Comunicação

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

** Comunicação, segredo e política social **

1. O mundo contemporâneo dos negócios apresenta uma contradição entre o desenvolvimento sem precedentes das redes nacionais e internacionais de comunicação e uma crescente cultura política do segredo, impulsionada nos Estados Unidos pelo macarthismo, pela classificação indiscriminada de informações militares e pelos ataques ao Departamento de Estado, aproximando o clima institucional daquele da Veneza renascentista.

2. A obsessão veneziana pela preservação dos segredos nacionais chegou ao extremo de ordenar clandestinamente o assassinato de artesãos emigrados para conservar monopólios técnicos, antecipando em escala reduzida a competição moderna de espionagem, segredo e contraposição entre potências como Estados Unidos e Rússia.

3. A expansão contemporânea da ciência e a constituição do estudo das comunicações como disciplina autônoma tornam possível examinar informação e segredo com maior objetividade do que na época de Maquiavel, investigando cientificamente as funções sociais da comunicação e de sua restrição.

4. No ambiente norte-americano, predomina um critério econômico segundo o qual a informação tende a ser avaliada como mercadoria, isto é, segundo aquilo que pode render no mercado livre, transformando essa concepção em uma ortodoxia social cada vez mais difícil de contestar.

5. A avaliação mercantil da informação não constitui um fundamento universal dos valores humanos, pois difere tanto da concepção cristã orientada para a salvação da alma quanto da concepção marxista que julga uma sociedade segundo a realização de determinados ideais de bem-estar humano, embora no contexto norte-americano a informação tenda efetivamente a converter-se em objeto de compra e venda.

6. Independentemente de qualquer julgamento moral sobre a atitude mercantil diante da informação, sua adoção conduz a uma compreensão inadequada da própria natureza informacional e das instituições que dela dependem, problema particularmente evidente no regime jurídico das patentes.

7. As patentes concedem ao inventor um monopólio temporário sobre sua invenção e pressupõem determinada filosofia da propriedade intelectual, adequada à época em que invenções eram produzidas artesanalmente por indivíduos habilidosos, mas cada vez menos correspondente às condições contemporâneas da inovação científica e tecnológica.

8. A concepção tradicional do direito de patentes pressupõe que o inventor artesanal ultrapassa uma técnica existente mediante engenhosidade mecânica e produz uma nova combinação material, distinguindo juridicamente essa atividade da descoberta científica de leis naturais, sobre as quais não se reconhecem direitos de propriedade.

9. A oposição apresentada por Dickens entre Daniel Doyce e a Mudfog Association expressa a diferença histórica entre o inventor artesanal, prático e diretamente confrontado com a realidade material, e o cientista acadêmico então caricaturado como especulador abstrato e socialmente inútil.

10. O moderno laboratório industrial de pesquisa reúne justamente as características que antes pareciam opostas, conservando o sentido prático atribuído a Doyce enquanto descende intelectualmente da tradição científica representada pela antiga Associação Britânica para o Avanço da Ciência.

11. Nos primórdios da invenção moderna, a distância entre o conhecimento científico e as competências do artesão era considerável, pois a tecnologia mecânica permanecia relativamente rudimentar e os materiais industriais ainda eram produzidos mediante técnicas artesanais.

12. Edison representa nos Estados Unidos a transição entre o inventor artesanal e a ciência organizada, pois, embora cultivasse a imagem do inventor prático, incorporou cientistas à sua atividade e criou o laboratório de pesquisa industrial como instrumento sistemático de transformação da invenção em empreendimento econômico.

13. A invenção moderna perde sua adequação ao modelo de mercadoria porque uma verdadeira mercadoria deve conservar razoavelmente seu valor durante as transferências e permitir que suas unidades sejam somadas quantitativamente, como acontece com a energia elétrica, a matéria e padrões monetários baseados em materiais estáveis como o ouro.

14. A informação não apresenta as propriedades de conservação características das mercadorias materiais, pois sua quantidade relaciona-se inversamente à entropia: enquanto a entropia tende espontaneamente a aumentar em sistemas fechados, a informação tende a diminuir, correspondendo respectivamente a medidas de desordem e de ordem e não podendo ser tratadas como grandezas economicamente conserváveis.

15. A diferença entre valor material e valor informacional pode ser observada em uma joia de ouro, cujo preço combina o valor relativamente estável do metal e o valor instável da forma, do trabalho e da apreciação cultural.

16. A obra de arte revela os limites da concepção mercantil da informação porque sua posse material não é condição necessária nem suficiente para usufruir aquilo que ela comunica, havendo formas artísticas essencialmente públicas cuja apropriação privada permanece estruturalmente limitada.

17. A propriedade artística torna-se ainda mais problemática quando se considera a reprodução, pois, embora a experiência direta do original possa oferecer uma apreciação estética superior, reproduções de boa qualidade conseguem transmitir parcela substancial do conteúdo artístico e possibilitar ampla formação cultural sem contato direto com os originais.

18. Embora a legislação de direitos autorais proteja determinados direitos de reprodução, a propriedade intelectual não consegue monopolizar plenamente a originalidade artística, pois procedimentos inovadores podem tornar-se rapidamente parte do patrimônio técnico comum, como ocorreu com a perspectiva geométrica desenvolvida no Renascimento.

19. O valor informacional de uma obra artística ou literária depende de sua relação com aquilo que o público já conhece, pois somente a informação relativamente independente possui caráter aproximadamente aditivo, enquanto a criação derivativa depende estruturalmente de modelos anteriores.

20. A proliferação de clichês decorre da própria natureza da informação, pois uma contribuição somente aumenta efetivamente o patrimônio informacional coletivo quando acrescenta algo substancialmente diferente daquilo que já se encontra disponível.

21. Certos artistas e escritores podem explorar tão extensamente as possibilidades intelectuais e estéticas de uma época que acabam reduzindo temporariamente o espaço disponível para a originalidade de seus contemporâneos e sucessores, enquanto a incompreensão da natureza não mercantil da informação favorece a ilusão de que conhecimento, arte e capacidade científica possam simplesmente ser acumulados como bens materiais.

22. A tentativa de armazenar informação para utilização futura sem considerar sua rápida depreciação em um ambiente mutável é comparável à conservação indefinida de armamentos antigos, cuja eficácia depende não de sua preservação física, mas das tecnologias e doutrinas militares existentes no momento em que forem utilizados.

23. A industrialização britânica demonstra em escala econômica como a vantagem inicial pode converter-se em obstáculo posterior, pois os investimentos realizados durante a primeira Revolução Industrial deixaram infraestrutura, equipamentos e instituições sociais obsoletos cuja substituição acumulada tornou-se extremamente onerosa.

24. O mesmo fenômeno manifesta-se na Nova Inglaterra, onde a modernização de instalações industriais antigas pode custar mais do que sua substituição por novas fábricas em outras regiões, revelando que mesmo a segurança e a produção materiais dependem, no longo prazo, da continuidade da invenção e do desenvolvimento.

25. A informação deve ser compreendida fundamentalmente como processo contínuo e não como estoque, de modo que a segurança de uma sociedade depende da capacidade permanente de produzir conhecimento adequado às novas circunstâncias, observar o ambiente e agir eficazmente sobre ele.

26. Viver significa participar continuamente de um fluxo de influências provenientes do mundo exterior e de ações exercidas sobre ele, tornando o desenvolvimento e a livre troca do conhecimento mais importantes do que a tentativa de impedir que possíveis adversários adquiram informações.

27. A compartimentação do segredo militar pode obrigar diferentes grupos a refazer independentemente a mesma descoberta, provocando grandes perdas de tempo e trabalho sem necessariamente oferecer benefício equivalente de segurança.

28. O valor estratégico do segredo depende fundamentalmente do tempo, pois um código deve ser suficientemente difícil para impedir o acesso adversário durante o período em que a informação conserva utilidade, mas suficientemente simples para permitir que seu destinatário legítimo a utilize antes que se torne obsoleta.

29. A decifração de códigos depende geralmente da obtenção de quantidade suficientemente grande de mensagens para revelar padrões recorrentes, pois textos muito curtos e sem repetição podem permanecer indecifráveis, enquanto séries extensas permitem identificar primeiro a estrutura geral do sistema e depois suas aplicações particulares.

30. A atividade do decifrador encontra sua expressão mais profunda não apenas na espionagem, mas na epigrafia e sobretudo na própria ciência, pois interpretar inscrições desconhecidas e descobrir as regularidades ocultas da natureza constituem formas do mesmo processo intelectual.

31. A descoberta científica consiste em interpretar para fins humanos uma ordem natural constituída independentemente dos interesses humanos, tornando particularmente inadequada a tentativa de proteger uma lei da natureza mediante segredo ou codificação.

32. A informação decisiva para solucionar um problema complexo pode consistir simplesmente em saber que existe uma solução, pois essa certeza transforma radicalmente a orientação da pesquisa e elimina grande parte da incerteza inicial.

33. O único segredo fundamental relacionado à bomba atômica que poderia ter sido realmente preservado teria sido a própria possibilidade de construí-la, pois a divulgação dessa possibilidade já fornecia à comunidade científica mundial a orientação decisiva para buscar sua realização.

34. Quando a comunidade científica sabe que existe solução para um problema de grande importância, a ampla distribuição internacional das capacidades intelectuais e dos recursos laboratoriais torna provável que sua reprodução independente ocorra em poucos anos.

35. A crença norte-americana em um “saber-fazer” nacional exclusivo, capaz de assegurar indefinidamente superioridade científica, tecnológica e até um suposto direito moral à prioridade, ignora a natureza internacional da ciência e as circunstâncias históricas excepcionais que permitiram concentrar grandes talentos no projeto atômico.

36. A superior capacidade norte-americana para concentrar numerosos cientistas e grandes recursos financeiros em projetos específicos não garante superioridade científica permanente, pois a dependência de grandes laboratórios pode enfraquecer a capacidade de produzir novas ideias com recursos modestos.

37. O valor científico não resulta da mera coexistência física de informações, mas da possibilidade de integrá-las efetivamente em uma inteligência capaz de estabelecer relações fecundas entre diferentes campos de conhecimento.

38. Estruturas científicas flexíveis existem nos Estados Unidos principalmente graças à iniciativa de indivíduos desinteressados, enquanto a imposição institucional do segredo decorre amplamente da própria exigência pública de proteção militar, revelando uma sociedade que prefere não reconhecer plenamente os perigos produzidos por seu desenvolvimento científico.

39. A transformação da pesquisa científica em instrumento sistematicamente orientado pela segurança militar modifica profundamente a própria ciência e cria uma espiral em que cada nova arma produz novos perigos, exigindo pesquisas defensivas e ofensivas sucessivamente mais poderosas.

40. As relações internacionais podem ser compreendidas segundo a lógica estratégica do processo judicial competitivo, no qual cada parte emprega recursos de dissimulação, blefe e antecipação das melhores possibilidades do adversário, lógica que se intensifica quando a disputa deixa o tribunal e assume as formas extremas da diplomacia e da guerra.

41. O segredo, o bloqueio das mensagens e o blefe procuram produzir uma vantagem relativa na utilização das capacidades de comunicação, mas uma estratégia eficaz precisa simultaneamente impedir o acesso adversário e preservar os próprios canais informacionais, tornando qualquer política de segredo muito mais complexa do que a simples ocultação de dados.

42. A pretensão de alcançar segredo absoluto encerra uma contradição semelhante à tentativa simultânea de inventar um solvente universal capaz de dissolver qualquer recipiente e um recipiente universal capaz de conter qualquer solvente, pois nenhum sistema de proteção pode permanecer absolutamente seguro quando depende tanto da integridade humana quanto da dificuldade intrínseca da descoberta científica.

43. Como todo segredo científico tende a difundir-se com o tempo, diferenças tecnológicas de armamento entre adversários são necessariamente temporárias, de modo que cada nova descoberta destrutiva apenas intensifica a necessidade de outra descoberta e ameaça absorver progressivamente os recursos intelectuais que poderiam ser destinados às necessidades construtivas da humanidade.

44. A submissão da ciência à lógica militar assemelha-se à libertação de forças destrutivas que seus próprios responsáveis já não conseguem controlar, enquanto técnicas modernas de publicidade e persuasão podem ser empregadas para neutralizar a consciência crítica dos cientistas e silenciar advertências sobre os perigos dessa trajetória.

45. A corrupção da consciência científica por recompensas administrativas destrói a própria lealdade da qual depende a segurança política, pois quem abandona compromissos com a humanidade em troca de vantagens institucionais pode posteriormente transferir sua fidelidade a qualquer poder que ofereça recompensas superiores.