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WIENER, Norbert. GOD AND GOLEM, Inc.

1. A aprendizagem considerada no plano individual ocorre durante a vida particular do organismo, mas existe uma modalidade igualmente importante de aprendizagem filogenética, realizada na história da espécie e fundamentada, em uma de suas formas essenciais, pela teoria darwiniana da seleção natural.

2. A seleção natural fundamenta-se na articulação entre hereditariedade, variação hereditária e sobrevivência diferencial das variações, mediante a qual a diversidade espontaneamente produzida é selecionada segundo sua contribuição para a continuidade da espécie.

3. A sobrevivência e a transformação evolutiva das espécies envolvem processos consideravelmente mais complexos do que o esquema elementar da seleção natural, incluindo variações da própria capacidade de variar e os mecanismos celulares e genéticos responsáveis pela hereditariedade.

4. Por trás da extraordinária complexidade dos processos reprodutivos encontra-se o princípio molecular segundo o qual determinadas estruturas genéticas, em meio apropriado, podem induzir a formação de novas estruturas semelhantes a si mesmas ou ligeiramente modificadas, oferecendo uma forma elementar de compreender a reprodução.

5. A produção de seres humanos à imagem de outros seres humanos estabelece uma analogia com a concepção religiosa da criação do homem à imagem de Deus e permite perguntar se processos semelhantes podem ocorrer nos sistemas não vivos constituídos por máquinas.

6. A possibilidade de reprodução mecânica depende de determinar em que consiste a imagem de uma máquina e se essa imagem pode dirigir um sistema inicialmente indeterminado para produzir uma máquina equivalente ao original ou uma variante capaz, por sua vez, de servir como modelo de novas reproduções.

7. A reprodução de máquinas pode ser demonstrada mediante uma prova de existência que apresenta ao menos um procedimento pelo qual máquinas são capazes de produzir outras máquinas, sem pretender que esse seja o único procedimento possível ou que corresponda ao mecanismo efetivo da reprodução biológica.

8. A investigação de uma máquina capaz de construir outra à sua própria imagem exige distinguir diferentes sentidos de imagem, sobretudo a diferença entre uma representação meramente pictórica e uma imagem operativa capaz de realizar as funções do original.

9. A distinção entre imagem pictórica e imagem operativa pode ser observada na diferença entre a cópia formal de um objeto relativamente simples e a reprodução funcional de estruturas mais complexas, como circuitos elétricos impressos capazes de executar as mesmas operações dos circuitos representados.

10. A reprodução de máquinas deve ser considerada a partir da semelhança operativa, pois uma imagem capaz de exercer as mesmas funções do original constitui uma equivalência mais profunda do que a simples semelhança visual, independentemente de conservar ou não a aparência física do modelo.

11. A máquina pode ser definida não primordialmente como fonte de energia, mas como dispositivo que transforma mensagens de entrada em mensagens de saída, sendo cada mensagem constituída por uma sequência de grandezas que funcionam como sinais.

12. Muitos dos problemas envolvendo máquinas com múltiplas entradas e saídas podem ser aproximados dos problemas mais simples dos transdutores de entrada e saída únicas, aparentemente semelhantes aos problemas clássicos dos circuitos elétricos relativos à impedância, admitância e relação entre tensões.

13. Os conceitos clássicos de impedância, admitância e relação de tensão caracterizam com precisão apenas circuitos lineares, nos quais a combinação das entradas corresponde à combinação das respectivas saídas, permitindo descrever completamente o circuito mediante respostas a oscilações controladas.

14. Nos circuitos não lineares, especialmente aqueles contendo retificadores, limitadores de tensão ou dispositivos semelhantes, uma entrada trigonométrica não constitui teste suficiente porque não produz necessariamente uma saída da mesma forma, sendo a própria linearidade absoluta apenas uma idealização aproximativa.

15. A caracterização de circuitos não lineares pode utilizar uma entrada de natureza estatística denominada efeito de disparo, aplicável também aos circuitos lineares e capaz, em princípio, de servir como conjunto padronizado de estímulos para qualquer transdutor.

16. A mensagem produzida por um transdutor depende simultaneamente da mensagem introduzida e da própria estrutura do transdutor, de modo que, quando a entrada contém quantidade mínima de informação, a organização presente na saída pode ser atribuída predominantemente à própria máquina.

17. A resposta estatística de um transdutor submetido ao efeito de disparo constitui uma imagem operativa capaz de representar seu comportamento diante de qualquer mensagem possível e pode, em princípio, fornecer informação suficiente para reconstruir fisicamente outro transdutor funcionalmente equivalente.

18. A máquina considerada simultaneamente como instrumento material e como mensagem funcional manifesta uma dualidade comparável a outras dualidades da física e aos ciclos biológicos de alternância de gerações, pois a máquina pode produzir uma mensagem e essa mensagem pode, por sua vez, fornecer o princípio para produzir outra máquina.

19. A possibilidade conceitual de transmitir um ser humano por uma linha telegráfica decorre da ideia de representar operacionalmente um organismo por uma mensagem, embora as dificuldades práticas desse processo sejam tão imensas que sua realização possa permanecer impossível durante toda a história humana sem que, por isso, a concepção seja logicamente incoerente.

20. Embora a transmissão e reconstrução de um ser humano permaneçam impraticáveis, o mesmo princípio pode ser efetivamente realizado em máquinas artificiais menos complexas, permitindo que a mensagem correspondente à função de um transdutor seja utilizada para reconstruir uma realização física operacionalmente equivalente.

21. A descrição rigorosa da estrutura operacional escolhida para a máquina reproduzível exige formulação matemática, mas a necessidade de tornar a exposição acessível impõe substituir parcialmente a precisão formal por uma paráfrase conceitual capaz de conservar, tanto quanto possível, o conteúdo essencial da demonstração.

22. A exposição subsequente apresenta inevitavelmente considerável dificuldade técnica e destina-se sobretudo a quem esteja disposto a acompanhar essa complexidade em razão de interesse suficientemente intenso pelo problema.