Revoluções

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

** Primeira e segunda revoluções industriais **

1. O estudo do ser humano como organismo comunicante conduz necessariamente à consideração da máquina como organismo igualmente capaz de comunicação, sobretudo no ponto em que as propriedades comunicacionais humanas e mecânicas convergem e passam a determinar conjuntamente a evolução tecnológica e seus efeitos sobre a sociedade.

2. A primeira Revolução Industrial constituiu o grande precedente histórico do impacto das máquinas sobre a cultura humana ao substituir a força muscular humana por energia mecânica, oferecendo assim um modelo para compreender a crise contemporânea correspondente à Segunda Revolução Industrial.

3. A primeira Revolução Industrial originou-se na efervescência intelectual do século XVIII, quando as técnicas científicas desenvolvidas por Newton e Huygens, até então aplicadas sobretudo à astronomia, começaram a revelar possibilidades profundas para outros campos, inicialmente para a navegação e a relojoaria.

4. A navegação permaneceu tecnicamente precária até aproximadamente 1730 porque, embora a latitude pudesse ser determinada pela observação da altura angular do polo celeste, a longitude exigia comparar a hora local com uma hora de referência, tornando necessário transportar um cronômetro suficientemente preciso ou encontrar no céu algum fenômeno que funcionasse como relógio independente do Sol.

5. Antes do desenvolvimento de métodos confiáveis para determinar a longitude, a navegação oceânica dependia de trajetórias indiretas e estimativas imprecisas, fazendo de cada travessia uma operação arriscada.

6. A lentidão e a incerteza desses métodos tornaram-se particularmente inadequadas para Inglaterra e França no século XVIII, cujos interesses marítimos em latitudes elevadas favoreciam rotas diretas de grande círculo e cuja rivalidade naval transformava a precisão da navegação em vantagem estratégica, levando ambos os governos a oferecer recompensas substanciais para a solução do problema da longitude.

7. As competições destinadas a solucionar o problema da longitude culminaram em duas tecnologias distintas que dominaram a navegação até o desenvolvimento do rádio e do radar: o cronômetro marítimo de alta precisão e as tabelas matemáticas do movimento lunar.

8. Os artesãos tecnologicamente mais avançados no início da Revolução Industrial foram, por um lado, os relojoeiros que aplicavam a nova matemática newtoniana aos relógios e, por outro, os fabricantes de instrumentos ópticos, como sextantes e telescópios, cujas técnicas de precisão originaram a moderna indústria de máquinas-ferramentas.

9. Cada máquina-ferramenta possui uma genealogia técnica formada pelas máquinas anteriormente utilizadas para produzi-la, de modo que os pequenos tornos manuais ou movidos a pedal do século XVIII somente puderam originar os grandes tornos modernos mediante sucessivas gerações intermediárias de instrumentos.

10. A origem relojoeira e instrumental dos primeiros inventores industriais decorreu da necessidade de precisão técnica, sendo significativo que até James Watt permanecesse limitado pelas capacidades produtivas disponíveis, considerando satisfatório o ajuste entre pistão e cilindro quando apenas uma pequena moeda pudesse deslizar entre ambos.

11. A navegação e seus instrumentos constituíram uma espécie de revolução industrial preliminar anterior à transformação centrada na máquina a vapor, cuja evolução avançou das máquinas rudimentares e pouco eficientes de Newcomen para as máquinas aperfeiçoadas de Watt, rapidamente incorporadas às fábricas e às minas.

12. A primeira aplicação prática da energia a vapor substituiu uma das formas mais penosas e incessantes de trabalho humano e animal, o bombeamento de água das minas, constituindo importante progresso humanitário ao substituir animais de tração, mecanismos rudimentares e até trabalho escravo.

13. A máquina a vapor também substituiu trabalho humano extremamente pesado no transporte, primeiro por meio dos barcos a vapor empregados nos rios e depois mediante locomotivas destinadas inicialmente ao deslocamento de cargas pesadas.

14. A mecanização alcançou posteriormente a indústria têxtil, setor que já apresentava condições sociais precárias e capacidade produtiva insuficiente antes da introdução dos equipamentos mecanizados, embora a expectativa de que a tecnologia melhorasse automaticamente essa situação tenha sido contrariada por uma deterioração ainda maior das condições de trabalho.

15. As máquinas têxteis antecederam historicamente a máquina a vapor e passaram gradualmente do acionamento manual para as energias animal, hidráulica e finalmente a vapor, completando a mecanização da fiação e da tecelagem no início do século XIX.

16. As fábricas têxteis tornaram-se o modelo geral da mecanização industrial e promoveram a transferência dos trabalhadores do campo para as cidades e das residências para as fábricas, acompanhada por intensa exploração de mulheres e crianças.

17. A transmissão da energia dentro dessas primeiras fábricas dependia de sistemas mecânicos constituídos por longas linhas de eixos, correias e polias, posteriormente substituídos em grande parte por máquinas dotadas de motores elétricos individuais.

18. A passagem dos sistemas de transmissão mecânica para configurações posteriores modificou profundamente a própria natureza da construção de máquinas e do trabalho inventivo.

19. A substituição das conexões mecânicas pelas elétricas transformou radicalmente a organização industrial porque pequenos motores elétricos permitiram distribuir energia diretamente para máquinas individuais com reduzidas perdas de transmissão.

20. Embora as dificuldades de transmissão mecânica não tenham sido a única causa do sistema fabril, elas contribuíram significativamente para a concentração industrial, o crescimento urbano e o despovoamento rural.

21. A possibilidade de incorporar vários motores pequenos a uma única máquina simplificou a construção industrial e deslocou parte da invenção da engenhosidade dos mecanismos físicos para o cálculo matemático das conexões elétricas, substituindo progressivamente o inventor de articulações mecânicas pelo projetista de circuitos.

22. Quando começou a ser difundido industrialmente no último quarto do século XIX, o motor elétrico foi inicialmente concebido apenas como novo meio de executar técnicas já existentes, sem que se percebesse de imediato que acabaria produzindo uma concepção inteiramente nova da fábrica.

23. O tubo a vácuo percorreu trajetória semelhante, surgindo em um contexto no qual o controle de sistemas de grande potência dependia de numerosos aparelhos separados e frequentemente exigia consumo considerável de energia.

24. A antiga direção de grandes navios mostra a magnitude dos esforços necessários antes do desenvolvimento de sistemas adequados de amplificação de forças, pois mecanismos manuais de emergência podiam exigir simultaneamente o trabalho de cerca de dez homens para manter uma embarcação em sua rota durante uma tempestade.

25. O servomecanismo de direção naval já permitia amplificar mecanicamente o pequeno esforço exercido pelo timoneiro e transformá-lo em força suficiente para movimentar o pesado leme, embora esse princípio ainda não estivesse incorporado em um dispositivo universal capaz de operar eficientemente entre níveis de energia muito diferentes.

26. O tubo a vácuo tornou-se um instrumento particularmente flexível para amplificar pequenos níveis de energia até níveis elevados, derivando historicamente de uma observação experimental de Edison que, excepcionalmente, não foi imediatamente transformada por ele em invenção comercial.

27. A observação de que uma corrente podia ser controlada pela relação entre uma eletrodo positivo e um filamento aquecido conduziu, mediante desenvolvimentos posteriores, à possibilidade de controlar grandes potências por sinais elétricos muito pequenos.

28. O tubo a vácuo transformou a indústria tão profundamente quanto o pequeno motor elétrico porque separou o processo de decisão e controle do nível energético em que se realiza o trabalho material.

29. As consequências mais profundas de uma invenção normalmente só se tornam perceptíveis muito depois de seu aparecimento, como demonstram os impactos posteriormente reconhecidos da aviação sobre as relações internacionais e a dificuldade ainda existente de avaliar plenamente as consequências históricas da energia atômica.

30. O tubo a vácuo também foi inicialmente interpretado apenas como complemento das técnicas existentes de telefonia, sendo durante anos restrito a determinadas partes das redes de comunicação antes que os engenheiros reconhecessem sua função geral como elemento ativo de circuitos.

31. As primeiras aplicações do tubo a vácuo concentraram-se na telefonia de longa distância e na radiotelegrafia, mas logo sua utilização permitiu o desenvolvimento da radiotelefonia e tornou tecnicamente possível a radiodifusão.

32. As potencialidades civilizadoras da radiodifusão não devem ser confundidas com seus usos comerciais posteriores, ainda que uma realização técnica extraordinária tenha sido amplamente submetida à publicidade e ao entretenimento superficial.

33. Embora o tubo a vácuo tenha surgido no campo das comunicações, suas possibilidades industriais permaneceram inicialmente fragmentárias e conceitualmente separadas dessa origem comunicacional.

34. A Segunda Guerra Mundial acelerou decisivamente a integração entre comunicação e controle industrial, sobretudo mediante o desenvolvimento do radar como resposta à necessidade urgente de detectar e combater ataques aéreos contra a Inglaterra.

35. A necessidade de destruir os aviões detectados pelo radar introduziu o problema do controle automático de tiro e exigiu máquinas capazes de calcular rapidamente trajetórias e desempenhar funções comunicacionais anteriormente confiadas a seres humanos.

36. Antes da Segunda Guerra Mundial, o tubo a vácuo começou igualmente a ser combinado diretamente com máquinas de calcular, embora os primeiros grandes projetos de cálculo, como os desenvolvidos por Vannevar Bush, permanecessem fundamentalmente mecânicos e utilizassem discos, engrenagens e eixos para realizar operações e transmitir resultados.

37. A concepção de máquinas de calcular remonta pelo menos a Babbage, cuja visão ultrapassava as possibilidades mecânicas de seu tempo porque extensas cadeias de engrenagens exigiam energia progressivamente maior e sofriam perdas incapazes de alimentar adequadamente as etapas seguintes.

38. A amplificação mecânica permite que a força exercida por um único homem seja suficiente para movimentar cargas de várias toneladas.

39. Bush incorporou amplificadores mecânicos de força ou torque entre os diferentes estágios de suas máquinas de calcular, tornando tecnicamente possível realizar parte da concepção anteriormente imaginada por Babbage.

40. A necessidade de resolver equações diferenciais parciais e manipular numerosas variáveis espaciais em grande velocidade tornou evidente a insuficiência dos processos mecânicos e apontou para computadores eletrônicos capazes de leitura, escrita, apagamento, cálculo, lógica e programação automáticos.

41. Nos primeiros analisadores diferenciais de Bush, os amplificadores mecânicos ainda desempenhavam as principais funções, enquanto a eletricidade servia sobretudo para fornecer energia aos motores, mas essa configuração transitória foi rapidamente substituída por amplificadores elétricos e tubos a vácuo, mais econômicos, flexíveis e facilmente conectáveis.

42. O rápido desenvolvimento dos computadores após a guerra tornou-os muito superiores ao cálculo humano em velocidade e precisão para grandes tarefas, eliminando progressivamente a possibilidade de intervenção humana durante suas operações internas e tornando indispensável a comunicação autônoma entre diferentes componentes da própria máquina.

43. A comunicação interna da máquina exige frequentemente utilizar informações produzidas por operações anteriores, fazendo da retroação um princípio central já presente tanto no regulador centrífugo da máquina a vapor de Watt quanto em sistemas posteriores de servocontrole.

44. No servomecanismo de direção naval, a retroação controla a posição do leme ao transformar pequenas ações do timoneiro em movimentos de grande potência que continuam até que a posição efetiva do dispositivo coincida com a posição comandada.

45. Os mesmos princípios de retroação encontrados em dispositivos mecânicos podem ser implementados por meios elétricos e eletrônicos, destinados a constituir a base dominante dos futuros sistemas de controle.

46. A automação industrial não constitui fenômeno inteiramente novo, pois máquinas já executavam automaticamente tarefas repetitivas, mas a combinação de retroação, eletrônica e uma teoria geral da comunicação tornou possível substituir mecanismos automáticos isolados por uma política sistemática de construção de máquinas automáticas de funções muito variadas.

47. A indústria contemporânea combina ainda os resultados da primeira Revolução Industrial com invenções precursoras da segunda, tornando difícil estabelecer uma fronteira histórica precisa entre ambas, embora o tubo a vácuo pertença potencialmente a uma transformação distinta daquela centrada simplesmente na produção e transmissão de energia.

48. A primeira Revolução Industrial substituiu sobretudo seres humanos e animais enquanto fontes de energia, sem substituir de maneira equivalente as demais funções humanas, tornando economicamente obsoleto o trabalhador que somente dispõe de força física para vender.

49. Uma fábrica de automóveis plenamente automatizada poderia utilizar um computador de alta velocidade como centro lógico de comando da cadeia de montagem, realizando operações matemáticas e comparações lógicas para determinar a sequência das ações industriais.

50. As instruções fornecidas à máquina constituem seu programa, que pode ser inteiramente predeterminado ou permitir modificações decorrentes das próprias contingências encontradas durante o funcionamento.

51. O elevado custo dos primeiros computadores não constitui obstáculo definitivo à sua utilização industrial porque grande parte desse custo decorre da construção de modelos únicos e continuamente redesenhados, enquanto a padronização e a produção em série reduziriam drasticamente os preços.

52. Mesmo uma produção relativamente pequena de computadores completos permitiria fabricação em série de componentes porque memória, unidades lógicas e unidades aritméticas utilizam numerosas peças repetidas, proporcionando economias típicas da produção industrial em massa.

53. A versatilidade dos computadores elimina a necessidade de projetar uma máquina completamente nova para cada tarefa, pois diferentes funções podem ser obtidas principalmente pela alteração dos programas.

54. O computador constitui o centro lógico da fábrica automática, mas precisa receber informações provenientes de dispositivos equivalentes aos órgãos sensoriais dos organismos vivos.

55. Além de sensores, a fábrica automática exige efetores capazes de agir fisicamente sobre o ambiente, incluindo motores, embreagens e dispositivos que reproduzam funções coordenadas semelhantes às da mão e do olho humanos.

56. Quando os sensores registram tanto o estado inicial quanto os resultados das operações anteriores, a fábrica automática pode funcionar mediante retroação e realizar processos de discriminação controlados logicamente pelo computador central.

57. A velocidade de adoção da automação varia segundo a natureza das indústrias, sendo particularmente favorável em processos contínuos, atividades perigosas e operações nas quais erros humanos imprevistos podem produzir consequências graves.

58. A automação da linha de montagem também pode incorporar controle estatístico contínuo de qualidade por amostragem sequencial, permitindo que computadores realizem automaticamente procedimentos anteriormente confiados a técnicos.

59. A automação pode estender-se da produção à contabilidade, à documentação e às tarefas administrativas, permitindo que dados industriais sejam enviados diretamente ao computador e reduzindo o trabalho humano a atividades excepcionais ou de comunicação externa.

60. A Segunda Revolução Industrial ameaça substituir não apenas trabalhadores manuais, mas também trabalhadores administrativos e todos aqueles cujas funções consistem em decisões rotineiras de baixo nível, assim como a primeira Revolução Industrial substituiu amplamente o esforço muscular.

61. A velocidade da introdução industrial dos novos mecanismos dependerá principalmente de condições econômicas e políticas, podendo decorrer gradualmente ao longo de décadas ou acelerar drasticamente em caso de guerra.

62. Em condições de mobilização militar, a fábrica automática poderia atingir maturidade operacional em período comparável ao rápido desenvolvimento do radar e difundir-se amplamente em menos de cinco anos.

63. A consequência econômica mais imediata de uma automação avançada seria a queda definitiva da demanda por trabalhadores destinados a tarefas puramente repetitivas, resultado potencialmente benéfico por eliminar trabalhos extremamente monótonos e ampliar o tempo disponível para o desenvolvimento cultural, embora o lazer assim produzido também possa ser preenchido por formas culturais superficiais semelhantes às predominantes no rádio e no cinema.

64. A introdução inicial e rápida da automação tende, entretanto, a produzir grave período de desorganização social quando as novas capacidades forem exploradas prioritariamente segundo critérios de lucro privado imediato.

65. A indústria tende a adotar maciçamente as novas tecnologias enquanto produzirem lucros imediatos, sem considerar suficientemente seus danos de longo prazo, reproduzindo a lógica pela qual a aplicação militar da energia atômica recebeu prioridade sobre suas possíveis utilizações para substituir recursos energéticos esgotáveis.

66. A máquina automática constitui economicamente o equivalente do trabalho escravo porque qualquer trabalhador que concorra diretamente com ela precisa competir com custos de trabalho extremamente baixos, criando possibilidade de desemprego muito superior ao observado até mesmo na crise de 1929.

67. A Segunda Revolução Industrial possui caráter profundamente ambivalente, podendo libertar a humanidade de trabalhos repetitivos e ampliar o lazer e a vida espiritual, mas também produzir desemprego, desorganização e destruição social caso seja orientada exclusivamente pelo lucro e pela veneração da máquina.