tijolos e a deixou adornada de mármore, chamando-a de mesma Roma, mascarando sob a identidade do nome a metamorfose dos templos, palácios e avenidas; Simondon interessa-se por essa transformação em vez da identidade nominal, sendo o filósofo dos gêneros que, em cada ordem da realidade, desfaz as identidades e as substâncias, apresentando uma doutrina cuja base é que o indivíduo não é uma substância, mas o resultado de um processo de individuação.

3. Aristóteles, Tomás de Aquino e os escolásticos defenderam o hilomorfismo, segundo o qual o ser é composto de matéria e forma, sendo a forma o princípio de determinação da matéria, e explicaram a mudança nas coisas pela teoria das mutações substanciais, onde a mutação não modifica a matéria, mas a forma muda, determinando os corpos a serem oxigênio e hidrogênio com suas propriedades, e após a mutação, outra forma especifica a água, tendo a individuação seu princípio na forma, enquanto a matéria, totalmente indeterminada, sofre a forma como princípio determinante e especificante.

4. Essa teoria explicou o mundo e suas mudanças durante séculos, sendo contestada por Descartes, mas mantendo partidários, porém, no século XX, o estado das ciências a torna difícil de defender, como no “Ensaio crítico sobre o hilomorfismo” de P. Descogs (1924), que sustenta a verdade da teoria escolástica do ponto de vista metafísico, embora os dados da experiência a invalidem, e o atomismo foi um golpe fatal à teoria das mutações substanciais, pois é inverossímil falar de uma matéria prima indeterminada se a matéria é constituída de átomos e moléculas, entidades especificadas, e o atomismo testemunha a persistência formal dos elementos no interior de um composto químico, como oxigênio e hidrogênio na água, resultado incompatível com a teoria das mutações substanciais, já que a combinação química não dá um corpo novo no sentido de Tomás de Aquino, mas um novo arranjo.

5. A teoria da individuação de Simondon intervém nesse debate, opondo ao hilomorfismo uma forma que não é determinante e uma matéria determinada, e a experiência da cozedura de um tijolo prova isso, pois, ao contrário do que outros viram como encontro de forma e matéria, observa-se que a argila não é uma matéria indeterminada, mas já formada por processos de secagem, moagem, molde e amassamento, com propriedades moleculares que especificam sua qualidade, porosidade e densidade, enquanto o molde não é uma forma pura, mas uma madeira resistente e deformável, cujas paredes são polvilhadas para facilitar a desmoldagem, sendo a forma uma matéria tratada.

6. Simondon compartilha o ideal cibernético de uma teoria unificada do ser elaborada a partir da noção de informação, que ultrapassa a filosofia da técnica e pode ser usada em física, biologia e psicologia, e a informação pode ser entendida em três sentidos: sintático, semântico e pragmático, onde o primeiro cobre problemas de transmissão, o segundo trata do sentido dos símbolos, e o terceiro estuda o efeito da informação sobre os comportamentos do emissor e do receptor.

7. Forma e matéria não explicam a gênese do cristal, permitindo apenas uma teoria a posteriori, quando o cristal já está individuado, mas durante o processo de individuação, acompanhado passo a passo, outras observações se impõem: o meio de origem do cristal é sua água-mãe, uma matéria amorfa, onde as moléculas estão sem ordem periódica, e essa matéria amorfa deve estar em estado metastável para que a cristalização ocorra, ou seja, deve ter uma temperatura que lhe permita evoluir rapidamente, não havendo cristalização se a matéria for estável demais.

8. Os escolásticos reconhecem que quando um homem come, ele incorpora a substância de um alimento, assumindo uma forma e uma matéria, e então deve-se admitir que esse homem é determinado por duas formas, a sua e a do alimento, o que Tomás de Aquino julgou perigoso, pois a unidade do homem seria rompida se houvesse nele outra forma, deixando de ser substancialmente um, e os escolásticos contornaram essa dificuldade com a teoria das mutações substanciais, segundo a qual os alimentos ingeridos perdem sua forma, são corrompidos e tornam-se matéria informe antes de serem submetidos a uma nova determinação pela alma, mas P. Descogs mostrou que essa solução é artificial, pois os alimentos conservam algumas propriedades, sais e minerais mantêm suas estruturas químicas, e as células têm cada uma uma forma e podem subsistir fora do corpo em culturas de tecidos, defendendo uma concepção pluriformista, já defendida por autores medievais, onde há milhões de princípios determinantes no corpo, embora do ponto de vista metafísico o homem permaneça determinado por um único princípio substancial.

9. Os humanos conhecem várias individuações, não conduzindo seu desenvolvimento apenas no plano biológico, nem resolvendo seus problemas de forma física, restando tensões, e o psiquismo emerge para tentar resolvê-las de uma maneira nova: pelo pensamento; a individuação psíquica designa a evolução do universo mental de um indivíduo, sendo uma relação com o mundo baseada na percepção, emoção e significação, e Simondon recusa o essencialismo que define o humano pela alma, vendo o sinal da humanidade nas capacidades psíquicas que formam um ser de pensamento no interior de um ser vivo.

10. Simondon dedicou um curso na Sorbonne à imaginação, e sua teoria rompe com as concepções modernas da imagem, pois a imagem não é subjetiva, mas intermediária ao objeto e ao sujeito, aproximando-se das concepções antigas de Homero e Lucrécio, que viam na imagem uma força premonitória ou um simulacro real, e Simondon lhe dá um estatuto ontológico, mostrando que a imaginação desemboca na invenção e pode ser materializada em objeto, situação ou evento.