Desengate do quê

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

1. O Dasein (Dasein) acede à sua individuação diferante no ser-em-falta (Gewissen), cuja interpretação exige reanimar a analítica da cotidianidade que forma a primeira seção de Ser e Tempo, desenvolvendo-se este capítulo em três momentos: a quotidianidade como desengate do quê, a estrutura do ser-em-falta como engajamento no quê, e a constituição histórica da historicidade como nova configuração do quê.

** 1. A análise da quotidianidade como desengate do quê **

2. A impossibilidade de questionar o sentido do ser sem compreensão prévia mediada pela quotidianidade ressurge a aporia de Mênon, sendo o ser dado apenas no retardo de um a posteriori — a mesma questão de Epimeteu.

3. O maior ponto de proximidade entre a analítica existencial e a tanatologia epimeteica — e também de maior divergência — é o tema do já-aí, cujas possibilidades o Dasein (Dasein) sempre já herdou de um mundo que o precede.

4. Como possibilidade de descarregamento do ter-de-ser, a tradição é o que arrasta o Dasein (Dasein) à decadência (Verfallenheit) e simultaneamente o único que lhe entrega esse ter-de-ser: a transmissão é o esquecimento, estrutura epimeteica paradoxalmente desenraizante.

5. Se o ser-no-mundo é sempre de algum modo preocupação (Besorgen) e o ser do Dasein (Dasein) deve manifestar-se como cuidado (Sorge), esse cuidado é a estrutura da elpis, sendo a epimétheia insousiança e ruminação preocupada das faltas ao mesmo tempo.

** 1.3. A mão como (com)preensão do sistema dos quês pelo quem **

6. O uso quotidiano encontra a ferramenta que remete sempre a outra ferramenta, formando um sistema de quês que satura o mundo mesmo, sistema que se tornará Ge-stell (Gestell) como técnica moderna sem jamais ter possuído dinâmica própria distinta da lógica da decadência (Verfallenheit) temporal.

** 1.4. A concepção husserliana da lembrança e o sistema dos quês como remissões **

7. O conceito heideggeriano de signo engloba tanto sinais quanto vestígios e documentos, ignorando a dinâmica do fazer-signo e a opacidade idiomática, bem como a espessura própria do documento como “consciência de imagem” husserliana.

8. O renvoi que constitui ontologicamente o signo não pode ele mesmo ser concebido como signo, sendo o mundo, em todo ente à-mão, sempre já “aí” através da instrumentalidade que abre a uma “totalidade de remissão” ou finalidade.

** 1.5. O esquecimento distanciante de Heidegger **

9. A espacialidade do quem caracteriza-se como des-distanciamento (Ent-fernung), tendência essencial à proximidade que hoje se manifesta em todas as formas de aceleração da velocidade, como a radiodifusão.

** 1.6. A neutralidade programática do quem **

10. Se a questão sobre o Dasein (Dasein) é quem, o quem quotidiano não é ainda o “meu” quem, o que implica o abandono, pela fenomenologia, de toda egologia: os outros não são primeiro determinados como não-eu, mas encontrados como aqueles de quem “o mais das vezes não nos distinguimos”.

** 1.7. O instrumento como “consciência de imagem” **

11. O caráter programático da linguagem mobiliza uma escuta ela mesma antepredicativamente programática: “de início” nunca ouvimos ruídos e complexos sonoros, mas sempre o carro que range.

** 1.8. A idiotia (in)sousiante do idioma fora de si e o artigo da morte **

12. O caráter programático da língua é publicidade do impessoal (das Man), habitando o quem em todos os seus “níveis”, inclusive em sua pura solidão, essencialmente repetível — daí a “idio-textualidade” que remete à idiotia de Epimeteu.

** 2. A estrutura do ser-em-falta como engajamento no quê **

13. Mortal, o quem excede-se como possibilidade indeterminada, e o sentido de sua decadência é a fuga diante do indeterminado, tentativa de determinar o fim, nivelando as diferenças; a improbabilidade do quem funda-se na indeterminação da morte.

14. Preferimos entender em Schuld o “defeito” em vez de dívida ou falta, sendo dívida e falta caracterizadas pelo “não”: ser-fundamento de uma nulidade, comunidade do defeito, banalidade da estranheza.

** 2.2. As maneiras da mão e a in-finitude do quê **

15. O Dasein (Dasein) é advindo: desde o fenômeno originário do porvir como retorno ao ter-sido, sendo a assunção do ser-lançado a autêntica retomada de seu “como já era” mais próprio, seu “sido”.

16. A afecção assalta o Dasein (Dasein) pelo que ele já era e constantemente foi, sendo o sentido existencial primário da faticidade o ser-sido; a temporalidade é o “fora-de-si” originário desde o fim.

** 2.3. A repetição como rememoração — e a invenção do outro **

17. O advir-a-si é um retorno ao já (onde o Dasein (Dasein) pode ser seu “aí”): essa repetição é o ser-sido, implicando que as “lembranças” nem primárias nem secundárias que Husserl excluía reintegram o foco do tempo — passo que Heidegger, no entanto, nunca dará.

** 2.4. Instrumentos e mãos da ciência **

18. A ciência nasce na abstenção de todo manuseio — um “retiro da mão” — mas retoma a mão ao thematizar o ente, sendo esse resto de mão significativo: mesmo a elaboração mais abstrata maneja, por exemplo, o lápis.

** 3. A questão da constituição histórica da historicidade como nova configuração do quê **

** 3.1. A secundariedade do quê mundo-historial **

19. A quotidianidade é o modo inautêntico da historicidade (Geschichtlichkeit) do Dasein (Dasein), que não está no tempo nem na história, mas é temporal e historial, sendo sua temporalidade que torna possível a intratemporalidade e não o inverso, ainda que co-originariamente intratemporal.

20. O ter-sido-aí de um Dasein (Dasein) que já não é é, porém, não-passado, sendo-para um Dasein (Dasein) presente, permanecendo ter-sido como esse passado que é seu sem que o tenha “tido”, isto é, vivido — o legado é o que está em jogo.

21. O ser-lançado é uma herança da qual o quem só se liberta retornando a ela, delegando-se em uma possibilidade herdada e no entanto escolhida — “destino” como proveniência originária do Dasein (Dasein), estrutura que é a epimétheia, pois os “golpes do destino” são as faltas engendradas do defeito.

** 3.2. O nivelamento do mundo-historial como esquecimento da lembrança terciária **

22. O utensílio, a obra, os monumentos e as instituições têm suas “histórias”, sendo até a natureza historial como paisagem ou campo de batalha; esse ente intramundano chamado mundo-historial constitui o historial, mas apenas secundariamente, sem alcance ontológico próprio.

** 3.3. A exatidão do suplemento e a restituição **

23. É o ter-sido mundo-historial concretizado por “restos ainda sob-a-mão, monumentos, relatos” que torna possível a tematização histórica, sendo porém a historicidade da existência do historiador que funda existencialmente a investigação histórica como ciência.

** 3.4. Exatidão e possibilidade **

24. Ser e Tempo termina anunciando a necessidade de engajar-se na questão do ser e interrogando o peso do quê que sempre arrasta o pensamento à reificação, insistindo na necessidade de dele destacar a especificidade como à-mão — gesto insubstituível e sem precedentes.

25. Essas questões — a lógica do suplemento orto-gráfico, e o que no quê permitiria uma inauguralidade epocal chamada “história do ser” — abrirão o segundo tomo desta obra, dedicado às ortoteses das tecnologias analógicas, digitais e biológicas contemporâneas, mnemotecnologias que engramam o já-aí.