CHABOT, Pascal. La philosophie de Simondon. Paris: J. Vrin, 2003.
1. Simondon busca um pensamento capaz de apreender a evolução, um pensamento flexível e móvel como o devir, que acompanha os gêneros, sendo adversário dos princípios, ou seja, das leis primeiras e fixas, pois a evolução não segue um programa determinado, mas é um processo, e o devir, como objeto filosófico, exige modéstia, já que qualificar um processo é um exercício de contorcionista.
2. Os processos definem as identidades da linguagem, como entenderam os lógicos medievais ao dizerem que Augusto encontrou Roma construída em tijolos e a deixou adornada de mármore, chamando-a de mesma Roma, mascarando sob a identidade do nome a metamorfose dos templos, palácios e avenidas; Simondon interessa-se por essa transformação em vez da identidade nominal, sendo o filósofo dos gêneros que, em cada ordem da realidade, desfaz as identidades e as substâncias, apresentando uma doutrina cuja base é que o indivíduo não é uma substância, mas o resultado de um processo de individuação.
3. Aristóteles, Tomás de Aquino e os escolásticos defenderam o hilomorfismo, segundo o qual o ser é composto de matéria e forma, sendo a forma o princípio de determinação da matéria, e explicaram a mudança nas coisas pela teoria das mutações substanciais, onde a mutação não modifica a matéria, mas a forma muda, determinando os corpos a serem oxigênio e hidrogênio com suas propriedades, e após a mutação, outra forma especifica a água, tendo a individuação seu princípio na forma, enquanto a matéria, totalmente indeterminada, sofre a forma como princípio determinante e especificante.
4. Essa teoria explicou o mundo e suas mudanças durante séculos, sendo contestada por Descartes, mas mantendo partidários, porém, no século XX, o estado das ciências a torna difícil de defender, como no “Ensaio crítico sobre o hilomorfismo” de P. Descogs (1924), que sustenta a verdade da teoria escolástica do ponto de vista metafísico, embora os dados da experiência a invalidem, e o atomismo foi um golpe fatal à teoria das mutações substanciais, pois é inverossímil falar de uma matéria prima indeterminada se a matéria é constituída de átomos e moléculas, entidades especificadas, e o atomismo testemunha a persistência formal dos elementos no interior de um composto químico, como oxigênio e hidrogênio na água, resultado incompatível com a teoria das mutações substanciais, já que a combinação química não dá um corpo novo no sentido de Tomás de Aquino, mas um novo arranjo.
5. A teoria da individuação de Simondon intervém nesse debate, opondo ao hilomorfismo uma forma que não é determinante e uma matéria determinada, e a experiência da cozedura de um tijolo prova isso, pois, ao contrário do que outros viram como encontro de forma e matéria, observa-se que a argila não é uma matéria indeterminada, mas já formada por processos de secagem, moagem, molde e amassamento, com propriedades moleculares que especificam sua qualidade, porosidade e densidade, enquanto o molde não é uma forma pura, mas uma madeira resistente e deformável, cujas paredes são polvilhadas para facilitar a desmoldagem, sendo a forma uma matéria tratada.
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A análise das condições iniciais do hilomorfismo revela a necessidade de substituir a matéria formada e a forma material pelos dois termos puros da escolástica, e a cozedura do tijolo permite ir além, pois a argila comprimida no molde incha no forno, as paredes de madeira opõem uma força contrária, e argila e molde se encontram como forças, cuja relação, no nível molecular, explica-se pela energia liberada na combustão, sendo a “zona obscura” da teoria escolástica, que fala de um encontro entre forma e matéria sem explicar suas condições, na verdade uma relação entre forças, e a relação não é misteriosa, mas física.
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“A relação tem valor de ser” é o lema de uma filosofia da individuação, na qual a relação não liga A e B quando já constituídos, mas opera desde o início, sendo interior ao ser, e a relação não é um acidente que vem trazer uma determinação nova à substância, pois nenhuma substância existe nem é determinada sem relação a outras substâncias e a um meio, e existir é estar ligado, o que permite a
Simondon assentar seu projeto de conciliar o ser e o devir, sendo a relação o devir em obra, e graças a ela as mudanças chegam ao ser e o indivíduo evolui, estando a relação no ser como o tempo é coalescente ao real, e o ser e o devir estão em situação de pertencimento mútuo, onde um exprime o estatismo e o outro o dinamismo, e a individuação não é um meio-termo aristotélico, mas o encontro dessas duas dimensões que existem por seus contrários, simbolizado pelo Yin Yang, e o empréstimo de um exemplo das técnicas para tratar uma questão de filosofia natural não é estranho, pois o hilomorfismo pode derivar da observação dos homens que trabalham a matéria, como a escultura que parece imposição de uma forma a um bloco de mármore, mas ao aprofundar,
Simondon nota que a origem do hilomorfismo é mais social que técnica, refletindo uma organização social onde os mestres, olhando os técnicos, distinguiram a forma da matéria, sendo o hilomorfismo uma mentalidade que as experiências concretas não confirmam.
6. Simondon compartilha o ideal cibernético de uma teoria unificada do ser elaborada a partir da noção de informação, que ultrapassa a filosofia da técnica e pode ser usada em física, biologia e psicologia, e a informação pode ser entendida em três sentidos: sintático, semântico e pragmático, onde o primeiro cobre problemas de transmissão, o segundo trata do sentido dos símbolos, e o terceiro estuda o efeito da informação sobre os comportamentos do emissor e do receptor.
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O estudo pragmático da informação tem traços comuns com as questões escolásticas sobre o papel das formas, pois em ambos os casos trata-se de saber qual é o efeito de uma forma sobre uma matéria, e a teoria da informação permite reformular essa questão, perguntando qual é o efeito de uma informação sobre um meio receptor, e insatisfeito com a concepção lógica da forma,
Simondon revisitou a questão medieval da individuação graças à noção de informação, opondo-se à rigidez da forma estática dos escolásticos, para quem a única função da forma é determinar a matéria, recusando que ela possa ser ativa, enquanto em sua teoria, forma e ação se reúnem na noção de informação, que deve substituir a noção de forma, e em acordo com a cibernética, ele vê a informação como uma operação cuja função não é apenas determinar, mas provocar uma mutação e iniciar uma mudança, tornando-se fator de individuação, papel ativo descrito pela primeira vez no estudo da cristalização.
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Simondon observou o crescimento de um cristal em sua água-mãe, estudou os parâmetros que decidem a natureza de um cristal (temperatura, pressão, choque, natureza química), refletiu sobre as concepções antigas que veem na perfeição cristalina um elo entre o inorgânico e o orgânico, estudou a polarização da luz pelas redes cristalinas e suas consequências para a teoria atômica da matéria, e fez do cristal o paradigma de sua teoria da individuação, lembrando que o abade Haüy, no final do século XVIII, levantou a hipótese de que os cristais eram formados periodicamente a partir de uma “molécula integrante”, e a física do cristal deveria ultrapassar o plano fenomenológico da forma exterior para compreender a organização interna molecular.
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Anteriormente, a cristalografia estava absorvida por problemas de classificação e inventário em minas e regiões vulcânicas, atividade descritiva acompanhada de pesquisa sobre o papel dos cristais na formação da terra, tanto física quanto metafisicamente, e os cristais, com seus usos curativos ou mágicos, motivaram a imaginação e a reflexão, como em Jean Buridan, que explicava sua presença na superfície terrestre por uma “coagulação” no centro da Terra, onde reinam temperaturas baixíssimas, e a orogênese explicava o afloramento, e Kepler, inspirado em
Aristóteles, defendia a origem líquida dos cristais de neve hexagonal, cuja disposição das faces era efeito de forças geométricas que refletiam a alma da Terra, e esses exemplos mostram que o processo de formação dos cristais podia ser ligado a teorias cosmogônicas, como em Buffon, que via na “figuração” dos minerais um começo de organização, uma “esboço de vida” devido a moléculas orgânicas.
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O cristal é uma realidade de fronteira, pertencente aos minerais, mas cuja organização, gênese e beleza suscitaram afirmações de parentesco com a vida, como em Jean-Claude de la Métherie, que falava da “cristalização dos fetos” e via a alma como fruto de uma cristalização, e a cristalização, identificada a um processo orgânico, foi por muito tempo o “elo perdido” entre o inorgânico e o orgânico, e a física deixou essas especulações a partir do século XVIII, mas
Simondon mostra que uma compreensão fina da física do cristal pode levar a consequências reflexivas que ultrapassam a física, fazendo do cristal o paradigma da individuação para reafirmar os laços entre as fases do ser e o devir, ocupando uma posição estratégica como modelo de individuação físico-química para a transição à individuação biológica.
7. Forma e matéria não explicam a gênese do cristal, permitindo apenas uma teoria a posteriori, quando o cristal já está individuado, mas durante o processo de individuação, acompanhado passo a passo, outras observações se impõem: o meio de origem do cristal é sua água-mãe, uma matéria amorfa, onde as moléculas estão sem ordem periódica, e essa matéria amorfa deve estar em estado metastável para que a cristalização ocorra, ou seja, deve ter uma temperatura que lhe permita evoluir rapidamente, não havendo cristalização se a matéria for estável demais.
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A introdução de um germe na água-mãe inicia o processo, sendo o germe um corpo estranho ou um choque, uma informação singular e nova, que traz uma dissimetria na matéria amorfa, tendo valor de princípio, pois asserva a energia e comunica uma estrutura à matéria, trazendo a geometria (cubo, pirâmide, octaedro, romboedro), sendo a primeira camada do cristal, cuja estrutura polariza a matéria vizinha, que se estrutura e libera energia, passando a atuar como germe para a matéria mais distante, e o limite do cristal se desloca, sendo sua individuação a estruturação de um meio metastável, e seu crescimento é a propagação de uma ordem no caos.
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O devir não se opõe ao ser, sendo o devir “a relação constitutiva do ser enquanto indivíduo”, e
Simondon busca a compatibilidade entre esses dois aspectos, tratando-os como um misto, sem rigidez do ser no substancialismo nem dilatação do devir num energismo imaterial, e o exemplo do cristal fornece indicações sobre a possibilidade de pensar a coalescência do ser e do devir, pois a individuação do cristal progride entre duas realidades: o cristal já estruturado (ser, entidade atual) e o meio estruturável (devir, virtualidade em espera de determinação), e a consideração do processo de cristalização pode fornecer uma solução ao conflito, escolhendo o meio e a operação, em vez de um dos dois estados, pois a existência da fronteira entre o cristal já formado e o meio estruturável não é estática, mas dinâmica e contém a tensão entre ser e devir.
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A teoria da informação ilumina essa relação, pois o cristal cresce recebendo informações de seu meio, e o devir está contido na estrutura do cristal, que é atual mas também contém virtualidades, e essa tensão revela a existência de uma realidade pré-individual, que não é nem o cristal formado nem o meio totalmente amorfo, mas a fonte de onde surge a individuação, e
Simondon considera que o ser não é apenas substância, mas também energia e relação, e o cristal, por sua gênese, mostra que a individuação é um processo que envolve tanto a estrutura quanto a energia, e o devir é a atualização do virtual contido no ser.
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O pré-individual é uma noção central para
Simondon, pois designa a realidade que precede a individuação e que contém as potencialidades não resolvidas, e esse conceito é retomado dos pré-socráticos, especialmente de
Anaximandro e seu “apeiron”, que é a origem radical, indeterminada física e logicamente, e
Simondon se reivindica dessa tradição, pois o pré-individual é a natureza no sentido pré-socrático, o reservatório do devir, e os pré-socráticos são para ele os verdadeiros pensadores da individuação, pois não tiveram a fascinação pelo ser individuado, nem escolheram um princípio de individuação, mas tiveram a intuição de um verbo (crescer) e de um meio sem forma, mas animado, e essa retomada do apeiron é única em sua filosofia, pois outros empréstimos a
Platão ou
Descartes dizem respeito a processos e operações, mas nunca ao nome de uma fase do ser.
8. Os escolásticos reconhecem que quando um homem come, ele incorpora a substância de um alimento, assumindo uma forma e uma matéria, e então deve-se admitir que esse homem é determinado por duas formas, a sua e a do alimento, o que Tomás de Aquino julgou perigoso, pois a unidade do homem seria rompida se houvesse nele outra forma, deixando de ser substancialmente um, e os escolásticos contornaram essa dificuldade com a teoria das mutações substanciais, segundo a qual os alimentos ingeridos perdem sua forma, são corrompidos e tornam-se matéria informe antes de serem submetidos a uma nova determinação pela alma, mas P. Descogs mostrou que essa solução é artificial, pois os alimentos conservam algumas propriedades, sais e minerais mantêm suas estruturas químicas, e as células têm cada uma uma forma e podem subsistir fora do corpo em culturas de tecidos, defendendo uma concepção pluriformista, já defendida por autores medievais, onde há milhões de princípios determinantes no corpo, embora do ponto de vista metafísico o homem permaneça determinado por um único princípio substancial.
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Esse debate é capital para a filosofia da individuação, pois pergunta o que é um indivíduo, um ser único e indivisível, e se quando um humano come um alimento ele se torna duplo, e a etimologia não ajuda, pois o indivíduo é “indivisível”, mas a vida se mantém nele por divisões celulares, e
Simondon aborda esse debate com um método novo, examinando os processos em vez de partir dos princípios, importando-lhe pouco as necessidades metafísicas, recusando pensar que a matéria é animada por possuir um princípio de animação, e como filósofo das ciências, vê no passo do inerte ao vivo a emergência de processos novos, onde a diferença entre um cristal e uma macromolécula da química orgânica se explica pela informação, pois no cristal uma informação provoca a individuação, mas a molécula pode receber várias informações, reagir quimicamente, ser modificada e tornar-se uma informação para uma bactéria, integrando informações e diferenciando-as.
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O vivo caracteriza-se pela pluralidade de “inputs” e “outputs”, ao contrário do cristal que resulta de um único “input” inicial, possuindo vários “regimes de informação”, e as reações às vezes são diferidas, indiretas e submetidas a tratamentos, sendo o vivo uma rede que digere as informações e elabora respostas, e ao contrário das teses escolásticas, não são as formas que são múltiplas, mas os regimes de atividades (nutrição, defesa química, etc.), que supõem um meio interior próprio à vida.
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A Grande Barreira de Corais da Austrália, com 2.400 quilômetros, é às vezes considerada o maior dos seres vivos, mas
Simondon pergunta se ela é um indivíduo, e responde que uma colônia de micro-organismos não é um ser único, pois o critério topológico da proximidade espacial não implica a existência de um ser único, preferindo atentar para os papéis das partes da colônia, notando que alguns “sub-indivíduos” são especializados na nutrição, outros na função sexual ou na defesa, cada parte tem seu papel sem centro, e o nascimento e a morte dos “sub-indivíduos” é singular e independente do resto, e para
Simondon, o critério da individualidade real é que o indivíduo se reproduz e morre, portanto uma colônia não é um indivíduo, e essa posição clássica, como caracteriza Anne Fagot-Largeault, é que “o indivíduo no sentido biológico estrito é o organismo”.
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Essa doutrina não é um materialismo, pois supõe um encadeamento da realidade física até a biológica, mas sem identidade de natureza entre a primeira e a segunda, enquanto o materialismo se baseia numa identidade de natureza; a filosofia de
Simondon examina continuidades e descontinuidades ao longo dessa cadeia, como a continuidade da relação entre a metastabilidade dos sistemas e a capacidade de receber informação, e a descontinuidade entre os regimes de informação diretos da físico-química e os regimes de informação com relés que caracterizam o vivo, e a descontinuidade, correspondente à passagem de um limiar, não pode servir para estabelecer distinções entre gêneros e espécies;
Simondon indica outra forma de estabelecer classes no real, baseada no tipo de processo de informação que o sistema conhece durante a individuação, tratando-se de propriedades ativas, regimes ou processos organizadores da matéria (polaridades).
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Simondon recusa o postulado inicial do materialismo segundo o qual a natureza inerte não pode conter uma organização elevada, postulado que leva a reduzir os sistemas vivos a sistemas simples e “materiais”, empobrecendo a noção de matéria ao lhe retirar o que pode dar conta da individuação física: energias potenciais e relações, e o materialismo não leva em conta a informação, a não ser quando considera etapas avançadas da evolução das espécies, havendo uma doutrina de valores e mesmo um “espiritualismo implícito”, onde a matéria é dada como menos organizada que o ser vivo, e o materialismo tenta mostrar que o superior pode sair do inferior;
Simondon, que sabe ir contra o costume, afirma que o mundo físico já é altamente organizado, e algumas grandes moléculas metastáveis da química orgânica podem ter organizações da mesma ordem de complexidade que os organismos vivos mais elementares, mas a vida não é uma substância distinta da matéria, apenas estruturas físicas podem ser suportes de processos de integração e diferenciação.
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As páginas sobre a biologia dos fundos marinhos contêm uma invenção teórica sobre o “indivíduo puro”, que se destaca de sua colônia de origem, é levado pelas correntes marinhas e põe ovos que darão origem a uma nova colônia, sendo um pioneiro que abandona as funções habituais de nutrição, defesa e reprodução no seio de uma colônia, existindo como uma ponte entre duas colônias, sendo relação, e
Simondon compara o indivíduo puro ao humano que negligencia os hábitos sociais para existir por seus instintos genésicos e tanatológicos, fiel aos aspectos fundamentais da individuação, como o inventor que persegue a novidade sem se importar com a comunidade que o freia, e a individuação deve ser entendida em dois sentidos: primeiro, como sinônimo de evolução, explicando que os indivíduos se tornam, vivem e morrem, sendo universal; segundo, supõe escolhas, valorizações, fatalidades, permanecendo universal nos fundamentos, mas única em cada caso, sendo uma forma de contar a vida e um teste projetivo onde cada um vê o que quer ver.
9. Os humanos conhecem várias individuações, não conduzindo seu desenvolvimento apenas no plano biológico, nem resolvendo seus problemas de forma física, restando tensões, e o psiquismo emerge para tentar resolvê-las de uma maneira nova: pelo pensamento; a individuação psíquica designa a evolução do universo mental de um indivíduo, sendo uma relação com o mundo baseada na percepção, emoção e significação, e Simondon recusa o essencialismo que define o humano pela alma, vendo o sinal da humanidade nas capacidades psíquicas que formam um ser de pensamento no interior de um ser vivo.
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A evolução psíquica ultrapassa o indivíduo, levando-o em direção ao outro, e a gênese das sensações e afetos já testemunha isso: o humano orienta-se no mundo material sentindo o mais frio ou mais quente, o doce ou o rugoso, formando uma imagem sumária do ambiente; a percepção complica essa relação sensual, localizando a fonte do calor numa pedra ensolarada, compreendendo a causa de uma sensação de formigamento ao ver o objeto tocado, e por meio da percepção, o humano se investe no mundo, dando uma significação mental às sensações materiais.
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As afeições permitem uma segunda orientação: a do humano em relação a si mesmo, sendo prazer, agrado, mal-estar ou incômodo, fugazes e inconscientes, sinais do estado do mundo interior; a emoção se apodera desse material primitivo e lhe dá sentido, unificando afetos díspares, estabilizando-os, interpretando-os e dando-lhes uma consistência formulável, como uma emoção de raiva, e a emoção persiste, é consciente e liberta o indivíduo da proximidade a si mesmo imposta pelos afetos mudos, permitindo a abertura à significação do que se sente.
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Essa teoria é oposta à de Sartre, que na “Esboço de uma teoria das emoções” (1938) explica que as emoções nascem quando a ação é bloqueada, e diante de um mundo difícil e sem caminhos, o indivíduo tenta mudar o mundo vivendo-o como se as relações entre as coisas e suas potencialidades fossem regidas pela magia, e Sartre utilizou os resultados de experiências de Tamara Dembo, que fazia nascer a raiva em laboratório com tarefas impossíveis e zombarias, generalizando esse contexto local para toda emoção, enquanto
Simondon aborda a individuação como uma estratégia para resolver problemas, onde a percepção resolve o problema de um fluxo de sensações de origem desconhecida, e a emoção põe ordem no caos dos afetos, mas essas soluções geram novos problemas, pois percepções e emoções são muitas vezes incompatíveis, e o coletivo pode resolver esse problema, estabilizando o indivíduo dividido entre o que vê e o que sente, integrando-se à rede estável de significações coletivas.
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A individuação psíquica e coletiva descreve dois tipos de relação com os outros: o primeiro, clássico, é o “zoon politikon”, onde o indivíduo sacrifica aos jogos sociais e encontra o “interindividual”, o outro que ocupa um lugar na sociedade e a ele se conforma, com máscaras; o segundo é o “transindividual”, a relação autêntica, que supõe uma nova individuação, onde o indivíduo busca no mais profundo de si, em seus recursos afetivo-emotivos, e encontra o outro enquanto outro, na honestidade, sem barreiras de status social, profissão, riqueza ou pobreza, sendo ocasião de sinceridade, fraternidade, amizade e amor, com exemplos no heroísmo, santidade e sabedoria, como Zaratustra que recolhe o corpo do funâmbulo caído.
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A experiência do transindividual pode também ocorrer na solidão, sendo então mística, como em São Francisco de Assis, cuja caridade não conhecia limites, e
Simondon fala de uma comunicação “com as coisas superiores” que prolongam e ultrapassam o indivíduo, preferindo-a fora dos dogmas e desconfiando das “desvios interioristas”, aproximando-se das intuições de Mestre
Eckhart, e talvez apenas a teologia negativa tenha feito um esforço para não pensar o transindividual como uma individualidade superior mais vasta, mas também individual, sendo o antropomorfismo mais difícil de evitar o da individualidade.
10. Simondon dedicou um curso na Sorbonne à imaginação, e sua teoria rompe com as concepções modernas da imagem, pois a imagem não é subjetiva, mas intermediária ao objeto e ao sujeito, aproximando-se das concepções antigas de Homero e Lucrécio, que viam na imagem uma força premonitória ou um simulacro real, e Simondon lhe dá um estatuto ontológico, mostrando que a imaginação desemboca na invenção e pode ser materializada em objeto, situação ou evento.
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O curso de 1965-1966 segue a gênese da imagem em todas as ordens de realidade para mostrar como ela reúne conteúdos heterogêneos, deles extrai orientações e como essas orientações podem ser materializadas na invenção, e
Simondon reuniu o máximo de dados para fundamentar sua hipótese do dinamismo genético e cíclico da imagem, com um esquema relativamente simples, mas o curso se destaca por um florilégio de informações biológicas, observações de tendências dos anos 1960, reminiscências mitológicas, diálogos com a psicanálise, imagens cinematográficas, desejos, teorias físicas, espiritualidade e analogias com o mundo animal, incluindo referências a Shirley Temple, indígenas do Cargo Cult, personagens de contos de fadas, experiências com abelhas, propostas para opticalizar roupas de trabalhadores noturnos, teses sobre percepções subliminares, comportamento de calculadores sabidos e longas passagens sobre brinquedos, lembrando o Palácio do Fator Cheval.
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A imaginação segue um ciclo: antes da experiência, o indivíduo antecipa, criando uma imagem “a priori” de projeções e desejos; depois vem a experiência, cujo confronto com o real não abole a imagem, que serve à prática como um “padrão” que permite distinguir o previsível do novo, e a percepção é voltada para o singular, o detalhe e o incomum, discriminando mudanças e movimentos graças às imagens que contêm os caracteres “normais” das situações, como o pastor que reconhece a falta de uma ovelha sem contar o rebanho; após a experiência, a imagem se simplifica e se depura no lembrar, carregando-se de afeto e tornando-se símbolo, mas permanecendo tensa, metastável, capaz de evoluir, animada pelas contradições de todas as situações que simboliza.
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Quanto à ligação entre as diferentes imagens, o realismo defende a continuidade entre a percepção e as imagens abstratas, enquanto os idealistas como Berkeley e
Descartes defendem a descontinuidade, mas a teoria simondoniana é empirista, pois a gênese da imagem se enraíza no esquematismo corporal, alimenta-se das percepções e repercute no subconsciente, aceitando a filiação empirista do imaginário, mas corrigindo seu indutivismo, pois o modelo da soma, que supõe que imagens de uma mesma realidade se adicionam para formar uma imagem genérica, ignora que o empirismo não privilegia nenhuma experiência particular, homogeneizando as realidades e apagando os momentos-chave e experiências importantes no desenvolvimento genético das imagens.
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Simondon defende um lugar de destaque para a experiência pregnante, que inicia a constituição de uma classe de imagens, sendo o germe da gênese, como a primeira imagem de um livro lido ou uma experiência marcante de encontro, que permanece e funciona como tronco de árvore, onde as imagens não se somam para formar esse tronco, mas se inserem na direção iniciada pela polaridade da singularidade inicial, conservando essa direção quando concordam ou se enxertando em ramificações assimétricas se divergem, formando os galhos da árvore imaginária, como no exemplo de Taine sobre a imagem de uma araucária, onde a primeira imagem permanece a mais verdadeira e autêntica, servindo de fonte de normas para as impressões sucessivas.
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Essa concepção, com seus ramos assimétricos, oferece uma explicação para o problema canônico da indução, como o caso dos cisnes brancos e negros, pois o primeiro cisne forma o germe do tronco imaginário, e o cisne negro australiano aparece marginal, aberrante, enxertando-se de forma assimétrica, mas não reforma a classe inicial, que permanece com sua compreensão (sentido lógico) inalterada, mesmo que a extensão se amplie, e a singularidade do cisne negro não muda o fato de que a compreensão da classe dos cisnes contém a brancura, e se esse caráter permanece, é porque a constituição das redes de imagens não obedece a essa lei, permitindo a coabitação do contraditório e reservando lugar à marginalidade, e a característica epistemológica mais importante da imagem-lembrança é a independência da extensão em relação à compreensão, sendo o conhecimento segundo a imagem diferente do conhecimento indutivo clássico.
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Para o lógico, a imagem dessa árvore contém uma contradição, mas para
Simondon é o signo de uma tensão, a marca do desenvolvimento de um potencial inventivo, e a incompatibilidade dos diferentes ramos ligados tende a formar um símbolo que condensa experiências contraditórias, liga antagonismos, acolhe divergências numa unidade tensa que se satura, torna-se metastável e leva o indivíduo a modificar essa organização, e a imaginação impulsiona à invenção, pois o indivíduo não pode ficar inativo quando porta a imagem de uma realidade possível, confrontando-a com a realidade que vê e buscando ancorá-la nela, inventando, e o símbolo conhece a prova do real, e o inventor supera as contradições do imaginário realizando o que tem em mente, com exemplos técnicos (pontes, locomotivas) e tecnoestéticos (arquitetura de Le Corbusier, música de Xenakis), e a individuação faz do humano um construtor de mundos.