WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.
Algumas máquinas de comunicação e seu futuro
1. Além do problema industrial e social das máquinas de comando substitutivas do trabalho humano, existe variedade de problemas relativos aos autômatos voltados a iluminar as possibilidades dos mecanismos de comunicação e a usos semimédicos, como próteses, tendo a primeira máquina discutida sido construída com propósito teórico em colaboração com Arturo Rosenblueth e Julian Bigelow, partindo da hipótese de que a ação voluntária depende de retroação.
2. O tipo mais simples de falha manifesta-se como oscilação no processo de busca de um objetivo, correspondendo ao tremor intencional humano, no qual a mão oscila cada vez mais ao tentar alcançar um objeto.
3. A doença de Parkinson representa tipo oposto de tremor, presente em repouso e que se atenua ao buscar um objetivo determinado, permitindo ao paciente em estágio inicial realizar operações delicadas.
4. Esses dois tipos de tremor foram associados a aspecto da retroação distinto daquele ligado à busca de objetivo, exigindo a execução bem-sucedida de uma tarefa a manutenção de tônus nas articulações não diretamente envolvidas, através de mecanismo denominado retroação postural, cuja localização cerebral difere do cerebelo.
5. Demonstra-se matematicamente que em ambos os tremores a retroação é excessiva, opondo-se na doença de Parkinson a retroação voluntária à retroação postural, de modo que a existência de um objetivo tende a reduzir a amplificação excessiva desta última.
6. O professor Wiesner, do MIT, estudou a construção de máquina de tropismo simples capaz de demonstrar os fenômenos de retroação voluntária e postural e suas falhas, tendo Henry Singleton resolvido brilhantemente sua construção, composta por carrinho de três rodas com células fotoelétricas.
7. Conforme a direção do fluxo da ponte, o instrumento dirige-se ou foge da luz, tendendo a equilibrar-se automaticamente através de retroação que liga a fonte luminosa ao sistema de comando do leme.
8. Essa retroação equivale à retroação voluntária humana, sendo a sobrecarga por amplificação excessiva responsável por oscilações crescentes análogas ao tremor intencional associado a lesão cerebelar.
9. O mecanismo de ajuste do leme contém segunda retroação de natureza postural, cuja sobrecarga produz tremor análogo à doença de Parkinson, surgindo na ausência de luz, ou seja, quando não há objetivo fixado à máquina.
10. O Dr. Grey Walter, do Burden Neurological Institute, desenvolveu mecanismo semelhante porém com objetivo determinado e variável, conferindo à máquina atitude exploratória além da puramente tropística.
11. O papillon de nuit e a máquina aperfeiçoada de Grey Walter, embora pareçam exercícios de virtuosismo, possuem utilidade concreta, tendo o corpo médico do Exército americano fotografado o aparelho para comparação com casos reais de tremor nervoso.
12. Existe segunda categoria de máquinas de valor médico mais direto, voltadas a compensar deficiências de mutilados e sensoriais, incluindo membros artificiais, leitura para cegos por tradução visual-auditiva e auxílios para surdos totais, sendo estes últimos os mais fáceis de construir dada a familiaridade com a técnica telefônica.
13. O professor Wiesner propôs a construção de aparelho para surdos, conhecendo-se os trabalhos sobre fala visível dos Laboratórios Bell e do Vocoder, optando-se pelo sentido do tato em vez da visão por questões de portabilidade e importância relativa desse sentido para o surdo.
14. Constatou-se que os Laboratórios Bell haviam patenteado ideia semelhante sem desenvolvimento experimental, autorizando a continuidade da pesquisa, confiada a Leon Levine quanto à concepção do aparelho e a Alexander Bavelas quanto ao problema do aprendizado.
15. A interpretação da fala por sentido diferente do ouvido explica-se pelos três estágios da linguagem, faltando aos surdos o estágio fonético, sendo possível substituí-lo por sistema nervoso artificial que traduza o estágio acústico para o tátil.
16. O estado atual do aparelho mostra boa transição entre o primeiro estágio e o novo estágio tátil, estando em estudo o processo de aprendizado entre este e o estágio semântico, com resultados promissores, como o exemplo do vocabulário de doze palavras aprendido com apenas seis erros em oitenta repetições.
17. A audição não é apenas sentido de comunicação, mas principalmente meio de relação com outros indivíduos através da fala, de modo que a perda de outros usos auditivos, como a música, representa handicap mínimo se a comunicação falada permanecer possível.
18. Para a prótese sensorial deve-se considerar toda a fala como unidade, evidenciando-se isso na dificuldade de surdos-mudos produzirem fala inteligível apesar de aprenderem a leitura labial, pois a conversação foi separada em partes distintas.
19. Na fala normal, a audição da própria voz nunca foi separada da produção, exigindo boa qualidade de fala retorno e autocrítica contínuos, devendo qualquer auxílio para surdos totais ser portátil e continuamente usado, ainda que baseado em sentido diferente da audição.
20. A teoria das próteses acústicas depende da quantidade de informação efetivamente usada na audição, sendo a capacidade máxima teórica do ouvido muito superior à informação realmente necessária para reconhecer a fala.
21. Pesquisas do Vocoder demonstraram que a fala dividida em até cinco bandas retificadas, moduladas por sons arbitrários, permanece reconhecível mesmo reduzindo a informação transmitida a menos de um décimo ou centésimo do potencial original.
22. Distingue-se a capacidade máxima de codificação da fala recebida pelo ouvido da capacidade que atravessa todo o conjunto ouvido-cérebro, sendo esta última a base conceitual do Vocoder, cujas primeiras estimativas ignoravam o elemento terminal da cadeia.
23. Como os demais sentidos dos surdos transmitem menos informação que a visão, a eficiência máxima do tato exige enviar apenas a porção da audição relevante à compreensão da fala, transferindo parte da função cortical para um córtex artificial externo.
24. Modelos de palavras suficientemente distintos permitem reconhecimento sem grande treinamento, devendo o estudo concentrar-se no treinamento dos surdos-mudos, restando problemas técnicos quanto à portabilidade e consumo de energia do aparelho, cuja perspectiva de sucesso não é impossível.
25. Desde a primeira edição deste livro, outros autores desenvolveram novos dispositivos, como os homeostatos de Ashby e máquinas anteriores de Grey Walter, cujos elementos fototrópicos, ao interagir, exibem agrupamentos interpretáveis como conduta social, iniciando nova ciência do comportamento mecânico.
26. A construção do sonotone no MIT foi dificultada nos últimos dois anos, mas sua teoria contribuiu para aperfeiçoar aparelho que permite a cegos orientar-se por ruas e edifícios, obra em grande parte do Dr. Clifford Witcher, ele mesmo cego de nascença.
27. Realização promissora ainda não desenvolvida é o pulmão artificial ativado por sinais dos próprios músculos respiratórios enfraquecidos do paciente, utilizando retroação para manter e talvez reeducar a capacidade respiratória, evitando que o pulmão de aço se torne prisão permanente.
28. Passa-se a examinar máquinas de possibilidades mais sinistras, categoria na qual se inclui, curiosamente, o autômato jogador de xadrez.
29. Propôs-se utilizar a máquina de calcular moderna para jogar xadrez em nível médio, lembrando-se que Edgar Poe demonstrou ser fraude o jogador de Maelzel, sendo a máquina atual autêntica, embora von Neumann tenha demonstrado a impossibilidade de partida perfeita pelo número excessivo de combinações.
30. É possível construir máquina que jogue perfeitamente número limitado de lances, como dois, adotando-se então critério de avaliação da posição mais favorável, sendo as máquinas de cálculo atuais capazes de avaliar todas as possibilidades para dois lances no tempo regulamentar.
31. Claude Shannon, dos Laboratórios Bell, concebeu máquina semelhante com melhorias que consideram o controle do tabuleiro, proteção mútua das peças e situações de instabilidade como xeque, jogando automaticamente lances adicionais até atingir estabilidade.
32. Admite-se que tal máquina jogaria como bom amador ou mestre, com jogo rígido mas seguro, podendo-se incluir elementos de acaso para evitar derrotas sistemáticas.
33. A máquina jogaria aberturas e finais segundo repertório clássico, sendo desejável máquina superior capaz de memorizar partidas anteriores e aprender com elas, ainda que a técnica de máquinas que aprendem permaneça imperfeita.
34. O desempenho de máquina de xadrez capaz de aprender dependeria da qualidade dos adversários enfrentados, podendo um mau conjunto de oponentes desequilibrar aparelho bem concebido, assim como cavalo montado por maus cavaleiros perde suas qualidades.
35. Distingue-se nessas máquinas o que pode ser aprendido do que é fixo, chamando-se preferência à determinação estatística flexível e restrição à determinação rígida, sendo possível transformar máquina construída com regras por restrição em tarefa totalmente diferente se dotada de capacidade de aprendizado.
36. O interesse pelas máquinas de xadrez vai além de mera exibição de competência, reconhecendo-se elemento de narcisismo ostentatório, mas existindo motivo mais relevante ao leitor não especializado.
37. Shannon sugeriu que tal máquina poderia constituir primeiro estágio de aparelho para avaliar situações militares e determinar o melhor movimento, referência não fantasiosa dado o impacto da Teoria dos Jogos de von Neumann e Morgenstern em Washington.
38. O padre Dubarle, em artigo de 1948 sobre o livro Cibernética, sugeriu a possibilidade de máquina de governar capaz de coletar informações econômicas e determinar as evoluções mais prováveis, abrangendo até decisões políticas de Estado único ou múltiplos Estados.
39. O verdadeiro perigo da máquina de governar não reside em seu controle autônomo, por ser ainda grosseira e imperfeita, mas na possibilidade de ser usada por indivíduos ou grupos para ampliar seu controle sobre o restante da humanidade, sendo a fraqueza da máquina sua incapacidade de considerar a vasta gama de probabilidades da situação humana.
40. Já se desenvolvem novos conceitos de guerra, conflito econômico e propaganda baseados na Teoria dos Jogos de von Neumann, existindo organizações governamentais dedicadas a sua aplicação militar.
41. A teoria dos jogos baseia-se em jogadores que desenvolvem estratégias supondo que os adversários também buscam a melhor política, jogando-se esse grande jogo mecanicamente em escala colossal, havendo indícios de que os soviéticos também estudam e refinam essas possibilidades, estendendo-as às limitações psicológicas dos jogadores.
42. O padre Dubarle alertou para a crescente mecanização do mundo militar e político, tendo razão ao insistir na necessidade de filósofos e antropólogos, devendo o cientista compreender a natureza humana e seus objetivos essenciais antes de manejar tal conhecimento.
43. O perigo social da máquina não reside nela mesma, mas no uso que dela se faz, evocando-se o aviso de Samuel Butler em Erewhon, embora sua antecipação não deva ser levada demasiado a sério por desconhecer a verdadeira natureza dos autômatos.
44. A imprensa exalta o “saber-fazer” americano desde a bomba atômica, faltando porém o “saber-o-quê” que determina os próprios objetivos, exemplificado pelo engenheiro que comprou piano mecânico caro por interesse no mecanismo e não na música.
45. A mitologia e os contos de fadas ensinam verdades simples sobre os perigos de desejos concedidos, representando o senso trágico grego algo que falta ao país de abundância que é a América.
46. A descoberta do fogo provocava sentimentos ambivalentes entre os gregos, sendo Prometeu arquétipo do sábio herói e ao mesmo tempo condenado por desafiar os deuses.
47. O senso da tragédia concebe o universo como ambiente hostil onde grandes feitos exigem desafiar os deuses sob risco de castigo, atingindo até quem apenas ignora os deuses e o mundo ao seu redor.
48. Um homem dotado de consciência trágica tremeria diante da fissão do átomo como diante do fogo, não transferindo à máquina, sem assumir responsabilidade total, a escolha entre o bem e o mal.
49. O homem moderno, sobretudo o americano, dotado de “saber-fazer” mas carente de “saber-o-quê”, aceitará decisões da máquina sem questionar seus fundamentos, arriscando repetir o destino do pai em A Pata de Macaco ou do pescador árabe que libertou o gênio.
50. Todo aparelho de decisão sem capacidade de aprender respeitará a letra e não o espírito das ordens, sendo desastroso segui-lo sem examinar previamente as leis de sua ação, enquanto a máquina capaz de aprender pode decidir de modo inaceitável para nós.
51. Entre as máquinas discutidas incluem-se também as grandes organizações humanas que tratam indivíduos como engrenagens, não recebendo respostas justas de máquinas metálicas nem de burocracias vivas sem que se façam perguntas justas, sendo a Pata de Macaco de carne e osso tão fatal quanto qualquer peça de aço, concluindo-se que já soa a hora da escolha entre o bem e o mal.