Evolução técnica

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

** 1. História geral e história das técnicas **

1. O conceito geral de sistema técnico elaborado por Gille constitui-se numa perspectiva de ciência histórica, não como sistema técnico único, mas como sucessão de sistemas técnicos estabilizados em torno de aquisições anteriores e tendências estruturantes.

2. A necessidade, para a história geral, de uma verdadeira história das técnicas é enunciada por Febvre, tornando-se evidente no contexto da tese de Lefebvre des Noëttes sobre o papel determinante de uma inovação técnica no desaparecimento da escravidão.

** 2. O sistema técnico **

3. Como na linguística, é o ponto de vista que cria o objeto, devendo os conceitos ordenar a realidade segundo os aspectos estáticos e dinâmicos do sistema geral que ela forma, sendo o sistema o conceito maior.

4. A evolução dos sistemas técnicos caminha no sentido da complexidade e da solidarização dos elementos combinados, sendo a mundialização dessas dependências o que conduz ao que Heidegger nomeia Ge-stell (Gestell).

** 3. O sistema técnico em sua relação com os sistemas econômico e social **

5. Existem, evidentemente, laços entre sistema técnico e sistema econômico, não havendo trabalho sem técnica nem teoria econômica que não seja teoria do trabalho, da mais-valia, dos meios de produção e do investimento.

6. As transformações do sistema técnico acarretam regularmente convulsões do sistema social, especialmente quando um novo sistema técnico substitui uma atividade dominante por outra de natureza totalmente diferente, colocando a questão do transfer de tecnologia.

** 4. Os limites do sistema técnico **

7. São os limites de um sistema que comandam seu dinamismo, podendo-se detectar limites estruturais pela dificuldade de aumentar quantidades, diminuir custos de produção ou diversificar produções, dos quais resultam crises econômicas.

8. Limites endógenos e exógenos afetam o sistema técnico, como ilustram o caso da via ferroviária de trilhos de ferro em meados do século XIX, resolvido pela invenção do alto-forno Bessemer, e o protecionismo técnico-econômico francês pela tarifa sobre o ferro inglês.

** 5. Racionalidade e determinismo no processo da invenção **

9. Toda a questão está em saber como se decide uma evolução do sistema, problema da lógica da invenção, sendo a efetuação da mutação a invenção técnica propriamente dita como catálise de um potencial evolutivo.

10. Há uma singularidade da lógica da invenção técnica, denominada por René Boirel “racionalidade difusa”, racional por inscrever-se nas cadeias causais do real e “difusa” por ser mais frouxa que a racionalidade científica, permanecendo empírica sem contudo ser aleatória.

11. Gille distingue invenção simples, desenvolvimento como aperfeiçoamentos sucessivos e invenção como operação de montagem envolvendo várias linhas técnicas, intervindo ainda o conhecimento científico e as solidariedades com os demais sistemas.

** 6. Invenção e inovação **

12. Distinguem-se duas fases no processo de invenção — a de elaboração e a de desenvolvimento — e, seguindo François Perroux, invenção e inovação, sendo esta última de ordem principalmente econômica.

** 7. O investimento industrial: evolução conjunta do sistema técnico, do sistema econômico e do aparelho de Estado **

13. A questão do investimento merece atenção especial, pois o sistema técnico industrial impõe, no século XIX, profunda reorganização do sistema econômico, separando-o em subsistema bancário e subsistema produtivo.

14. Uma conjugação técnico-econômica singular tem por consequência o surgimento da tecnocracia e da tecnociência, convergindo o pendor ao trabalho dos capitais disponíveis e o pendor da atividade técnica a inovar-se, convergência que se torna verdadeira política de Estado.

** 8. A inovação permanente: nova relação entre tekhnè e epistémè **

15. Poder-se-ia supor que a Revolução Francesa foi menos uma tomada de consciência dos direitos do homem que uma adaptação da sociedade a um novo sistema técnico, dando papel considerável ao engenheiro na gestão das transformações econômicas e sociais.

16. Gille reconhece duas combinações características da técnica moderna: progresso científico–invenção–inovação, onde a iniciativa vem da ciência valorizada pela indústria, e invenção–inovação–crescimento, onde a iniciativa torna-se sobretudo econômica e a pesquisa se integra à empresa.

17. Com a técnica contemporânea há inversão de sentido no esquema geral: a inovação deixa de ser resultado de uma invenção para tornar-se processo global que suscita a invenção, programando seu surgimento, como ilustra o Dr. Holst, fundador dos laboratórios Philips.

** 9. A universalidade técnica **

18. É a hipótese de Leroi-Gourhan, em L'Homme et la Matière, que tendências técnicas universais, independentes das localidades culturais onde se concretizam como fatos técnicos, atravessam os meios étnicos, diffratando-se em diversidade indefinida de fatos.

** 10. O acoplamento do homem e da matéria **

19. L'Homme et la Matière expõe os princípios de uma tecnomorfologia fundada nas matérias-primas, comparando a tarefa do antropólogo com as do botânico e do zoólogo dos séculos XVII a XIX quanto ao caráter permanente das tendências.

** 11. Tendência e fatos **

20. Distinguem-se as tendências gerais, que podem dar origem a técnicas idênticas sem parentesco material, e os fatos, individuais e únicos independentemente da proximidade geográfica, sendo necessário classificar os fatos e descobrir a unidade sob a diversidade aparente.

21. O rapport zootecnológico do homem à matéria é caso particular do rapport do vivente ao seu meio, sendo a matéria inerte organizada, o objeto técnico, o que evolui em sua própria organização, tornando-se interface entre o homem e o meio.

** 12. Diferenças étnicas e diferenciação técnica **

22. A demarche paleontológica encontra rapidamente seus limites na análise das realidades técnicas humanas, dado o caráter absolutamente singular da tecnicidade do homem, que o torna um ser à parte no mundo dos seres vivos.

23. A diferenciação técnica, impulsionada surdamente pela tendência, efetua-se no nível étnico como fato, seja por invenção seja por empréstimo, sendo a tendência inevitável, previsível e retilínea, ao passo que o fato é imprevisível, fantasioso e único.

** 13. A geografia como origem e o gênio étnico como “devir unificador” **

24. As condições da diferenciação técnica, da invenção e da difusão são examinadas do ponto de vista da etnia, definida por seu porvir mais que por seu passado, opondo-se à teoria dos centros técnicos de alta civilização difundindo por círculos concêntricos.

25. O que comanda a unidade étnica é a relação com o tempo, mais exatamente uma relação com o porvir coletivo, sendo a etnia menos um passado que um devir, sem origem senão mítica, sem gênio étnico técnico privilegiado por natureza.

** 14. Meios interior e exterior tecnológicos **

26. As boas terras do eixo eurasiático originam os centros técnicos surgidos com agricultores e metalurgistas ao final do Paleolítico, condicionando radicalmente o campo da história geral pela técnica, de modo que a supremacia tecnológica constitui a realidade profunda da “superioridade” dos povos históricos.

27. Compreender as condições do estatismo ou dinamismo técnico exige analisar o comportamento do homem vivendo em grupo como animal técnico segundo a dupla condição de seu “meio interior” e “meio exterior”, conceitos importados da biologia.

** 15. Os dois aspectos da tendência **

28. Leroi-Gourhan retoma o termo filosófico de “tendência” para designar um movimento, no meio interior, de tomada progressiva sobre o meio exterior, tendências que só se tornam explícitas em sua materialização.

** 16. O meio técnico como fator de diluição do meio interior **

29. No grupo étnico apreendido como meio interior isola-se o meio técnico, organizado em “corpos técnicos” combinando-se a outros subconjuntos, correspondendo à solidariedade do meio técnico com os demais o fato de a tendência só se realizar como diversidade de fatos técnicos.

** 17. A permanência da evolução **

30. Deve-se distinguir, entre grupos do mesmo meio exterior, os “empréstimos reais” da “simples convergência”, não havendo diferença fundamental entre o fato da invenção e o fato do empréstimo, mas apenas questão de plasticidade do meio técnico.

31. A possibilidade do empréstimo vem sempre em primeiro lugar do próprio meio interior, devendo ser tratada como fenômeno de impacto do meio exterior em geral, e não especificamente como influência cultural.

** 18. A evolução técnica industrial impõe o abandono da hipótese antropológica **

32. Em Simondon, o meio interior se dilui: não há mais fonte antropológica da tendência, sendo a evolução técnica plenamente do próprio objeto técnico, do qual o homem não é mais ator intencional, mas operador.

** 19. A mecanologia, ciência do processo de concretização do objeto industrial **

33. O descompasso entre a técnica contemporânea e a cultura decorre de esta não ter integrado a nova dinâmica dos objetos técnicos, gerando desarmonia entre o “sistema técnico” e os “demais sistemas”, cabendo à mecanologia estudar essa dinâmica própria da máquina.

** 20. Genética do objeto industrial como matéria que funciona **

34. A tecnologia como mecanologia estuda a dinâmica maquínica dos objetos técnicos industriais, objetos que funcionam ao sintetizar funções, sendo a concretização, ou integração das funções por sobredeterminação, absolutamente singular como a história de cada objeto.

35. A individualidade dos objetos técnicos só pode ser compreendida a partir de sua gênese, que faz parte de seu próprio ser, havendo historicidade do objeto técnico que se organiza e conquista quase-ipseidade da qual procede absolutamente sua dinâmica.

** 21. A predominância da tecnologia no devir das sociedades industriais **

36. A concretização dos objetos técnicos, sua unificação, limita seu número de tipos, sendo o objeto técnico concreto e convergente um objeto padronizado, tendência que torna possível a industrialização, e não o inverso.

** 22. A imprevisibilidade do devir do objeto **

37. O jogo dinâmico do limite implica que uma descontinuidade está no princípio de toda evolução no sentido da concretização, sendo essas rupturas fruto do autocondicionamento do objeto, “causa de si”, perturbando a partição aristotélica entre entes físicos e técnicos.

** 23. Mutações, linhagens e devir-natural do objeto industrial **

38. Há dois tipos de aperfeiçoamentos, os maiores, que modificam a repartição das funções aumentando a sinergia, e os menores, que apenas diminuem os antagonismos residuais, dissimulando a descontinuidade real da evolução técnica.

** 24. A antecipação, condição de aparecimento do meio associado **

39. Ao naturalizar-se, engendrando seu próprio meio, o objeto escapa ao fenômeno de hipertelia, especialização exagerada que o desadapta a mudanças nas condições de utilização ou fabricação, sendo ponto de encontro entre meio técnico e meio geográfico.