Progresso e entropia

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

1. A segunda lei da termodinâmica estabelece a tendência estatística da natureza ao desordem, sendo o ser humano parte de um sistema mais amplo do qual absorve energia e informações através dos sentidos.

2. O físico Clerk Maxwell forneceu, através de seu célebre “demônio de Maxwell”, uma imagem brilhante do papel da informação nessa relação com o meio exterior.

3. Um reservatório de gás com temperatura uniforme contém moléculas de velocidades distintas, sendo imaginada a existência de pequenos seres (demônios) que controlam portas conforme a velocidade das moléculas.

4. O primeiro demônio abre a porta apenas às moléculas rápidas e o segundo apenas às lentas, resultando em diferença de temperatura entre as extremidades, configurando um movimento perpétuo de segunda espécie que parece vencer a entropia.

5. A analogia da multidão em um metrô, dividida por catracas conforme a velocidade dos passageiros e reunida por um dispositivo tipo roda de esquilo, ilustra a obtenção de energia útil a partir do movimento fortuito da massa.

6. Existe distinção entre a física do século XIX, que considerava a obtenção de informação sem custo, e a física moderna, que dota o demônio de um órgão sensorial, a luz sendo parte essencial do próprio sistema mecânico.

7. O demônio de Maxwell só pode trabalhar indefinidamente mediante introdução externa de luz cuja temperatura difira da do sistema, como ocorre no desequilíbrio entre o sol e a terra.

8. Em sistemas em desequilíbrio a entropia pode decrescer localmente, embora o universo tenda ao equilíbrio final de temperatura, morte em que nenhum evento novo poderá ocorrer.

9. Não somos testemunhas das últimas etapas dessa agonia, sendo relevante, no mundo que nos concerne, o fato de que a entropia não se acresce enquanto organização e informação se desenvolvem.

10. A organização crescente não se limita à atividade dos seres vivos, contribuindo também as máquinas para um desenvolvimento local e temporário da informação.

11. Do ponto de vista semântico, palavras como vida, fins e alma são inadequadas para o pensamento científico, colocando-se o problema de ampliar ou restringir o sentido de vida diante de fenômenos parcialmente vivos, como os vírus, ou diante de máquinas com condutas análogas às dos seres vivos.

12. Utilizar a palavra vida para todos os fenômenos que remontam localmente à entropia crescente incluiria fenômenos astronômicos pouco semelhantes à vida conhecida, sendo preferível evitar tais termos e afirmar simplesmente que as máquinas podem assemelhar-se aos seres vivos por representarem bolsões de entropia decrescente.

13. A comparação entre organismo vivo e máquina não implica identidade dos processos químicos, físicos e espirituais, mas apenas o compartilhamento da condição de processos antientrópicos locais, encontráveis também fora da biologia e da mecânica.

14. As máquinas construídas até então apresentam órgãos efetores para cumprir tarefas definidas e órgãos sensoriais que registram tanto as circunstâncias exteriores quanto o cumprimento ou não das tarefas, constituindo a retroação, que pode ser um reflexo simples ou um aprendizado mais elaborado.

15. Comportamentos mais complexos exigem órgãos de decisão centrais que determinam a ação da máquina a partir da informação recebida e armazenada de modo análogo à memória.

16. Máquinas simples atraídas ou repelidas pela luz podem exibir formas complexas de conduta social quando dotadas de fonte luminosa própria, como descrito por Grey Walter, prenunciando desenvolvimentos futuros na vida em sociedade das máquinas.

17. Existe semelhança fundamental entre sistema nervoso e máquinas automáticas quanto à dependência das decisões futuras em relação às passadas, sendo a sinapse o ponto de decisão no sistema nervoso baseado em limiar de excitação.

18. A sinapse no organismo vivo corresponde ao comutador na máquina.

19. A máquina, como o organismo vivo, resiste local e temporariamente ao aumento da entropia, produzindo uma zona de organização através de sua capacidade de decisão.

20. O cientista trabalha para descobrir a ordem do universo, enfrentando a desorganização como inimigo, sendo relevante saber se esse inimigo é um demônio maniqueísta ou agostiniano, o que determina a tática a adotar.

21. O demônio maniqueísta busca a vitória e recorre a ardis e blefes, enquanto o demônio agostiniano representa apenas a medida de nossa fraqueza, sem mudar de tática.

22. Comparado ao ser maniqueísta refinadamente malicioso, o demônio agostiniano é estúpido e pode ser vencido pela inteligência.

23. O aforismo de Einstein, segundo o qual Deus é sutil mas não é mesquinho, indica que as forças da natureza não blefam, sendo seu poder maléfico limitado, à semelhança de Mefistófeles.

24. A distinção entre resistência passiva da natureza e resistência ativa de um adversário sugere a diferença entre o cientista e o guerreiro ou jogador, tendo o físico tempo para suas experiências enquanto o enxadrista enfrenta oponente pronto a explorar seus erros.

25. O cientista tende a considerar seu oponente como inimigo honrado, o que gera certa ingenuidade diante de pessoas menos escrupulosas encontradas na guerra e na política.

26. A batalha entre progresso e entropia no mundo revela que a segunda lei da termodinâmica só vale para sistemas isolados considerados em conjunto, existindo ilhas de entropia decrescente que permitem afirmar a realidade do progresso.

27. O Século das Luzes propagou a ideia de progresso, mas dúvidas surgiram com a Revolução Francesa, sendo Malthus exemplo de quem via a cultura de seu tempo afundar no crescimento populacional descontrolado.

28. Há vínculo entre Malthus e Darwin, cuja originalidade consistiu em conceber a evolução não como ascensão espontânea lamarckiana, mas como combinação entre tendência ao desenvolvimento e tendência a seguir o modelo ancestral, resultando em seleção natural sem plano preestabelecido.

29. O conceito de processo residual reaparece na obra de Ashby sobre a máquina que aprende, cuja estrutura aleatória gera posições próximas ou distantes do equilíbrio, análoga à teoria darwiniana da natureza, criando a impressão de plano definido onde não há propósito.

30. A ideia de Ashby, de mecanismo aleatório e sem finalidade que busca seu próprio fim através da aprendizagem, constitui grande contribuição filosófica e conduzirá a desenvolvimentos técnicos úteis na automação.

31. A influência de Darwin sobre a ideia de progresso não se limitou à biologia, tendo Marx e os socialistas de sua época adotado ponto de vista darwinista sobre evolução e progresso.

32. Em física, a ideia de progresso opõe-se à de entropia sem contradição absoluta, sendo a informação transportada por quantidades de energia negligenciáveis na física newtoniana, opinião modificada pela teoria dos quanta.

33. A teoria dos quanta associou de modo novo energia e informação, encontrando-se forma primitiva dessa associação na teoria dos ruídos de fundo em circuitos telefônicos, inevitáveis devido ao caráter descontínuo dos elétrons e capazes de destruir informação.

34. Não existem radiações com energia inferior a um quantum de luz, não havendo fronteira nítida entre acoplamento energético e informacional, sendo mínima a energia necessária ao acoplamento eficiente de informação, fato fundamental à fotossíntese.

35. A interpretação pessimista ou não da segunda lei depende da importância atribuída ao universo em geral frente às ilhas de entropia localmente decrescente, sendo nós próprios uma dessas ilhas.

36. A vida pode ser fenômeno raro no universo, limitado ao sistema solar ou à própria terra, pouco importando a ausência de vida no restante do cosmos.

37. A vida pode pertencer a período limitado de tempo, devendo o acidente feliz que permite sua continuidade chegar a um fim desastroso, sendo possível ainda assim edificar valores que considerem esses acidentes temporários como soberanamente importantes.

38. Somos náufragos em um planeta condenado à morte, mas mesmo em um naufrágio as regras e valores humanos não desaparecem necessariamente, devendo o fim ocorrer de maneira digna de nossa grandeza.

39. O pessimismo tratado é intelectual, próprio do cientista, sendo a melhor atitude diante do progresso em um universo em degradação a de uma tragédia grega, ainda que a época atual seja pouco receptiva a esse sentido.

40. A educação da criança americana de classe média superior protege-a da consciência da morte, sendo a crença no Papai Noel exemplo de mito cuja perda gera busca posterior por substitutos emocionais.

41. A morte individual e a possibilidade de calamidades são reduzidas ao papel de meros acidentes, construindo-se um paraíso terrestre de progresso eterno e ascensão contínua.

42. A veneração do progresso pode ser discutida sob ponto de vista factual, que afirma a continuidade indefinida das descobertas técnicas, e ético, que considera esse processo ilimitado como algo bom garantidor de um paraíso futuro.

43. A crença no progresso é fenômeno recente que rompe com as tradições religiosas, não vendo catolicismo, protestantismo ou judaísmo o mundo como lugar de felicidade duradoura, aguardando a Igreja o Segundo Advento e o Juízo Final.

44. Os calvinistas aceitam essa crença acrescida da ideia de que os eleitos serão poucos e escolhidos arbitrariamente, não bastando virtude alguma para a salvação.

45. Os profetas hebreus não são otimistas quanto ao futuro da humanidade, não garantindo mesmo a história de Jó um desfecho feliz senão pelo arbítrio divino.

46. O comunista, como o crente no progresso, deseja o paraíso na terra e não uma recompensa pós-terrena, admitindo porém que tal paraíso exige luta e não se estabelece espontaneamente.

47. O Islã, cujo nome significa resignação à vontade de Deus, não é aberto ao ideal de progresso, sendo o Budismo e as religiões hindus análogas inexoravelmente opostos a essa ideia.

48. Para o americano médio, o progresso identifica-se com a conquista do Oeste, ainda que o censo de 1890 tenha marcado o fim das condições reais de fronteira.

49. É difícil conceber a exata dimensão histórica do progresso, sendo o mosquete da Guerra de Secessão pouco diferente do usado em Waterloo ou por Marlborough, e o arco, invenção não aperfeiçoada desde a Idade da Pedra, comparável em desempenho às armas de fogo antigas.

50. O navio de guerra de madeira pouco se modificou desde o início do século XVII, sendo marinheiros de diferentes épocas intercambiáveis, assim como um pastor romano seria vaqueiro competente no Texas e um administrador babilônico dispensaria treinamento adicional para gerir uma plantação sulista, não tendo a era de mudanças revolucionárias começado antes do século XIX.

51. Não existem paralelos históricos para invenções como a máquina a vapor, o navio a vapor, a locomotiva, o telégrafo, a eletricidade, a dinamite, o míssil, o avião, o semicondutor e a bomba atômica, sendo o argumento economicista da mera diferença de grau comparável à distinção entre dose terapêutica e letal de estricnina.

52. A história e sociologia científicas fundam-se na semelhança entre casos históricos particulares, mas a escala dos fenômenos mudou suficientemente desde o início da era moderna para tornar questionável a transferência fácil de noções políticas, culturais e econômicas de estágios anteriores, sendo o período moderno desde a era das descobertas extremamente heterogêneo.

53. A era das descobertas revelou à Europa vastas regiões pouco povoadas e ricas em recursos aparentemente inesgotáveis, parecendo muito distante, na escala do século XV, o esgotamento desses recursos.

54. A existência de terras novas favoreceu conduta semelhante à do chá maluco de Alice no País das Maravilhas, mudando-se de cadeira ao esgotarem-se os recursos sem questionar o que ocorreria ao retornar ao ponto inicial.

55. Poucos percebem a particularidade dos últimos quatro séculos na história mundial, cujo ritmo de mudança decorre do aumento das comunicações e do domínio sobre a natureza, podendo este configurar escravidão crescente à própria natureza.

56. A perspectiva de morte final não deve levar ao sentimento de inutilidade da vida, seja para a civilização, seja para o indivíduo, residindo a fé no progresso não na força, mas na humildade e na fraqueza humanas.