Ser

COMBES, Muriel; LAMARRE, Thomas. Gilbert Simondon and the philosophy of the transindividual. Cambridge, Massachusetts London, England: The MIT Press, 2013.

1. Toda a obra de Simondon pode ser lida como um apelo a uma transmutação na abordagem do ser, que, ao ser perseguida em domínios físico, biológico, psicossocial e tecnológico, assume uma “reforma do entendimento”, cujo gesto fundamental é a distinção entre o “ser enquanto tal”, do qual se pode apenas confirmar a “dádiva”, e o “ser enquanto individuado”, que aparece como uma multiplicidade de seres individuais e que a tradição filosófica confunde perpetuamente com o primeiro.

2. A tradição filosófica reduz-se a duas tendências cegas à realidade do ser antes de toda individuação, o atomismo e o hilomorfismo, que pensam o ser segundo o modelo do Uno e pressupõem a existência do indivíduo que buscam explicar, de modo que, ao tratarem o problema da individuação inteiramente com base no indivíduo, procuram um princípio de individuação que só podem pensar como um termo já dado.

3. Para compreender a passagem do ser pré-individual ao ser individuado, não se deve buscar um princípio de individuação, pois a ontologia tradicional, ao privilegiar o termo constituído, ignorou a operação constitutiva do indivíduo, ou seja, a individuação como processo; é necessário, portanto, substituir a individuação pelo indivíduo e a operação pelo princípio, fazendo da gênese do indivíduo uma questão para a filosofia apenas como um momento em um devir do ser que o arrasta.

4. O ser pré-individual, fonte de todos os indivíduos, não é uno, sendo mais do que uno e mais do que identidade, pois contém um potencial e todo o que existe é com uma reserva de devir, estando em excesso sobre si mesmo; para pensar esse ser como um sistema que não é nem estável nem instável, recorre-se à noção de metaestabilidade, tomada da termodinâmica.

5. O ser pré-individual só pode perpetuar-se por defasagem, que, na termodinâmica, indica uma mudança de estado do sistema e, na filosofia de Simondon, torna-se o termo para o devir, sendo a defasagem anterior às fases que dela decorrem; a emergência de um indivíduo no ser pré-individual deve ser concebida como a resolução de uma tensão entre potenciais pertencentes a ordens de grandeza anteriormente separadas, dando origem simultaneamente ao indivíduo e a um meio associado.

6. O exemplo da moldagem de um tijolo de argila esclarece a renovação das noções para descrever a individuação, pois o hilomorfismo vê nela apenas a imposição de uma forma sobre a matéria, obscurecendo a operação de tomada de forma; a matéria-argila e a forma-paralelepípedo são apenas pontos finais de duas meias-trajetórias tecnológicas que, ao se unirem, fazem a individuação do tijolo como modulação, onde matéria e forma estão presentes como forças.

7. O ser pré-individual, mais rico do que a mera auto-identidade, não possui unidade de identidade, mas sim uma unidade transdutiva; a transdução é a operação pela qual uma atividade se propaga de ponto a ponto em um domínio, fundamentando essa propagação na estruturação do domínio operada de lugar em lugar, de modo que cada região da estrutura constituída serve como princípio de constituição para a região seguinte, sendo a imagem mais clara dessa operação a do cristal que cresce em todas as direções a partir de um germe.

8. Compreender a individuação como operação individuante tem consequências metodológicas e ontológicas profundas, rompendo com as teorias do conhecimento inspiradas em Kant, pois coloca-se no nível da polarização de uma díade pré-individual (condição energética e germe estrutural) que é também pré-noética, precedendo tanto o pensamento quanto o indivíduo; o pensamento é apenas uma das fases do ser-em-devir, e a constituição transdutiva dos seres exige uma descrição transdutiva.

9. O conhecimento da individuação não se dá pelos critérios da teoria kantiana do conhecimento, que define condições de possibilidade e limites do saber, mas sim por um pensamento que acompanha a constituição real dos seres individuados, uma vez que o objeto do conhecimento só aparece com a estabilização da operação de individuação, quando a operação, incorporada em seu resultado, desaparece; o esquecimento dessa operação é a causa pela qual a filosofia tradicional se concentra na constituição ideal do objeto do conhecimento.

10. Para resolver o problema do conhecimento, contrapondo-se ao hilomorfismo kantiano que separa formas a priori da sensibilidade de uma matéria dada a posteriori, situa-se antes da ruptura entre o objeto a conhecer e o sujeito do conhecimento, pois o conhecimento não se fundamenta nem no sujeito nem no objeto, mas na mesma realidade primitiva da qual ambos provêm; as condições de possibilidade do conhecimento são, de fato, as causas da existência do ser individuado.

11. Ao criticar a teoria do conhecimento para deslocar seus termos, a filosofia da individuação mostra que só se pode dar conta da possibilidade de conhecer os seres individuados fornecendo uma descrição de sua individuação; não se pode conhecer a individuação no sentido habitual, mas apenas individuar-se, e o conhecimento da individuação dos seres só pode ser apreendido pela individuação do conhecimento do sujeito, o que anula o problema do fundamento do conhecimento.

12. Ao elaborar a noção de transdução, transpõem-se os limites kantianos da razão, pois a metafísica e a lógica se fundem: a transdução expressa a individuação e permite pensá-la, aplicando-se à ontogênese e sendo ela mesma a ontogênese; isso leva a uma reinterpretação da tese de Parmênides, na qual pensar e ser são o mesmo, significando que o que constitui o pensamento não é diferente do que constitui o ser, e ambos só são adequadamente apreendidos quando sua dimensão transdutiva é apreendida.

13. Com a noção de transdução, desloca-se o eixo da investigação tradicional: ao problema da possibilidade do conhecimento, substitui-se o da individuação do conhecimento, que é uma operação analógica; a individuação entre o real exterior e o sujeito é apreendida por este devido à individuação analógica do conhecimento no sujeito, e o que garante a legitimidade do método é a dimensão analógica e autofundada do procedimento do pensamento.

14. O método adequado à ontogênese é o método analógico, definido como uma “colocação em relação de duas operações”, que consiste em transportar uma operação de pensamento aprendida e testada com uma estrutura particular conhecida para outra estrutura particular desconhecida; o que a discussão de Platão no Sofista já deixa claro é que a transferência de operações não se fundamenta em um terreno ontológico comum, mas estabelece uma identidade de relações operativas.

15. O método analógico, que postula a autonomia das operações em relação a seus termos, só é válido se aderir ao postulado ontológico de que as estruturas devem ser conhecidas pelas operações que as energizam, e não o inverso; o conhecimento analógico estabelece uma relação entre as operações dos indivíduos existentes fora do pensamento e as operações do próprio pensamento, de modo que a dimensão rigorosamente analógica do método responde pela coindividuação do pensamento e dos seres assim conhecidos.

16. A possibilidade de empregar uma transdução analógica para pensar um domínio da realidade indica que este domínio é efetivamente sede de uma estruturação transdutiva; aqui, a possibilidade de pensar não tem nenhum excesso sobre o real, o que restaura imediatamente o movimento do ser, mas isso não se confunde com o postulado hegeliano de que somente o racional é efetivo no ser, pois o conhecimento analógico não apreenderia as operações “reais” em que as estruturas se constituem, parando na apreensão de relações meramente conceituais.

17. O poder de descoberta da analogia na ordem do pensamento é ele próprio concebido por analogia com a operação de cristalização no domínio da individuação física; esse círculo do físico e do noético, longe de ser vicioso, é o signo do método transdutivo que se põe em obra, pois, assim como não se deve buscar fora de um domínio as estruturas de resolução que operam no domínio, não se pode pretender estudar a individuação em geral, mas apenas casos singulares, o que é resolvido pela constituição de um paradigma.

18. O pensamento, para ser real, envolve um aspecto histórico em sua gênese, sendo autojustificável, mas não justificado antes de ser estruturado; como todo ser real, ele está enraizado em um meio que constitui sua dimensão histórica, emergindo de um ambiente teórico do qual retira os germes de seu desenvolvimento, de modo que, ao tomar estrutura por sua inscrição seletiva em uma época, o pensamento resolve progressivamente seus problemas e, ao resolvê-los, justifica-se a si mesmo.

19. A investigação sobre a individuação dos seres volta-se ao domínio físico, onde essa questão foi primeiramente colocada e que é o “primeiro domínio em que uma operação de individuação pode existir”, tornando seu estudo paradigmático; a física tem mostrado sua capacidade de transformar progressivamente a teoria em hipóteses e depois em realidades quase diretamente tangíveis, ou seja, uma capacidade de constituir o concreto a partir do abstrato.

20. A passagem de um domínio do ser a outro se faz pela transferência de operações de uma estrutura a outra, acrescentando a cada nível as especificidades que o paradigma físico, por ser simples demais, não permite apreender; o paradigma físico permanece em sua capacidade de paradigma elementar, e a analogia original da individuação física do cristal persiste ao longo da descrição da individuação coletiva, na qual o grupo é definido como uma sincronização de muitos seres individuais.

21. O termo “alagmática” designa a teoria das operações, definida como a “conversão de uma estrutura em outra estrutura”, sendo complementar à teoria das estruturas elaborada nas ciências; a definição da operação remete a uma certa convertibilidade da operação em estrutura e da estrutura em operação, o que pode ser simbolizado como a passagem de uma estrutura a outra por meio de uma operação, envolvendo a contração de duas meias-cadeias.

22. Apreendendo o ser “anterior a qualquer distinção ou oposição entre operação e estrutura”, a alagmática constrói um ponto de vista que compreende o indivíduo como “aquilo em que uma operação pode ser reconvertida em estrutura, e uma estrutura em operação”, o que é outra maneira de dizer que ela se ocupa das mudanças de estado ou, mais uma vez, da relação, que deixa de ser concebida como algo que surge entre dois termos já individuados para ser redefinida como um aspecto da ressonância interna de um sistema de individuação.

23. O método consiste em não reconstituir a essência de uma realidade por meio de uma relação conceitual entre dois termos finais, considerando qualquer relação verdadeira como tendo um grau de ser; este postulado da realidade da relação é uma declaração de guerra à tradição substancialista, que concebe a relação como uma simples relação entre termos que preexistem ao ato de colocá-los em relação, fazendo da substância uma instância extrema da relação, aquela da inconsistência da relação.

24. O conhecimento não pode ser concebido como uma simples relação entre duas substâncias (sujeito cognoscente e objeto conhecido), mas como uma “relação de duas relações, das quais uma está no domínio do objeto e a outra no domínio do sujeito”; o paralelismo entre a operação de conhecer e a operação conhecida é, em última instância, uma modalidade da relação, e a relação entre duas relações é ela mesma uma relação, o que significa que o conhecimento existe no mesmo modo que os seres que ele liga, sendo sua realidade o fato de ser uma relação.

25. O exame da individuação dos seres físicos recorre às ciências experimentais porque o conhecimento que elas fornecem é conhecimento da relação e, portanto, “só pode fornecer à análise filosófica um ser que consiste em relações”; o indivíduo físico nada mais é do que a relação ou relações que lhe deram nascimento, fazendo dele uma ponte entre ordens de ser díspares, e é a atividade relacional que dá consistência ao ser, de modo que o que é relacional é real, e o que é real é relacional.

26. Uma operação de individuação só ocorre dentro de um sistema que abriga energia potencial suficiente para que o desencadeamento de uma singularidade ative uma tomada de forma, que opera sempre como uma colocação em relação de duas ordens de grandeza entre as quais não houve comunicação anterior; o indivíduo pode ser compreendido como a “atividade da relação” - é ao mesmo tempo o que atua na relação e o que resulta dela - sendo a realidade de uma relação constitutiva, não a interioridade de um termo constituído.

27. Já no nível dos seres físicos, o fato de a relação ser constitutiva significa que interioridade e exterioridade não são substancialmente diferentes, e a relação, enquanto constitutiva, existe como limite; em função desse poder constitutivo do limite, o indivíduo aparece não como um ser finito, mas como um ser limitado, ou seja, um ser no qual “o dinamismo do crescimento nunca cessa”, sendo a finitude sinal de uma incapacidade de crescimento e de uma falta de ser pré-individual necessário para a amplificação na existência.

28. A individuação de um cristal oferece o exemplo mais puro do poder constitutivo da relação como limite, pois, durante o crescimento, o limite do cristal desempenha o papel de um germe estrutural que se desloca à medida que o cristal cresce; devido à sua estrutura periódica, o cristal não tem centro, e seu limite “está virtualmente em todos os pontos”, não sendo um envelope para qualquer interioridade, o que também se aplica ao elétron, cuja consistência individual é inteiramente relativa, pois sua massa varia em função de sua velocidade e de sua relação com outras partículas.

29. “Relativo” não é sinônimo de “irreal”, e a teoria probabilística do indivíduo defendida por Niels Bohr, segundo a qual a aparição do indivíduo físico é relativa ao sujeito que mede, é rejeitada porque, nesse caso, o ser-relativo do indivíduo implica sua irrealidade, uma vez que a relação, definida como um artefato da medida humana, é desprovida de realidade; o indivíduo só adquire a consistência de uma relação quando existe como operador de uma relação dentro de um sistema da mesma ordem de grandeza, sendo então compreendido como relativo a um meio associado que nasce como seu complemento ao mesmo tempo.

30. No domínio da individuação física, o meio associado é repensado como campo, que, sendo a “verdadeira grandeza física” do indivíduo, é “centrado” em torno dele sem ser uma parte dele, expressando a propriedade que uma partícula física possui de ser polarizada, isto é, de ser definida pela interação que tem com outras partículas físicas; o indivíduo, por si só, é uma realidade incompleta, mas, associado a um meio da mesma ordem de grandeza que retém o pré-individual, adquire a consistência de uma relação.

31. O postulado ontogenético central de uma filosofia da individuação é que os indivíduos consistem em relações e, consequentemente, a relação tem o estatuto de ser e constitui o ser; a diferença que separa dois domínios como o físico e o vivo não é uma diferença de substância, mas a que distingue “uma individuação primária em sistemas inertes e uma individuação secundária em sistemas vivos”, devendo-se conceber a individuação biológica não como um acréscimo de determinações a um ser já fisicamente individuado, mas como uma desaceleração da individuação física, como uma bifurcação que opera antes do nível físico propriamente dito.

32. O que divide o ser em domínios é, em última análise, o ritmo do devir, ora acelerando através de estágios, ora desacelerando para retomar a individuação desde o início; os indivíduos vivos diferem dos físicos por acrescentarem uma segunda “individuação perpétua, que é a própria vida”, à primeira individuação instantânea, sendo não apenas um resultado, mas um “teatro de individuação”, com uma verdadeira interioridade, pois a individuação se dá em seu interior.

33. O indivíduo vivo é capaz de relações orientadas para seu interior (regeneração) e de relações exercidas para o exterior (reprodução); nos seres do tipo colônia, o que individualiza um indivíduo em relação à colônia em que vive é o momento em que ele se destaca dela para pôr um ovo que dá origem a uma linhagem individual, que pode formar uma nova colônia por brotamento; o que confere individualidade separada a um ser vivo é seu caráter hantológico - o fato de se destacar da colônia original e, após se reproduzir, morrer a uma distância dela.

34. O exemplo dos cnidários, que pode parecer surpreendente, oferece um observatório para estudar a própria constituição da individualidade como uma atividade relacional; o indivíduo é relação pura, existindo entre duas colônias sem se integrar a nenhuma, e sua atividade é uma atividade de amplificação do ser, sendo que a relação entre o ser singular e o grupo é a mesma que entre o indivíduo e os subindivíduos, não havendo diferença de natureza entre a relação do indivíduo com o grupo e sua relação consigo mesmo.