STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.
Se a questão é, de fato, decidir na filosofia — ou seja, na política —, neste caso, será, antes de tudo, decidir por uma referência mítica; entre Atenas ou Mecone, independentemente da interpretação de Antígona. Pois, se é verdade que a Introdução à Metafísica dá espaço ao tema de um desenraizamento originário, o discurso heideggeriano sobre o desenraizamento permanece, em seu conjunto, bastante orientado por uma mitologia da autochonia de origem ateniense (tal como foi reconstituída por Nicole Loraux em Os Filhos de Atena): ao conceder-lhe esse privilégio em sua política, Heidegger terá esquecido a mitologia prometeica do desenraizamento originário, que, no entanto, está tão próxima de sua interpretação do tempo. É certo que a leitura de Antígona feita por Heidegger, na Introdução à Metafísica (trad. Gilbert Khan, Gallimard, 1967, pp. 153 e seguintes), interpreta a origem como arrancamento ou desenraizamento – e o Dasein, ou seja, o tempo, como violência originária. Sem dúvida, a análise do deinon e do deinotaton a partir do poema de Sófocles, e o que daí resulta: o historial como deslocamento, mostra que, para Heidegger, em 1935, a mitologia ctônica não domina simplesmente. Seria necessária aqui uma interpretação minuciosa. No entanto, Heidegger privilegiou tal mitologia, já em Sein und Zeit, na Introdução à Metafísica (“A Rússia e a América são […] o mesmo frenesi sinistro da técnica desenfreada e da organização sem raízes do homem padronizado”, p. 49), e até o fim (por exemplo, na entrevista à revista Spiegel), e isso porque ele nunca pensou o tempo inteiramente a partir da prometheia, o que se traduz no conflito que opõe essencialmente dikè e tekhnè (Introdução à Metafísica, pp. 166-172), que, é certo, aparecem juntas no e como o deinon, mas onde a tekhnè nunca é o próprio recurso do deslocamento enquanto bom deslocamento, não aquele do arrancamento, mas aquele do retorno ao mais estranho, ao mais distante, que é sempre o mais familiar ocultado por sua cotidianidade. Essa temática se repete nas palavras hábito e habitar, por exemplo, em Construir, habitar, pensar. Aliás, não se trata aqui de descartar a possibilidade de uma pulsão territorializante irredutível, “ctônica”, que sempre já habitaria, e como a própria condição de sua realização, o movimento “diferente” do arrancamento. É a tensão elementar entre esses dois movimentos que precisa ser pensada, hoje mais do que nunca. Trata-se de pensar a articulação entre a técnica e o tempo, de considerar a técnica como o próprio recurso do deslocamento na complexidade insolúvel de seus efeitos.