Técnica e Tempo II

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996.

1. O homem comum de dois séculos atrás morria no leito onde nascera, num mundo de estabilidade essencial onde a mudança era exceção; é nesse mundo que se forjaram as categorias com as quais ainda se tenta pensar o mundo aparecido no início do século XIX, no qual a estabilidade tornou-se exceção e a mudança, regra, sendo a técnica o principal fator dessa reviravolta.

2. Homem e técnica são indissociáveis por relação transdutiva (Simondon), equilíbrio metaestável atravessado por tensão irredutível que é o próprio tempo; os que opõem técnica e civilização não suportam que o homem seja ser protético, sem qualidade, segundo os mitos de Prometeu e Epimeteu.

3. Derrida analisou “a vida tornando-se consciente de si mesma” como caso singular de uma economia geral do programa, sendo as indústrias de programas sua época atual; o que é exteriorizado constitui-se no curso de sua própria exteriorização, sem ser precedido por interioridade alguma — a “lógica do suplemento”.

4. Foi Heidegger quem introduziu na filosofia a questão da herança como tal: na analítica existencial de Ser e Tempo, o passado que o Dasein (Dasein) não viveu, do qual herda, é caráter existencial de sua temporalidade originária, sem o qual o Dasein (Dasein) nada é, embora esse passado só se torne seu através do herdar como seu próprio porvir.

5. Se Heidegger afasta o suvenir terciário da esfera constitutiva, é porque o tornar-se-próprio do passado não vivido é possibilidade que o Dasein (Dasein) sempre pode fugir, refugiando-se na intratemporalidade que Heidegger assimila ao cálculo; por isso identifica finalmente tecnicidade e inautenticidade.

6. La faute d'Épiméthée estabeleceu por que a análise da constituição temporal deve levar em conta as especificidades protéticas que condicionam o acesso ao já-aí; La désorientation mostra como esse condicionamento ocorre em cada época, e por que a proteticidade atual obstrui o redobramento.

7. O segundo capítulo, “Gênese da desorientação”, descreve o processo pelo qual se constituem a programatologia das calendaridades e cardinalidades, os ritmos e memórias, as técnicas suspensivas, os estilos e diferenciações idiomáticas, mostrando que toda territorialização é já desterritorialização, toda comunitarização, descomunitarização.

8. Os três primeiros capítulos constituem um esboço da história do suvenir terciário; a questão de seu papel na temporalização é reaberta pelo capítulo final, “Objeto temporal e finitude retencional”, por duas razões.

9. Em La faute d'Épiméthée, propôs-se interpretar o Schuldigsein como ser-em-falta em vez de ser-em-culpa: não há falta dos mortais, mas defeito originário de origem que abre, como defeito de comunidade, a comunidade de um defeito — colocação à parte da Weltgeschichtlichkeit correlata ao resíduo de teologia da culpa em Heidegger, e por isso deficiente sua leitura de Nietzsche.

10. Não se trata de substituir a infinitude de Deus pela velocidade, fazendo da técnica a infinitude retencional face à finitude dos falíveis: a velocidade é a experiência de uma diferença de forças, nada em si mesma, expressão da negociação de tendências.