Tecnologia e Antropologia

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

** 1. Paradoxos da questão da técnica como questão do tempo **

1. Gille, Leroi-Gourhan e Simondon oferecem três estágios de pensamento da evolução técnica — sistema, tendência quase orgânica e dinamismo próprio do objeto industrial —, culminando na constatação de que o objeto, embora não produzido pelo homem, requer dele a antecipação, situando o fundo da questão no tempo.

2. A concretização, incidindo principalmente no plano informacional, afeta diretamente as capacidades de antecipação, sobredeterminando-as, o que constitui ruptura efetiva cristalizando reações de resistência quanto às próprias possibilidades da decisão humana.

3. A paleontologia do homem, ao lidar com a questão da origem sem esquivar-se dela nem sucumbir ao positivismo ingênuo, sugere que ciências das origens e questões transcendentais estarão em perpétua contaminação, conduzindo de uma abordagem antropológica a uma abordagem propriamente filosófica.

** 2. A questão (que nos vem) da técnica **

4. No contexto tecnológico do Ge-stell (Gestell) experimenta-se massivamente uma tecnicização de todos os domínios da vida, tema que domina os discursos oficiais desde a crise energética de 1973 e sobretudo desde os anos 1980.

5. As manipulações genéticas constituem o desenvolvimento tecnológico mais impressionante, tornando imaginável a fabricação de uma “humanidade nova” e destruindo as mais antigas ideias do homem sobre o homem, notadamente quanto à parentalidade.

6. A questão da técnica é primeiramente aquela que ela nos endereça, talvez sendo esse o sentido da evolução da meditação heideggeriana de Sein und Zeit até “Tempo e ser”, ao passar-se, após a viravolta (Kehre), a pensar o ser sem o ente, sem o Dasein (Dasein).

** 3. O devir-astro do homem e a potência do homem como autodestruição **

7. Poder-se-ia crer que a potência tecnológica arrastaria consigo o trabalho, a família, o saber, a natureza, o político e a economia pela desterritorialização generalizada, mas seria preciso primeiro saber do que se fala sob o nome de homem, corpo próprio, natureza, território, espaço e tempo.

8. O devir-astro do homem projeta-se hoje inclusive na hipótese de intervenção técnica sobre a atividade solar, conforme Hubert Reeves, colocando o estranho problema de que quanto mais o homem é potente, mais o mundo se “desumaniza”.

** 4. A técnica como questão da intervenção: ubris e metron, astros e desastres **

9. A questão da intervenção, específica do Ocidente desde a constituição da filosofia contra e com a sofística, comanda ainda o discurso contemporâneo articulado por categorias — fins e meios, sujeitos e objetos, natureza e cultura — herdadas da metafísica.

10. Questiona-se se o homem deve, em nome do antropocentrismo sempre denunciado pela razão filosófica, resistir à técnica, isto é, à sua própria potência, ou se deve, ao contrário, aceitar fazer desaparecer a natureza ao desaparecer ele mesmo.

** 5. A tecnologia **

11. A tecnologia é definida como o discurso sobre a técnica, sendo a própria técnica (tekhnè) antes de tudo o saber-fazer, dificilmente limitável já que toda ação humana tem algo a ver com a tekhnè.

12. Se a tecnociência não é mais evidentemente a serviço do homem, mas talvez da própria tekhnè, e se a técnica pode autofinalizar-se, isso significa que a oposição entre fins e meios já não pensa suficientemente longe.

** 6. A antropologia **

13. As compreensões dominantes da técnica, presas ao jogo de oposições herdadas da metafísica, ficam reduzidas à falsa alternativa entre antropocentrismo e tecnocentrismo, opondo o homem e a técnica.

14. O mito de Perséphone narrado por Sócrates a Mênon e sua consumação em Fedro fundam a reminiscência como saber originário, condição de todo saber, tornando-se em Kant o saber transcendental que precede e por isso dispensa a experiência.

** 7. De Mênon a Fedro e até Rousseau: a “metafísica” **

15. Todo relato da origem assume feição mítica, na medida em que dizer o que é implica sempre suportar a aporia de Mênon, dificuldade que Rousseau enfrentará ao pensar o homem originário antes de qualquer determinação por seu devir.

16. Foucault e Nietzsche denunciam a reatividade do antropologismo contra o devir, opondo a pergunta “quem é o homem?” à pergunta nietzschiana “quem supera o homem?”, crítica dirigida diretamente contra Rousseau em Humano, Demasiado Humano.

** 8. Rousseau e a antropologia **

17. Rousseau é visado por ser o pai da questão “o que é o homem?” elevada a questão filosófica transcendental, e também, segundo Lévi-Strauss, o pai da ciência antropológica, fundador prático da etnologia no Discurso sobre a desigualdade.

** 9. Igualdade, força, diferença **

18. O Discurso abre postulando que há uma origem plena e pura, seguida de alteração e corrupção, sendo a natureza do homem não seu câmbio, mas o que precede o câmbio provocado pela técnica sob os nomes de sociedade e cultura.

** 10. Improbabilidade da origem, voz da natureza e anamnese do Caribe **

19. Rousseau reconhece que o estado originário “não existe mais, talvez nunca tenha existido, provavelmente nunca existirá”, sendo porém necessário para bem julgar o estado presente — ficção necessária ouvida como voz imediata da natureza.

** 11. Pensar antes da criação **

20. Rousseau, ao criticar a importação de ideias sociais na descrição do estado de natureza, questiona radicalmente a própria ideia de estado de natureza à luz dos livros sagrados, tornando essa natureza pura improvável e paradoxal, anterior mesmo ao primeiro homem real.

** 12. Dos pés e das mãos **

21. Rousseau supõe o homem originário “andando de dois pés, servindo-se das mãos como fazemos das nossas”, assumindo explicitamente a pereneidade que Nietzsche lhe reprovará.

** 13. Tudo ao alcance da mão **

22. O homem originário é quase imóvel, saciando-se sob um carvalho e achando seu leito ao pé da mesma árvore, tendo tudo imediatamente ao alcance de sua mão, mão que apenas apanha sem manipular, órgão de preensão e não de fabricação.

** 14. Ser inteiramente consigo mesmo **

23. A imitação dos animais é vantagem do homem sobre eles, apropriando-se de todos os instintos sem ter nenhum que lhe pertença próprio, ao contrário do homem do mito de Prometeu que supre seu defeito de origem por próteses.

** 15. A segunda origem **

24. Em equilíbrio com a natureza, o homem originário e o Caribe, quase nu e armado apenas de flecha e arco, não temem as feras, sendo suas fraquezas — infância, velhice, morte — naturais e equilibradas, extinguindo-se “quase sem se aperceberem disso mesmos”.

** 16. O interior do desvio: a possibilidade **

25. Distinguindo o homem físico do metafísico e moral, Rousseau opõe a máquina animal, guiada pelo instinto, à máquina humana, que concorre a suas operações como agente livre, inscrevendo a possibilidade de um desvio no interior da própria origem.

** 17. A diferença é a razão, a razão é a morte, a morte é sua antecipação **

26. Enquanto o selvagem não está no desequilíbrio da liberdade, não tem sentimento da morte nem antecipa: não está no tempo; após o acidente, ele o é quase inteiramente, e esse tempo é também sua própria morte, seu definhamento.

** 18. “Transpor um intervalo tão grande” **

27. Toda a primeira parte do Discurso descreve tudo o que o homem originário não é, e como tudo isso vem de uma só vez, exigindo a intervenção da Providência, sendo o efeito que realiza a causa o que a desrealiza simultaneamente — o paradoxo da tecnologia.

** 19. Ainda a segunda origem **

28. Tudo o que se segue poderia ter sido chamado técnica, antecipação como preocupação (Besorgen) no desvio que se abre originariamente entre presente, passado e porvir, passagem acidental da perfectibilidade em potência à perfectibilidade em ato.