WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.
Papel do intelectual e do cientista
1. A integridade dos canais de comunicação interna é essencial ao bem-estar da sociedade, estando essa comunicação sujeita atualmente, além das ameaças tradicionais, a problemas novos e particularmente sérios, especialmente a crescente complexidade e o custo da comunicação.
2. Antigamente o mundo, e a América em particular, era repleto de pequenos jornais e revistas acessíveis a quase qualquer pessoa, permitindo ao redator regional expressar opinião pessoal sobre assuntos locais e mundiais, o que hoje se tornou inviável pelo custo crescente da impressão e dos serviços sindicalizados, reduzindo o jornalismo à tarefa de dizer cada vez menos a cada vez mais gente.
3. O cinema, embora barato para exibir cada sessão a cada espectador, tornou-se globalmente tão caro que poucos espetáculos valem o risco, interessando ao empresário não o grande interesse suscitado, mas a garantia de aceitação generalizada sem exceções.
4. O que se disse sobre jornais e cinema aplica-se igualmente ao rádio, à televisão e à livraria, vivendo-se época em que a enorme massa de comunicação por habitante encontra fluxo cada vez mais estreito de comunicação real, aceitando-se produto padronizado e insosso, fabricado mais para durar e vender do que por seu valor nutritivo.
5. A esse obstáculo externo da comunicação moderna soma-se outro interno: o câncer do estreitamento e da fraqueza criativa.
6. Antigamente o jovem interessado nas artes criativas podia mergulhar diretamente nelas ou preparar-se por trabalho pessoal disciplinado, mas hoje os canais de aprendizagem estão assoreados, priorizando as escolas a disciplina formal em detrimento do estudo intelectual aprofundado.
7. Hollywood descobriu que a padronização de seus produtos interferiu no fluxo natural do talento artístico do teatro verdadeiro, tendo as companhias teatrais quase desaparecido, formando-se atores em teatros universitários e escritores em cursos formais em vez de na prática jornalística.
8. O artista, o escritor e o cientista deveriam ser movidos por impulso criador tão irresistível que trabalhariam mesmo sem remuneração, mas vive-se época em que a forma pedagógica prevalece sobre um conteúdo cada vez mais reduzido, tornando-se a obtenção de grau acadêmico mais questão de prestígio social do que de impulso profundo.
9. Diante da grande quantidade de estudantes semimaduros a serem formados, o problema de disfarçar os temas de estudo tornou-se central, sendo os estágios iniciais do trabalho criativo, artístico ou científico, submetidos às exigências formais de teses de doutorado em vez de a um verdadeiro desejo de criar e comunicar.
10. Discorda-se da ideia de que o doutorado represente a maior obra científica possível a ser empreendida apenas na plena maturidade, defendendo-se que a tese poderia ao menos servir de porta de entrada para trabalho criativo sólido, lamentando-se romances de estreia escritos por prestígio, estudos matemáticos corretos porém vazios, e o esnobismo que rejeita a competição de vigor e ideias.
11. Quando há comunicação sem necessidade real de comunicar, apenas para conferir prestígio de “sacerdote da comunicação”, a qualidade e o valor comunicativo da mensagem despencam, sendo nas artes o desejo de novidade a fonte de toda vitalidade, existindo pedantismo tanto entre acadêmicos quanto entre vanguardistas, pois a beleza não é monopólio de escola alguma e surge apenas como luta local e temporária contra a entropia crescente.
12. Manifesta-se maior indignação quanto ao artista científico do que ao artista comum, lamentando-se a preferência das grandes escolas pelo derivado em vez do original, protestando-se contra a supressão da originalidade intelectual pela dificuldade dos meios de comunicação modernos e, mais ainda, contra aqueles que escolheram a comunicação como carreira sem terem mais nada a comunicar.