WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.
Rigidez e aprendizado: dois modelos de comunicação
1. Máquinas e organismos vivos mais evoluídos podem modificar seu padrão de comportamento em função da experiência passada para combater a entropia, buscando novo equilíbrio com o universo, diferentemente da mônada leibniziana em harmonia preestabelecida.
2. A obra de Ashby constitui a maior contribuição sobre as analogias entre organismos e máquinas, sendo o aprendizado um processo direcionado como uma flecha no tempo, e não como o anfisbena mítico capaz de mover-se em ambos os sentidos.
3. As eclusas do Canal do Panamá exemplificam a retroação através de centros de regulação que emitem e recebem mensagens, controlando locomotivas, válvulas e portas, com órgãos que informam a execução das ordens para evitar catástrofes.
4. Tais princípios de controle aplicam-se também a Estados, exércitos e indivíduos, exemplificados pela derrota britânica em Saratoga por falha de comunicação, exigindo todo administrador um canal de informação de mão dupla.
5. Os modelos de comunicação das comunidades humanas variam amplamente, desde os esquimós sem hierarquia definida até sociedades estratificadas como a Índia, despotismos centrados no rei e hierarquias feudais entre suserano e vassalo.
6. Nos Estados Unidos prefere-se uma coletividade de laços sociais menos rígidos, ainda que a supremacia branca comprometa esse ideal, sendo essa democracia considerada excessivamente anárquica pelos defensores da eficiência, que preferem funções fixas atribuídas desde a infância, como nos autômatos de Leibniz ou nas colônias de formigas.
7. A aspiração fascista de organizar a sociedade humana segundo o modelo das formigas baseia-se em profunda incompreensão tanto da natureza da formiga quanto da natureza humana, sendo o inseto condicionado à estupidez e incapacidade de aprender, enquanto o homem é fisicamente equipado para aprender ao longo da vida.
8. Uma comunidade de seres humanos é mais útil que uma coletividade de formigas, sendo desperdício condenar a espécie humana a funções permanentes e restrições individuais fixas.
9. Homem e inseto, ambos seres terrestres derivados de ancestrais aquáticos, passaram por transição evolutiva que exigiu melhorias na respiração, circulação e estrutura mecânica do organismo.
10. O reforço mecânico dos animais terrestres seguiu direções evolutivas independentes, sendo a concha dos moluscos uma massa calcária inerte que cresce ao longo da vida do animal, explicando suas formas espiraladas.
11. A concha torna-se fardo excessivo em animais de grande porte, sendo seu alívio acompanhado de perda de eficácia protetora, o que explicaria seu limitado sucesso evolutivo nos ambientes terrestres.
12. O homem apresenta desenvolvimento esquelético baseado em cartilagem que se transforma em osso, presente também em invertebrados como a aranha-do-mar e o polvo, sendo esse tecido não vivo mas contendo células e vasos nutridores.
13. Outros aparelhos além do esqueleto adaptam os vertebrados à vida ativa, sendo seu sistema respiratório e sanguíneo, com pigmento concentrado em glóbulos vermelhos e circulação fechada por coração eficiente, superior ao dos invertebrados.
14. Os artrópodes possuem parede de quitina que constitui esqueleto externo rígido incapaz de crescer, obrigando o animal a trocar periodicamente sua carapaça para permitir o crescimento do corpo.
15. O crescimento dos artrópodes ocorre por mudas, sendo a última delas a que produz o adulto sexuado, após a qual muitos insetos têm aparelho bucal e digestivo atrofiados, destinando-se apenas ao acasalamento e postura.
16. Insetos primitivos como o gafanhoto apresentam metamorfose incompleta, enquanto insetos superiores passam por metamorfose completa marcada pela destruição de tecidos larvais, processo que impede a persistência de memória significativa entre os estágios larval e adulto.
17. O inseto apresenta imperfeições circulatórias e respiratórias, com coração fraco e pigmentos dissolvidos no sangue, sendo o transporte de oxigênio realizado por difusão através de tubulações, o que limita fisicamente o tamanho máximo dos insetos.
18. A comparação entre uma casa pequena e um arranha-céu ilustra a importância do tamanho na ventilação, sendo necessário sistema artificial complexo apenas nas construções maiores.
19. O tamanho máximo do inseto permanece inferior ao dos vertebrados, embora seus neurônios tenham dimensão comparável aos humanos, resultando em menor quantidade e complexidade neuronal, sem espaço para grande sistema nervoso ou memória.
20. Devido à limitada capacidade de memória e ao fosso criado pela metamorfose, a formiga adulta pouco pode aprender, dependendo seu comportamento essencialmente da construção instintiva e não da experiência pessoal.
21. A perspectiva cibernética valoriza o funcionamento particular da máquina como indicativo de suas possibilidades, sendo teoricamente possível que uma estrutura mecânica reproduzindo a fisiologia humana alcançasse capacidades intelectuais idênticas às humanas.
22. O maior contraste com a formiga quanto à rigidez comportamental é oferecido pelo homem, considerado forma neotênica cuja maturidade anatômica permanece próxima ao embrião de macaco.
23. Essa imaturidade estrutural relaciona-se à infância humana prolongada, atingindo a puberdade apenas em um quinto da vida normal, proporção muito distinta da observada na maioria dos mamíferos, como o camundongo.
24. Na maioria dos mamíferos a puberdade marca o fim da tutela, enquanto o homem só atinge maturidade completa por volta dos vinte e um anos, prolongando-se estudos até os trinta, fundamentando-se a sociedade humana na instrução assim como a das formigas se funda na herança.
25. O homem vive em universo contingente como os demais seres vivos, mas possui equipamento físico e intelectual que permite adaptação a mudanças radicais de ambiente, fundamentando sua força nas faculdades inatas de aprendizado.
26. Um comportamento eficaz baseia-se em retroações que informam o sucesso ou fracasso da ação, existindo retroações mais simples relativas a ações elementares e outras mais sutis.
27. É frequentemente indispensável saber se uma estratégia completa é bem-sucedida, exemplificando o animal que aprende a atravessar um labirinto, constituindo essa forma de aprendizado retroação de tipo lógico superior ao das ações elementares, segundo a noção de Russell.
28. Os sistemas telefônicos automáticos, apesar de considerados procedimento perfeito, geram desperdício de equipamento por tratarem igualmente chamadas frequentes e raras.
29. Um dispositivo capaz de registrar conversas anteriores e conectar mais diretamente aos interlocutores mais frequentes, como o realizado pela Companhia Philips, representa retroação de tipo lógico superior, mais adaptativa que o equipamento convencional.
30. A retroação simples ocorre quando os resultados servem apenas como dados para ajuste do sistema, enquanto o processo que modifica o método geral e o modelo do sistema pode ser chamado propriamente de aprendizado.
31. Os aparelhos de previsão de tiro antiaéreo desenvolvidos no início da última guerra mundial calculavam a trajetória do avião a partir de regularidades estatísticas do comportamento do aviador, limitado por restrições físicas e de treinamento.
32. Determinar as características estatísticas do voo de um avião a partir de observação efetiva constitui problema matemático distinto e mais lento que o problema da direção do tiro, sendo concebível mecanizar ambos os processos.
33. Nos Laboratórios de Eletrônica do MIT considera-se a construção de canhão antiaéreo com período próprio de aprendizado, modificando o processo de tratamento dos dados com base na experiência passada, constituindo retroação geral sobre todo o comportamento do instrumento.
34. O processo de aprendizado mecânico analisado permanece limitado pelas condições do sistema, sendo apresentadas como hipóteses de mecanização a teoria da associação de Locke e a do reflexo condicionado de Pavlov.
35. O estudo neurofisiológico da condução do influxo nervoso pelas fibras é regido pela lei do tudo ou nada, sendo o efeito do estímulo independente de sua intensidade acima do limiar de propagação.
36. Os impulsos nervosos propagam-se entre fibras através das sinapses, exigindo intensidade superior a determinado mínimo para a transmissão ao neurônio seguinte.
37. Enquanto a transmissão em uma única fibra segue padrão tudo ou nada, a transmissão através de uma camada sináptica depende de combinações complexas de fibras aferentes, influenciadas por diversos fatores, incluindo a temperatura.
38. O sistema nervoso tem sido tradicionalmente comparado a máquinas digitais baseadas no princípio tudo ou nada, adequadas aos problemas de comunicação e comando pela nitidez da decisão entre sim e não.
39. Existem também máquinas analógicas que operam por relações de proporção entre grandezas medidas, como a régua de cálculo, cuja precisão é limitada pela escala impressa e pela resolução visual, sendo o aumento de tamanho pouco eficaz para ganhar precisão.
40. As máquinas matemáticas costumam ser mais precisas ao contar ou decidir em binário do que ao medir, o que explica a preferência dos fisiologistas pelo princípio tudo ou nada nas máquinas análogas ao cérebro.
41. Insistir demasiadamente na ideia do cérebro como máquina digital idealizada expõe a críticas justificadas, sendo os limiares sinápticos, equivalentes ao programa da máquina digital, dependentes de fatores não binários como temperatura e composição química do sangue.
42. É necessário cautela ao supor que o sistema nervoso responde a uma teoria booleana sem evidências experimentais suficientes, situando-se a posição adotada entre a rejeição total e a aceitação prematura de uma teoria do aprendizado aplicada a máquinas.
43. Pretende-se indicar um método geral de construção de máquinas capazes de aprender, reivindicando similaridade de alto nível com o processo de aprendizado, embora este seja essencialmente distinto.
44. Deseja-se descrever essas máquinas em termos não estranhos ao que se observa no sistema nervoso e no comportamento animal, reconhecendo a possibilidade de erros de detalhe ou de princípio, mas oferecendo ponto de partida para comparação crítica.
45. Locke considerava o conteúdo da mente composto de ideias gravadas sobre uma tabula rasa passiva, formando ideias complexas quando associadas por contiguidade, semelhança ou causalidade.
46. Sendo a mente absolutamente passiva para Locke, o mecanismo de adesão das ideias deveria residir nelas mesmas, notando-se em seus escritos ausência de descrição desse mecanismo, o que se explica pela ausência, em sua época, do ponto de vista dinâmico introduzido por Newton.
47. Durante séculos prevaleceu na ciência a necessidade aristotélica de classificação sobre a busca de modos operatórios, exemplificando Linné a fixação das espécies como formas aristotélicas antes de servirem de base para as provas da evolução.
48. Pavlov estudou experimentalmente, em vertebrados inferiores, questão semelhante à tratada introspectivamente por Locke, utilizando o comportamento emocional relacionado à alimentação, notadamente a salivação, como objeto de estudo.
49. Pavlov constatou que um som sistematicamente associado à alimentação passava a provocar salivação por si só, caracterizando o reflexo condicionado por associação adquirida.
50. Esse fenômeno reflexo animal assemelha-se à associação de ideias, envolvendo geralmente regiões corporais importantes, como demonstrado pelos reflexos de salivação ligados à ingestão de alimento.
51. As cercas elétricas utilizadas na criação de gado exemplificam o reflexo condicionado pavloviano, evitando o animal, após poucos choques, aproximar-se novamente da cerca apenas pela visão dela.
52. Ocorre transferência da reação reflexa para situações concomitantes ao estímulo original, correspondendo essa mudança a alterações em vias sinápticas que constituem o que se chama mudança de programa.
53. Tal mudança é precedida pela associação contínua entre o estímulo forte original e o novo estímulo concomitante, sendo este último indeterminado quanto à sua natureza específica, sugerindo mensagem geral veiculada pelo estímulo original nos canais que percorreu.
54. A ideia de mensagem não dirigida que estimula qualquer receptor que encontre é exemplificada pela sirene de incêndio e pelo uso de etil-mercaptano em minas, sendo plausível supor mecanismo semelhante no sistema nervoso.
55. A natureza dessas mensagens gerais é atribuída preferencialmente ao aspecto analógico, não numérico, do mecanismo dos reflexos e do pensamento, sendo economicamente mais plausível sua transmissão pela via sanguínea do que pela via nervosa.
56. A influência difusa dessas mensagens gerais assemelha-se às modificações estatísticas dos aparelhos de tiro, sedimentando-se ao longo do tempo e prolongando seus efeitos duradouramente.
57. A rapidez de resposta do reflexo condicionado não implica processo de condicionamento igualmente rápido, sendo adequado supor que a mensagem responsável seja veiculada pela ação lenta da circulação sanguínea.
58. Supor que influências como fome e dor sejam transportadas pelo sangue já constitui simplificação considerável, sendo plausível que o sangue transporte substâncias capazes de alterar a atividade nervosa, sem que isso implique necessariamente hormônios específicos.
59. É interessante considerar que o fenômeno subjetivamente sentido como emoção possa controlar etapas essenciais do aprendizado e não ser mero epifenômeno da atividade nervosa, devendo os psicólogos que rejeitam qualquer comparação entre emoções vivas e comportamentos de autômatos modernos argumentar com igual cautela.