Memória

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996.

** 1. A síntese industrial da finitude retencional **

1. Há síntese passiva porque há finitude retencional, sendo esta hoje tomada a cargo economicamente na época das sínteses analógica, numérica e biológica, tornando-se objeto privilegiado do investimento industrial que impõe o cálculo como cumprimento hegemônico do tempo.

2. A revolução termodinâmica impunha a mobilização de capital rapidamente descontextualizável, exigindo uma rede de praças bursáteis como infraestrutura informacional — imperativo econômico-informacional que comanda a gênese das sínteses analógica e numérica.

** 2. A informática **

3. A informática é a concretização instrumental e industrial da cibernética anunciada por Heidegger em 1962; em 1977, Giscard d'Estaing encarrega Nora e Minc de um relatório sobre o impacto social da informática, publicado em 1978.

** 3. A telemática **

4. Nora e Minc nomeiam telemática a integração crescente entre informática e telecomunicações, abrindo horizonte radicalmente novo: a informatização crescente da sociedade está no cerne de uma crise de civilização sem precedentes desencadeada pelo choque petrolífero de 1973.

** 4. Redes, poderes, saberes **

5. Os satélites de telecomunicação, subtraindo às legislações nacionais o controle das transmissões, homogeneízam o espaço perante a informação, desencadeando batalha de normas entre grupos industriais multinacionais que o Estado assiste mais do que participa.

** 5. Informática e escrita **

6. A informatização do saber só é possível porque a informática é ela mesma uma espécie de escrita, analogia sublinhada por Nora e Minc com a invenção sumeriana; uma análise conjunta da escrita ortográfica e da informática revela seu caráter ortotético comum.

** 6. O aparelho analógico-numérico **

7. A Havas cria em 1834 o primeiro dispositivo industrial de exploração da informação; as redes de atualidade trabalham à velocidade da luz porque atualidade e informação são mercadorias cujo valor depende do tempo.

** 7. A eventualização **

8. As tecnologias analógicas e numéricas inauguram experiência coletiva inédita do tempo, saída da época histórica fundada num tempo essencialmente diferido: a “cobertura” define o que “acontece”, sendo a fabricação do tempo pela imprensa sempre coprodução, nunca simples relato.

** 8. “Tempo real”, evento e História **

9. Barthes evoca o retrato de William Casby, “nascido escravo”, que certifica a existência da escravidão por ordem experimental de provas e não por testemunho histórico — congestionamento dado pela fotografia ao trabalho do historiador.

** 9. Tempo real e política **

10. O “tempo real” mercantiliza o político: sondagens em tempo real substituem programas políticos coerentes por objetivos de comunicação, ameaçando a différance democrática e alimentando reivindicações de referendo popular.

** 10. Suportes, duplicações, tratamentos, arquivamentos **

11. Em 1934 a BASF lança o primeiro suporte magnético, permitindo a conservação do fluxo informacional e tornando concebível a constituição de arquivos analógicos, base da posterior digitalização.

** 11. A descomunitarização **

12. A síntese literal supõe que o destinatário disponha de competência de leitura e escrita, um leitor “aparelhado”; com as tecnologias analógicas e numéricas, as funções de codificação e decodificação são delegadas às máquinas, deslocando a instrumentalidade do quem para o quê.

** 12. Informação e saber **

13. O saber não é informação porque todo saber é saber da improbabilidade do saber e da indeterminidade do quem; a reativação husserliana é análoga à conhecimento racional kantiano, que deve ser refeito por quem conhece, distinto da mera conhecimento histórico.

** 13. A velocidade, a urgência, o risco **

14. O incalculável não calculável é em sua essência inesperado; há paradoxo da velocidade de cálculo que é o incalculável como risco, o acidente, mas há também outro incalculável que é forma do próprio tempo em que o risco é também a chance.

** 14. Memória e política **

15. A questão da relação contemporânea do quem e do quê caracteriza-se por descontextualização resultante de nova síntese industrial da finitude retencional, cuja efetividade espacial é a desterritorialização e cuja efetividade temporal é o tempo real.

** 15. A síntese biológica: quando fazer é dizer **

16. A questão política da memória industrial é a questão do idioma, cujo sentido é o schibboleth, marca de cumplicidade inscrita na linguagem passando pelo corpo; a biologia molecular suspende seu próprio axioma — “o programa não recebe lições da experiência” — ao tornar-se cirurgia genética efetiva.

** 16. As ciências da “cognição” **

17. As ciências da cognição, tomando a técnica como vetor heurístico, postulam que somos, no fundo, computadores; contudo, ignoram estranhamente o caráter epifilogenético essencial do conhecimento e o evento técnico como exteriorização da memória.

** 17. A questão das identidades diferentes: quem programa o quê? **

18. Heidegger, em Langue de tradition et langue technique, sustenta que a técnica moderna só foi possível porque tekhnè significou desde a Grécia o mesmo que epistémè, mas caracteriza a técnica moderna apenas como arraisonnement de energia, esquecendo a retenção que precede todo estocagem.