Introdução

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

1. A filosofia, em sua aurora, isola tekhnè e epistémè, distinção ausente nos tempos homéricos, em contexto político no qual o filósofo acusa o sofista de instrumentalizar o logos como retórica e logografia.

2. Lamarck distribui os corpos em dois domínios — o inorgânico e o orgânico —, aos quais correspondem duas dinâmicas, a mecânica e a biológica, entre as quais o ente técnico permanece híbrido destituído de estatuto ontológico.

3. Marx esboça a possibilidade de uma tecnologia que teorizaria a evolução das técnicas, e Engels evoca uma dialética do utensílio e da mão que perturba a partição entre o inerte e o orgânico.

4. Entre mecânica e biologia, o ente técnico converte-se em complexo de forças heterogêneas, no momento em que o desenvolvimento industrial conquista nova posição para a técnica na interrogação filosófica, aproximando a própria ciência do domínio instrumental.

5. Husserl analisa a tecnicização do pensamento matemático pela álgebra, técnica de cálculo instaurada desde Galileu pela aritmetização da geometria, o que conduz à extenuação do sentido das idealidades espaço-temporais.

6. A tecnicização faz perder a memória, tal como no conflito entre sofistas e filósofos do Fedro, no qual a logografia hipomnésica ameaçava a memória anamnésica.

7. A refundação de uma filosofia racional não constitui mais o alvo de uma analítica existencial, pois na meditação heideggeriana da história do ser a ratio revela-se votada em sua essência ao cálculo, ar-raciocínio (Ge-stell) de todo ente.

8. O tema do esquecimento domina o pensamento heideggeriano do ser, historial e inscrito na tecnicidade, e a verdade pensa-se a partir do esquecimento na medida em que a determinação do sentido de a-létheia ecoa a reminiscência platônica.

9. A meditação heideggeriana da técnica esclarece-se apenas quando entendida em dois planos simultâneos: a estrutura existencial do Dasein (Dasein) como relação ao tempo determinada pela intratemporalidade, e o destino da história ocidental do ser através da história metafísica da filosofia.

10. O Dasein (Dasein), “ente que somos nós mesmos”, responde ao ser em sua temporalidade, caracterizando-se por temporalidade, historicidade (Geschichtlichkeit), compreensão de si e faticidade (Faktizität).

11. Existe dupla possibilidade de antecipar: o Dasein (Dasein) pode rebater suas possibilidades sobre as do ser-em-comum (Mitsein), ou viver suas próprias possibilidades como ipseidade incomensurável, assumindo a solidão essencial da antecipação de sua própria finitude.

12. A possibilidade de recusar o horizonte da possibilidade autêntica enraíza-se na preocupação (Besorgen), relação ao porvir que oculta nele a abertura de toda possibilidade verdadeira.

13. A questão da técnica em Heidegger enraíza-se nessas camadas profundas da temporalidade, mas rejoga-se, em textos posteriores a Ser e Tempo, após a viravolta (Kehre), como motivo constitutivo da desconstrução da história da metafísica.

14. A dificuldade de interpretar o sentido da técnica moderna em Heidegger reflete-se na ambiguidade dos textos, nos quais a técnica surge simultaneamente como obstáculo e como possibilidade última do pensamento.

15. Se a técnica moderna cumpre a metafísica, isso constitui apenas uma face do Ge-stell (Gestell), cuja outra face determina a coapropriação (Ereignis) do ser e do tempo, suspendendo a determinação metafísica do tempo e exigindo pensar o ser sem o ente — sem o Dasein (Dasein).

16. A identidade, traço fundamental do ser como identidade do ser e do pensamento, converte-se, no princípio de identidade, em salto (Satz) do ser como fundamento (Grund) do ente rumo ao abismo sem-fundo (Abgrund), que é o próprio Ereignis (Ereignis).

17. “A questão da técnica” enuncia o princípio de uma meditação da essência da técnica contra sua determinação metafísica, especificando a técnica moderna em relação à técnica em geral.

18. A análise da técnica em termos de fins e meios remete à teoria das quatro causas, cuja interpretação tradicional privilegia a causa eficiente, o que funda a concepção instrumental da técnica.

19. Como produção (poiésis), a técnica constitui um modo do desvelamento que faz ser o que não é, segundo a Ética a Nicômaco de Aristóteles.

20. A concepção antropológica da técnica confunde causa eficiente e causa final, ao passo que o sentido pleno da tekhnè apreende-se plenamente na arte, sua forma mais elevada.

21. A técnica moderna também constitui um desvelamento, mas não se desdobra como produção no sentido da poiésis, sendo antes uma pro-vocação que impõe à natureza a extração e acumulação de energia.

22. Permanecendo a técnica moderna um modo de desvelamento, ela constitui o que há de mais próprio a pensar, pois nela se joga o destino como história do próprio ser, sendo o Ge-stell (Gestell) uma estação intermediária de dupla face, cabeça de Jano.

23. Uma filiação marxista dessa reflexão desenvolve-se na discussão das teses sobre a técnica de Marcuse, discípulo de Heidegger, que determina a posição de Habermas, dependente também de temáticas frankfurtianas de Adorno e Horkheimer, prolongando um diálogo iniciado na época de Benjamin.

24. Em A Técnica e a Ciência como “Ideologia”, Habermas estabelece o conceito de agir comunicacional, oposto ao agir técnico, tese central que dominará seus trabalhos subsequentes.

25. Habermas transforma o conceito de racionalização em extensão da atividade racional referida a fins, retomando de Marcuse a tese de que, sob essa racionalidade, instaura-se nova forma de dominação política já não reconhecida como tal, por legitimar-se pelo progresso tecnocientífico.

26. A segunda tese de Marcuse propõe uma nova ciência dialogante com a natureza, isenta da técnica como força de dominação, projeto que Habermas, apoiado em Gehlen, considera utópico diante da objetivação inelutável da atividade racional referente a fins.

27. Da indissociação entre técnica e ciência nasce a tecnocracia, poder pelo qual os técnicos servem ao poder e no qual eficiência e legitimidade se confundem.

28. A alternativa de Habermas à tese de Marcuse assenta-se na distinção entre dois conceitos de racionalização, exigindo que o desenvolvimento das forças produtivas não substitua a racionalização que deve ocorrer no plano institucional, mediante libertação da comunicação.

29. O mesmo paradoxo é constatado por Heidegger e Habermas quanto à modernidade técnica: a técnica, potência do homem, parece autonomizar-se daquilo de que é potência, desservindo o homem enquanto ato de comunicar, decidir e individuar-se.

30. Contra a convergência de Heidegger e Habermas em ver na tecnicização da linguagem uma perversão, propõe-se um ponto de vista distinto, ilustrado pelo exemplo da logografia sofística e do grammatistès antigo, condição da própria cidadania.

31. A compreensão atual da técnica, ainda determinada pelas categorias de fim e meio, adquire nova opacidade desde a Revolução Industrial, tornando sensível em toda esfera social a questão da relação entre técnica e tempo.

32. A preocupação ecológica nas evoluções geopolíticas recentes atesta a penetração dessas questões nas esferas mais elevadas da ciência, da técnica, da indústria, da economia e da diplomacia, como testemunham o “apelo de Heidelberg” e o “contra-apelo” na Cúpula do Rio de Janeiro.

33. Bertrand Gille evidencia que a civilização industrial repousa sobre um processo de inovação permanente, do qual resulta um divórcio entre os ritmos de evolução cultural e os ritmos de evolução técnica, mais rápida que as culturas.

34. Tal reflexão ganha sentido ao examinar efeitos específicos do desenvolvimento técnico, como o tempo real informático e o “direto” midiático, que alteram radicalmente o acontecer do tempo e do espaço, questão também presente nas manipulações genéticas.

35. A analítica existencial heideggeriana inscreve avanço e atraso no horizonte originário da existência temporal e fática, pois o Dasein (Dasein) sempre já precedido por seu já-aí (Faktizität) atrasa-se em relação a ele, ao mesmo tempo em que se antecipa sempre a si mesmo pela antecipação de sua finitude.

36. A leitura proposta confronta a analítica existencial com o mito de Prometeu e Epimeteu em suas versões gregas (Hesíodo, Ésquilo, Platão), mitologia da origem da técnica que é simultaneamente origem da mortalidade, tanatologia cuja ausência de análise na filosofia — singularmente em Heidegger — chama atenção.

37. A interpretação do sentido da falta de Epimeteu constitui o motivo principal deste trabalho, submetendo as grandes temáticas da analítica existencial à crítica já esboçada contra Habermas e contra Heidegger.

38. Diversas contribuições a uma teoria da evolução técnica permitem avançar a hipótese de um terceiro gênero de entes, os entes inorgânicos organizados que constituem os objetos técnicos, entre os entes inorgânicos das ciências físicas e os entes organizados da biologia.

39. A conjugação atual entre a questão da técnica e a questão do tempo, tornada sensível pela velocidade da evolução técnica e pelos processos de desterritorialização que a acompanham, exige nova consideração da tecnicidade.

40. Uma leitura crítica de Heidegger revela que a vida tornada técnica é também finitude retencional, retenção presa na dinâmica de uma tendência técnica que nem a fenomenologia nem a analítica existencial puderam pensar plenamente.