Objeto temporal

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996.

** 1. Intencionalidade, consciência de imagem e finitude da “cognição” **

1. A intencionalidade é o conceito central pelo qual as ciências da cognição tentam teorizar, sem o ver, o processo tecnológico de um devir-objeto-temporal que advém com o cálculo informático.

** 2. A origem nas Lições sobre o tempo, nas Investigações Lógicas **

2. Situamos a origem da questão transcendental na aporia de Mênon: não se pode buscar o que não se conhece já, sendo toda conhecimento re-conhecimento, anamnese, porque a alma é imortal — primeira versão de um pensamento da apriorização.

** 3. Análise fenomenológica do Zeitobjekt e descoberta da intimidade do Passagem na imanência da Zeitbewußtsein **

3. Em 1905 a questão da temporalidade do fenômeno torna-se a do fenômeno temporal como fenomenologia da consciência íntima do tempo: a percepção de uma duração pressupõe ela mesma uma duração da percepção.

** 4. Associação originária, maiêutica e epimétheia **

4. Husserl transforma o conceito de associação originária de Brentano, extraindo o fenômeno da retenção: o momento retencional, associado ao agora, não pode ser produzido pela imaginação porque constitui o agora mesmo de um objeto temporal.

** 5. Mecânica dos fluidos e dinâmica do fluxo: a individuação do som e a metáfora do espaço **

5. Ao reportar-se ao som individual, tudo passa a derivar, pois o som individual nada é na melodia: há, como diria Bergson, uma multiplicidade primordial pré-individual sobre a qual sempre já se destaca a figura unitária do som, artefato análogo ao efetuado com a questão da intersubjetividade.

** 6. Passagem, Zeitobjekt, cabeça-e-cauda **

6. Ao excluir a musicalidade da nota, Husserl apaga a idiomaticidade do logos como apaga a musicalidade do escutado; todo som é individuado sobre um fundo pré-individual de musicalidade.

** 7. A herança **

7. Husserl fala de herança, mas não consegue pensá-la: cada retenção ulterior é modificação contínua do mesmo ponto inicial, permanecendo sempre o presente impressional que se desdobra — mas isso deveria implicar a permeabilidade a posteriori do primário pelo secundário e terciário, o que Husserl exclui.

** 8. O eco da coisa da máquina de Turing **

8. Segue-se, muito estranhamente, uma limitação absoluta de fato do campo temporal e uma ilimitação de direito da memória — o mesmo e seu contrário: para fundar a possibilidade de um começo absoluto, é preciso um fim absoluto, mas para descrever tal absolutidade é preciso postular idealiter uma eficácia absoluta da retenção, excluindo a prótese.

** 9. O Augenblick do relógio de ver **

9. Husserl raciocina formalmente sobre a “campo temporal originário” segundo a metáfora do campo visual espacial, como se fosse possível substituir um dispositivo ótico por um dispositivo cronológico com sua profundidade de tempo até o desvanecimento final.

** 10. Consciência de imagem, perda de memória e liberdade de recomeçar **

10. Toda impressão temporal é habitada de retenção, mas nenhuma retenção pode ser contaminada por um não-vivido, radicalmente im-perceptível, que é a experiência de um traço terciário; contudo, ao postular a memória secundária independente da terciária, Husserl apaga a finitude retencional de fato.

** 11. A reconstituição, o reenvio do fonograma como Zeitobjekt analógico, o pé **

11. Ao analisar a possibilidade de reconstituição da melodia no ressouvenir secundário, Husserl simplifica, e como sublinha Ricœur, se a complexidade ligada à irredutível possibilidade do esquecimento tivesse sido considerada, teria sido impossível não conceder-lhe dimensão constitutiva na própria retenção primária.

** 12. A eventualização como falibilidade efetiva da retenção **

12. No caso do ressouvenir de uma melodia recém-escutada, a imaginação entra efetivamente em jogo como capacidade de seleção que complica desde o início a questão da diferença entre primário, secundário e terciário — há sempre seleção, voluntária ou não, consciente ou não.

** 13. Falta e retro-espeção como possibilidade diferida do quem como Nós **

13. A possibilidade de retro-espeção, essencial a toda intro-speção, funda o acesso a uma consciência transcendental porque “os objetos do pensamento são também constituídos sucessivamente” — a lembrança terciária é para o pensamento a possibilidade essencial de sua reflexividade.

** 14. A montagem do fluxo **

14. A reflexividade, sem a qual nenhuma Rückfrage seria possível na reativação, é fruto da liberdade na repetição constituída pela possibilidade de um ressouvenir secundário — como se houvesse uma montagem, uma cinemato-grafia do ressouvenir que é também sua plasticidade.

** 15. História, retroatividade das expectativas e tempo diferido **

15. A realização de uma expectativa lembrada modifica retroativamente tanto o passado em seu conteúdo quanto o presente que a ele se encadeia, inscrevendo-se no novo horizonte de expectativa constituído pela retroatividade — mas essa retroatividade deveria ter conduzido a análise da própria retenção primária.

** 16. Unidade primário-secundário do fluxo do vivido e ter-sido terciário do não-vivido **

16. A metáfora espacial impede Husserl de pensar um verdadeiro encadeamento sem cauda nem cabeça verdadeiras, resultando numa concepção mecânica do fluxo onde nenhum evento tem lugar; Husserl não poderia integrar em seus exemplos (bustos, quadros) o fonograma e o cinematograma, que são justamente “imagens” simultaneamente objetos temporais transcendentes.

** 17. O dilema da fenomenologia **

17. Derrida mostra que desde os primeiros momentos da meditação husserliana trata-se de pensar a gênese como origem, mas Husserl se encontra sempre preso à necessidade de diferir o acesso à fonte constituinte — a história da fenomenologia husserliana seria a de um dilema atravessando cinco versões sucessivas até A Crise das Ciências Europeias e A Origem da Geometria.

** 18. A epimétheia geo-métrica de A Origem… **

18. Em Experiência e Julgamento, a gênese da predicação a partir do antepredicativo encontra o mesmo dilema, conduzindo Husserl aos temas da sedimentação e da reativação a posteriori — a gênese ativa torna-se cada vez mais superficial e secundária, supondo necessariamente seu fundamento numa gênese passiva.

** 19. A différance tecnológica **

19. Em 1953, Derrida propõe leitura de A Origem da Geometria surpreendente ao termo do itinerário fenomenológico: é preciso que já tenha havido de fato uma história da geometria para que a redução possa se operar, é preciso um saber ingênuo prévio da geometria.

** 20. Os objetos temporais das indústrias de programas **

20. As indústrias de programas produzem em massa objetos temporais escutados ou vistos simultaneamente por milhões de “consciências”, comandando nova estrutura do evento à qual correspondem novas formas de consciência e inconsciência coletivas.