STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996.
** 1. Ortografia, ortoteses e fotografia **
1. O já-aí, se constitui a temporalidade dando acesso ao passado não vivido, deve ser positivamente constitutivo em sua faticidade, e a inauguralidade da História na historicidade cumpre-se com a emergência tecno-lógica de uma orto-grafia do já-aí, elaborando-se assim uma história do suplemento a partir de De la grammatologie.
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Deve-se abandonar a compreensão primordialmente fono-lógica da escrita alfabética para privilegiar seu caráter orto-gráfico, enraizando a filosofia a retidão sempre na phonè presente a si, quando na verdade essa presença a si só existe a partir do efeito de uma exatidão tecno-lógica do quê.
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O fenômeno essencial da escrita ortográfica dita fonológica é a exatidão do registro, e não a exatidão da voz: por isso a leitura parte da fenomenologia da fotografia proposta por Barthes em A Câmara Clara, mantendo-nos afastados das tentações fonocêntricas e revelando outros suportes ortotéticos de memória.
** 2. A certeza foto-gráfica como conjunção de passado e realidade **
2. O objetivo de Barthes em A Câmara Clara é encontrar a evidência da Fotografia, e a temática do Referente desdobra um rapport foto-gráfico onde se conjugam num mesmo sistema a morte e o referente, podendo eu realmente ver quem morreu.
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O referente fotográfico é a coisa necessariamente real colocada diante da objetiva, ao passo que a pintura pode fingir a realidade sem tê-la visto; na fotografia nunca posso negar que a coisa esteve ali — dupla posição conjunta de realidade e passado, noema fotográfico do “isso-foi”.
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Essa conjunção de passado e realidade constitui o próprio princípio da certeza foto-gráfica, repetição idêntica de um instante único, tão paradoxal e improvável quanto o retorno de um morto, do qual a estilização e a generalização estão excluídas.
** 3. A conjunção como isso-foi foto-gráfico **
3. O spectrum, revelação química no filme fotossensível, é a interface entre o sistema óptico-mecânico da objetiva e o suporte químico, revelando-se apenas a retardamento, num diferimento que constitui o próprio isso-foi fotográfico.
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A foto é literalmente uma emanação do referente: radiações partidas de um corpo real vêm tocar-me como os raios diferidos de uma estrela, sendo o ver fotográfico um re-ver — nunca apenas um “até logo”, mas também um adeus.
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O que funda a natureza da Fotografia é a pose: em meu olhar reverto a imobilidade da foto presente sobre a captura passada, e é essa parada que constitui a pose, coincidência dos dois instantes que funda a conjunção de passado e realidade.
** 4. História e narcisismo **
4. O spectrum é o próprio fenômeno, dizendo simultaneamente o espectro (retorno do morto) e o espetáculo (especularidade), engajando Barthes numa temática da História como questão do narcisismo fotográfico — espelho onde a própria História viria se quebrar.
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Diante do retrato de Lewis Payne, condenado à forca, Barthes lê simultaneamente “isso será” e “isso foi”: toda fotografia é essa catástrofe, todo narcisismo é uma tanatologia, mas o narcisismo fotográfico é único, instaurando entre mim e meu fim uma relação sem igual.
** 5. Relógios a ver, espelhos a retardamento e melancolia objetiva **
5. O aparelho fotográfico é um relógio a ver, ou antes, a rever, produzindo imagens que são também espelhos — spectra que irradiam diferindo, espelhos a retardamento onde o fenômeno mesmo do tempo se constitui na acidentalidade técnica.
** 6. O inominável **
6. O punctum se dá a experimentar num atrativo particular por certas fotos, movimento duplo entre spectator e spectrum: do spectator ao spectrum é o studium (a cultura), do spectrum ao spectator é o punctum (a dessaisie, o noema).
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Imprevisível e indeterminado como o fim no ser-para-o-fim, o punctum é intratável, insistente, incessante, e se revela essencialmente no retardo, como ferida no spectator — trabalho de luto que atravessa toda A Câmara Clara centrada na foto da mãe de Barthes.
** 7. Exatidão, incerteza e différance **
7. A presença ao passado do isso-foi, princípio de certeza fotográfica, é a prova de uma separação no interior mesmo da certeza: “esteve ali, e no entanto imediatamente separado” — chamamos ortotese essa exatidão vacilante que engendra irresistivelmente uma indeterminação.
** 8. Intervista, o motor imóvel de todo movimento **
8. Em Intervista de Fellini, quando Anita Ekberg revê, trinta anos depois, sua cena de La dolce vita, ela se vê predicada — jovem no passado, ainda no presente e no futuro —, vendo-se ali morta segundo o jogo trágico do espelho.
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O cinematógrafo mescla o “isso-foi” do ator e do papel, tornando a pose transportada e negada pela sequência contínua de imagens, mas em Intervista esse passagem retorna como sucessão de instantes de uma vida real, apresentando-nos o motor imóvel de todo movimento.
** 9. A imagem órfã do passado de ninguém **
9. O passado do personagem cinematográfico coincide com o do ator, cuja imagem, separada dele, torna-se transportável e órfã, possibilitando que o passado do personagem seja também nosso passado partilhado, o que explica o comovimento diante da dupla cena.
** 10. Entre Eco e Narciso — a impessoalidade em pessoa **
10. A separação entre ator e sua imagem é fato do qual o ator de cinema permanece continuamente consciente, sabendo que, em última instância, é com o público que lida — um mercado onde não vende apenas sua força de trabalho, mas sua pele.
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Há ausência do público ao intérprete e do intérprete ao público, relação apenas em diferido; fotografia, cinema, fonografia, telefone e televisão são tecnologias analógicas nas quais se noda um narcisismo sem figura nem precedente, relação com o fim.
** 11. Pandora, a função de desconhecimento do azougue e a ortopedia **
11. Em Lacan, o espelho constitui a humanidade como tal, o estágio do espelho sendo momento em que o pequeno homem projeta o alcance de seu atraso, mas nunca será senão refletido: só há reflexão do defeito de si, méconnaissance no azougue de uma inciência originária que chamamos epimétheia.
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Essa maiêutica interminável do eu, onde a exterioridade é constituinte, refletindo uma Gestalt que fixa o sujeito numa simetria invertente, opõe-se à turbulência de movimentos de que ele se sente animar — a insuficiência orgânica torna-se antecipação.
** 12. Preço do ser, corrida do pensamento, cristologia, cristalografia **
12. Há um atraso que se inverte em avanço na simetria do miragem, marcado no nascimento como relação ao fim — a insuficiência tornando-se antecipação —, dinâmica que procede de uma exterioridade primária que não se opõe a nenhuma interioridade, mas a constitui.
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O estágio do espelho é inacabamento essencial; o miragem é deformação: só há espelhos deformantes, e tantas tekhnaï do olhar e do tempo quanto memórias — a reflexão é desorientação, e a questão é orientar-se apesar de tudo no impensado.
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Não há nascimento como espelho do ser-para-a-morte senão a partir de uma prematuração; a facticidade do já-aí traduz-se biologicamente pela neotenia, mas esse fato não é biológico: é tecnológico — a prematuração é a prométheia, e como estágio do espelho, seu azougue devolve a imagem fenomenal de Epimeteu.
** 13. O acidente do Ocidente, ou o paradoxo do suplemento **
13. O caráter exemplar da fotografia e do cinema deve-se a serem formas de orto-grafia sem orto-fonia, devendo o próprio da fotografia e da cinematografia ser pensado sob o conceito de ortotese, que já caracteriza a tecnologia literal da memória (a escrita ortográfica) e as tecnologias digitais.
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Essa retidão engendrando sempre e essencialmente uma gaucherie — inadequação que é diferença —, a diferença ontológica terá sido uma época dela como história do ser, sinistro da memória cujo acidente, sobrevindo no Ocidente, é também o que a “salva”, paradoxo que Derrida nomeia suplemento a partir da escrita orto-gráfica.
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A gramatologia estabelecerá que a fala é “sempre já escrita”, mas ao esbater frequentemente a especificidade da escrita fonológica, o projeto gramatológico corre o risco de que o suplemento acabe não tendo sido efetivamente nada.
** 14. O pensamento da técnica e a relação com o porvir **
14. O narcisismo trama-se em espelhos a retardamento onde se informa o impessoal, herança de uma história dos olhares cujo livro constitui um “estágio” específico — o saber impessoal do livro que não pede para ser garantido pelo pensamento de um só.
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A técnica pensa, e a relação com o porvir — a “tarefa do pensamento” — está na pensamento da técnica: ela pensa antes de nós, sendo o quê sempre já anterior ao quem prematuro, precedendo-o sempre já.
** 15. Orthotès e aletheia **
15. Heidegger emprega orthotès (exatidão) para caracterizar a “doutrina” da verdade em Platão — primeiro passo no esquecimento do ser, que também é o primeiro passo da história do ser: a essência da verdade desloca-se do não-velamento para coincidir com a Ideia.
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Contra a objeção de Marlène Zarader, que reduz a différance derridiana a mera estrutura sem estatuto inaugural, sustenta-se que a questão verdadeira é a inscrição da inauguralidade da história do ser na différance e o estatuto da escrita ortográfica no conceito de arqui-escrita.
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A escrita linear é o que, pela primeira vez, dá acesso literal à passagem da fala como a seu passado — acesso à letra que é a condição mesma da idealidade visada por
Husserl, intelegibilidade “para todo o mundo, indefinidamente perdurável” que a inscrição lapidar ilegível recusa.
** 16. A intencionalidade ortográfica **
16. Há uma intencionalidade em toda escrita, alfabética ou não, onde se enraíza a transformação da relação com o porvir que é a abertura de uma História, supondo a “desconstrução do fonocentrismo”.
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A exatidão dos registros aritméticos precede a exatidão alfabética, sendo as numerações babilônicas e egípcias já ortotéticas, mas a geometria supõe uma literalização da dedução, uma demonstração, que a geometria chinesa, por exemplo, ainda não teria.
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Assim como há intencionalidade única do isso-foi foto-gráfico, impossível na pintura, a escrita alfabética supõe a priori que eu tenha acesso, na leitura, à letra do pensamento “em carne e osso” — condição que não existe nos arcanos pré-históricos nem nas inscrições lapidares ilegíveis.
** 17. A ortotese, condição de possibilidade e de impossibilidade da reativação **
17. Em Husserl, a idealidade seria acessível na superfície de uma instrumentalidade: não há geometria concebível sem um processo de comunitarização tornado possível por uma técnica de apresentação do “já-aí”, sem retencionalidade instrumental.
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Essa instrumentalidade abre a possibilidade de uma Rückfrage a partir do documento recebido e já legível, interrogando retroativamente a intenção originária do que foi transmitido pela tradição — processo análogo ao da consciência interna do tempo.
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Para Marcel Detienne, a escrita é uma tecnologia constituinte do campo político, opera de publicidade que fixa a identidade das leis e inaugura, com a isonomia, um novo regime para a atividade intelectual.
** 18. Ortografia, comunitarização, polis **
18. Nesse contexto de comunitarização pela alfabetização, aparece o direito como tal e a isonomia: quanto mais a memória é reta (idêntica), mais é gauche (mais difere), pois a identificação exata impõe o surgimento de uma diferença.
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Os Elementos de Euclides impõem por séculos uma geometria axiomática toda escrita, tornando também possível a medicina de Hipócrates, a geografia e a tragédia; a possibilidade da recompreensão passiva, inerente à compreensão ativa, é a própria falta de Epimeteu.
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A comunitarização é historicidade na “história do ser”: tal diferenciação é a abertura de uma crise impossível fora de uma comunitarização tecnológica do já-aí, inaugurando novas condições instrumentais de acesso.
** 19. A lembrança terciária, condição de impossibilidade da superação da finitude retencional e organon do tempo **
19. A técnica é uma superfície diferante, um espelho instrumental que reflete o tempo como diferenciação; a insuficiência da análise husserliana está em limitar o processo de telecomunicação inerente à geometria ao domínio da intersubjetividade dos geômetras.
** 20. A passagem pré-histórica **
20. Para dar conteúdo à orto-grafia e a todo fenômeno de ortotese, uma fenomenografia deve atentar à questão do contexto tal como a coloca singularmente a fonologização, engendrando um paradoxo de identificação diferante pela contextualização do texto.
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Trata-se de passar da questão de um passagem do Zinjantropo a Neandertal, exposta no primeiro tomo, a outra: do pré-histórico ao histórico, passagem que coincide com um acesso à racionalidade “plena”, uma protorracionalidade.
** 21. Gênios e milagres **
21. Jean Bottéro, estudando a protorracionalidade mesopotâmica, ancora sua resposta ao “gênio” sumério e à “ruse” semita, tese paradoxal pois pretende desmascarar mitos de “milagres” absolutos sem deixar de postular um gênio originário deslocado no tempo.
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Só os documentos escritos podem procurar-nos conhecimento assegurado do próprio passado: “a história começa em Suméria” — mas apenas como pré-história, pois a escrita ali seria ainda simples “auxiliar de memória”, não escrita plena.
** 22. Nascimento, concepção, ciência **
22. Bottéro não se surpreende com o papel dinâmico da escrita nem define a racionalidade pela idealidade de seu objeto, deslocando apenas — como já fizera Leroi-Gourhan, que ele critica — um gênio originário no tempo, mais cedo em vez de mais tarde.
** 23. Da necessidade de ajudar a memória **
23. “Do auxiliar de memória à escrita” descreve três estágios — pictografia, fonetismo, escrita propriamente dita —, sendo a escrita verdadeira capaz de restituir integral e exatamente uma experiência significante, identificação que impede Bottéro de compreender o papel constitutivo da escrita pré-ortotética.
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As tabuletas pictográficas permanecem ilegíveis mesmo conhecendo-se o código, pois é preciso conhecer também o contexto vivido do evento registrado — mas o pictograma já não é mera “escrita de coisas”, contradição no próprio argumento de Bottéro.
** 24. Do contexto **
24. O fonetismo surgiu pelo “rébus”: a homofonia sumeriana permitiu usar um pictograma para designar outro objeto foneticamente vizinho — mas o signo resultante não é fonograma, é orto-grama, ortografia propriamente dita.
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A escrita verdadeira torna-se assim fator de saber e não simples assistente, mas essa novidade não reside em ter surgido depois de uma protorracionalidade já plena — trata-se de um novo modo de ser da própria língua, modificação oculta de sua diacronia por um movimento subjacente da tekhnè.
** 25. O princípio da ortografia e a história do ser **
25. Toda ortotese engendra uma identificação diferante; há ortoteses não literais, analógicas e numéricas — sínteses literais, analógicas ou numéricas —, e é o próprio quem que descobre sua textualidade ao experimentar essa identidade diferante.
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Bottéro opõe registro cuneiforme e registro literal quanto ao contexto: só com a escrita alfabética se elimina a opacidade contextual da enunciação, processo de arrancamento ao contexto que Derrida punha como traço estrutural de toda escrita — sua iterabilidade.
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A “verdade”, aletheia, é ortotética, o que significa não apenas exatidão, mas a incerteza que a própria exatidão abre — um duvidar tecno-lógico, e não veleidade da alma, sendo o pensamento crítico procedente dessa dupla dimensão paradoxal da memória.
** 26. Hoje **
26. Dodds mostrou como a expansão da escrita ortográfica, suspendendo na Grécia a autoridade dos programas étnicos tradicionais, provocou uma crise de civilização da qual emergiu o conflito entre sofística e filosofia; a historicidade só se desdobra como redobramento epocal de uma suspensão tecno-lógica do já-aí.
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As rupturas descontextualizantes de toda forma de escrita, e de toda expansão técnica, arrastam originariamente o quem e a comunidade dos quem num processo de desterritorialização que
Leroi-Gourhan nomeava conquista da mobilidade — hoje atingindo novos limites com duplicabilidade e citabilidade generalizadas, inclusive nas biotecnologias.
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Se a identidade diferante ortográfica se inscreve pelos efeitos de um a posteriori irreduzível, as tecnologias analógicas e digitais da memória, também ortotéticas, tendem a apagar, em seus primeiros efeitos, essa modalização diferida da temporalidade — é o que se chama “tempo real”.
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Hoje a velocidade da técnica assume ela mesma esse retardo — delegação dos processos de decisão aos sistemas informáticos —, como se a técnica integrasse em si o retardo que até então parecia constituir o quem à margem do quê: é o “tempo real”, talvez detemporalização do tempo, tempo industrialmente “ganho”, ou seja, também perdido.
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A différance do quê orto-gráfico é uma modalidade da différance do quem, cuja elucidação exigirá dar conta não só das especificidades suplementares das épocas do quê, mas das articulações do quem que elas engendram — questão a ser desenvolvida no último tomo, Le défaut qu'il faut, onde se mostrará que o quem é idiota, é Epiméteu, e por isso mesmo textual: o idiotexto.