Invenção do homem

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

** 1. A différance do homem **

1. A expressão “invenção do homem” desdobra-se ambiguamente entre quem inventa e o que é inventado, ambiguidade a ser explorada através da passagem do Zinjantropo ao Neantropo, frayage que se efetua tanto na corticalização quanto na pedra lascada.

2. Interrogar o nascimento do homem é interrogar o nascimento da morte, questão a ser pensada fora de todo antropologismo, inclusive levando a sério a hipótese de que “talvez já não sejamos mais homens”.

3. O gramma estrutura todos os níveis do vivente, desde a inscrição genética até a escrita alfabética, a partir do processo de “liberação da memória” descrito por Leroi-Gourhan como exteriorização sempre já iniciada da marca.

4. A passagem do genético ao não genético é o aparecimento de um novo tipo de gramma e/ou programa, colocando a impensável questão de um passado absoluto, de um presente inconcebível que só pode ser um abismo infinito (Ricœur).

5. O já-aí heideggeriano, esse passado nunca vivido e no entanto meu, supõe que a camada epigenética da vida, longe de perder-se com o vivente que perece, se conserva e sedimenta, legando-se como epifilogênese.

6. A hominização é, para Leroi-Gourhan, ruptura no movimento de libertação característico da vida, tal que é a ferramenta, a tekhnè, que inventa o homem, e não o homem que inventa a técnica.

** 2. Tudo começa pelos pés **

7. Leroi-Gourhan questiona a partição entre empírico e transcendental de Rousseau, mas encontrará por sua vez o esquema de uma segunda origem inexplicável, senão providencial.

8. A descoberta do Zinjantropo em 1959, acompanhado de suas ferramentas, obriga a rever a noção de homem: ele não começou pelo cérebro, mas pelos pés, sendo o desenvolvimento cerebral em certo sentido secundário.

** 3. Avanço e atraso **

9. Ao inscrever a hominização na longuíssima história do vivente animal, Leroi-Gourhan mostra como todos os elementos se instalam muito antigamente para a emergência de um sistema geral único: o homem como tecnologia “exsudada” pelo esqueleto.

** 4. Esqueleto, ferramental e cérebro **

10. O aparecimento da ferramenta, cumprindo a indeterminação especificada a partir do homem como processo de exteriorização, relaciona-se a organização particular das áreas corticais, havendo elo direto entre não-especialização e desenvolvimento cortical.

** 5. “Consciência técnica” e antecipação **

11. A análise dos calhaus lascados da pebble culture do Zinjantropo sustenta a hipótese de uma “consciência técnica”, entendida como antecipação sem tomada de consciência criadora, ainda determinada pelas características neurológicas do fabricante.

12. Há dois níveis de antecipação a distinguir — a antecipação sem a qual nenhuma ferramenta poderia ser fabricada, e a antecipação tal que a fabricação evolui e se diferencia — sendo o problema da técnica, em última análise, o problema do tempo.

** 6. A dupla origem da diferenciação técnica **

13. Leroi-Gourhan opõe posteriormente diferenciação específica (genética) e diferenciação étnica (técnico-sócio-cultural), mas seu uso aproximado da palavra “específico” para os Arcantropos contradiz essa distinção e reintroduz uma oposição entre espiritual e técnico-material.

** 7. A maiêutica instrumental **

14. A exteriorização significa que a memória genética e sua transformação não coincidem com a memória do estereótipo e sua transformação, guardando-se esta última na própria marca material do estereótipo que guia mais do que é guiado.

** 8. Ainda a segunda origem **

15. O crânio neandertaliense representa expansão das capacidades de antecipação, medida por Leroi-Gourhan em centímetros de gume obtidos por quilo de sílex, particularmente sensível no estereótipo levalloiso-mousteriense.

16. A intelectualidade refletida não se acrescenta à inteligência técnica: ela já era seu fundo, prosseguindo sob novas configurações protéticas, sendo o “seu” o próprio limiar da exteriorização, e não ruptura com a natureza.

** 9. A linguagem da quase-humanidade **

17. Os Pré-hominíneos (Homo faber) não teriam sentimento da morte, mas já falariam, sem acesso ao simbolismo, constatação estranha já que não existe linguagem que não seja já simbólica, como o próprio Leroi-Gourhan reconhecerá.

18. A relação entre técnica e linguagem é estabelecida pelo conceito de cadeia operatória, sintaxe operatória proposta pela memória, permitindo fundar a hipótese de uma linguagem cuja complexidade acompanha a das técnicas desde a pebble culture até o Acheuleano.

** 10. Memórias da ruptura **

19. É preciso compreender a ruptura constitutiva da exteriorização como emergência de nova organização da memória, correspondendo a cada corpo de tradições uma forma particular de memória, seja específica (espécie animal) seja étnica (grupamento humano).

** 11. A indiferença idiomática **

20. A temporalidade do homem supõe a exteriorização, a prototeticidade: só há tempo porque a memória é “artificial”, constituindo-se como já-aí desde sua “colocação fora da espécie”.

** 12. Já-aí, différance, epifilogênese **

21. A ruptura é a passagem de uma différance genética a uma différance não genética, uma “physis diferida”, cujo vetor, na aurora da hominização, é o sílex, sendo a corticalização reflexão dessa conservação da experiência.

** 13. O quem e o quê **

22. A relação genético/epigenético é dimensão da différance como história da vida, mas Leroi-Gourhan, ao instituir a oposição faber/sapiens, recai na metafísica da oposição entre dentro e fora, antes e depois, homem animal e homem espiritual.