WIENER, Norbert. GOD AND GOLEM, Inc.
1. Advertida previamente a dificuldade técnica da exposição, a responsabilidade pela leitura das formulações subsequentes passa a caber a quem decide prosseguir apesar de sua complexidade.
2. Máquinas podem ser combinadas por operações análogas à multiplicação por constantes e à adição, tornando possível construir dispositivos compostos cujas saídas correspondam a combinações ponderadas das saídas de transdutores elementares.
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A saída de uma máquina pode ser considerada como um potencial elétrico medido em circuito aberto mediante dispositivos apropriados.
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Potenciômetros e transformadores permitem multiplicar a saída de um transdutor por constantes positivas ou negativas.
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As saídas de vários transdutores submetidos à mesma entrada podem ser somadas mediante sua disposição adequada em série.
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O dispositivo resultante produz uma combinação das respostas de seus componentes segundo coeficientes previamente determinados.
3. As operações de combinação entre máquinas permitem introduzir em sua análise e síntese métodos análogos aos desenvolvimentos polinomiais e às séries, de modo que um repertório adequado de transdutores elementares pode fornecer uma forma padronizada para realizar e duplicar imagens operativas de máquinas.
4. Existe um repertório de máquinas elementares capaz de aproximar, com grau arbitrariamente elevado de precisão adequada, o comportamento de qualquer máquina, cuja formulação matemática envolve produtos de polinômios de Hermite aplicados aos coeficientes de Laguerre correspondentes ao passado da mensagem de entrada.
5. Os dispositivos elementares necessários à construção desse repertório ainda não se apresentam necessariamente como equipamentos completos disponíveis comercialmente, mas podem ser montados segundo especificações precisas a partir de componentes lineares comuns e de multiplicadores capazes de produzir como saída o produto de duas tensões de entrada.
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Resistências, capacitâncias e indutâncias fornecem componentes familiares da aparelhagem linear.
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Multiplicadores de tensão acrescentam a operação não linear necessária à construção dos dispositivos.
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Tais multiplicadores já existem comercialmente, embora seu custo possa ser elevado quando empregados em grande quantidade.
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A questão econômica não compromete a demonstração da possibilidade técnica do procedimento.
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Um dispositivo piezoelétrico desenvolvido no laboratório de Dennis Gabor também permite analisar e sintetizar máquinas arbitrárias mediante procedimento diferente, mas conceitualmente relacionado.
6. Os dispositivos elementares adequados à análise e à síntese de máquinas apresentam simultaneamente as propriedades de completude, normalização e ortogonalidade.
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Formam um conjunto completo porque combinações apropriadas de seus elementos permitem aproximar qualquer máquina.
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Podem ser normalizados para que uma entrada aleatória de intensidade estatística unitária produza uma saída igualmente unitária em sentido estatístico.
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São ortogonais porque, quando dois desses dispositivos recebem a mesma entrada padronizada de efeito de disparo, a média estatística do produto de suas saídas é igual a zero.
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Essas propriedades tornam possível decompor sistematicamente uma máquina complexa em componentes elementares e reconstruí-la a partir deles.
7. A estrutura funcional de uma máquina desconhecida pode ser analisada tratando-a como uma caixa-preta e comparando suas respostas, sob a mesma entrada estatística, com as respostas de máquinas elementares conhecidas representadas como caixas-brancas.
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A caixa-preta realiza uma operação estável cuja estrutura interna permanece inacessível.
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Cada caixa-branca representa um termo possível no desenvolvimento funcional da máquina desconhecida.
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A caixa-preta e a caixa-branca recebem simultaneamente a mesma entrada produzida pelo gerador de efeito de disparo.
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Suas saídas são multiplicadas e a média estatística do produto determina o coeficiente correspondente àquela caixa-branca.
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A repetição desse procedimento para os elementos do repertório permite representar a caixa-preta como combinação ponderada das caixas-brancas.
8. Embora a determinação desses coeficientes pareça exigir o exame de toda a distribuição estatística possível das entradas aleatórias, um teorema da física matemática permite, nas condições satisfeitas pelo efeito de disparo, substituir a média sobre o conjunto estatístico por uma média temporal com probabilidade igual a um.
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A dificuldade inicial decorre da aparente necessidade de considerar todas as possíveis realizações da entrada aleatória.
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Em determinados sistemas, médias sobre distribuições estatísticas podem ser substituídas por médias obtidas ao longo do tempo.
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O efeito de disparo satisfaz rigorosamente as condições necessárias à aplicação desse resultado.
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O coeficiente de cada componente pode assim ser obtido observando a resposta durante um intervalo temporal suficientemente apropriado.
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Embora formulada probabilisticamente, a confiabilidade do procedimento equivale praticamente à certeza.
9. Como médias temporais de potenciais elétricos podem ser obtidas por dispositivos simples e disponíveis, o mesmo sistema técnico pode servir tanto para analisar uma máquina quanto para sintetizar outra de acordo com a análise obtida, realizando assim a reprodução de sua imagem operativa.
10. A transferência do padrão funcional de uma máquina desconhecida para outra máquina inicialmente indeterminada pode ser automatizada, eliminando a necessidade essencial de intervenção humana e produzindo um processo estruturalmente semelhante à reprodução da matéria viva.
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Os resultados da análise podem ser convertidos diretamente em ajustes de potenciômetros, em vez de aparecerem apenas como leituras destinadas a um operador humano.
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Dentro dos limites impostos pelo número de componentes e pela precisão técnica, a caixa-preta transfere por seu próprio funcionamento seu padrão de ação para uma caixa-branca capaz inicialmente de assumir diversas configurações.
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Na reprodução biológica, um substrato molecular igualmente capaz de assumir diversas formas recebe uma configuração específica pela presença de uma estrutura preexistente.
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Tanto na reprodução mecânica quanto na biológica, uma organização previamente existente condiciona a formação de outra organização correspondente.
11. A comparação entre sistemas mecânicos autorreprodutores e organismos vivos encontra resistência na afirmação de que os dois processos seriam inteiramente distintos e que qualquer analogia entre vida e matéria não viva permaneceria necessariamente superficial.
12. A objeção à analogia fundamenta-se na diferença entre a organização funcional relativamente macroscópica das máquinas tradicionais e a estrutura molecular intrinsecamente relevante dos organismos, cuja reprodução ocorre mediante mecanismos de molde determinados pelos ácidos nucleicos.
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Ferro e latão podem desempenhar funções mecânicas sem que sua estrutura química fina determine diretamente essas funções.
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A matéria viva conserva uma organização funcionalmente relevante até o nível molecular.
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Os ácidos nucleicos determinam a disposição das cadeias de aminoácidos.
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A estrutura genética apresenta cadeias complementares que podem separar-se.
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Cada parte separada reúne componentes moleculares capazes de reconstituir a estrutura correspondente ao padrão original.
13. A reprodução biológica difere efetivamente nos detalhes do procedimento mecânico apresentado, mas essa diferença não elimina a possibilidade de paralelos funcionais, sobretudo porque existem diversos métodos possíveis de autorreprodução mecânica e máquinas modernas podem apresentar estruturas materiais cada vez mais estreitamente vinculadas à própria função.
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O método descrito constitui apenas uma das formas possíveis de reprodução de máquinas.
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Procedimentos menos rígidos, como os associados às investigações de Gabor, podem apresentar analogias mais próximas com os processos vitais.
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A matéria viva possui uma microestrutura cuja relevância para função e reprodução supera a das máquinas mecânicas tradicionais.
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Essa diferença pode tornar-se menos acentuada nas máquinas baseadas nos princípios físicos dos dispositivos de estado sólido.
14. As diferenças entre organismos e máquinas não autorizam a exclusão antecipada de analogias, especialmente porque ambos podem envolver conversões entre estruturas espaciais e funcionais e mensagens temporalmente organizadas.
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Os sistemas vivos provavelmente não permanecem propriamente vivos abaixo do nível molecular.
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A descrição da reprodução por simples moldagem molecular não esgota a dinâmica necessária ao processo.
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Deve existir alguma forma de comunicação entre as moléculas genéticas e os componentes disponíveis no meio nutritivo.
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Essa comunicação exige mecanismos dinâmicos capazes de transmitir relações estruturantes.
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Fenômenos de campo de natureza radiativa constituem uma possibilidade compatível com os princípios da física moderna para mediar tais interações.
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Não se justifica, portanto, afirmar categoricamente que reprodução mecânica e reprodução biológica nada possuem em comum.
15. A cautela intelectual não consiste em recusar previamente analogias consideradas ousadas, pois tanto a afirmação de uma semelhança sem evidências suficientes quanto sua rejeição sem demonstração constituem riscos epistemológicos, e a honestidade intelectual exige disposição para considerar possibilidades novas mesmo quando sejam emocionalmente perturbadoras.
16. A inclusão da criação divina, da reprodução dos organismos segundo sua espécie e da possível autorreprodução das máquinas em uma mesma ordem geral de fenômenos provoca resistência semelhante àquela despertada historicamente pela teoria darwiniana, pois a comparação do ser humano com máquinas fere ainda mais profundamente certas formas de orgulho antropocêntrico do que a comparação anteriormente estabelecida com outros animais.
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A evolução e a descendência humana foram recebidas como ameaças à singularidade atribuída ao ser humano.
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A assimilação cultural da proximidade entre seres humanos e outros primatas diminuiu progressivamente parte dessa resistência.
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A comparação entre seres humanos e máquinas permanece emocionalmente mais ofensiva para concepções tradicionais da dignidade humana.
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Novas aproximações desse tipo tendem a receber formas de reprovação comparáveis às antigas condenações associadas à feitiçaria.
17. Para que a hereditariedade mecânica possa fundamentar uma evolução por seleção natural, é necessário que a reprodução das máquinas comporte simultaneamente variação e transmissão hereditária dessas variações, condições que podem ocorrer pelas imperfeições do processo de cópia e pelo uso das próprias cópias como novos arquétipos.
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Variações surgem quando a reprodução do padrão não é absolutamente exata.
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A máquina produzida pode tornar-se modelo para uma nova etapa de reprodução.
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As diferenças surgidas em uma geração podem, portanto, ser transmitidas às seguintes.
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Na primeira etapa de cópia, a réplica pode conservar a imagem operativa sem possuir aparência espacial semelhante ao original.
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Nas etapas subsequentes, quando a cópia já funciona como arquétipo, sua própria estrutura espacial pode ser igualmente preservada.
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A reprodução mecânica passa assim a reunir condições análogas às necessárias para uma genética sujeita à evolução.
18. Uma cópia pode funcionar como novo original em reproduções posteriores, permitindo que as variações introduzidas no processo hereditário sejam conservadas e transmitidas, embora permaneçam sujeitas a novas modificações em cada etapa sucessiva.