Linguagem

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

** Linguagem, confusão e interferência **

1. Os estudos de Benoît Mandelbrot e Jacobson sobre fenômenos da linguagem, incluindo a distribuição ótima do comprimento das palavras, conduzem a consequências filosóficas que ultrapassam os resultados técnicos específicos de suas investigações.

2. A comunicação pode ser compreendida, segundo a teoria dos jogos de von Neumann, como uma cooperação estratégica entre interlocutores que procuram transmitir uma mensagem diante de forças capazes de introduzir confusão ou interferência, devendo cada lado considerar antecipadamente as melhores estratégias possíveis do adversário.

3. Tanto os comunicadores quanto as forças de interferência podem empregar blefes destinados a ocultar suas técnicas e impedir que o adversário disponha de informação suficiente para adaptar sua estratégia, estabelecendo uma disputa permanente entre novos métodos de comunicação e novos métodos de interferência.

4. A afirmação de Einstein exprime uma condição profunda da investigação científica: embora a natureza possa ser extremamente difícil de compreender, não modifica deliberadamente sua estratégia para frustrar o pesquisador, ainda que determinados fenômenos biológicos possam apresentar uma aparência semelhante à adaptação intencional.

5. As aparentes estratégias observáveis em determinados fenômenos biológicos não constituem problema equivalente para a física, pois a natureza física pode impor dificuldades sucessivas ao conhecimento, mas não cria deliberadamente novos obstáculos para anular conquistas científicas anteriores.

6. A estratégia científica não deve partir da hipótese de uma natureza deliberadamente enganadora, pois a tentativa de proteger-se contra adversários inexistentes desperdiçaria esforços necessários à própria aquisição e transmissão do conhecimento.

7. A ingenuidade característica do cientista não constitui deficiência profissional, mas condição positiva da investigação, enquanto uma mentalidade policial baseada na suspeita permanente tende a desperdiçar energia na tentativa de desmascarar enganos inexistentes e contribui para a esterilidade de pesquisas submetidas à administração científica e militar.

8. Profissões e organizações fundadas na suspeita, no conflito e na obediência ideológica tendem igualmente a dificultar a investigação científica ao induzir tanto a desconfiança diante da natureza quanto a falta de honestidade na maneira de interrogá-la.

9. O obstáculo fundamental enfrentado pela ciência é a confusão e não uma maldade deliberadamente organizada pela natureza, correspondendo essa concepção a uma interpretação agostiniana do mal como deficiência ou ausência de ordem, em oposição ao maniqueísmo que imagina bem e mal como forças positivas e independentes em combate.

10. A concepção agostiniana do mal permanece emocionalmente instável e tende facilmente a transformar-se em maniqueísmo, como revela o dilema de Milton em Paraíso Perdido ao representar Satanás simultaneamente como criatura submetida à onipotência divina e como adversário cuja luta precisa conservar alguma possibilidade dramática de vitória.

11. Toda organização religiosa estruturada segundo um modelo militar tende ao maniqueísmo porque transforma aquilo que combate em uma força adversária independente e potencialmente vitoriosa, criando um ambiente pouco favorável à honestidade intelectual e à atitude científica.

12. Embora somente uma instituição possa definir oficialmente suas próprias doutrinas, indivíduos externos permanecem livres para avaliar criticamente sua organização e suas reivindicações, assim como as autodefinições do comunismo podem esclarecer seu ideal sem necessariamente fornecer uma descrição objetiva do funcionamento concreto de movimentos e organizações comunistas.

13. A concepção de Marx acerca do mal parece fundamentalmente agostiniana, entendendo-o mais como ausência de perfeição do que como força autônoma oposta ao bem, embora o desenvolvimento histórico do comunismo em uma atmosfera de luta tenha deslocado a síntese dialética final para um futuro tão distante que exerce pouca influência sobre a prática política imediata.

14. Tanto o campo comunista quanto importantes setores religiosos assumem praticamente atitudes maniqueístas que prejudicam simultaneamente a ciência e a própria fé, pois a interpretação do mundo como campo de ação de duas forças rivais torna incerta a origem de cada fenômeno e cria as condições culturais para a crença na feitiçaria e para a perseguição de supostos inimigos internos.

15. A ciência depende de uma fé fundamental na existência de regularidades naturais, não no sentido de adesão a um dogma religioso, mas como confiança indemonstrável de que a natureza mantém alguma estabilidade suficiente para permitir investigação, indução e previsão.