Já Aí

** 1. A condição instrumental **

1. Decidir sobre dikè e aidôs na herméneia significa suportar sua questão, e não decidi-la arbitrariamente, situando-se os mortais elementarmente num problema onde ser é estar na questão do destino como não-predestinação.

2. Busca-se mostrar uma constituição tecno-lógica, e não ctônica, da reflexividade epocal, sendo a oposição platônica a Protágoras constitutiva da filosofia em torno de uma questão da técnica especificada na escrita.

3. Não se trata de isolar uma não-instrumentalidade da língua ou dos idiomas — ela não existe —, mas de interrogar os modos de ser da instrumentalidade enquanto tal, condição tanto de diferenciação idiomática quanto de indiferenciação massiva.

** 2. Epimathesis: a tradição **

4. A questão do idioma e a oposição logos/tekhnè dominam a obra heideggeriana desde “O Conceito de Tempo” até “Tempo e ser”, através dos temas recorrentes da herança da tradição e do cálculo da técnica moderna.

5. A traditionalidade epimeteica origina-se na tecnicidade, colocando a questão de saber se a diferença étnica é co-originária da diferença técnica ou apenas modalidade de uma diferença idiomática essencialmente desterritorializável.

6. Hubert Dreyfus tem razão, mais do que crê, ao ver em Ser e Tempo uma fenomenologia “tecnicista”, ainda que Heidegger permaneça ambíguo, situando-se não numa oposição entre afrontar e promover a técnica, mas na tarefa de “abrir-se a ela”.

** 3. A unidade do saber e o peso do quê à-mão **

7. A leitura de “O Conceito de Tempo” conduz não apenas à questão do tempo fenomenológico distinto do tempo cósmico, mas à hipótese de um tempo tecnológico (tempo do quê) constitutivo da temporalidade do quem.

** 4. Fixar duravelmente o agora **

8. O ente à mão do quem que interroga o tempo é o relógio: pensar o tempo a partir do tempo é, primeiro, pensá-lo a partir do relógio, que reconduz a compreensão vigente em física quanto à revelação do tempo.

** 5. Programas e improvável **

9. O Dasein (Dasein) é: ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), ser-com-outro, preocupação e cuidado (Sorge), banalidade, e pré-compreensão de si a partir da tradição, que marca seu traço propriamente pro-gramático.

** 6. Saber e retraimento **

10. A finitude é uma certeza de caráter iminente e totalmente indeterminada, questão decisiva para saber o que é o tempo e o que é o ser-aí no tempo.

11. A improbabilidade é o destino do ser-aí, e o destino é a não-predestinação que exprime o ser-meu, o ter-de-ser, cuja marca é a solidão (Unheimlichkeit) — inquietante estranheza — de uma ipseidade que não tem rigorosamente sua origem em si mesma.

** 7. Os relógios em tempo real do Blank Geschlecht **

12. A repetição em que se projeta presentemente o passado como abertura do sido originariamente possível precipita-se na gramática tecnológica dos programas efetivos, questão que comporta imediatamente a da tekhnè.

13. O ser-aí, que se dá na antecipação — na différance —, não é dado pelo relógio, mas nele se perde; sua temporalidade é seu porvir, ao passo que o “no future” da geração atual parece negar que possa haver diferença no “tempo real”.

** 8. Fixação e determinação **

14. Fixar não significa determinar, mas estabelecer; Heidegger identifica simplesmente fixação e determinação ao pejorar o quê do relógio na compreensão preparatória do tempo.

** 9. On s'individue **

15. O Génitron erguido em 1987 no Centro Pompidou, contando regressivamente os segundos até o ano 2000, ilustra o cálculo da morte improvável apresentando o tempo ao fugir dele.

16. A historicidade (Geschichtlichkeit) está aqui em questão, contendo a individuação, ela mesma constituída na repetição: o passado só se abre a um presente que é ele mesmo historicamente esse presente, sendo o modo desse retorno a consciência (Gewissen).

** 10. O tempo diferido da história do ser **

17. O Dasein (Dasein) é o ente que difere em duplo sentido: o que remete sempre a mais tarde, projetado no diferimento, e o que, por isso mesmo, se encontra originariamente diferente, indeterminado, improvável.

18. O Dasein (Dasein), o quem, está em falta de ser — Heidegger diz: ele está em falta, o Dasein (Dasein) é ser-em-falta —, o que conduz à questão da história do ser como história de um esquecimento, inaugurada em Ser e Tempo e retomada em “Tempo e ser”.

19. A escrita linear e fonológica é uma epoché programática: suspende as formas de uma tradição também programática, mas não aparente como tal, programando nova duração do passado, da antecipação e do presente como presença.

20. Ignorando o sentido trágico da figura do esquecimento, Heidegger situa o princípio de individuação à margem da publicidade do “on”, quando na verdade o dom da différance é tecnológico porque o indivíduo se constitui a partir das possibilidades do “on”.

** 11. O preço do ser **

21. Toda essa questão se concentrará, no capítulo seguinte, no “sentido de ser” que Ser e Tempo concede ao chamado mundo-historial, isto é, ao rastro dos quem que foram — ferramenta, obra, monumento e instituição têm sua história.