WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.
A cibernética através da história
1. A teoria geral das mensagens, de natureza probabilística e originada do movimento iniciado por Willard Gibbs, engloba desde a técnica elétrica de transmissão até o estudo da linguagem, do controle sobre máquinas e sociedade, das máquinas de calcular e de aspectos da psicologia e do sistema nervoso.
2. O termo cibernética foi criado a partir da palavra grega kubernetes (“piloto”), sendo posteriormente constatado que já havia sido empregado por Ampère em referência à ciência política e por um estudioso polonês no início do século XIX.
3. A obra técnica La Cybernétique foi publicada em 1948, seguida pela edição destinada ao público leigo, Cybernétique et Société, em 1950, campo que se consolidou como área de pesquisa a partir de ideias compartilhadas com Claude Shannon e Warren Weaver.
4. Comunicação e regulação são classificadas conjuntamente, pois tanto a transmissão de um fato quanto a emissão de uma ordem seguem a mesma técnica de comunicação, exigindo ainda mensagens de retorno que confirmem a compreensão e execução do controle exercido.
5. A sociedade só pode ser compreendida pelo estudo das mensagens e dos dispositivos de comunicação que contém, sendo crescente o papel das mensagens trocadas entre homens e máquinas, entre máquinas e homens, e entre máquinas entre si.
6. Dar uma ordem a uma máquina não difere fundamentalmente de dar uma ordem a uma pessoa, de modo que a teoria da regulação, seja em seres humanos, animais ou mecanismos, constitui um capítulo da teoria das mensagens.
7. Existem diferenças de detalhe entre organismos vivos e máquinas, e o propósito da cibernética consiste em desenvolver linguagem e técnicas capazes de tratar o problema da regulação das comunicações em geral.
8. As ordens, enquanto forma de informação, estão sujeitas a perturbações na transmissão, refletindo a luta constante contra a tendência natural ao aumento da entropia, conforme demonstrado por Gibbs.
9. O ser humano percebe o mundo por meio de seus órgãos sensoriais, informação que é coordenada pelo cérebro e sistema nervoso e posteriormente difundida através dos órgãos de ação, que por sua vez retroagem sobre o sistema nervoso central.
10. Informação designa o conteúdo trocado com o mundo exterior no processo de adaptação a ele, sendo esse processo essencial à vida moderna e à essência da vida interior e social do homem.
11. O estudo das comunicações já ocupava lugar na história da ciência antes de Newton, sendo comum em física, particularmente nas obras de Fermat, Huygens e Leibniz, voltadas à óptica e à comunicação de imagens visuais.
12. Fermat desenvolveu o princípio de minimização do trajeto da luz, Huygens formulou o princípio da propagação da luz a partir de fontes secundárias, e Leibniz concebeu o mundo como um conjunto de mônadas em harmonia pré-estabelecida, relacionando essa interação à óptica.
13. Leibniz é considerado ancestral intelectual das ideias tratadas nesta obra, tendo se dedicado ao cálculo mecânico e aos autômatos como extensão de seu interesse por um cálculo racional e por uma linguagem artificial completa.
14. Os trabalhos de Maxwell e Faraday voltaram a atenção dos físicos para a óptica, considerada então forma de eletricidade ligada ao éter, cujo estudo levou à experiência de Michelson e Morley, que resultou na impossibilidade de determinar o movimento da matéria através do éter.
15. Lorentz apresentou a primeira solução satisfatória ao problema, associando as forças de coesão da matéria a fenômenos elétricos ou ópticos, enquanto Einstein, em 1905, transformou essa ideia em postulado físico do caráter inobservável do movimento absoluto.
16. Einstein leva em conta o observador em sua teoria da relatividade, aproximando a física da óptica em termos leibnizianos, embora sua abordagem rígida e não probabilística seja antitética à mecânica estatística probabilística de Gibbs.
17. A entropia, segundo Gibbs, refere-se não ao mundo exterior em si, mas a categorias de mundos exteriores possíveis e às respostas a questões específicas sobre ele, deslocando o interesse da física para mensagens mais específicas e para a avaliação da informação que fornecem.
18. As mensagens formam um motivo organizacional cuja entropia pode ser interpretada como o valor negativo de sua probabilidade, de modo que quanto mais provável a mensagem, menos informação ela fornece.
19. O interesse de Leibniz e de Pascal pelos autômatos remete à técnica do relojoeiro, exemplificada pelas figurinhas de uma caixa de música, cujo motivo de atividade é predeterminado e sem qualquer comunicação real com o mundo exterior.
20. Em oposição às figurinhas da caixa de música, o comportamento humano e animal envolve troca efetiva de mensagens, como ilustrado pelo gatinho que recebe e envia mensagens sensoriais complexas ao interagir com uma bobina.
21. O comportamento predefinido das figurinhas da caixa de música não representa todo comportamento mecânico, havendo tipos de máquinas que operam de modo distinto desse mecanismo fechado.
22. As máquinas mais antigas operavam com base em mecanismo de relojoaria fechado, enquanto as máquinas automáticas modernas, como engenhos teleguiados e dispositivos industriais, são dotadas de órgãos sensoriais capazes de captar mensagens do mundo exterior.
23. A máquina que age sobre o mundo exterior por meio de mensagens é exemplificada pelo mecanismo fotoelétrico de abertura automática de portas, acionado pela interceptação de um raio luminoso.
24. As ações complexas de uma máquina envolvem combinações entre dados fornecidos no momento e dados armazenados anteriormente na memória, sendo o programa o conjunto de instruções que determina seu modo de operação.
25. A regulação de uma máquina com base em seu funcionamento real, e não apenas no previsto, denomina-se retroação, exemplificada pelo funcionamento de um elevador cuja abertura de porta deve estar subordinada à posição real da cabine.
26. A importância da retroação também se manifesta no exemplo do canhão, cujo controle deve compensar variações causadas pelas condições atmosféricas sobre a graxa do mecanismo, reduzindo o erro do artilheiro.
27. É necessário cuidado para que a poussée de correção não seja excessiva, sob risco de gerar oscilações crescentes e instabilidade, sendo a estabilidade do canhão assegurada quando o próprio sistema de retroação é regulado dentro de limites adequados.
28. O ato humano de pegar um charuto ilustra mecanismo semelhante de retroação, no qual um reflexo direciona novos comandos aos músculos responsáveis, independentemente do conhecimento consciente sobre quais músculos estão envolvidos.
29. O controle voluntário uniforme permite realizar o mesmo esforço a partir de posições iniciais distintas, como no ato de dirigir, no qual a correção da trajetória depende do funcionamento real do veículo, e não apenas da rota previamente concebida.
30. O funcionamento físico do indivíduo vivo e as operações das máquinas de comunicação mais recentes são paralelos em seus esforços análogos de controlar a entropia por meio da retroação, fenômeno cuja relevância social é frequentemente negligenciada na análise habitual da sociedade.