Transindividual

COMBES, Muriel; LAMARRE, Thomas. Gilbert Simondon and the philosophy of the transindividual. Cambridge, Massachusetts London, England: The MIT Press, 2013.

1. A obra “A Individuação Psíquica e Coletiva” trata de uma única individuação, a psicossocial, que possui duas faces ou resultados (o ser psíquico e o coletivo), sendo que as individuações psíquica e coletiva são recíprocas, constituindo polos de uma mesma relação constitutiva que define a categoria do transindividual, o qual não unifica indivíduo e sociedade, mas é uma relação de relações, interior e exterior ao indivíduo.

2. A individuação psíquica aparece como uma nova estruturação do ser vivo, que se distribui em dois domínios distintos, o somático e o psíquico, onde antes havia uma unidade psicossomática homogênea, passando a haver uma unidade “funcional e relacional”; essa descrição da dualidade psicossomática como resultado de uma operação de desdobramento no ser vivo, e não como dualismo de substâncias, permite reconsiderar a separação entre humano e animal como uma diferença de nível e não de natureza.

3. A individuação psíquica, também chamada de individuação interior, ocorre por meio de atos como a percepção, que engaja o sujeito percipiente como parte de um sistema orientado, operando uma segregação de unidades no mundo objetivo na medida em que opera em si mesmo uma individualização por saltos sucessivos; a psique, portanto, não é uma substância, mas uma relação interior que não se confunde com interioridade, constituindo-se na interseção de uma dupla polaridade entre a relação com o mundo e os outros e a relação consigo mesmo.

4. O verdadeiro centro da individualidade, não localizado, é da ordem de um subconsciente afetivo-emotivo, domínio das intensidades que permite compreender as reconfigurações psíquicas globais que operam nos indivíduos ao ultrapassar limiares; essa abordagem aproxima-se da compreensão spinozana do sujeito ético como um local de variação perpétua em seu poder de agir, função de sua capacidade de afetar e ser afetado, onde a consciência varia em função da globalidade da “vida afetiva” do sujeito.

5. A afetividade, camada relacional que constitui o centro da individualidade, surge como uma ligação entre a relação do indivíduo consigo mesmo e sua relação com o mundo, colocando o indivíduo em relação com uma parcela de realidade pré-individual ainda não individuada que ele carrega consigo, mostrando que o ser não se reduz ao ser individuado; o sujeito é a realidade constituída pelo indivíduo e pela parcela pré-individual que o acompanha, sendo incompatível consigo mesmo e tenso em direção ao coletivo.

6. A experiência da angústia é o esforço de um sujeito para resolver em si mesmo a tensão entre o pré-individual e o individuado, tentando individuar todo o pré-individual de uma só vez; nela, o sujeito se sente dividido entre a natureza pré-individual e o ser individuado, experimentando a renúncia do ser individuado submerso pelo ser pré-individual, o que constitui uma tentativa catastrófica e solitária de resolução que leva à destruição da individualidade, sendo um substituto desastroso para a relação transindividual.

7. A mediação entre percepções e emoções é condicionada pelo domínio do coletivo, ou transindividual, onde as emoções se tornam pontos de vista perceptivos e os pontos de vista se tornam emoções possíveis; o coletivo é o meio de resolução da tensão entre problemáticas subjetivas incompatíveis que surgem no nível do sujeito solitário, mas a noção de transindividual, que surge na interseção das duas individuações, é que esclarece a natureza dessa reciprocidade.

8. Um coletivo se constitui quando os indivíduos se engajam em uma nova individuação como elementos dela, movidos pela tensão vivida pelo sujeito entre o pré-individual e o individuado, que o impulsiona a buscar sua resolução para além de si mesmo; essa tensão é a forma pela qual o sujeito percebe a latência do coletivo em si mesmo, um excesso de ser pré-individual impossível de ser reabsorvido no ser individuado, exigindo que o indivíduo se transforme para atingir o coletivo e individuar a parcela pré-individual que carrega.

9. O transindividual não é um fim transcendente a ser revelado, mas é autoconstituinte e deve ser descoberto, sendo descoberto apenas “no final da provação [que o sujeito] se impõe, e que é uma provação de isolamento”; a relação transindividual é a de Zaratustra com o equilibrista morto e abandonado pela multidão, onde a provação do transindividual começa com a solidão, pois é apenas no isolamento que o pertencimento comunitário é desfeito, permitindo a suspensão das relações interindividuais funcionais para que uma relação de outra natureza possa se estabelecer.

10. A relação interindividual é uma “simples relação” na qual o eu é apreendido como um personagem por meio da representação funcional que os outros fazem dele, constituindo um obstáculo à descoberta e efetuação da pré-individualidade residual; apenas um evento excepcional, ao suspender a modalidade funcional da relação com o outro e permitir que outro sujeito, despojado de sua função social, apareça em sua mais-que-individualidade, pode forçar um sujeito a tomar consciência do que em si mesmo é mais-que-individual e a se engajar na provação, um processo de desindividuação que, ao contrário da angústia, é a condição para uma nova individuação.

11. A individualidade psicológica não é o produto substancial da individuação psíquica, mas o resultado processual, em andamento, daquilo que nessa individuação é direcionado para a abertura do coletivo; ela é constituída no centro da constituição do coletivo, não tendo espaço próprio, existindo como algo superposto aos domínios físico e biológico, e sendo essencialmente de natureza transitória, organizando a passagem do nível da individuação físico-biológica para o nível do coletivo.

12. A distinção entre transindividual subjetivo e objetivo serve para chamar a atenção para os dois “lados” da transindividualidade: o lado subjetivo diz respeito aos efeitos em um sujeito da descoberta de sua mais-que-individualidade, de uma zona em si mesma pré-pessoal e comum, enquanto o lado objetivo nomeia a operação em que essas parcelas “comuns” são coletivamente estruturadas, referindo-se à constituição do coletivo a partir de parcelas de natureza associadas aos indivíduos.

13. O transindividual não é exterior ao indivíduo, mas também não é interior; ele se constitui “no limite entre a exterioridade e a interioridade”, em uma zona não individual, não trazendo uma dimensão de exterioridade, mas uma dimensão de superação em relação ao indivíduo; por ser uma fase do ser anterior ao indivíduo, o transindividual não está em uma relação topológica com o indivíduo, sendo uma dobra que se encontra tanto “do lado” do sujeito quanto “do lado” do coletivo, constituindo a realidade da individualidade psicológica e a realidade do coletivo.

14. O social não é uma substância nem uma soma de substâncias individuais, mas um “sistema de relações”, e o indivíduo só entra em relação com o social através do social, ou seja, através da relação que cada um pode estabelecer com indivíduos distantes, por intermédio de um grupo; o social é constituído pela “mediação entre o ser individual e o fora-grupo através do intermediário do dentro-grupo”, sendo que o grupo não é um aglomerado de indivíduos, mas o próprio movimento de autoconstituição do coletivo.

15. A individuação do grupo é simultaneamente uma individuação do grupo e uma individuação dos indivíduos agrupados, que são inseparáveis; as personalidades individuais não pré-existem à individuação do grupo, mas são contemporâneas à gênese do grupo, uma individuação na qual os indivíduos agrupados se tornam “indivíduos de grupo”; o que a psicologia e a sociologia esquecem é a realidade da relação, a operação de individuação, que consiste na “atividade relacional entre o dentro-grupo e o fora-grupo”.

16. A socialidade dita natural, comum a humanos e animais, é uma “reação coletiva da espécie humana às condições naturais de vida”, como através do trabalho, e não se opõe à individuação propriamente humana que dá origem ao transindividual, pois esta também é uma relação com a natureza, mas de outro tipo; a natureza não é o contrário do Humano, mas a primeira fase do ser, e a individuação do coletivo é uma segunda individuação que reúne as “naturezas” portadas por muitos indivíduos, mas não contidas nas individualidades já constituídas.

17. A individuação do coletivo, que dá origem a significações, é a segunda individuação no sentido de que traz um novo tipo de operação, que não dá origem, como a primeira, a indivíduos em relação a um meio; para que haja relação, deve haver uma operação de individuação, ou seja, um sistema tensionado por potenciais; o coletivo possui sua própria ontogênese, utilizando os potenciais carregados pela realidade pré-individual contida nos seres já individuados, sendo real na medida em que é uma operação relacional estável, existindo physikos e não logikos.

18. O transindividual designa tanto o pré-individual depositado nos sujeitos através da individuação vital, que insiste neles e está disponível para uma individuação subsequente, quanto seu modo de existência como realidade estruturada como coletivo; todos os indivíduos, portanto, têm um tipo de fundo não estruturado a partir do qual uma nova individuação pode ser produzida, e é porque cada humano carrega consigo uma “reserva de ser ainda não polarizada, disponível, à espera” que ele pode ser considerado incompleto individualmente, sendo essa incompletude relativa a uma realidade positiva que ele carrega.

19. A partir da concepção naturalista do coletivo, formula-se um humanismo construído sobre as ruínas da antropologia e sobre a renúncia à ideia de uma natureza ou essência humana, um humanismo sem o humano a ser construído, que substitui a questão kantiana “O que é o homem?” pelas perguntas “Quanto potencial um humano tem para ultrapassar a si mesmo?” e “O que pode um humano na medida em que não está sozinho?”.