Tomada de Forma Técnica

SIMONDON, Gilbert. Individuation in Light of Notions of Form and Information.

1. Condições Físicas da Tomada de Forma Técnica

1. A permanência e universalidade do esquema hilemórfico exigem um fundamento físico anterior a qualquer elaboração humana, pois a matéria bruta já contém, antes da tomada de forma, formas implícitas ligadas a uma haecceidade própria que condiciona e orienta o trabalho técnico.

2. A instrumentação científica recorre às formas implícitas da mesma maneira que a técnica, como demonstra a difração de raios X e raios gama pelos cristais, que revela redes moleculares imperceptíveis à intuição sensível e aproxima o físico do carpinteiro na escolha da matéria conforme sua estrutura interna.

2. Qualidades e Formas Físicas Implícitas

3. O esquema hilemórfico é insuficiente porque confunde formas implícitas com qualidades da matéria, quando na verdade as qualidades não possuem haecceidade, ao passo que as formas implícitas a possuem em grau máximo, como demonstra a porosidade enquanto aspecto funcional das formas implícitas elementares.

4. Enquanto conhecimento aproximado e estatístico, a qualidade que caracteriza um tipo de matéria designa formas implícitas previsíveis estatisticamente, o que se relaciona ao esforço cartesiano de reduzir as qualidades a estruturas elementares, situando a forma em todas as escalas de grandeza, dos vórtices da matéria sutil aos vórtices cósmicos.

5. A operação técnica revela, utiliza e integra formas implícitas já existentes em vez de impor uma forma inteiramente nova a uma matéria passiva, o que explica por que as primeiras matérias elaboradas pelo homem foram produtos vegetais e animais já estruturados por suas funções vitais.

3. Ambivalência Hilemórfica

6. A atribuição do princípio de individuação à matéria ou à forma depende da posição de quem comanda ou de quem executa o trabalho: para quem apenas ordena e controla o resultado, como no exemplo platônico do tecelão que contempla a forma ideal da lançadeira, o princípio de individuação situa-se na matéria, fonte de quantidade e pluralidade.

7. Tanto o ponto de vista do senhor quanto o do artesão captam apenas aspectos parciais da haecceidade do objeto: o exemplo da coroa de ouro examinada por Arquimedes a pedido do tirano mostra que, para quem manda sem laborar, a individuação reside na matéria específica e não na forma dada pelo artesão.

8. Os casos tecnológicos de individuação, nos quais forma e matéria adquirem sentido, permanecem casos particulares cuja generalização não está garantida, o que aponta para a existência de uma zona intermediária de singularidades entre forma e matéria como traço essencial da operação de individuação, sugerindo que a individuação em geral poderia ser repensada a partir desse paradigma técnico reformulado.