Organização

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

** A organização como mensagem **

1. O recurso ao fantástico pode servir legitimamente à reflexão filosófica, assim como a metáfora da caverna em Platão e a própria matemática, entendida por J. Bronowski como uma gigantesca construção metafórica cuja validade depende de sua eficácia explicativa.

2. O organismo pode ser compreendido como mensagem na medida em que se opõe ao caos, à desintegração e à morte do mesmo modo que a mensagem se opõe ao ruído, sendo sua identidade apreendida não pela enumeração de suas moléculas, mas pela configuração organizada que o caracteriza.

3. Os organismos vivos conseguem manter e até elevar temporariamente seu grau de organização em meio à tendência geral para o aumento da entropia, constituindo ilhas de ordem em um mundo submetido à desorganização crescente, graças ao processo denominado homeostase.

4. A vida somente se conserva enquanto os processos de recomposição conseguem compensar os processos de deterioração, cabendo aos mecanismos homeostáticos de retroação manter dentro de limites estreitos variáveis fisiológicas essenciais à sobrevivência.

5. A identidade pessoal repousa no modelo organizacional preservado pela homeostase, e não na permanência da matéria corporal, pois os tecidos renovam continuamente seus componentes enquanto a configuração do organismo se perpetua.

6. Sendo o modelo uma mensagem, torna-se concebível sua transmissão, tal como padrões sonoros são transmitidos pelo rádio e padrões luminosos pela televisão, podendo-se imaginar hipoteticamente a transmissão integral do corpo e do cérebro humanos, inclusive de suas memórias e conexões, para sua reconstrução por um dispositivo receptor.

7. A ficção científica permite antecipar transformações reais ao imaginar formas de organização social produzidas pela expansão dos meios de comunicação e transporte, como ocorre no mundo projetado por Kipling em Com o correio noturno.

8. A transmissão de informação pode substituir amplamente a presença e o transporte físicos, como demonstra o caso de um arquiteto situado na Europa que poderia dirigir a construção de um edifício nos Estados Unidos mediante sistemas de comunicação.

9. Embora o deslocamento humano ainda dependa do transporte material, a transmissão de mensagens já prolonga os sentidos e as capacidades de ação até grandes distâncias, tornando teoricamente superável a distinção entre transporte de matéria e transporte de informação.

10. A consideração do organismo como modelo transmissível conduz diretamente ao problema da individualidade humana e da fronteira entre personalidades, tradicionalmente expresso no cristianismo e em seus antecedentes mediterrâneos pela noção de alma individual, surgida com a concepção e destinada à existência eterna.

11. Na tradição budista, a continuidade após a morte assume a forma de passagem da alma para outro ser humano ou animal, enquanto os céus e infernos constituem geralmente estados temporários, culminando no nirvana, no qual a identidade individual desaparece pela absorção na realidade universal.

12. Entre as primeiras tentativas de formular cientificamente a continuidade da alma destaca-se a concepção de Leibniz das mônadas como substâncias espirituais permanentes, indestrutíveis e relacionadas entre si por uma harmonia previamente estabelecida por Deus.

13. A doutrina leibniziana das mônadas relaciona-se também com especulações biológicas surgidas das primeiras observações microscópicas de Leeuwenhoek, especialmente da descoberta dos espermatozoides.

14. O conhecimento biológico posterior tornou insustentável a concepção preformacionista, pois óvulo e espermatozoide contribuem de maneira aproximadamente equivalente para a hereditariedade, enquanto as células germinativas das gerações futuras existem apenas potencialmente e não como organismos já materialmente presentes.

15. A concepção contemporânea da individualidade admite que sua continuidade possui um início determinado e pode também sofrer divisões independentes da morte, como demonstra a separação experimental das primeiras células de um óvulo fecundado de rã, cada uma capaz de originar um organismo completo.

16. A questão da divisão da individualidade adquire maior complexidade quando deixa de envolver apenas o corpo e passa a atingir organismos dotados de vida mental desenvolvida, pois a existência de corpos duplos com um ou dois sistemas nervosos não apresenta a mesma dificuldade conceitual que a possibilidade de uma personalidade dividir-se internamente.

17. O caso estudado por Morton Prince, no qual diferentes personalidades pareciam suceder-se e parcialmente coexistir em uma mesma jovem, indica alguma forma efetiva de divisão da personalidade, ainda que a interpretação original possa ter exagerado sua extensão.

18. A identidade física do indivíduo não pode residir na matéria que compõe seu corpo, pois o metabolismo substitui continuamente os elementos de todos os tecidos, de modo que a individualidade biológica deve consistir sobretudo na continuidade dos processos organizacionais e na conservação da história do desenvolvimento do organismo.

19. Assim como um computador pode servir de modelo para programar outro e ambos podem desenvolver-se paralelamente até que novas experiências ou alterações de programa os diferenciem, também se pode conceber a divisão de um indivíduo em duas individualidades dotadas de um passado comum e progressivamente divergentes.

20. O movimento inverso também é concebível, pois dois sistemas inicialmente independentes podem ser acoplados até funcionarem como uma unidade, como ocorre na união das células germinais, tornando impossível sustentar uma identidade mental absolutamente indivisível nos termos requeridos pela concepção eclesiástica tradicional da alma.

21. A individualidade corporal assemelha-se mais à continuidade dinâmica de uma chama do que à permanência material de uma pedra, pois consiste fundamentalmente em uma forma ou modelo suscetível de transmissão, transformação e duplicação.

22. A possibilidade conceitual de transportar um ser humano por transmissão de informação, em vez de por deslocamento material, não é intrinsecamente absurda, embora sua realização enfrente dificuldades técnicas extraordinárias relacionadas à quantidade de informação e à preservação do organismo durante sua reprodução.

23. A impossibilidade atual de transmitir telegráficamente o modelo integral de um ser humano decorre provavelmente de limitações técnicas, sobretudo da dificuldade de manter vivo o organismo enquanto se realiza sua reconstrução completa, e não de uma impossibilidade lógica inerente ao conceito.

24. A hipótese da transmissão telegráfica de um ser humano interessa sobretudo por revelar que o núcleo da comunicação consiste na transmissão de mensagens, enquanto o transporte material constitui apenas uma das formas possíveis de assegurar essa transmissão.